Papel de vítima
Ser protagonista da própria vida parece simples, mas, consciente ou inconscientemente, muitas pessoas preferem reclamar e culpar os outros pelas frustrações, em vez de assumir a responsabilidade por s
Há diferentes modos de ser vítima, em distintas situações e intensidades, mas uma das mais difíceis, cruéis e dolorosas, certamente, é o indivíduo que se torna vítima de si mesmo. Aquele que, muitas vezes sem condições de se dar conta disso, coloca-se em uma posição que não apenas acaba com o prazer de viver, mas, principalmente, furta dele mesmo a possibilidade de usufruir de todo ensinamento que a vida tem a oferecer.
Isso acontece porque a pessoa, simplesmente, não consegue assumir qualquer responsabilidade por seus atos. Ao contrário, escolhe — consciente ou inconscientemente — um padrão de comportamento onde está sempre julgando, criticando e “culpabilizando” Deus e o mundo por tudo o que acontece, sem jamais voltar o olhar para si, dificultando, ou mesmo impossibilitando, o autodesenvolvimento.
Originário do latim, victus e victimia, palavras que simbolizavam a ideia de “dominado” e “vencido”, o termo vítima, atualmente, estende seu sentido à pessoa que sofre resultados frustrantes, maléficos, dolorosos ou infelizes de atitudes de outras pessoas, do acaso ou, ainda, de seus próprios atos. Neste último, a vítima, sem perceber, termina por ser dominada, vencida por si mesma, criando emaranhados de situações que, inconscientemente, sustentam sua permanência neste papel, o da vítima, e, aos poucos, vão corroendo sua capacidade de percepção e sua possibilidade de ação fora deste cenário. Se você nunca parou para refletir sobre isso, talvez seja hora de uma autoanálise. Em alguma área da vida, é possível que se descubra estar atuando neste papel sem perceber.
Segundo o psiquiatra e psicanalista José Cesário Francisco Junior, a origem deste comportamento está na infância e as mães desempenham uma função primordial para contê-lo. “É como se o bebê não pudesse se dar conta de que existem dores, sofrimentos e situações turbulentas dentro de si próprio, atribuindo tudo o que é desconfortável, desagradável ou desprazeroso para ele às queridas mamães”, afirma o psicanalista, alertando que se as mães não tiverem condições de lidar com isso e de promover um acolhimento para a situação, não serão capazes de instalar dentro do bebê uma qualidade para se tornar uma pessoa hábil em lidar com isso.

“Se o mundo — e o mundo, segundo os poetas, é a mãe — diz ao bebê: ‘Seja bem vindo com a tua dor, vou fazer o possível para te ajudar a lidar com ela’, ótimo. Agora, se o desconforto e a pouca tolerância do bebê se soma à não tolerância da mãe, neste caso, está feito o desastre”, pontua Cesário. Para o profissional, as pessoas habituadas a se vitimizar estão o tempo todo dizendo que o mundo as faz infelizes, como se dissessem, delicadamente, que suas mães as deixaram desse jeito.
Este é mais um indício do que uma sentença — afinal, embora a inabilidade de uma mãe explique muitos comportamentos humanos, mas não os justifica —, o papel da mãe no contexto da formação de um vitimizador contumaz também tem outro lado. Afinal, como aponta o psicanalista, a mãe deste bebê pode ser considerada, também, a primeira “vítima” de seu comportamento.
Soa tentador, sem dúvida, atribuir às mães, aos pais, aos avós e aos professores, amigos ou inimigos, a culpa pela dificuldade de lidar com as frustrações e limitações. Essa ação é muito mais fácil do que assumir a responsabilidade pela própria (in)felicidade. Profissionais das mais variadas áreas, como coachs e terapeutas, alertam e trabalham, de diferentes formas, com esta verdadeira tentação.
A visão da Constelação
A Epigenética, juntamente com a abordagem de Constelações Sistêmicas, sugere que se colocar no papel de vítima seja tanto uma doença quanto um comportamento social, em geral, iniciado com um trauma vivenciado pela pessoa ou com um trauma sistêmico (vivenciado por outra pessoa da família).
Segundo a terapeuta e formadora de consteladores, Ana Lucia Braga, o papel de vítima pode ser comportamental, social ou patológico, ligado a um transtorno ou mesmo se tornar um e, também, um traço de personalidade. “Falamos de pessoa ferida de algum modo, violentada, assassinada, torturada, traumatizada. A vítima consegue lidar com a situação traumática sem se beneficiar dela psicologicamente e socialmente. A partir do momento que se utiliza do trauma para a manipulação, para conseguir o que quer, passa a assumir um ‘papel’, ou seja, está atuando. Esse, muitas vezes, é um processo inconsciente e não isenta o indivíduo de sofrimento real. Essa pessoa enxerga a vida como sua inimiga. Aliás, Deus é seu inimigo. O mundo é perigoso. Claro, essa pessoa é uma eterna queixosa”, afirma a consteladora.

As características mais comuns neste perfil de indivíduos são o estresse exagerado, a autopiedade, um sentimento de incapacidade, muitas vezes exagerado e fantasioso, sentimentos de perseguição, de punição, de castigo, de autopunição, de culpa, de reclamações e lamentações.
Segundo Franz Ruppert, constelador alemão que trabalha com vítimas e agressores, o trauma é uma parte desagregada que tem a ver com “ser” ou “não ser” — ser livre ou ficar preso, viver ou morrer. Na verdade, a pessoa não tem consciência daquilo que é realmente importante em relação ao trauma, tem sempre um medo de lidar com a realidade, como se os fatos fossem demais para ela.
A maior parte dos traumas psicológicos ocorre na primeira fase da vida da criança. Antes dos três anos, são mais poderosos e podem gerar uma vulnerabilidade para episódios futuros. “Em geral, no trauma, seja um abuso sexual, um assalto, um grave acidente ou mesmo em função de uma mãe traumatizada e não disponível para o bebê, perde-se a capacidade de diferenciação, de percepção daquilo que está fora ou dentro do que é passado e futuro. Os comportamentos e sentimentos listados são estratégias de sobrevivência ao trauma que a pessoa desenvolve. Enquanto a parte saudável não faz contato com a traumatizada, não há paz”, explica Ana Lucia.
Vítima e vitimador
Quem se coloca no papel de “pobre de mim” emite mensagens imprecisas de queixa e de arrependimento, procura fazer os outros se sentirem culpados, inverte a situação com muita facilidade, mostrando-se um sofredor. A desconfiança em demasia, que pode chegar ao nível da perseguição, também é característica, além de demonstrar sentimentos de inferioridade, de incapacidade, de passividade, de inércia e de depressão. “É como se o sofrimento se tornasse um hábito. Para alguns, a dor se torna a única possibilidade de sentirem que existem, desenvolvem um apego a esse sentimento, como se ele recompensasse. A pessoa recebe mais atenção, talvez mais cuidados e dedicação, o compadecimento dos outros”, continua.
Outro clássico, segundo a especialista, é o sentimento de “eu sei como isso é” e “já sofri isso”, portanto, tenho um conhecimento, uma posição acima do outro (que não sofreu tudo que eu sofri). Frases e pensamentos como “ninguém me compreende” e “isso só acontece comigo” também são comuns no repertório de quem se vitimiza. “Há uma busca inconsciente da retraumatização, como se a pessoa procurasse situações e pessoas para repetir o trauma, de modo inconsciente”, revela a consteladora.
Um aspecto relevante e bastante sutil desse comportamento é a manipulação. De acordo com Ana, são comuns nas vítimas de carteirinha sentimentos de incapacidade e de negativismo, de que tudo está perdido, de que nada tem solução, de catastrofização, de manipulação, de chantagens, de que são “coitadinhas”. Em última instância, o sentimento de que tem o direito de machucar, de ferir, de se vingar e de traumatizar outras pessoas. “Muitas vezes, quem faz papel de vítima o faz sem dó nem piedade, ou seja, não sente culpa e se considera inocente. Por isso, nas constelações, quando estou diante de vítimas, inclusive de mulheres vitimadas pela violência doméstica, digo que tenho mais medo das vítimas do que dos agressores, pois costumam ser mais cruéis porque se sentem no direito de ser”, analisa a terapeuta, mencionando o trabalho de Robin Norwood, especialmente no livro “Mulheres que amam demais”. A obra trata de mulheres vitimadas que mostram um padrão compulsivo de codependência, ou seja, tão grave quanto a dependência química.
A vítima costuma ser poupada de críticas e ganha atenção e compaixão dos demais. Aliás, questionar as ações de uma suposta vítima pode ser visto como uma atitude um tanto insensível. Com tantas vantagens associadas, acaba ficando difícil abandonar, conscientemente, este ciclo vicioso.
Saindo do papel
Para os especialistas, quando se identifica uma pessoa que age no padrão de vitimização, a melhor forma de ajudar é não entrar no seu jogo, já que se prender às chantagens e lamentos reforça a conduta. Embora seja difícil, ainda mais se tratando de pessoas queridas, como familiares ou amigos, e considerando a cultura, que ensina a sentir compaixão pelos que sofrem, a saída é não ouvir as queixas para não se contagiar com o negativismo. Assim, a pessoa tem alguma chance de ganhar consciência de suas estratégias manipuladoras e mudar de atitude.
Uma alternativa está na História, que reúne nomes como o de Ludwig van Beethovem, músico alemão diagnosticado com perda auditiva. Aos 46 anos, ele estava praticamente surdo, o que não o impediu de se tornar um dos compositores mais respeitados e influentes de todos os tempos.
O escritor John Milton, autor de “Paraíso Perdido”, na opinião de Cesário, está na lista dos “bons exemplos” a serem seguidos, principalmente por quem aprecia ou quem não desconfia que curte fazer o jogo do “pobre de mim”. “Ele ficou cego e, então, adquiriu uma visão diferenciada que o levou a escrever um best seller em que aborda não a cegueira física, mas a ‘falta de visão’ que integra nossa capacidade de ver — como é o caso de quem se faz de vítima. Claro que ele sofreu muito, mas, ao viver aquela situação, preferiu ir na direção do olhar com o olho voltado para dentro. É disso que necessitamos para viver. Em vez de ficar se lamentando, preferiu escrever e fazer algo que deu a ele condições de ver o mundo de outro jeito”, enfatiza o psicanalista.
Casos típicos
Há níveis distintos em que as pessoas podem se colocar no papel de vítimas — dos mais explícitos aos mais sutis — em diferentes áreas da vida. Já parou para se observar se não está caindo nesta armadilha?
Reclamão
Ele tem uma mulher legal. Boa mãe e dona de casa, que leva e busca os filhos na escola e ainda trabalha fora. Não lava um prato sequer, segundo ele próprio diz. Chega mais cedo do que ela, mas prioriza seus afazeres, que incluem assistir ao jornal. Reclama o tempo todo da esposa. Diz que não deve gostar de sexo, trai e põe a culpa nela. Qualquer problema no trabalho é responsabilidade dos colegas e dos chefes. Vai para o trânsito — seu pior inimigo — como se fosse uma guerra. Todos os dias, sai preparado porque alguém, com certeza, vai fechá-lo ou cortar sua frente. As pessoas são mal educadas, arrogantes, desrespeitosas e péssimas motoristas. Ele é raivoso, intolerante com os erros dos outros e quase sempre negativo — do tipo Hardy, o personagem do jargão “Oh dia, oh vida, oh azar” —, mas não se dá conta disso — inclusive, acha-se o mais positivo do planeta, afinal, a realidade se mostra de modo distorcido para quem vive no papel de vítima. É o retrato da pura lamentação.
Coitadinha
Uma senhora, sempre foi dona de casa e ajudou o marido como boleira. Só se lamenta! Ela é a “dona da bola”, da casa, de todo mundo. Nada se modifica na casa se não passar por seu crivo. Controla tudo e todos. “Eu sei”, ela diz. No entanto, reclama o tempo todo e, claro, algumas dificuldades acontecem mesmo. Deforma a realidade e a manipula a seu favor. A culpa é sempre do outro e, muitas vezes, consegue provar isso. Descobriu que a namorada do filho o traía, inventou histórias porque não gostava da moça e não queria que o filho saísse de casa. Conseguiu desmanchar o namoro. Acostumou-se tanto a não ver nada de bom na vida que só sabe focar no negativo. O que acontece de bom e positivo não tem importância, afinal, não consegue enxergar. “Ah! Isso acontece na vida de todo mundo, não tem nada extraordinário”, acrescenta. Obrigada a cuidar de uma idosa, encontrou do que se vangloriar. A situação virou um troféu. A vida é ingrata com ela, o que resta? Precisa reclamar, lamentar e falar de doença — das suas e dos demais. Tem dores de cabeça e pressão alta, mas se sente acolhida na vitimização.
Desconfiado
Esta é a pessoa mais persecutória do mundo. Não confia em ninguém e bate no peito para dizer isso o tempo todo, como se fosse um comportamento de alguém poderoso, sapiente, mas vive com medo. Claro, a vida é aversiva e hostil, assim como as pessoas não são confiáveis. Um pessimista. Está sempre alerta para dizer ao outros: “você confia demais”. Ele, claro, não faz nada de errado. Está em seu direito porque o outro é culpado, fez isso e aquilo. Já quando tem uma atitude que pode reconhecer, diz que não tinha a intenção. Por se sentir vítima, tenta sempre inverter a conversa, utilizando-se de frases como “Você está sempre com a razão” ou “Você não me escuta”, “Sofri muito na infância” e, ainda, “Com uma mãe como a minha”.

Você está se colocando no papel de vítima?
1-Culpa os outros
Uma vítima sempre aponta o dedo para outras pessoas ou circunstâncias, sem jamais olhar para si mesma.
2-Se justifica
Quando não está culpando alguém, a vítima trata de racionalizar ou encontrar uma justificativa para sua situação.
3-Vive se queixando
Quem vive este papel está sempre reclamando de algo ou de alguém, mas faz muito pouco de verdade para melhorar de vida.
Como sair do Papel de Vítima
1º Auto-observação
Comece a assumir 100% da responsabilidade por seus pensamentos e ações.
2º Aceitação
Identifique em cada situação uma oportunidade para o autodesenvolvimento.
3º Gratidão
Substitua o hábito de reclamar pelo de agradecer.
Filmes que inspiram
Para quem tem tendência a se fazer de vítima, histórias reais de superação mostram como sair da posição de “pobrezinho”.
À Procura da Felicidade
Um dos filmes mais vistos nos últimos anos, inspirado na história real de Chris Gardner, narra como um homem falido e rejeitado pela esposa, teve perseverança e venceu os obstáculos para realizar seus sonhos.
A teoria de tudo
Conta a história de Stephen Hawking, um dos mais importantes cientistas da história, que pouco depois dos 20 anos foi diagnosticado com uma doença degenerativa, o que não o impediu de alcançar fantásticas realizações.
Invencível
Narra a história real de Louis Zamperini, que participou dos Jogos Olímpicos em 1936 e lutou na Segunda Guerra Mundial, superando obstáculos inacreditáveis.
Uma mente brilhante
Conta a história verdadeira de John Forbes Nash, que entrou na Universidade de Princeton e, apesar de seus problemas mentais e de relações, tornou-se reconhecido por suas teorias revolucionárias na economia. Ganhou o Prêmio Nobel.
Texto: Yara Racy
Fotos: Amanda Bueno e Luiz Cervi
Ilustrações: Alexandre Nascimento