Paixão pelas letras

Paixão pelas letras

Fatu Antunes conta como se enveredou pelo caminho dos livros


Há três anos, a professora Maris Ester Souza assumiu a sala de leitura da Escola Estadual Jardim Diva Tarlá  de Carvalho, no bairro Ribeirão Verde. Além de ministrar aulas de Língua Portuguesa, é presidente da Casa do Poeta e do Escritor de Ribeirão Preto. Sempre ligada aos acontecimentos que permeiam o universo das letras, acompanha, atenta, o trabalho desenvolvido por Fatu Antunes, devido à sua atuação na Feira Nacional do Livro, na Oficina Cultural Candido Portinari e na Biblioteca Padre Euclides. Em um encontro promovido pela revista Revide, justamente na Biblioteca, envolta por livros, a professora sabatina Fatu, que conta sua história e de sua luta pela difusão e democratização da leitura, um devaneio cultural acompanhado de perto pela jornalista Carla Mimessi.

Maris Ester: Como  o amor pelos livros entrou em sua vida?
Fatu: Por sorte, venho de uma família de leitores. Em casa, todos gostavam de ler e, quando criança, qualquer presente sempre tinha um livro incluído. Isso me transformou em uma leitora bastante curiosa.

Maris Ester: Que livros marcaram sua infância?
Fatu: Foram tantos... Ainda muito novinha comecei a ganhar clássicos da literatura portuguesa e, um pouco mais tarde, lembro do encantamento pela coleção de Dickens que ganhei num Natal. Mas um livro me marcou pelo inusitado: num tempo em que o diálogo com os pais era difícil, sobretudo sobre sexualidade, fui surpreendida, aos 10 anos, com “Problemas da Adolescência” que, na visão deles, os isentaria de futuros diálogos incômodos.

Maris Ester: Quando você optou pelo Brasil?
Fatu: Por questões familiares, vim para o Brasil, pela primeira vez, aos cinco anos, para o Rio de Janeiro, onde fiz o primário. Voltei para Cabo Verde, cursei o Liceu, fiz faculdade em Portugal e terminei bem na época da Revolução dos Cravos, que viria a culminar na independência das então colônias na África. Precisava de um campo neutro para refletir e reconstruir a minha identidade cabo-verdiana. Foi quando resolvi voltar ao Rio de Janeiro, onde tinha referências e certa relação afetiva, para esse tempo de reflexão. Acabei ficando até hoje.

Maris Ester: Você é poliglota?
Fatu: Não ousaria me definir como tal. Além do português, claro, domino o francês e o inglês, pela minha formação, e o crioulo cabo-verdiano, que é minha língua natal.

Maris Ester: Como você vê a produção literária em Ribeirão Preto hoje? Mudou alguma coisa desde quando você chegou aqui?
Fatu: Ribeirão Preto sempre teve uma profusão de escritores. Agora percebo a chegada de uma nova safra de jovens bem interessantes, com uma narrativa peculiar, e isso é bom.

Maris Ester: Como é, para você, viver em Ribeirão Preto?
Fatu: Minha passagem por  Ribeirão Preto vai ficar marcada de uma forma muito especial, já que aqui pude desenvolver e exercer plenamente o ofício que sempre me encantou. Durante muito tempo, trabalhei na área corporativa e, paralelamente, mas num plano secundário,  fazia produção cultural. Foi aqui, portanto, que encontrei um campo fértil para me dedicar somente à área cultural. No entanto, se por um lado Ribeirão Preto é uma cidade que acolhe, também pode provocar certo isolamento para quem vem de fora. Explico: a sensação que tenho — e essa é uma visão muito particular, que fique claro — é que Ribeirão está dividida em  grupos e as pessoas, necessariamente, têm que se  identificar com algum. Já eu gosto de transitar com autonomia e, pela liberdade de trânsito, paga-se um preço.

Maris Ester: Literatura brasileira, africana, portuguesa: que convergências e divergências poderiam ser traçadas entre essas três vertentes?
Fatu: Não sou especialista em nenhuma das três, mas acredito que tanto as convergências quanto as divergências passam pelo processo histórico. Talvez possa salientar a relação da literatura do meu país, Cabo Verde, com a literatura brasileira. A literatura cabo-verdiana, em algum momento, teve forte influência da literatura brasileira: cito como exemplo a relação com o modernismo brasileiro, com destaque para a poesia de Manuel Bandeira; a influência da estética regionalista de escritores como Jorge Amado, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos; a poética da oralidade dos dois países, apenas mencionando alguns exemplos.

Maris Ester: Que frutos podem ser colhidos do encontro de escritores africanos de língua portuguesa que você promoveu durante a Feira do Livro?
Fatu: Era um sonho antigo dar início a essa troca. Apesar dessas literaturas serem estudadas nas universidades brasileiras há cerca de 30 anos, até hoje  são pouco conhecidas do grande público. Existem pouquíssimos autores africanos de língua portuguesa consumidos no Brasil: o moçambicano Mia Couto, os angolanos Agualusa  e  Ondjaki são os que se destacam, apesar dos países terem uma produção literária  muito rica. Essa é a minha motivação, principalmente na literatura, mas também em relação às outras artes. Sinto mais conforto e tenho um campo mais fértil para trabalhar com a literatura porque, desde o início, em 2009, conto com a importante parceria do Instituto do Livro e porque hoje trabalho numa entidade — a OC Candido Portinari — que me dá estrutura para desenvolver esse trabalho. A Fundação Feira do Livro também apoiou, este ano, abrindo espaço na 14ª edição da Feira. Há também outro fator importante que me motiva: quando os escritores africanos vêm ao Brasil, a tendência é fazer apenas o circuito das grandes capitais, mas o interior do Estado de São Paulo é um nicho muito importante a ser explorado. Tenho percebido uma resposta bastante positiva na região.  A intenção de projetos como o “Lendo África” é, modestamente, trazer essas literaturas para o grande público e sair um pouco do campo acadêmico.


Maris Ester: Que balanço faz da Feira do Livro desde o início até os dias de hoje?
Fatu: A minha história profissional com Ribeirão Preto está diretamente ligada à Feira do Livro. Comecei como coordenadora da programação cultural do evento em 2002 e fiquei até 2004. A Feira cresceu e seu formato mudou ao longo dos anos, o que é um processo natural. No início, era só na Esplanada; no ano seguinte, abrangeu as duas praças e, hoje, apropria-se de vários espaços culturais que Ribeirão Preto oferece. Mesmo depois de 2004, não parei de colaborar com o evento, dentro do possível e do que me é permitido. No que se refere à programação, houve também várias mudanças, o que é um processo natural e positivo, mas confesso que sinto falta do protagonismo da literatura na programação.

Maris Ester: Você acompanhou o projeto de implantação das bibliotecas municipais em escolas, centros sociais e associações de bairro. Tem ideia de como esse projeto está hoje?
Fatu: O projeto fazia parte do “Ribeirão das Letras”, que tinha como objetivos principais a instalação das salas de leitura e a realização da Feira do Livro, além de uma série de outros projetos satélites que davam suporte a esses principais. A informação que me chegou  é  a de que a maior parte dessas salas de leitura foram fechadas e muito poucas continuam. Já o Programa “Ribeirão das Letras”, com as mudanças de gestão, acabou esvaziado, o que é uma pena porque era um projeto bem interessante. Desses projetos satélites, lembro com especial carinho do “Ônibus Biblioteca”, que circulava pelos bairros onde não existiam salas de leitura. Não se tratava apenas de uma sala de leitura itinerante, pois dentro e fora do ônibus também eram realizados projetos de teatro e de música, por exemplo. Mas o fechamento das salas de leitura já era de se esperar, pois quando você tem a estrutura em escolas onde não há professores leitores é complicado. Antes de se pensar em criar as salas de leitura, talvez a preocupação maior devesse ter sido trabalhar professores e educadores para receber o projeto.

Maris Ester: Depois que você assumiu a oficina Candido Portinari e a Biblioteca Padre Euclides, esses espaços passaram a ter maior visibilidade. Que desafios encontrou e quais foram suas maiores realizações?

Fatu: Minha história com a Biblioteca Padre Euclides (BPE) é anterior à Oficina Cultural (OC). Como amante dos livros, em 2002, quando cheguei a Ribeirão Preto, fui apresentada à BPE e me apaixonei, comovida com a história da entidade. Mas havia poucos registros dessa história e resolvi, então, ser voluntária para ajudar no que fosse possível. Apesar de ser recém-chegada, tinha muita vontade de vê-la conhecida e reconhecida. Queria colaborar porque via que os então diretores faziam um esforço enorme para mantê-la, muitas vezes, tirando dinheiro do próprio bolso para que o espaço não fosse fechado. O meu desejo ia além: queria que o espaço fosse o de uma biblioteca viva, onde a produção cultural borbulhasse. Em 2007,  ingressei na Oficina Cultural Candido Portinari, que ocupava duas salas na Casa da Cultura. Este foi outro projeto que também me encantou: em 1990, quando foi inaugurada, era um espaço de ponta, pioneiro pelo que propunha à cidade. Com o passar dos anos e pela localização, acabou ficando acanhado.  Depois de fazer o reconhecimento do papel da OC Candido Portinari em Ribeirão Preto e região, comecei a pensar que, para começar,  talvez o ideal fosse trazê-la de volta ao centro da cidade, para perto de outros patrimônios culturais da cidade, como Theatro Pedro II, Centro Cultural Palace, MARP, Edifício Diederichsen e Biblioteca Altino Arantes.  Isso certamente seria fundamental para  a recuperação do prestígio, da visibilidade e do acesso do público. Acredito que se hoje as duas entidades oferecem à população programação e atendimento consistentes, o  mérito é de toda a equipe que trabalha com dedicação e profissionalismo, e não exclusivamente meu.

Maris Ester: Como surgiu a ideia de trazer o projeto “Oficina Cultural” para o interior da Biblioteca Padre Euclides?
Fatu: Estava difícil encontrar um espaço no centro para transferir a Oficina Cultural, então pensei: são duas entidades extremamente importantes, que hoje fazem parte da minha vida profissional e até afetiva, e cada uma, à sua maneira, com uma dificuldade. A BPE precisava de um meio para se manter; a Oficina Cultural, por sua vez, precisava de espaço físico para ampliar e melhorar a sua atuação. Então, a parceria foi proposta para o Conselho Diretor da BPE e para a POIESIS. Uma vez consumada a parceria, a OC Candido Portinari ganhou em espaço e localização; a BPE ganhou em cuidados e meio de subsistência. Isso não significa que a Padre Euclides tenha solucionado todos os seus problemas. Ainda precisamos de recursos para fazer face à folha de pagamento e à manutenção do acervo, já que, por não ser uma biblioteca pública, a Oficina não pode assumir essas despesas. Portanto, hoje, a luta é para conseguir associados beneméritos que nos apoiem com a folha e o acervo.

Maris Ester: Há quanto tempo está na presidência da Biblioteca Padre Euclides?
Fatu: Desde janeiro deste ano. O paradoxo é que, ao mesmo tempo em que é uma alegria pelo que a instituição representa, é também um sofrimento,  já que trabalhamos sempre com e na precariedade. Mas isso me desafia e me obriga a ser criativa.

Maris Ester: Qual é o significado da Biblioteca Padre Euclides para Ribeirão Preto?
Fatu: A Biblioteca tem 111 anos e sua história está diretamente ligada à história da cidade. Desde que foi fundada, a Biblioteca se adequou às necessidades do município: foi abrigo e hospital nas revoluções; foi sede da Rádio PRA-7, recebeu nomes importantes como Olavo Bilac, Monteiro Lobato, Cassiano Ricardo, Santos Dumont , Menotti Del Picchia, Procópio Ferreira — são os que me ocorrem, entre tantos outros. Essas pessoas não só passaram por aqui, mas tiveram uma participação ativa, seja com uma palestra ou com apresentações para o público. O ribeirãopretano não conhece a BPE, talvez por estar escondida num primeiro andar. É que na década de 60, lamentavelmente, derrubaram o casarão que servia de sede, maravilhoso, com um auditório para mais de mil pessoas e onde acontecia tudo o que era importante em Ribeirão Preto  — de reuniões políticas a grandes eventos culturais — para construir um prédio. E é nesse prédio que a BPE  funciona até hoje.

Maris Ester: A que atribui o fato de ter se tornado uma pessoa querida e respeitada quando o assunto é cultura?
Fatu: Acho que as pessoas começam a entender minha postura profissional e maneira de ser. O ribeirãopretano é cordato e acolhedor, mas, quando cheguei, sei que muita gente me apelidou de ‘sargentona’. Sempre fui direta e objetiva e, às vezes, as pessoas confundem isso com grosseria ou agressividade. Procuro separar bem o pessoal do profissional: se tenho um problema com alguém profissionalmente, chamo para conversar e resolver, o que não me impede de convidar a pessoa para tomar um café depois do expediente. Isso, via de regra, era encarado com um certo estranhamento. Talvez, essa maneira direta de ser também tenha provocado o isolamento sobre o qual falei anteriormente e não me deixou perceber que as coisas aqui devem ser ditas com a doçura da cana da Alta Mogiana.

Maris Ester: Que projetos têm para ao futuro?
Fatu: Dar continuidade ao trabalho que vem sendo feito na Oficina Cultural e a realização de um sonho que está próximo de ser trazido para o concreto: a criação do Centro de Memória da Biblioteca Padre Euclides.

UMA MULHER DE GARRA

“O tempo nos ensina que devemos admirar uma pessoa não pelo status, mas pelo seu trabalho. Fatu Antunes é uma dessas mulheres que, com o passar dos anos, aprendi a admirar. Sua alma resplandece em tudo o que faz! Seu zelo em difundir a literatura, sua luta pela Biblioteca Padre Euclides, sua exímia coordenação na Oficina Cultural Candido Portinari e sua parceria com a Fundação Feira do Livro são exemplos da garra e da determinação empenhados no compromisso com o fazer, e o fazer bem feito.”
Maris Ester A. Souza, professora deLíngua Portuguesa 

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