Para celebrar os bons sentimentos

Para celebrar os bons sentimentos

Festa cristã que marca o nascimento de Jesus, o Natal não se restringe a religiões, mas leva uma mensagem de bondade e de união a todas as pessoas

Em 2013, Yago Bárbaro Torres Pereira Marques viverá o primeiro Natal. Passeando pela cidade enfeitada, cheia de luzes, árvores de Natal e outros adereços característicos dessa época, já parece entender, mesmo aos cinco meses recém-completos, que há uma magia especial no ar. Os olhos brilham ainda mais quando visualiza o Papai Noel, aquele senhor simpático com roupas pouco convencionais para o calor que domina as ruas.

Observar os pequenos é uma boa forma de lembrar o que há de melhor nessa festa, que transcendeu o significado religioso para enviar a todos os cantos do mundo um encanto diferente. De fato, é para comemorar o nascimento de Jesus, maior representante do cristianismo, que o Natal foi instituído. Está aí, para os cristãos, seu principal significado. Como explica o padre Carlos Eduardo Tibério, o dia 25 de dezembro é mágico e misterioso. “Nessa data, as pessoas procuram se reconciliar com familiares e amigos. A emotividade, característica dessa época é uma oportunidade, também, para abrir o coração para o amor e o perdão, mesmo que seja uma única vez no ano”, avalia. O nascimento do Menino Jesus deve acontecer no coração de cada um e precisa ser alimentado, diariamente, por todo o ano. “Este é o único aniversário em que não celebramos mais um ano de vida, mas, sim, o renascimento da mesma criança. Com essa reflexão, vejo como Jesus nos convida a ter um coração de criança: limpo, livre, obediente, confiante, sem mágoas ou rancor, que ama intensamente”, acrescenta.

Dessa perspectiva, o Natal traz em si a mensagem do renascimento: da esperança, do amor divino, do perdão e de tantos outros valores fundamentais para a vida em sociedade. Para o pároco da Catedral de São Sebastião de Ribeirão Preto, esses valores continuam sendo os principais motivos da celebração natalina na sociedade contemporânea. “Sinto que o pensamento cristão não foi desconstruído. No entanto, é preciso cuidar para que não haja uma subversão de significados em função do consumismo que tomou conta dessa data”, alerta o padre Carlos Eduardo, desejando a todos os presentes mais valiosos que se pode querer no Natal: atenção, compaixão, perdão e, acima de tudo, amor. “Desejo a todos que este Natal seja verdadeiramente o nascimento do Menino Deus em seus corações, trazendo muita paz, prosperidade, sabedoria e graça”, conclui.

O Natal na atualidade

O nascimento de Cristo marca o início de uma nova era na história ocidental — o calendário, por exemplo, está dividido em antes e depois de Cristo, ou seja, a.C e d.C. Mas a festa natalina, com suas cores e símbolos atuais, é uma construção mais recente. A própria data, 25 de dezembro, gera controvérsias, inclusive, entre especialistas no assunto. Até hoje, por exemplo, há culturas que comemoram o Natal em outros dias do ano — nos países eslavos e ortodoxos, por exemplo, a celebração acontece no dia 7 de janeiro. Somente no século IV, a Igreja Católica teria oficializado o dia do Natal, que começou a ser celebrado como uma festa litúrgica cristã em Roma.

Foi a consolidação do cristianismo no Ocidente que permitiu a difusão das tradições natalinas pelo mundo. A festa que se conhece atualmente é ainda mais recente. Adquiriu características universais apenas no século XIX. Como é de se imaginar, isso aconteceu em função da globalização cultural e econômica, que foi ganhando cada vez mais força de lá para cá. “Graças a esse processo, o Natal chegou a países como China e Japão, não cristãos, por meio de suas árvores e luzes. Por isso, também, que as casas brasileiras se enchem de ursos polares, toucas e botas de neve em pleno verão”, afirma a professora Cláudia Regina Benetti, mestre em Ciências Sociais.

Com a modernidade, o consumismo também foi incorporado ao Natal. “Vemos em muitos lares apenas a festa das compras. Mas será que precisamos mesmo de tantos presentes?”, questiona a socióloga. Na contramão desse raciocínio está uma boa oportunidade para encontrar um novo ângulo para avaliar esse período do ano. “Nosso cotidiano está cada vez menos solidário, marcado pela violência e pelo medo. O espírito do Natal, que resgata importantes valores cristãos e tende a unir as famílias, é um convite a combater esse distanciamento do ser humano com uma grande dose de bons sentimentos”, avalia Cláudia.

O tom otimista das mensagens natalinas pode ser uma poderosa ferramenta para a conquista de uma sociedade melhor. Independente da religião, a história do menino que nasceu com a promessa da salvação é bastante contemporânea, já que está cada dia mais evidente a necessidade de recuperar antigos e nobres valores. Simbolicamente, é o que os enfeites e os personagens do Natal trazem à tona. Entre eles, o bom velhinho generoso e solidário merece destaque.

Experiência na pele

Caminhando pelo centro ribeirãopretano, em dezembro de 1988, José Franklin Winston Teixeira Andrade foi convidado por uma professora a substituir o Papai Noel que havia cancelado a visita a uma escola naquela tarde. Sensibilizado, aceitou o desafio e revelou grande habilidade para incorporar o bom velhinho. No dia seguinte, adquiriu seu próprio traje vermelho e branco e nunca mais abandonou a ocupação. Juntamente com a experiência, o tempo trouxe os cabelos e a barba branca, tornando a atividade cada vez mais natural.

Hoje, brinca que não se veste de Papai Noel, mas se torna o próprio quando recebe as crianças na casinha montada no centro da cidade, em instituições e em hospitais, onde comparece voluntariamente, ou em eventos empresariais. Em dezembro, chega a acumular três trabalhos por dia, mas garante que o maior retorno está reconhecimento que sente nos olhos de cada criança. E dos adultos também. “Este ano, tenho recebido muitos pais e avós para fazer seus pedidos e tirar foto com o Papai Noel. Sinal de que as pessoas estão querendo trocar, urgentemente, a realidade cheia de violência e egoísmo por uma mais branda e marcada pelo encantamento”, reflete. Entre as crianças, tem percebido uma postura mais consciente. “Muitas delas não vêm me pedir brinquedos e presentes, mas, sim, a presença do pai no dia do Natal ou mais saúde para a família”, completa.

Aos 68 anos de idade, confessa que as pernas já sentem cãibras ao final do expediente, mas o sorriso dos pequenos que recebe em troca de cada conversa ainda compensa. Por isso, não pensa em parar tão cedo. “Sou um ser cristão, mas ecumênico. Fui batizado nove vezes e levo a mensagem de Jesus adiante independente de religiões. Como Papai Noel, também estou cumprindo essa missão”, finaliza.

Em diversos tamanhos e formatos, este símbolo natalino relata a história do nascimento de Jesus. A ilustração em forma esculturas teria sido uma invenção de São Francisco de Assis, que, em 1223, recorreu a criações em argila para ensinar este episódio cristão aos cidadãos mais humildes. O costume espalhou-se por várias culturas, começando pela Europa, na Idade Média, por meio de catedrais, igrejas e mosteiros.



A ÁRVORE DE NATAL

Várias versões tentam explicar este costume, mas a história que atrela sua criação à Alemanha e a Martinho Lutero parece ser a de maior repercussão. Assim, esta tradição teria começado em 1530, quando este sacerdote católico alemão teria se encantado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve, iluminados pelas estrelas do céu. Decidiu, então, reproduzir a cena em sua casa, com a ajuda de galhos, algodão e velas. A prática teria se espalhado pela Europa e pela América do Norte no século XIX. Na América Latina, tornou-se tradicional apenas no século XX.


Uma história cristã

Para o cristianismo, o Natal serve para celebrar o nascimento de Jesus, filho de Deus que veio à Terra salvar todos os homens. O Cristo foi enviado através de Maria, jovem nascida em Nazaré, escolhida por sua bondade e pureza. Apesar de resistir no primeiro momento, José ouviu o sinal dos céus e, para não colocar a vida do bebê em risco, fugiu com a esposa Maria para Belém. Na chegada à cidade, o casal não encontrou estalagens disponíveis. Buscaram ajuda em uma casa muito humilde que, sem quartos, ofereceu acomodação no estábulo. O menino nasceu em uma manjedoura rodeado pelos animais. Seus primeiros visitantes foram os três reis magos que ali chegaram seguindo a estrela de Belém.

A VELA

Talvez a origem desta tradição esteja vinculada, assim como a árvore de Natal, à figura de Martinho Lutero. O que se pode afirmar é que, assim como outras formas de iluminação, as velas natalinas simbolizam a chegada de Jesus Cristo como a luz do mundo.

 




A GUIRLANDA

Dona de diversos significados, sabe-se que a guirlanda não surgiu como representante natalina. Muito antes
da era cristã, os gregos e os romanos já utilizavam este ornamento para representar, por exemplo, sinal de boas-vindas, de saúde e de proteção. Todos esses valores continuam valendo no Natal, além de muitos outros, como a própria coroa de Cristo e sua ressurreição.









 

MANIA DE NATAL

Desde a infância, a terapeuta Maria Girotto alimenta um encanto diferente pelo Natal. Lembra-se de aguardar ansiosa a chegada do Papai Noel e de se emocionar com o encontro da família toda. Aqueles objetos cheios de cores e luzes se tornaram, depois do casamento, uma verdadeira mania. Hoje, acumula uma extensa coleção de peças natalinas, tanto que não sabe, apesar de ter catalogada a coleção, precisar o volume. Todos os anos, a festa na sua casa começa bem antes do dia 25 de dezembro, quando reúne a família e os amigos mais próximos — especialmente as crianças — para decorar a casa. “Tenho uma única filha, mas nossa casa sempre esteve aberta aos amigos e aos primos, multiplicando a família”, afirma. Para a terapeuta, decorar a casa com todos os símbolos natalinos é uma forma de demonstrar uma ilusão que faz questão de não abandonar: a crença no ser humano, no poder do amor e do afeto fortalecidos nesta época do ano. Como terapeuta, estimula a preservação da fantasia do Natal. “As crianças constroem a realidade a partir das fantasias que são apresentadas a ela: se essa caricatura é feita de amor, de bondade e de generosidade, ela com certeza transportará esses valores para o mundo real. O inverso também é verdadeiro”, esclarece. É por isso que não pretende interromper a tradição de transformar sua casa em um espaço lúdico para a família nesta e nas próximas gerações.

O PAPAI NOEL

Sua história foi inspirada em São Nicolau Taumaturgo, um arcebispo turco que, costumava deixar moedas de ouro nas chaminés das casas mais humildes de Mira, sua cidade de origem. A imagem do santo foi associada ao Natal pela primeira vez Alemanha e de lá se espalhou pelo mundo. No entanto, os trajes vermelhos, de punhos e barras brancas, botas e cintos pretos foi proposta muitos anos depois, já no século XIX, em função de uma propaganda publicitária. O Papai Noel sorridente, rechonchudo e nascido no polo Norte, lenda que impera ainda hoje, é também recente e foi criada nos Estados Unidos.









 

 

 

 
Foto de capa: Julio Sian
Bermuda e camiseta: Cotton & Cia.
Agradecimento: Shopping Iguatemi Ribeirão
 





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