Otimismo na prática
Com diferentes estratégias em relação ao público-alvo, à concepção de projetos, à localização e às condições de negociação, incorporadoras e construtoras confirmam o bom momento e movimentam o mercado
As notícias sobre a recuperação do setor da construção civil circulam já há algum tempo. Pouco a pouco, os indícios de que esse mercado está prestes a retomar sua melhor forma foram se confirmando. A economia nacional passou a operar com inflação controlada e taxa de juros baixa. O Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer em torno de 0,8% em 2019, com projeções entre 2% e 2,1% para 2020. As estatísticas demográficas mostram que a população vem aumentando e que o déficit habitacional no país continua significativo. Soma-se a esse cenário uma alta demanda por imóveis que foi reprimida nos últimos três anos, reflexo das incertezas políticas, da falta de confiança e da crise financeira que se instaurou no país. “É de se esperar que essa combinação traga ainda mais consumidores para o mercado. A demanda por imóveis é algo contínuo. Essa procura pode ser maior ou menor, dependendo de uma série de elementos, mas ela nunca deixa de existir. Neste último ano, por exemplo, constatamos um aumento no percentual de clientes jovens. A compra do primeiro imóvel tem acontecido cada vez mais cedo”, explica João Marcelo de Andrade Barros, diretor comercial da Habiarte Incorporadora e Construtora, que assina empreendimentos de destaque como o Villas do Parque Condomínio e os complexos Mirante Morro do Ypê e Ilhas do Sul.

Outros sinais que validam o bom momento do ramo são a redução das unidades em estoque, a intensificação de lançamentos e o volume de novos investimentos. Ricardo Telles, presidente da Perplan, comenta que, atualmente, a empresa começa o ano com 50% de estoque, que são consumidos durante o período seguinte. Somente cerca de 12% destes 50%, no entanto, são produtos antigos. A maior parte é de empreendimentos em construção. A construtora também mostra vigor em termos de lançamentos e de investimentos. “A Perplan lançava um, no máximo dois empreendimentos por ano. Já temos cinco em 2019 e devemos ficar entre seis e oito em 2020. Fazendo um balanço deste ano, que ainda não fechamos, devemos crescer, de 2018 para 2019, entre 70% e 80%, considerando todas as praças em que atuamos”, indica Telles. Os lançamentos na cidade incluem o bairro planejado Vivendas da Mata e o Marquises Park Residence, que será erguido junto ao Über Parque Sul Roberto Francói. Mais um lançamento de incorporação e um loteamento estão no planejamento para os próximos meses.

Contribuindo para consolidar esse cenário positivo, a Bild Desenvolvimento Imobiliário realizou dois lançamentos em 2019: o edifício Perspective, no Jardim Olhos D’Água, e o edifício Solo, no Quinta da Primavera. “Vivemos um ciclo promissor, tanto em termos de novos projetos, quanto na propensão à compra por parte dos consumidores. Programamos mais dois lançamentos no Olhos D’Água, prezando pela inovação, por plantas otimizadas e áreas comuns completas, entregues equipadas e decoradas. Vetores de expansão como esses dois bairros, além da região do Golf e da Villa do Ipê, continuarão recebendo lançamentos da Bild, com vários tamanhos de apartamentos, contemplando diferentes perfis de clientes. Ribeirão Preto tem e terá, por muito tempo, bastante espaço para crescer. Apostamos na prosperidade da cidade e contamos com isso para seguir desenvolvendo nosso trabalho de forma consistente nos próximos anos”, declara o diretor executivo da empresa, Matheus Lauand.

Esse sentimento de otimismo é compartilhado pela MRV. A empresa também vem viabilizando uma série de iniciativas de olho no futuro. “Em 2018, investimos em Ribeirão Preto cerca de R$ 18 milhões em infraestrutura nos entornos dos empreendimentos. Em 2019, a estimativa é que esse montante ultrapasse os R$ 30 milhões em obras de urbanização, com abertura de ruas, construção de redes de água e esgoto, plantio de áreas verdes e a criação de bairros planejados. Concluiremos dois produtos este ano, totalizando 1.552 unidades habitacionais, e apresentaremos três lançamentos até dezembro. Empregamos, ainda, um vasto capital na aquisição de novos terrenos para nossos próximos projetos”, afirma Breno Mendes Vilela, diretor comercial da MRV Engenharia. Entre as obras em andamento, estão o Reserva Macaúba, Residencial Prata, Palácio de Windsor e Remanso do Lago.

Adaptados à nova realidade
A postura mais ativa por parte das empresas foi essencial para reaquecer o mercado. Cada construtora traçou sua própria estratégia. A da Pereira Alvim, neste momento, é resgatar o cliente que já esteve na empresa em busca de um empreendimento, mas que não chegou a fechar negócio por falta de confiança no mercado. “Diante do cenário atual, conseguimos oferecer condições realmente melhores para se comprar um imóvel, com a segurança de estar dentro do orçamento do cliente. Inclusive, participamos, recentemente, de um tradicional feirão de imóveis da cidade, onde alcançamos um resultado acima das expectativas com a comercialização do residencial Alto do Vale. Isso nos mostra que estamos no caminho certo”, comemora Julio Di Madeo, gerente comercial e de marketing da Pereira Alvim.

A Copema também encontrou uma fórmula para driblar os recentes tropeços da economia brasileira. “Nós mantivemos o requinte e o alto padrão característicos dos nossos produtos, mas os adaptamos à nova realidade dos grandes centros urbanos, que pede funcionalidade e otimização dos espaços. Oferecemos empreendimentos mais compactos e inteligentes, com área relativamente menor do que o mesmo imóvel teria alguns anos atrás, sem abrir mão do luxo e da sofisticação. Investimos, ainda, em soluções inovadoras, como espaços flexíveis e multiuso”, revela Augusto Collaço, diretor comercial da Copema. Os dois últimos lançamentos, Le Monde e Domaine, seguem esse modelo e foram muito bem recebidos pelo mercado. Segundo o executivo, os mesmos conceitos estão presentes no Île Verte, mais recente lançamento da construtora.

A Stéfani Nogueira Urbanização, Incorporação e Construção, por sua vez, foca na diversificação do portfólio, modificando a paisagem urbana com edifícios, condomínios horizontais, obras comercias e loteamentos. “Nossos pilares permanecem intactos. Trabalhamos para proporcionar, por meio de cada empreendimento, uma experiência em bem-estar e qualidade de vida, sempre respeitando o meio ambiente e os prazos de entrega. Seguimos atentos ao desejo do consumidor e ao movimento do mercado de Ribeirão Preto, em busca de oportunidades para desenvolvermos projetos com localização privilegiada, tecnologia de ponta, alto valor agregado e possibilidades exclusivas de negociação, incluindo a opção de financiamento direto com a construtora”, destaca Luciano Marco, diretor comercial e marketing da Stéfani Nogueira. A empresa colhe os frutos desse posicionamento com o Le Nôtre, primeiro empreendimento entregue na nova área de expansão da cidade, o Jardim Olhos D’Água, e prepara uma novidade no Jardim Botânico, que será divulgado nos próximos meses.

Área de atuação ampliada
Algumas empresas promoveram mudanças mais expressivas para se reinventar, como a Vitta Residencial Construtora e Incorporadora, que ampliou sua linha de produtos com o Una Caramuru. “Em quase dez anos de história, construímos um portfólio com mais de 15 mil unidades lançadas — em Ribeirão Preto e em outras cidades da nossa área de atuação — integradas aos programas do Governo Federal Minha Casa, Minha Vida. Continuaremos com ações nesse segmento em que nos tornamos referência, mas adotamos uma postura de crescimento e decidimos expandir a abrangência da empresa ao identificarmos, em pesquisas junto ao mercado, um nicho pouco atendido nos últimos anos”, ressalta João Moreira, diretor regional da Vitta.

Esse público é formado por clientes com renda em torno de R$ 3.500 a R$ 7.000 e que conseguem comprar produtos com média de valor entre R$ 160.000 e R$ 300.000. “Aproveitamos a oportunidade e desenvolvemos um empreendimento sob medida para que esses clientes possam realizar o sonho da moradia própria. Não há qualquer produto hoje, em Ribeirão Preto, nessa faixa de preço, tão bem localizado e com tantas opções de lazer e de tipologias. O retorno tem sido bastante positivo”, acrescenta. O residencial tem como principais diferenciais as varandas, as plantas com suíte e a opção de unidades com jardim privativo. Há, ainda, previsão de mais lançamentos para este ano. Somando todas as praças, a estimativa de faturamento é de R$ 500 milhões.
Reforço no atendimento
Historicamente, a construção civil mantém uma relação bem próxima com os possíveis consumidores. Afinal, são os anseios e as demandas deles que ditam as tendências do setor. Porém, a importância desse contato ficou ainda mais evidente após a crise. “Priorizamos o atendimento humanizado. Esse é um valor da empresa. Na Pacaembu, investimos em treinamento dos colaboradores e em ações de marketing para estabelecer esse canal de comunicação entre o cliente e a construtora, criando um relacionamento forte e transparente. Entendemos que a venda é uma consequência disso. Por meio dessas iniciativas, procuramos demostrar os benefícios dos produtos, o engajamento da equipe e a responsabilidade da construtora em edificar bairros planejados com qualidade e infraestrutura completa, aliada à realização do sonho da casa própria”, pontua o diretor comercial da Pacaembu Construtora, Fred Escobar.

Crédito imobiliário
As instituições bancárias também desempenham um papel importante no reaquecimento desse mercado, já que, depois de um período com regras mais rígidas, hoje ampliaram as linhas de crédito e oferecem facilidades, tanto para a produção das empresas quanto para financiamentos para o mutuário final. Há opções variadas em relação ao parcelamento, à forma de captação do recurso, às taxas de juros e aos prazos dos pagamentos. Em junho, a CAIXA, por exemplo, anunciou a redução de até 1,25 pontos percentuais (p.p.) nas taxas de juros para operações pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e divulgou novas alternativas para renegociação de contratos habitacionais para pessoa física.
A taxa mínima para imóveis residenciais enquadrados no Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e no Sistema Financeiro Imobiliário (SFI) é de 8,5% ao ano (a.a.) e a máxima de 9,75% a.a. Recentemente, outra linha, com atualização do saldo devedor pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), entrou em vigor. Nessa modalidade, a taxa mínima para imóveis residenciais enquadrados nos SFH e SFI é de IPCA+2,95% (a.a.) e a taxa máxima é de IPCA+4,95% a.a. Os contratos com atualização pelo indexador IPCA têm as seguintes condições: prazo máximo de até 360 meses e quota máxima de financiamento de até 80%.
Opção de investimento
Mesmo diante da multiplicação de produtos financeiros disponíveis, os imóveis continuam como uma das formas mais tradicionais de investimento no país. O baixo risco — já que tem base em ativos reais —, o potencial de valorização para revenda e a geração de renda por meio da locação estão entre os principais atrativos. Para que a aplicação traga a rentabilidade esperada, a atenção com alguns detalhes na escolha do empreendimento, como a solidez da empresa à frente do projeto, a localização estratégica, a infraestrutura oferecida, a funcionalidade da planta e a qualidade dos acabamentos, é essencial.
A arquiteta e designer de interiores Melissa Matara levou tudo isso em consideração antes de adquirir uma unidade do Fiusa One, da Hugo Engenharia. Além de ter como endereço um dos pontos mais famosos da cidade, o cruzamento das avenidas Professor João Fiusa e Presidente Vargas, o residencial inova ao propor um conceito de moradia que alia alto padrão a metragens reduzidas, de 49,37 m² a 59,89 m². “É um projeto diferenciado, que oferece apartamentos compactos — ideais para o estilo de vida contemporâneo — com tecnologia construtiva de ponta, espaços de convivência, diversos itens de lazer, segurança, muito conforto e comodidades em uma área nobre. Acredito no sucesso desse formato, inclusive para aluguéis de curta temporada por aplicativos como o Airbnb, modalidade que vem conquistando cada dia mais adeptos. Estou satisfeita porque tenho certeza de que fiz um ótimo investimento”, afirma Melissa.

Contexto macroeconômico
Um imóvel é um bem material de valor expressivo, que costuma comprometer boa parte da renda por um tempo prolongado. Portanto, antes de fechar negócio, o possível comprador deve racionalizar e ponderar algumas questões para tomar uma decisão consciente e segura. Entre os principais pontos a serem levados em consideração, está o andamento da economia do país. “Se focarmos apenas no setor, há realmente uma série de atrativos. Os preços seguem controlados, consequência da crise dos últimos anos e do volume de unidades novas em estoque. As condições para financiamento também são oportunas, com as taxas de juros no menor patamar da história do país — a taxa Selic está em 5,5% ao ano — e inflação baixa (a inflação acumulada em 12 meses ficou em 3,43% em agosto), sem perspectiva de grandes mudanças a curto e médio prazos. No entanto, em uma visão mais abrangente, outros aspectos merecem atenção e demandam uma certa cautela, como a taxa de desemprego ainda elevada e a queda da renda familiar. É fundamental que aqueles que desejam comprar um imóvel analisem esses fatores de risco para evitar problemas no futuro”, alerta Gabriel Couto, economista da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP).

Representatividade do setor
Casa de grandes construtoras, reconhecidas pela capacidade técnica, pela visão inovadora e pela excelência nos serviços, a cidade acabou se transformando em uma referência de qualidade arquitetônica e urbanística. Ao englobar uma ampla cadeia produtiva, gerando empregos diretos e indiretos, renda, investimentos e arrecadação de impostos, a indústria da construção civil é uma das mais representativas para a economia local. Essa pujança incentivou a criação da Associação das Incorporadoras, Loteadoras e Construtoras de Ribeirão Preto (Assilcon-RP), entidade que reúne, atualmente, quase 30 empresas do setor. “Nosso objetivo é trabalhar em conjunto com os poderes públicos no intuito de simplificar procedimentos e proporcionar segurança jurídica nos processos e nas ações dos agentes envolvidos nos licenciamentos, além de atuar nas revisões legislativas de modo a ordenar melhor o arcabouço legal estabelecido, permitindo, assim, resultados mais efetivos para todos”, explica o engenheiro José Batista Ferreira, presidente da Assilcon-RP e diretor regional do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP).
