Para além dos palcos

Para além dos palcos

A arte, o canto, a paixão e a resiliência são algumas das características que tornam a soprano Yuka de Almeida Prado uma referência nos palcos do Brasil e do mundo

A música faz parte da vida da soprano Yuka de Almeida Prado, que, segundo sua mãe, começou a cantarolar desde muito pequena. Durante a juventude, participou de algumas apresentações musicais e foi tomada por uma paixão singular pelo canto que a fez estudar vorazmente. Além da voz marcante, Yuka possui um invejável currículo. É professora doutora em Canto, coordenadora do Laboratório de Performance e Ciências do Canto (LAPECC) e membro do Núcleo de Pesquisa em Ciências da Performance em Música (NAP-CIPEM), do Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras  de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo (USP-RP). Também possui mestrado e doutorado pelo Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Em Tóquio, no Japão, obteve bacharelado em Canto pela Faculdade de Música Kunitachi e especialização em Canção Japonesa e Francesa pelo Centro de Pesquisa Nichifutsu Kakyoku Kenkyujo.

O repertório internacional inclui trabalhos em Congressos sobre prática vocal em Portugal, Cingapura, Canadá, Turquia, Itália, Áustria, Argentina e Japão, além de performances de primeiras audições de compositores brasileiros contemporâneos em importantes teatros do Brasil e dos Estados Unidos, da Itália, da Dinamarca, da Suíça e da Alemanha. Foi professora convidada da University of New Hampshire e da University of Wisconsin – Green Bay, ambas nos Estados Unidos. 

A soprano acredita que, para ser um cantor profissional com bom desempenho, é preciso ter boa voz, fundamentos de técnica vocal e de teoria de música, além de um profundo autoconhecimento corporal e emocional. É solista do Ensemble Mentemanuque e do Fratres Cello Ensemble, sob direção de André Micheletti, e se apresenta como camerista com Gustavo Costa, José Gustavo Julião de Camargo, Rubens Russomanno Ricciardi e Fátima Corvisier. Em Ribeirão Preto, Yuka canta regularmente com a USP-Filarmônica e com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, com a qual tem sido solista também em montagens de óperas, tais como o Rigoletto e La Bohème. Na entrevista a seguir, a artista apresenta sua trajetória na música e os caminhos percorridos para se tornar uma cantora. 

No início da trajetória, Yuka cantou em cima do piano de maiô preto, meias rendadas e salto alto, e foi a gota d’água para o pai a enviasse para o JapãoRevide: Qual foi o seu primeiro contato com a música?
Yuka: Segundo minha mãe, comecei a cantar antes mesmo de falar. Ela, que é japonesa e adora música, ensinou-me quase todo o repertório da canção infantil nipônica. Cantei toda a minha infância em qualquer aglomerado de gente, em festas ou no meio da mata, ao norte do Paraná. Entrei para o Coral da Cultura Inglesa, quando a minha família se mudou para São Paulo. Participaria como coralista na montagem da ópera “A Flauta Mágica”, de Mozart, mas a cantora que estava engajada para fazer um dos três Knaben (anjos) foi submetida a uma cirurgia de urgência. Fui convocada, às pressas, para o papel, cantando em alemão. Foram três récitas no Teatro Municipal de São Paulo, lotado, com a Orquestra Jovem Municipal e sob a regência de Jamil Maluf. Fui tomada por um mar de êxtase! Iniciavam-se assim os estudos do canto.
 
Sua intenção sempre foi trabalhar com que tipo de música?
Eu vivia na Cultura Inglesa onde fazia parte, além do coro, do madrigal e do grupo de teatro, participava regularmente de montagens de musicais e de bandas de rock. A regra era falar inglês o tempo todo, mas acabei aprendendo outras coisas. Minha última participação nas montagens de teatro musical na Cultura Inglesa foi na Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weil e Bertold Brecht, obra que inspirou a Ópera do Malandro, de Chico Buarque. Sob a direção cênica de Antonio Mercado e direção musical de Celso Antunes, cantei em cima do piano de maiô preto, meias rendadas e salto alto. Foi a gota d’água para meu pai me mandar para o Japão e aprender boas maneiras: ler, escrever, falar japonês e, principalmente, incorporar o rigor da disciplina oriental.
 
De que forma graduou-se e se especializou em canto fora do país?
A intenção era ficar um ano no Japão, mas, logo no primeiro dia, em Tóquio, em um albergue, conheci, por acaso, a empresária de uma das mais renomadas professoras de canto do Japão. Por meio dela conheci a professora Nori Takemura. Cantei para ela “Se tu m’ami, se tu sospiri”, de Giovanni B. Pergolesi. Ela me indagou sobre os motivos da minha estada no Japão. Respondi que visava a um aprendizado da língua japonesa, assim como de conhecimentos da cultura do país. Ela acabou me intimando a estudar canto. Sua alegação foi de que se tratava de um dom divino e minha obrigação seria cultivá-lo. Caso contrário, ela disse: “Deus me castigaria”. Fui morar com ela para aprender o ofício do canto e cursar a Faculdade de Música Kunitachi, em Tóquio, no Japão. Nascida e crescida na sociedade brasileira de raízes escravocratas, fui trabalhar, justamente, “feito uma escrava” para minha mestra. Assumi tarefas caseiras de faxinas no alvorecer (mesmo no inverno com fortes nevascas); cozinhava, lavava pratos, fazia compras, organizava a casa e ainda cuidava da poodle branquinha chamada Laurie, que usava botinhas vermelhas para passear. Além disso, havia que se pagar, tanto a estada como as aulas. 

Sentia-se injustiçada?
Na minha perspectiva cultural, sim. Entretanto, aos poucos, descobri o profundo aprendizado na convivência diária com a mestra. Ela me dizia que o segredo era aprender como ela própria vivia: o que comia, como comia, o que fazia, como se organizava, como trabalhava, como relaxava. Isso só aprenderia servindo-a, desde bem cedo até tarde da noite. Assim aprendi a realizar um trabalho com alto rendimento num período restrito, geralmente, não mais do que uma hora, para o estudo do canto. Ela dizia que lidar com o tempo seria um dilema a ser aprendido. Ainda em sua sabedoria, “a sensibilidade estética começa pelo paladar e o artista em formação deve ingerir não só alimentos bons e saudáveis; mais do que isso, a comida tem que ter, além de sabor refinado, um requinte nos cinco sentidos”. Nesse novo cotidiano, assimilei dietas nobres com peixes, verduras, legumes e ervas raras. Em sua mansão, caracteristicamente nipônica, praticava-se, toda semana, a arte da cerimônia do chá (chado?), a arte do arranjo de flores (kado? ou ikebana), a arte da caligrafia (shodo?), a arte da pintura a carvão (sumiê) e a arte do poema (haiku). Esses eram apenas ornamentos em torno da arte do canto. Foram anos de disciplina, submissão, resignação, tolerância, paciência e muito trabalho. Desse modo, consegui domar meus impulsos para caminhar sem abandonar o caminho, sendo como uma montanha de pedra, ou seja, manter-me intacta, faça sol, chuva, tempestades ou ventos fortes. A arte da vida era mais importante do que a arte do canto, expresso no seu princípio fundamental: “não queira ser a rosa vermelha se você é uma flor do campo, mas que seja a flor mais bela do campo”. 

Qual a importância do estudo da técnica e da teoria para o cantor de ópera profissional?
Para ser um cantor profissional de alto desempenho, estudos de técnica vocal e de teoria da música são fundamentais. Essas são as ferramentas para manter sempre um excelente padrão de performance. Jacqueline Bonnardot, em seu livro “O professor de canto: um luthier que constrói uma voz”, define o bom cantor: é um artista que domina seu corpo, seu espírito e sua sensibilidade para o trabalho regular da postura, do sopro, da flexibilidade e do relaxamento do aparelho vocal, da dicção e do enriquecimento no uso da imaginação. Ele sabe utilizar a voz sem cansaço, em inúmeros estilos, para a felicidade do público e dele mesmo. Aqui, Bornnandot aborda a questão do domínio da voz, porque o cantor, além de aprender a teoria musical, como harmonia, contraponto, solfejo, percepção e história da música, tem que saber várias línguas, literatura, pintura, teatro e dança. A sensibilidade e a criatividade, vindas dessas fontes, projetam-se na voz, por meio da elaboração interna, na obra a ser apresentada. Quanto maior o conhecimento, maior o requinte.
 
Quais as principais diferenças na formação de um músico clássico e de um profissional de outros estilos?
Em primeiro lugar, é preciso definir o que se entende pelo termo “clássico”. Clássicas são as escolas atenienses (Academia de Platão e Liceu de Aristóteles), que definiram as linhas do pensamento que chamamos greco-romanas. Traços relacionados a bom gosto, sofisticação, equilíbrio de formas e senso de medida passaram a caracterizar também a arte do Renascimento, período que foi nomeado Classicismo. Trata-se de um estilo de época, ao lado de tantos outros, como Barroco, Neoclássico, Romântico, apenas para citar referências. No entanto, o termo “clássico” foi ganhando novas conotações, sem perder seus traços essenciais, o que se evidencia no tempo atual. Nesse sentido, os termos “música clássica” e “música popular” são conceitos a serem revistos contemporaneamente, pois, com propriedade, podemos dizer que Tom Jobim é um compositor “clássico” da música popular brasileira. Artistas consagrados como “clássicos”, a exemplo de Villa-Lobos, Antonín Dvorák, Manuel de Falla, Edvard Grieg, entre tantos outros, beberam, muitas vezes, nas fontes populares, vivendo bordas borradas entre os dois termos. A música popular, com as diferenças regionais, cada vez mais divide seu espaço com a indústria da cultura. Definida pela Escola de Frankfurt, em especial, por Max Horkheimer e Theodor Adorno, a música da indústria da cultura é um produto da sociedade capitalista, marcado por modos de produção que visam, sobretudo, ao lucro. O termo que melhor define a música — inclusive a “popular” — é aquele que visa à estética de construção e à liberdade de invenção. Nesse contexto, direcionarei a questão para o meu campo de atuação, que é o canto. Dentre vários tipos de técnica vocal existentes, há dois tipos mais abrangentes: a técnica da música popular e do teatro musical, que geralmente se canta com microfone, e a técnica de quem canta ópera ou música de câmera, sem o microfone. No entanto, uma não exclui a outra e cada um possui sua técnica específica. Naturalmente, para o artista que canta com microfone, os conhecimentos básicos sobre a voz que possui o cantor de ópera, por exemplo, podem auxiliar sobremaneira sua performance. São como as vantagens de um bailarino com formação no ballet clássico que decide, com esse conhecimento, migrar para outros tipos de dança.
 
Todas as pessoas que gostam de cantar podem se tornar profissionais da música?
Cantar em corais, em bandas, fazer solos de forma amadora é prazeroso, promove saúde e bem-estar. Ser profissional implica outra categoria de exigência e formação sólida. Ter voz não é suficiente para ser cantor de ópera ou de música de câmera. Há que se ter musicalidade, senso estético, presença de palco, carisma, um ambiente propício, habilidade de ator, persistência para se dedicar ao rigor da disciplina, ter capacidade de se superar e possuir um autoconhecimento profundo.

Quais são os mitos e verdades relacionados à saúde vocal de quem canta?
A plena interação psicofisiológica é fundamental para potencializar a capacidade expressiva, tanto técnica quanto artística, do cantor. A saúde da voz é indissociável da saúde do corpo e da mente. Dessa forma, estar em busca da saúde impecável é um dos pré-requisitos fundamentais para se tornar um cantor profissional de alto desempenho. Para isso, são necessários os cuidados fundamentais com o corpo, tais como ter uma alimentação balanceada, beber muita água, praticar atividade física, ter sono suficiente e com qualidade, e um estado emocional equilibrado. Cigarro, álcool e droga são nocivos para a voz e, entre aspectos prejudiciais, determinam a diminuição do tempo de carreira do cantor. Há pesquisas sobre voz que nos auxiliam sobre a ingestão de água gelada, sorvetes, café, chocolate, alimentos gordurosos e condimentados, bebidas gasosas, antes das apresentações, desfavoráveis para condições vocais adequadas. A voz de cada um, contudo, é tão distinta como a impressão digital. É evidente que difere de pessoa a pessoa e depende do estado de saúde e de condições específicas, tais como tipo de repertório, volume de apresentações, se o concerto é em seu país de origem ou fora dele. É fundamental a busca incessante pela autopercepção do que é prejudicial ou não, afinal, somos seres em constantes mudanças.
 
O Brasil ainda precisa crescer muito quando o assunto é música? 
A música promove a civilidade, a responsabilidade, a disciplina, a sociabilidade, a inclusão social, a sensibilidade, a saúde e o bem-estar. É disciplina obrigatória em países do Primeiro Mundo, mas foi banida dos nossos currículos escolares. A passos vagarosos, está sendo retomada, porém, perdemos muito com isso. Vejamos em que nível estamos como civilização.
 
Entre diversas apresentações, sua presença e dedicação à Ópera Rigoletto

Você tem experiências nacionais e internacionais, tanto como cantora quanto como professora. Como avalia a música brasileira sob o olhar do estrangeiro? 
A música brasileira, em sua diversidade cultural e criatividade, têm autenticidade e requinte únicos e é venerada pelos estrangeiros. Por onde passo cantando música brasileira recebo um convite para retornar. Tenho orgulho da nossa música. É uma pena que não se dá o devido valor a ela. Apesar de possuirmos uma rica e reconhecida musicalidade, ainda nos falta uma formação consolidada. Os inúmeros músicos, que superaram a precária condição da nossa educação musical institucional, têm seu espaço no cenário internacional. São poucos, poderiam ser muitos. 
 
Quais considera seus melhores momentos cantando? 
Em palco, nos teatros, há muitos momentos mágicos com pessoas incríveis que são inesquecíveis. Entretanto, descobri que todo lugar pode ser o palco para se apresentar, mesmo sem ninguém. Fazendo o Caminho de Santiago, comecei a cantar, sem pretensões, nas igrejas dos séculos IX a XIII, logo no início dos 800 km.  Cantei em mais de 60 igrejas do percurso, até mesmo na Missa do Peregrino, na Catedral de Santiago, quando lá cheguei. Um êxtase transcendente! Por toda igreja onde eu começava a cantar, apareciam, de repente, muitos peregrinos, que sabiam o que eu ia fazer. Quando saía da igreja, mais um tanto deles correndo, desesperados, carregando suas mochilas, pediam para eu cantar, mas, quando entrava num desses templos sagrados, perdidos no tempo e no espaço, de mais de 10 séculos atrás, sem nenhuma alma viva, eu me deliciava cantando para um vazio que se fazia pleno, cheio de energia e de vida. 




Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão e arquivo pessoal

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