Paixão que não se explica
Camiseta

Paixão que não se explica

Os torcedores acompanham a trajetória do Comercial, há 24 anos, e do Botafogo, há 38 anos

Colecionadores de recortes, pôsteres, acessórios e camisas dos times Comercial e Botafogo, David Borges Isaac, 26 anos e Luiz Carlos Sumele, 52 anos, contam histórias do que já fizeram por amor ao time.
Com um total de aproximadamente 5.900 pôsteres, 2.700 revistas de 40 títulos diferentes, entre elas Placar, Lance e Gazeta Esportiva Ilustrada e 14 mil fotos individuais de jogadores, Luiz Sumele se diz dono de uma das maiores coleções de futebol do Brasil.

Tudo começou em 1970 quando ganhou um pôster do Botafogo de seu pai, que não gostava de futebol, e de lá para cá não parou mais de guardar acessórios dos times. O hobby virou mania e hoje Luiz realiza exposições de seus materiais para ajudar entidades carentes.
“Com o que tenho dá para montar um museu do futebol, igual ao do estádio Pacaembu em São Paulo. Esse é o meu objetivo”, diz.

Do time ribeiraopretano possui 28 pôsteres diferentes, 100 reportagens em revistas e uma camisa com mais de 60 autógrafos com personagens que marcaram a história do Botafogo como Antoninho (o maior artilheiro no futebol de Ribeirão Preto atuando no Botafogo), Baldochi (campeão do mundo), Henrique Sales, Machado (goleiro que levou apenas 11 gols com a camisa do Botafogo, feitos por Pelé no jogo contra o Santos na Vila Belmiro) e Silva (que jogou no Botafogo, no Corinthians, no Flamengo e no Real Madrid).

“Essa camisa é uma relíquia. Já me ofereceram 10 mil reais por ela e não aceitei”, afirma o torcedor.
A torcida pelo Botafogo surgiu por duas razões. Influência do primo Edson e de seu amigo Nininho, que o levou no estádio Santa Cruz, pela primeira vez, em 1972 e pelo time ter as mesmas cores do São Paulo Futebol Clube, time para o qual torce desde 1969.

A paixão pelo Botafogo levou Sumele a passar por muitos apuros como ser suspenso de escolas, levar uns tapas, perder apostas e também namoradas, que deixava de encontrar para ir assistir aos jogos do time.

A partida mais marcante, na opinião do torcedor, foi contra o Santos, na Vila Belmiro, quando o Botafogo venceu por 3 a 2. “Ouvia pelo rádio e a emoção foi tanta que quebrei o aparelho ao final do jogo. Quase apanhei do meu pai”, relembra.

O melhor jogador da história do Botafogo, para Sumele, foi Sócrates. “Ele em campo desequilibrava qualquer partida”. Ainda de acordo com o torcedor, o melhor técnico que já passou pelos gramados do clube foi Jorge Vieira. “Era respeitado pelos jogadores e sabia mudar o esquema do jogo nas horas certas”, garante.

A situação atual do time, que está na quarta divisão do Campeonato Brasiliero e primeira do Paulista, entristece o torcedor que já vivenciou momentos de glória do pantera.
“O  Futebol  mudou  muito. Antes  o  time era  um  celeiro  do  futebol. Com boa  estrutura nas  categorias  de  base  revelou   muitos jogadores, entre eles, Marco  Antonio  Boiadeiro, Paulo Cesar Camassuti, Celso  Cajuru, Toninho Cajuru, Paulo Egidio, Chiquinho, Raí e mais  recentemente,  Bordon, Cicinho, Leandro e Doni. Hoje  o  Botafogo  não  coloca  medo  em  mais  ninguém. Fico  triste  emdizer  isto, mas  é  a  realidade”, afirma.

O torcedor do Comercial, David Borges Isaac, coleciona acessórios do Comercial desde os quatro anos de idade, quando ganhou do avô sua primeira camiseta. Entre os itens estão quadros dos times, relógio e caneca com o símbolo do clube.

Tudo começou num sábado à tarde, quando o avô saia para assistir uma partida pela divisão intermediária, antiga séria A2, e Isaac perguntou se poderia ir junto. Já no estádio, o garoto ganhou de presente sua primeira camiseta do time e, desde então, nunca mais deixou de torcer pelo Comercial.

Entre as muitas histórias que o torcedor tem para contar, a mais recente é de um episódio em que o Comercial deixou de subir de divisão por um gol que o juiz anulou no último minuto que daria o acesso ao clube e, passados três dias, Isaac conseguiu o telefone do “bandeirinha” que anulou o gol e ligou para xingá-lo.

Em 2005, o torcedor prometeu noivar com a ex-namorada se o Comercial passasse da série A2 para série A1.
“Tínhamos um ‘baita’ time mas, no final, sucumbimos. Ela, na última partida, me acompanhou e até vestiu a camiseta do time. Mas o Comercial ficou atrás do Juventus e do Bragantino. Resultado: não fiquei noivo e ela, pelo meu nervosismo na época, nem cogitou tocar no assunto”, conta.

Um dos jogos mais marcantes do Comercial, na opinião do torcedor,  foi em 1993, quando a torcida invadiu o campo, antes do término do jogo, porque o clube subiu de divisão jogando contra a Francana. Outra partida de destaque  foi contra o Botafogo, em 1995, quando o time venceu o duelo comefogo por 3 a 0. “O goleiro defendeu um pênalti nos instantes finais, mesmo assim, meu avô saiu irritado de campo, porque o treinador da época, Geninho, mandou o time desacelerar o jogo”, relembra.

Pelo Comercial, segundo Isaac, já passaram muitos jogadores bons, entre eles, o centroavante Rômulo (2004), Éder Luís, jogador do Vasco hoje, Nasa, vice-campeão mundial em 1998 pelo Vasco, Géia (1994), Marcelo Telinha (1993), Buião (1994), Daniel Paulista, revelado pelo Comercial, Edmar, que veio no final de sua carreira integrar o time do bafo e Harley, hoje goleiro do Goiás.

Também passaram pelo clube treinadores de destaque como Wagner Benazzi, Carbone e Nenê Belarmino, mas na história do Comercial, para o torcedor, o melhor jogador foi Carlos César e o melhor técnico Alfredo Sampaio.

Eterno torcedor, Isaac acredita que, apesar dos problemas administrativos, o clube vem reestruturando seu futebol. “Temos uma diretoria absolutamente comprometida com o futuro do alvinegro. Estamos com um dos melhores treinadores do interior, Édson Só, e com um elenco de bons jogadores. Com o tempo, mantendo a estrutura - porque futebol é continuidade -, planejamento e razão, teremos, num curto espaço de tempo, muito sucesso, não tenho a menor dúvida”, afirma.

História dos times

Comercial
Foi criado em 1911, por um grupo de comerciantes que se reuniu com a finalidade de formar um time de futebol em Ribeirão Preto. Foi na casa Valeriano, uma loja de armarinhos localizada onde hoje está instalada a fonte luminosa, que no dia 11 de outubro, pouco depois das 21 horas, nasceu o Commercial Football Club. Mas a data oficial de fundação do clube é no dia anterior, 10 de outubro de 1911. Teve como fundadores os  comerciantes Antonio Maniero, Guilherme Nunes, Francisco Arantes, Adauto de Almeida, Timóteo Grota, Alvino Grota, Argemiro de Oliveira, Djalma Machado e Antídio de Almeida, eleito o primeiro presidente do clube.

Com investimento dos comerciantes de Ribeirão Preto a equipe  do Commercial Football Club logo ganhou destaque e ascensão no futebol da região e o clube caiu no gosto dos "Coronéis do Café", que passaram a apoiar a equipe.

Botafogo
Fundado em 1918, com a união dos três times do bairro Vila Tibério, o clube ganhou esse nome (diz a lenda) porque depois de muita discussão e confusão, sem que se chegasse a  conclusão, um dos diretores declarou que “botaria fogo” em todos os documentos e a fusão das equipes seria desfeita. A ameaça incendiária do dirigente teria ajudado na escolha do nome, que também seria uma homenagem ao Botafogo do Rio de Janeiro que nas primeiras décadas do século era um dos clubes mais famosos do país.

Revide On-line (Colaborador: Ícaro Bernucci)

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