Paixão e oportunidade

Saiba mais sobre o mercado das artes em Ribeirão Preto, suas perspectivas e limitações

"É o registro da passagem do homem pela vida, é o álbum de fotografia da humanidade”. É com essas palavras que o colecionador e diretor do Instituto Figueiredo Ferraz, João Carlos Figueiredo Ferraz, define a arte. Para ele, pelas mãos dos artistas, a própria história se conta: a arte evidencia o estilo estético, os costumes, os personagens, os fatos, o modo de vida, as inspirações, os desejos em cada tela, foto, música, livro, dança, filme ou escultura concluída. Apesar de transmitir um conhecimento que deveria ser universal, para a grande maioria ela permanece inacessível, um verdadeiro mistério, uma barreira que galeristas e artistas lutam para transpor.

Mais do que uma forma de expressão que faz o coração disparar, uma obra de arte de qualidade é também uma moeda forte, que cada vez mais tem chamado a atenção de investidores. Em Ribeirão Preto não são muitas as galerias, mas, devido ao desempenho de alguns empreendedores, ao trabalho sério realizado pelo Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), a artistas renomados e à paixão de alguns colecionadores, o município começa a ganhar destaque no cenário artístico.

O fato vai ao encontro do que tem ocorrido no país, que também está conquistando maior espaço no mercado internacional. “O mercado brasileiro era desinteressante. Com a crise dos EUA e da Europa, começou a atrair as galerias de fora porque o poder de compra dos brasileiros passou a ser maior. Hoje, há uma enorme quantidade de pessoas interessadas em arte pelo aspecto cultural, pelo prazer estético ou para investimento”, explica João Carlos.

O colecionador explica que, com a redução dos juros, a remuneração de uma aplicação financeira é baixa, quando não é de risco, e as pessoas passaram a vislumbrar na arte a possibilidade de fazer um investimento seguro, o que tem causado mudanças reais no mercado, que, entretanto, pode se tornar arriscado se alguns cuidados não forem observados. “Há artistas mais promissores — os que têm carreiras mais consistentes, com trabalhos mais importantes, que já participaram de várias exposições. É preciso conhecer o mínimo da carreira desses artistas e do setor para fazer um investimento seguro”, ressalta, acrescentando que quem não tem esse conhecimento precisa se aproximar de boas galerias, capazes de indicar os artistas mais confiáveis, ler sobre arte, conversar com críticos e com pessoas que conhecem o mercado.

Em Ribeirão Preto, segundo o diretor do Instituto, ainda é preciso vencer uma importante barreira: não é possível gostar do que não se conhece, nem admirar o que nunca foi visto. “A cidade sempre ofereceu pouquíssimas oportunidades para a aproximação com a boa arte. Temos o MARP, que faz um bom trabalho, mas é limitado pelas próprias condições do Museu. Não se pode exigir do público de Ribeirão Preto um gosto e uma admiração especial por algo que somente agora passaram a conhecer”, afirma.

O Instituto Figueiredo Ferraz, segundo João Carlos, constitui-se um importante elo entre a arte e a comunidade, já que mantém permanentemente uma coleção do estilo contemporâneo que se nivela em qualidade com as melhores do país, além das mostras temporárias representativas, como a do acervo de fotos modernistas do Itaú Cultural e das esculturas de Amilcar de Castro, mostradas pela primeira vez em uma instituição brasileira. As palestras e os cursos ministrados no auditório também contribuem para ampliar a cultura ribeirãopretana acerca da temática.

Como galerista, Marcelo Guarnieri percebe mudança no perfil do consumidor da arte. “A colocação da arte como investimento mudou em parte o perfil dos consumidores. Antes, as pessoas compravam arte pelo prazer e, hoje, uma parte considerável dos consumidores vê na arte uma possibilidade de investir”, avalia o especialista. O empresário enfatiza, ainda, que o mercado brasileiro é responsável, atualmente, por pouco menos de 1% das negociações de arte realizadas em âmbito mundial. Dessa porcentagem, mais de 90% das negociações se estabelecem entre Rio de Janeiro e São Paulo. “A união do setor, através de associações de galerias, feiras e iniciativas semelhantes, é a única possibilidade que temos de avançar dentro do comércio mundial de arte”, assegura.

Para o galerista, há artistas interessantes em Ribeirão Preto e uma perspectiva de crescimento no mercado da arte. “Só não podemos atropelar os acontecimentos acreditando que tudo que se produz deve ter peso de ouro. Nosso mercado ainda é embrionário e temos que tomar extremo cuidado para que ele seja edificado em bases solidas”, avalia. A internet colabora para o seu crescimento, propiciando a troca de informações.

Para se ter uma ideia de quanto o ribeirãopretano está excluído, ainda, do mercado de arte, a maioria absoluta dos consumidores da Galeria Marcelo Guarnieri é de outras cidades e estados. “Profissionais de arquitetura e decoração deveriam se inteirar mais sobre o assunto. É incrível a falta de conhecimento e de interesse, e a confusão que se faz entre molduraria e galeria de arte ou entre arte e decoração. Se a galeria dependesse exclusivamente do consumo local, teria fechado as portas há muito tempo”, destaca Marcelo.

O diretor do Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), Nilton Campos, ressalta que a contribuição do Museu para o destaque cada vez maior de Ribeirão Preto no circuito brasileiro de arte se deve a sua dinâmica. “Temos uma boa seleção de artistas, com júri competente e sério, e uma programação permanente de qualidade. Isso tem mudado o perfil do museu nos últimos 10 anos. Hoje, sentimos uma diferença enorme, principalmente fora de Ribeirão Preto”, acrescenta. O indicador dessa boa atuação, conforme Nilton, é a quantidade de artistas que procuram o MARP para melhorar o currículo.

A maior dificuldade enfrentada pelo Museu é a financeira. Por lei, é obrigatória a realização anual dos projetos oficiais — o Salão de Arte de Ribeirão Preto (SARP) e o Salão acadêmico (SABARTE). Entretanto, as verbas disponíveis para os projetos são insuficientes. “Dentro dos recursos que temos, conseguimos manter os salões em todas as edições. O MARP resgatou, inclusive, o Salão de Humor, que teve algumas edições suspensas, apesar de ser um projeto do MIS”, afirma do diretor. O Museu ainda participa como parceiro, fornecendo infraestrutura a projetos especiais em visita a Ribeirão Preto, totalmente financiados.

À frente do MARP há 11 anos, Nilton trabalha para melhorar a situação do Museu, através de investimentos da Prefeitura. “Não é fácil aumentar a verba de um ano para o outro, a tendência é diminuir. Manter já está sendo muito bom e a programação do MARP é dinâmica. Isso chama a atenção dos artistas de fora e das instituições brasileiras que querem ser parceiras do Museu”, afirma.

Apesar dos esforços conjuntos das instituições para incrementar o mercado e tornar o município parte integrante do circuito brasileiro de arte, Nilton acredita que há muito a ser feito. A cidade começa a se destacar como referência em arte pelo desempenho do Museu e pelo Instituto Figueiredo Ferraz, que deve favorecer o turismo no município, mas a atuação desses dois espaços e a perspectiva do funcionamento efetivo do Instituto Odila Mestrinér devem alavancar Ribeirão Preto neste segmento.

Segundo o artista plástico Dante Velloni, a dificuldade para atrair o consumidor ribeirãopretano ocorre devido ao fato de muitas pessoas terem conquistado a ascensão socioeconômica sem a mesma ascensão cultural. São pessoas que poderiam consumir obras originais, mas dão preferência a reproduções, clones e obras falsificadas. “Possivelmente, não frequentam os meios culturais para perceber que podem adquirir obras originais, de artistas relevantes. Para uma cidade com o PIB ribeirãopretano, o consumo de arte é ínfimo. As pessoas buscam status em automóveis ou apartamentos, mas não se preocupam em ter uma obra de qualidade em sua parede”, sugere o artista.

Dante acrescenta, ainda, que as tentativas de democratização da arte acabam tendo um caráter popularesco. “Se você fizer uma literatura de ponta e a expuser na esquina, grande parte do público não a consumirá porque não tem repertório. É preciso ampliar o conhecimento artístico cultural da população, seja para consumo, seja para apreciação”, afirma. O artista sugere o fortalecimento do MARP através de uma campanha de doação e aquisição de obras de arte. “Uma senhora daqui doou uma obra de Portinari para o Museu do Rio de Janeiro, onde se tornou apenas mais uma. Por que não doar para Ribeirão Preto? Teria fortalecido a coleção local”, enfatiza.

Segundo o artista, em termos simbólicos, o público não busca um refinamento humanístico e cultural, não absorve fatos e eventos estéticos, por falta de repertório. Em termos mercadológicos, falta a compreensão de que a arte pode ser um investimento com uma série de vantagens fiscais. E que, apesar de haver um consumo no mercado de arte bem maior do que se imagina, muitos preferem comprar nos grandes centros, pela busca de sigilo no negócio. Assim, a cidade ainda não comporta a sobrevivência dos artistas pela própria arte. Dante, por exemplo, tem seu trabalho muito mais difundido e reconhecido na Itália do que em Ribeirão Preto. “Tolstoi diz que o artista precisa falar de sua aldeia, mas, às vezes, o artista local só encontra voz em outras aldeias”, finaliza o artista.

 Texto: Carla Mimessi | Fotos: Júlio Sian e Carolina Alves | Arte: Marcelo Mantovani

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