Para não perder o sono

O médico neurologista Alan Luiz Eckeli explica porque identificar e tratar os distúrbios do sono para dormir bem é fundamental para quem busca viver melhor

A vida moderna trouxe com ela muitos benefícios. Diversas criações tecnológicas facilitam o dia a dia. O celular permite que as pessoas sejam localizadas a qualquer hora do dia ou da noite, desde que o indivíduo esteja em uma área de cobertura. O computador e a internet encurtaram as distâncias e ampliaram as possibilidades. A televisão trouxe para dentro de casa os mais variados conteúdos, distantes a um clique do controle remoto.

No entanto, os dias atuais também são carregados de preocupações, compromissos e atividades que fazem com que a sensação da falta de tempo se agrave a cada ano que passa. As extensas cargas de trabalho e o trânsito, presente em um número maior de cidades, não permitem que as pessoas cheguem em casa cedo para que possam brincar com os filhos, jantar sem pressa e conversar demoradamente com o parceiro. Nesse cenário, é comum deixar o sono em segundo plano, ou para ter a sensação de estar aproveitando cada instante ou porque os problemas não permitem o relaxamento.

Mais recente do que o ritmo de vida acelerado é a Medicina do Sono, especialidade que identifica os distúrbios comuns na hora de dormir, seus sintomas e tratamentos e seus efeitos na saúde do indivíduo. Na história médica, o sono ganhou espaço há mais ou menos 50 anos. Essa tendência só chegou ao Brasil nos anos 90 e, há pouco mais de 10 anos, ganhou destaque.

Em Ribeirão Preto, o Hospital das Clínicas da USP possui dois ambulatórios especializados no assunto, que trabalham de forma integrada. O primeiro avalia os distúrbios do sono em geral e o outro está focado exclusivamente na apneia do sono, problema mais comum dessa área. Os ambulatórios unem três especialidades principais: a Neurologia, comandada pela Profª. Dra. Regina Maria França Fernandes; a Pneumologia, coordenada pela Profª. Dra. Geruza Alves da Silva, e a Otorrinolaringologia, supervisionada pela Profª. Dra. Fabiana Valera. Integram as equipes, ainda, enfermeiros, nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo e fonoaudiólogo.

Segundo o neurologista Alan Luiz Eckeli, o trabalho prestado no HC ribeirãopretano é único no Brasil. “Esse sistema multidisciplinar nos proporciona uma elevada resolubilidade dos casos tratados, muitas vezes, em apenas uma visita do paciente”, garante o especialista. O HC realiza 20 exames semanais, capazes de identificar as principais doenças do sono. O diagnóstico começa — e às vezes é concluído — no exame clínico. Quando necessário, o paciente dorme no laboratório do sono conectado a um amplo e eficiente sistema de identificação. Depois disso, o tratamento é recomendado.

Para passar pelos exames do HC, o paciente precisa agendar uma consulta junto à unidade básica de saúde. “Há um volume determinado de novos casos, onde a demanda é grande. Apesar de podermos considerar o HC uma referência em Medicina do Sono, o centro que mais oferece o serviço pelo Sistema Único de Saúde, ainda precisamos ampliar bastante a nossa capacidade para suprir a demanda”, acrescenta o médico titular da Academia Brasileira de Neurologia, certificado em Medicina do Sono pela Associação Brasileira do Sono.

Números e sintomas
Entre os distúrbios do sono, três merecem destaque. A insônia talvez seja o mais conhecido deles. Essa doença acomete cerca de 30% da população, sendo que a insônia crônica — tipo mais grave do problema — atinge 10% dos cidadãos brasileiros, número que reflete a realidade mundial. Para se ter uma ideia, isso quer dizer que 60 mil ribeirãopretanos enfrentam a insônia crônica todas as noites. O distúrbio pode se manifestar de diversas formas. A dificuldade de dormir pode ser apenas inicial, fazendo com que a pessoa demore a pegar no sono; de manutenção, quando é comum acordar diversas vezes durante a noite; e terminal, se é impossível pegar no sono novamente depois de acordar 3 ou 4 horas da madrugada.

A síndrome das pernas inquietas também incomoda muita gente. Cerca de 7% da população — ou 35 mil ribeirãopretanos — enfrentam esse distúrbio neurológico caracterizado por um desconforto nas pernas, associado à necessidade de movimentá-las. “Geralmente, o incômodo aparece ao final da tarde ou durante a noite, nos momentos de repouso, e costuma melhorar com a movimentação”, explica o doutor em Neurologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP.

O mais prevalente distúrbio do sono é a apneia, que acomete, segundo uma pesquisa paulistana realizada há dois anos, quase 33% das pessoas. Fazendo uma analogia com a população de Ribeirão Preto, pode-se afirmar que cerca de 190 mil pessoas sofram desse mal na cidade. A boa notícia é que o distúrbio possui tratamento. Como opções, há aparelhos odontológicos, cirurgias e o aparelho chamado CPAP, sigla em inglês para Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas. “Esse equipamento é acoplado ao rosto do paciente através de uma máscara e regulariza a respiração, eliminando as interrupções na respiração que caracterizam esta doença”, esclarece o especialista. O equipamento pode custar entre R$ 1 mil e R$ 4 mil, mas em Ribeirão Preto é possível conseguir o aparelho gratuitamente através do Sistema de Saúde Municipal e da Regional de Saúde.

Geralmente, a origem dos distúrbios do sono depende de diversos fatores. A insônia depende de três características principais: os fatores predisponentes (que consideram o perfil do indivíduo), os fatores precipitantes (que podem ser um trauma ou um estresse agudo) e os fatores perpetuantes (que incluem distúrbios psiquiátricos, depressão e maus hábitos relacionados ao sono). Já a síndrome das pernas inquietas depende de uma predisposição genética, mas também pode estar associada à falta de ferro no organismo. A apneia do sono também tem origem multifatorial, sendo as mais importantes causas a predisposição genética, o peso e a morfologia facial. No entanto, esses sintomas podem se apresentar esporadicamente sem que representem uma doença.

A importância do tratamento
Se poucas décadas atrás discutia-se a existência de distúrbios do sono cientificamente comprovados, hoje já se sabe que essas doenças causam um grande impacto na vida das pessoas. Problemas para dormir, além de promover uma queda significativa na qualidade de vida — em alguns casos, semelhante aos sintomas da depressão, por exemplo —, podem ser associados a doenças que elevam o índice de mortalidade. Infartos e Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) estão entre esses problemas de saúde. “Podemos afirmar que para ter uma boa qualidade de vida é preciso ter um sono de qualidade”, garante Dr. Alan.

O sono tem uma função vital no organismo. Enquanto se dorme, processos físicos e mentais são realizados pelo corpo. Já está comprovado, por exemplo, que o sono é fundamental para manter o sistema imunológico funcionando adequadamente. É durante esse descanso, também, que o cérebro consolida o aprendizado e as atividades realizadas durante o dia. Portanto, esses distúrbios podem comprometer a memória, a atenção no trabalho ou no estudo e o humor, chegando a estarem associados a problemas psiquiátricos. Diante das repercussões causadas por um sono de baixa qualidade, vale a pena investigar e tratar as doenças relacionadas a ele e garantir uma vida mais saudável.

As fases do sono
Durante a noite, um ciclo se repete de quatro a cinco vezes enquanto se dorme. Passar pelas quatro fases do sono é fundamental para garantir mais qualidade de vida

Fase N1: Quando o sono chega, o corpo entra em estado de sonolência
Fase N2: Neste estágio, os estímulos do ambiente já não são percebidos pelo corpo
Fase N3: Este é o momento em que o organismo passa a produzir hormônios importantes para a recuperação do corpo
Fase REM: Considerada a etapa mais importante para a consolidação das experiências vividas, é nesta fase que os sonhos acontecem

Durma bem
Adotar certos hábitos pode melhorar a qualidade do sono e, consequentemente, de vida. Siga algumas recomendações do especialista e garanta bons sonhos

• Procure dormir e acordar em horários regulares todas as noites
• Vá para a cama somente quando já estiver sonolento
• Não use a cama para leitura, para ver televisão ou para alimentar-se. Para isso, selecione outro ambiente. A cama deve estar associada ao ato de dormir
• Também não leve os problemas para a cama. Procure resolver todas as pendências antes de se deitar
• Evite ficar na cama sem dormir. Se o sono não chegou, levante-se e faça outra atividade
• Estabeleça um ritual de relaxamento antes de dormir
• Duas horas antes de se deitar, tomar um banho morno, um pouco acima da temperatura corporal, pode ajudar
• Mantenha uma temperatura agradável no quarto, um ambiente escuro e silencioso
• Evite consumir álcool ou bebidas com cafeína — como café, alguns tipos de refrigerantes e chás ou energéticos — pelo menos seis horas antes de se deitar
•  Não se alimente próximo ao horário de dormir. Para o jantar, eleja ingredientes leves e não exagere na quantidade
• Procure se ocupar durante o dia, evitando o ócio
• Faça atividades físicas regularmente, mas procure evitar exercícios pesados ao final do dia. Neste período, faça exercícios mais leves, como alongamento e caminhada, pelo menos quatro horas antes de dormir
• Evite cochilos durante o dia, pois eles podem atrapalhar o sono à noite


Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian
Produção: Pâmela Turatti, Marcela Versiani e Marina Casemiro
Agradecimento: Hotel Araucária

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