Para se inspirar
Um produtivo bate papo entre uma nutricionista e um nutrólogo
A alegria do encontro e a admiração mútua eram visíveis nos olhos dos dois profissionais que, além de bons amigos, dividem a paixão pela nutrição. Em uma descontraída conversa, a nutricionista Milene Ferronato, formada pela Universidade Federal de Ouro Preto, reavivou, com muita sutileza, as lembranças do início de carreira do nutrólogo José Ernesto dos Santos, formado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto há mais de 40 anos.
Ao receber a nutricionista, José Ernesto fez questão de ressaltar a época em que se conheceram, durante a residência de Milene no Hospital das Clínicas, período em que experiência e inspiração abriram espaço para o início de muitos aprendizados e de uma amizade.
Dono de um currículo respeitável — com graduação em Medicina, Mestrado e Doutorado em Clínica Médica e Pós-Doutorado pela University Of Alabama, nos Estados Unidos —, José Ernesto compartilha a sua história e sua experiência profissional com pacientes, alunos do 4º ano da Faculdade de Medicina e amigos que acreditam que a nutrição vai além da alimentação.
No bate-papo a seguir, o nutrólogo revela aspectos importantes da ciência que tomou como profissão.
Milene: Por que o senhor escolheu a Medicina como profissão?
José Ernesto: Acho que ninguém tem uma vocação pré-definida, é preciso ir segmentando por áreas do conhecimento. Sempre me interessei pela área biológica, mas, por outro lado, gostava muito do contato com as pessoas. Quando cursava o segundo ano primário aqui em Ribeirão Preto, a Faculdade de Medicina foi fundada e se tornou a grande novidade da época. Por conta da minha tendência à área biológica, a vinda da Faculdade ficou marcada em mim. Além de estar em sintonia com a minha preferência, a Medicina, ao meu ver, permite o contato com as pessoas. A nutrição é uma área toda especial porque as emoções se manifestam muito na comida, de várias maneiras: comendo muito, comendo pouco, bebendo demais ou de menos. Sendo assim, desde 1970, ano em que me formei, trabalho nessa área.
Milene: Quando e como você identificou que esse seria o seu caminho?
José Ernesto: Como estudante do 5º ano, comecei a trabalhar com o Dr. José Eduardo Dutra de Oliveira, que era professor da Faculdade de Medicina da USP e recebia estudantes para estágio. Iniciei o estágio com ele na enfermaria e no laboratório de nutrição e, a partir desse contato, passei a admirar a profissão. O Dr. Dutra foi a pessoa que me incentivou nessa área.
Milene: E você logo se identificou com essa área?
José Ernesto: Sim. Poderia ter feito outra coisa, como, por exemplo, cardiologia ou psiquiatria, que são áreas que admiro bastante. Mas, no fim, uma fator vai puxando o outro e quando vi já sabia qual seria minha verdadeira escolha.
Milene: Lembro-me da minha residência no Hospital das Clínicas (HC), onde faziam parte da equipe de nutrição profissionais da psicologia. Conte-nos um pouco sobre a percepção de que doenças nutricionais também podem estar associadas a questões de ordem psíquica e emocional.
José Ernesto: Dentro da nutrição, identificar que uma pessoa tem uma alimentação inadequada para mais ou para menos, ou errada em qualidade, e orientá-la a fazer o que é certo é uma tarefa técnica e importante. Entretanto, o paciente está em constante contato com o mundo e fica difícil colocar tudo em prática. Então, em 1978, iniciamos a residência para nutricionistas e começamos a trabalhar com pacientes que sofriam de anorexia nervosa. A partir disso, ouve a necessidade de um psiquiatra no grupo. Foi quando o Dr. Paulo César Monteiro dos Santos, psiquiatra de formação, veio fazer parte da equipe. Ao grupo, associou-se uma nutricionista, a Dra. Rosane Pilot Pessa Ribeiro. Acho que aquela foi a primeira vez na história da nutrição que um psiquiatra passou a atuar junto. Para os obesos, fizemos contato com uma psicóloga também. Do trabalho com o Dr. Paulo, dentro da área de transtornos alimentares, surgiu, em 1982, o Grupo de Assistência aos Pacientes com Transtornos Alimentares (GRATA), o primeiro grupo interprofissional do Brasil em atenção aos transtornos alimentares. Esse trabalho é desenvolvido até hoje.
Milene: O GRATA acabou se transformando em um importante centro de referência em pesquisa?
José Ernesto: Várias teses foram feitas pelo grupo sobre pacientes com transtornos alimentares. Na universidade, precisamos ter essa visão aberta, não apenas em relação a ideias, mas também aberta para os outros.
Milene: Houve alguma experiência importante para formar esse grupo ou ele foi acontecendo naturalmente?
José Ernesto: Havíamos identificado esta necessidade. Percebemos que precisávamos de um trabalho conjunto entre psiquiatra, nutricionista e psicólogo e que eles pudessem trabalhar, de fato, em benefício do grupo. O mais difícil num grupo interprofissional como esse é um entender a linguagem do outro. O conceito de melhora do paciente em tratamento é diferente do aspecto psicológico, médico e da nutrição. Um precisa valorizar e entender a linguagem do outro, porque psicólogo não se transforma em nutrólogo, nem o psiquiatra será nutricionista, mas todos têm que compreender e valorizar o trabalho e a linguagem do outro.
Milene: Sei que Ribeirão Preto também conta com um grupo de cirurgia bariátrica, que também representou a ligação entre várias especializações. Conte-nos sobre ele.
José Ernesto: O grande problema da cirurgia bariátrica é a indicação e, nesse ponto, o psicólogo e o psiquiatra têm papel fundamental, pois ele não define quem deve operar, mas, pelo contrário, quem não deve. Ao contrário do que as pessoas pensam, a cirurgia não é o tratamento da obesidade em sim, mas apenas seu o início. Depois de operado, o obeso estará sujeito aos mesmos problemas anteriores, mas com a diferença que ele não consegue comer a mesma quantidade, pois o estômago está pequeno. Por isso, ele precisa de acompanhamento psiquiátrico, psicológico e nutricional. Acho que o grande erro que vemos no Brasil está na indicação para a cirurgia e na falta de continuidade no tratamento. Esses pacientes precisam ser seguidos a vida inteira, devem entender que a cirurgia não muda a cabeça de ninguém. O grupo do HC vai muito bem, são mais de 600 operados. A equipe chega a fazer duas cirurgias por semana.
Milene: Como você vê a evolução da sociedade quando o assunto é a alimentação?
José Ernesto: Em termos alimentares, a evolução da sociedade foi muito ruim. A alimentação deixou de ser algo de real importância para entrar na rotina, da mesma forma que entra o consumo de calça jeans ou de cosméticos. Ou seja, ela se tornou um produto de consumo. As pessoas comem porque têm que comer, não importa se estão com fome e, ao saciá-la, vão parar de ingerir alimentos. Os restaurantes, os rodízios, as festas open bar, entre outros, acabaram com esse conceito: hoje, as pessoas comem pela disponibilidade da comida e todas as insatisfações levam a comer: angustia, ansiedade, frustrações, tudo isso é suprido pela comida.
Milene: Hoje podemos acompanhar o surgimento de muitos remédios e receitas que prometem auxiliar na conquista do hábito saudável e do emagrecimento. Qual a sua opinião sobre esse assunto?
José Ernesto: O grande sonho de muitas pessoas é ter um remédio que tira a fome, mas ele não existe. Todos os remédios do mercado reduzem o apetite por efeito colateral — provavelmente porque se trata de um estimulante. Ou seja, deixar de comer é efeito secundário. Aliás, com esses remédios ainda podem surgir hipertensão, batedeira e insônia. Claro que temos esperança de que, em 15 ou 20 anos, a ciência encontre um medicamento que o obeso use continuamente, como faz o hipertenso ou o diabético, mas isso ainda não existe.
Milene: Nos últimos anos, o hábito alimentar da população passou por vários movimentos. Agora, observo no consultório um desejo de resgatar uma alimentação mais saudável. Como você observa esse processo?
José Ernesto: A refeição deixou de ocupar um lugar central na vida das pessoas. Hoje, na família moderna, o almoço é feito fora de casa, no horário e no local mais viável naquele momento. Já no jantar, cada membro da família pega seu prato e vai para a frente da TV. Já 50 ou 60 anos atrás, a hora da refeição era o momento mais apropriado para conversar com a família. Se no almoço não dá mais, pois a mulher também trabalha, por que não adquirir esse hábito no jantar? Os costumes são introduzidos e modificados pelo marketing, que seduz as pessoas com açúcar, gordura e sal. Segundo um estudo feito pelo Ministério da Saúde chamado Vigilância de Rico e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL), menos de 15% dos brasileiros com mais de 18 anos comem mais do que 5% de vegetais. Isso quer dizer que 85% dos brasileiros não comem vegetais e frutas em quantidade adequada. Em compensação, a quantidade de gordura é muito maior, de bebida alcoólica, então, nem se fala.
Milene: Ainda assim, acha que há muita gente tentando retomar a alimentação saudável?
José Ernesto: É um processo que vem caminhando lentamente, pois o marketing é muito bem feito. Hoje, não existe mais fome ou saciedade — a pessoa não para de comer quando matou a fome se estiver em uma festa em que o garçom vai passando com a bandeja cheia de coisas gostosas. É um domínio de comida e de bebida. Mesmo quem não é compulsivo vai acabar comendo. Existe uma necessidade de conscientização. As pessoas sabem o que falta na alimentação, então, este não é o problema. A questão é aprender, é mudar o hábito, é voltar a comer o que as avós comiam.
Milene: A falta de tempo e a modernização em vários aspectos contribuem, diretamente, para que as pessoas fiquem mais doentes?
José Ernesto: Hoje, as pessoas praticam pouca atividade física, e não estou falando somente de ir à academia, que é ótimo. A sociedade moderna se automatizou: a pessoa chega em casa à tarde, senta no sofá com cinco equipamentos remotos — o controle da TV, do ar condicionado e do DVD, o telefone sem fio e um celular. A maioria não levanta mais para nada. Se vai ao supermercado, para o carro na vaga mais próxima da entrada; ao chegar em um prédio, mesmo que para ir ao primeiro andar, pega o elevador e não usa a escada. Sendo assim, para movimentar os músculos, é preciso ir à academia. Contudo, se você pensar que essa pessoa pratica exercício duas horas por dia e dorme oito horas, ainda tem 14 horas para se movimentar. O sujeito de hoje não se esforça nem para fechar o vidro do carro ou para sintonizar o rádio. Todos são absorvidos sem perceber por essa automatização e, claro, essas facilidades são boas. Temos 340 mil mortes no Brasil por infarto e por doenças do coração; dessas, cerca de 180 mil são por infarto do miocárdio. Essa situação já é ruim, mas vai piorar.
Milene: Essa displicência com a alimentação é extremamente preocupante, por isso, vale ressaltar que os hábitos saudáveis devem começar logo na infância?
José Ernesto: As escolas não estão educando para a alimentação saudável. As cantinas escolares deveriam incluir alimentos saudáveis e não apenas salgados, doces e refrigerantes. Não podemos proibir a venda desses produtos, porém, é necessário incluir saladas de frutas, sucos naturais e isso quase não existe. A criança não quer mais levar lanche na escola porque isso é careta e ela tem que comer as mesmas coisas consumidas pelo resto do grupo. Quem está sofrendo com tudo isso é a classe mais baixa, que está ficando mais obesa, mais hipertensa e mais diabética. Antigamente, os pediatras diziam assim: essa criança gordinha, se continuar assim, pode ser diabética no futuro. Hoje não, ela pode ser diabética agora. A dificuldade que nós, nutricionistas e nutrólogos, temos é que ficamos com o paciente uma hora por semana e eles ficam o resto do tempo convivendo em um ambiente obesogênico, automático e cheio de comida.
Milene: O senhor está aposentado, mas mantendo suas atividades. Conte-nos um pouco sobre esse novo tempo.
José Ernesto: Dou aula para o 4º ano de Medicina, estou na Universidade com a função chamada professor sênior, e ainda tenho atividades e projetos no Laboratório do HC. Além disso, toda sexta-feira, estou no ambulatório do GRATA e mantenho consultório na cidade. O grande problema da nossa vida é o seguinte: a universidade aposenta o docente quando ele completa 70 anos, mas nessa idade não dá para começar nada. Então, não esperei por esse momento. Eu fiquei 38 anos na Universidade e me aposentei antes para começar uma atividade nova. Esse é o grande dilema do aposentado: se a pessoa aposenta e não tem o que fazer, corre mais riscos. Estamos cansados de ver casos assim. Eu fiquei três anos além do que devia na Universidade, tentando planejar o que ia fazer para não ficar parado. Minha solução foi trabalhar, na clínica e no hospital. Ainda escrevo crônicas para um jornal, estou estudando português e fazendo aulas de violão.
Milene: Temos tido a oportunidade de nos encontrarmos aos domingos pela manhã na feira livre. Entre as diversas conversas, você sempre fala da neta com um “sabor gostoso”. Outro dia ouvi de uma paciente que os netos são a sobremesa da vida. É assim para você também?
José Ernesto: Além de comprar verduras, frutas e legumes frescos, a feira é uma atividade social, onde é possível encontrar os amigos, e gosto cultivar essas amizades. Ter amigos é importante na vida. Agora, sobre a minha neta, Isabella, acho que ela não é apenas a sobremesa, é um banquete completo.
EMOÇÕES COMPARTILHADAS
“Quando me convidaram para entrevistar alguém que traria um conteúdo interessante à Revide, não foi preciso pensar muito. O Dr. José Ernesto foi, e ainda é, muito importante para a ciência da nutrição, além de ser importante, também, para mim. Na ciência, teve papel fundamental para a nutrição clínica ser o que é hoje, desbravando caminhos. Para mim, foi um ótimo exemplo e professor em uma das minhas primeiras experiências profissionais. Formei-me em julho de 1983 e, dois meses depois, passei a integrar a equipe de nutricionistas do projeto de pesquisa de Prevenção de Doenças Cardiovasculares (PRECAVAS), sob a coordenação dele. Sua maneira inteligente e realista de abordar as questões relacionadas à alimentação me despertaram o interesse de ampliar minha compreensão sobre nutrição.”
Milene Ferronato, nutricionista
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian