Parece, mas não é

Parece, mas não é

Mesmo os alimentos mais saudáveis podem fazer mal se não fizerem parte de uma dieta equilibrada

Alimentos sem glúten, sem proteína animal, sem açúcar, ricos em antioxidantes; óleo de coco, goji berry e chá verde. Basta acessar a internet para encontrar uma dica com ares de milagrosa, seja para conquistar o corpo ideal ou a saúde perfeita. O próximo passo é a busca desenfreada nas prateleiras, até que, do dia para a noite, o alimento, até então imprescindível para as dietas, já não é tão bom assim e nem promove os efeitos anteriormente divulgados; da mesma maneira, outros, até então considerados vilões, saem do ostracismo para se tornarem indispensáveis à mesa.
Em meio a esse turbilhão de informações está o homem e sua eterna busca pela perfeição. Se os adultos se deixam seduzir pelas fórmulas mágicas de emagrecimento e pelos apelos da indústria do “saudável”, pode-se imaginar o que o culto exacerbado à beleza, aliado a essa profusão de informações, pode causar em adolescentes em plena construção da própria imagem e de sua identidade.
No mundo nutricional, as verdades contidas nas informações ganham um novo significado: mesmo os alimentos mais saudáveis podem se tornar perigosos quando consumidos sem consonância com uma dieta equilibrada. Quando o bom senso não é utilizado, abre-se espaço para o aparecimento dos transtornos alimentares: transtorno da compulsão alimentar, bulimia nervosa, anorexia nervosa e a recém-diagnosticada ortorexia nervosa, casos em que a obsessão pelos padrões do que come se torna tão intensa que todos os pensamentos são voltados à dieta. Nesses casos, calorias, vitaminas, agrotóxicos, hormônios e outros itens dessa natureza ganham tal importância que qualquer nutriente ou substância que não conste na lista dos “saudáveis” deixam imediatamente de ser consumidos.
No caso de José Francisco Teixeira, 63 anos, o difícil era o oposto: controlar o desejo de comer. Quando alcançou 151 quilos, o corpo deu os primeiros sinais: pressão e colesterol altos e dificuldade para executar tarefas simples passaram a comprometer sua rotina. Decidiu, então, mudar o modo de viver. Procurou uma nutricionista e sua dieta, sempre tão generosa em gorduras e carboidratos, passou a incluir alimentos mais saudáveis. “Dois anos depois, havia perdido 55 quilos e já não precisava de remédios — a pressão normalizou, o colesterol baixou e, hoje, sinto-me bem melhor, como uma criança”, afirma o aposentado.
José Francisco já consegue se dedicar às caminhadas e aos exercícios na academia. Sua atitude e os resultados obtidos motivaram parentes que sofriam do mesmo mal a buscarem ajuda. Esse desejo, conforme Carlos Gustavo Braga (CRM: 107.983), gerente médico do Saúde Plena do Grupo São Francisco, que atua com idosos e pacientes crônicos que sofrem com hipertensão, diabetes, colesterol e obesidade, é o primeiro passo para realizar uma grande mudança.


O atendimento às pessoas com obesidade é feito por uma equipe composta por enfermeiros, médicos, nutricionistas e educadores físicos, cujo objetivo é estimular os cuidados com a saúde e a mudança de hábitos. “A obesidade não discrimina idade ou sexo, mas os serviços são mais procurados por mulheres jovens, de 16 a 50 anos, preocupadas, principalmente, com a questão estética e com a qualidade de vida”, explica Carlos Gustavo.
Muitos pacientes procuram o Núcleo em busca de técnicas invasivas, como o balão intragástrico e a cirurgia bariátrica, prescritos para casos mais severos de obesidade. “Tais pacientes são direcionados às técnicas adequadas de emagrecimento. As pessoas acham que esses procedimentos fazem milagre, mas requerem uma grande mudança de vida e demandam ajuda multiprofissional. É possível perder mais de 60 quilos somente com mudanças de hábitos”, informa o gerente do Saúde Plena.


Um serviço, hoje, facilitado pelo  aplicativo de monitoramento, como o SFBio. Tal tecnologia reduz a distância entre médico e paciente, permitindo o acompanhamento à distância: as pessoas em tratamento postam fotos de seu cotidiano, das refeições e enviam dúvidas. A equipe de monitoramento recebe as informações em tempo real, podendo dar orientações nutricionais, apoio psicológico e estímulo para manterem o foco, instantaneamente.
Conforme o médico, Ribeirão Preto segue a tendência mundial de aumento de casos de obesidade, entretanto, tem uma população que busca qualidade de vida. Na compulsão alimentar, há vários fatores envolvidos, como o genético, o cultural, o sedentarismo e a má alimentação. “Prevenir é adotar hábitos saudáveis: praticar exercícios, ter uma alimentação variada e equilibrada, composta por todos os grupos alimentares, evitar o tabagismo e o álcool”, enfatiza o gerente do Núcleo Saúde Plena.
 

Pedido de ajuda

No Dia das Mães de 2012, Dinalva Aparecida Silva Colucci ganhou, em vez de presente, um choque de realidade. A filha adolescente a procurou pedindo que a internasse. Começou, então, a tirar a roupa até evidenciar o segredo que disfarçava com camadas e mais camadas de roupas: um abdome fundo, de uma menina que media 1,71 m e pesava apenas 38 quilos. Foi assim que a dona de casa percebeu o sofrimento da filha de 19 anos que, desde os 14 suportava secretamente a depressão que a levara ao ponto de deixar de se alimentar. Estava instalada a anorexia nervosa.
A essa altura, a menina que ela pensava estar feliz e socialmente adaptada, antes de dormir, chorava todas as noites, automutilava-se, arrancava os cabelos e passou a ficar agitada, nervosa e agressiva. Depois de internada por 10 dias, a adolescente tentou fazer tratamento, mas sem resultado positivo. Ao ser internada para uma cirurgia de coluna no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCRP-USP), Dinalva ficou sabendo do Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares do HCFMRP-USP e conseguiu tratamento para a jovem. Após recaídas, a filha reiniciou o tratamento há quatro meses e recuperou um pouco do peso: está com 45 kg.


Dinalva não percebia que a filha não se alimentava, acreditava quando a jovem dizia que havia almoçado e jantado, porque ela deixava os pratos sujos para convencê-la de que havia comido. “Ela sempre sofreu bulling na escola por ser magra demais. Uma das causas da depressão foi não conseguir passar no vestibular e, como eu trabalhava, não sabia como ela estava se sentindo”, conta a dona de casa. A jovem não é a primeira a sofrer com a doença. Seu irmão mais velho, hoje com 27 anos, aos 17 teve depressão, foi internado devido ao emagrecimento brusco e desenvolveu anorexia. Atualmente, é publicitário, está casado, tem dois filhos e já concluiu duas faculdades. Ao contrário da irmã, cuja luta ainda está sendo travada, ele superou o problema dois anos depois. Agora, usa a experiência para auxiliar a irmã a vencer o transtorno.


Ainda sem iniciativa para se alimentar, cabe à mãe acompanhar as refeições da jovem e a cuidar para que se alimente ao máximo. A batalha contra a doença é constante, cheia de altos e baixos. “Meu sonho é vê-la sair desse buraco, para que encontre um caminho, volte a estudar e seja feliz”, comenta a mãe, emocionada.
 

Regime de fome

Aos 15 anos, A. nem sequer pensava em peso ou calorias. De repente, começou a cortar alimentos em suas refeições, até que, em dado momento, quase não se alimentava — apesar da fome, só consumia frutas e legumes a cada 24 horas. Para ela, essas medidas não bastaram. “Comendo esses alimentos cheguei, em quatro anos, a pesar 35 quilos. Tenho 1,71 m de altura. Mesmo digerindo somente alimentos saudáveis, tomava laxante até seis vezes por dia. Nesse período, cheguei a ingerir cerca de 300 comprimidos, até que fiquei desnutrida”, conta a jovem de 20 anos. A mãe de A., Sirlei, conta que a moça não aceitava os alimentos e regulava o tamanho das frutas que comia. “Ela ficou 55 dias internada por desnutrição e depois foi encaminhada para o grupo de atendimento do HC”, conta a mãe. Em tratamento há dois anos, hoje, pesa 65 kg, mas foi um período muito difícil para Sirlei. “A gente fica muito triste, acabada, não sabe o que fazer. Os médicos disseram que, se ela não comesse iria morrer, mas eu tinha fé que ela ficaria bem”, comenta.

À base de água


V. estava um pouco acima do peso, mas consumia todos os grupos de alimentos. Aos 11 anos, demonstrou desejo de emagrecer e sua mãe, Luciana, comprou uma revista de dieta para incentivar. O regime não deu muito resultado, mas, no meio do ano, a jovem começou a emagrecer demasiadamente. Recebeu elogios da família, pensando que a dieta estava, finalmente, fazendo efeito. “Nem imaginava que ela simplesmente havia parado de comer. Ela escondia comida debaixo do sofá, dentro do guarda-roupa ou jogava fora e fingia que tinha jantado e almoçado. Um dia, ela desmaiou e a levei ao posto. Com 1,70 m de altura, de 72 kg ela chegou a pesar 33 kg em seis meses, usava sempre muita roupa, uma em cima da outra, para disfarçar”, conta a mãe.


A adolescente chegou ao ponto de não conseguir caminhar sozinha. Sentia fortes dores nas pernas, teve queda de cabelo, sobrancelhas e cílios e deixou de menstruar. Entrou em depressão quando teve que voltar a comer e, mesmo hoje, dois anos depois, ainda apresenta recaídas. “O processo é lento e ela está muito bem, mas, como esse transtorno não tem cura, vivemos em estado de alerta”, conta Luciana.


Para chegar aos 33 kg, V. primeiro cortou refrigerantes e doces. “Como não funcionou, deixei de comer ovo, salgadinho, fritura, e não adiantou. Depois tirei o arroz e o feijão e, quando me dei conta, só estava tomando água e, de vez em quando, um copo de leite. Em três meses, emagreci 10 kg”, relata V. O resultado do regime extremo da jovem foi queda de pressão e desmaios, cada vez mais frequentes. Quando procurou o médico, o diagnóstico previa duas possibilidades: câncer no estômago ou anorexia. “Não me passou pela cabeça que poderia chegar a isso. No começo, queria só comer melhor e não engordar e acabei substituindo a comida por água”, comenta V.



Hoje, a adolescente está bem e se alimenta melhor do que antes. “Às vezes, faz mal, mas procuro me lembrar do jeito que fiquei: quase perdi o movimento da perna, não tinha cabelo, sobrancelha, nem unha. Estou feliz comigo”, destaca. Quando pensa em emagrecer, V. percebe que não vale a pena. Sua maior dificuldade em relação à situação foi aceitar que tinha uma doença, mas sempre contou com o apoio dos pais e aprendeu a não desistir. “No começo é difícil, mas depois, é mais fácil aceitar o corpo como ele é. Somos vencedores, Deus se importa com o que sentimos e vamos levá-lo conosco. Chegamos aqui por algum motivo e jamais desistiremos porque,  no final, terá valido a pena, essa dor vai passar” analisa a jovem.


Desde que foi inaugurado, em 1983, o Grupo de Assistência em Transtornos Alimentares (GRATA) do HCFMRP-USP atendeu a uma média 250 pacientes. No momento, assiste 18 pacientes e seus familiares, sendo que desses, 12 sofrem de anorexia, quatro de bulimia e dois apresentam transtorno alimentar não especificado. A cada sexta-feira são atendidos, em média, seis pacientes, que passam por quatro especialistas: nutrólogo, psiquiatra, nutricionista e psicólogo, além de participarem dos grupos de orientação nutricional  ou de terapia ocupacional, que se revezam a cada semana, e do grupo de apoio psicológico. Há uma lista de espera de 13 pessoas, que devem ser chamadas para tratamento até o final do ano.


Conforme a nutricionista Rosane Pessa, vice-coordenadora do GRATA, a maior procura é de mulheres jovens, de 12 a 20 anos, mas há pacientes de até 30 anos. Os homens são minoria, pois, como visam ao emagrecimento acompanhado por músculos, acabam optando pela academia, em vez de recorrer à restrição alimentar. Os casos que aparecem no Grupo costumam ser bem graves.


Rosane ressalta que os transtornos alimentares não têm cura. “Há uma melhora clínica, já que são episódios que dependem da estabilidade emocional. Se surgirem dificuldades futuras, o transtorno pode voltar”, declara a nutricionista. Uma pesquisa de avaliação realizada com dez pacientes que receberam alta constatou que estavam bem, mas dois tomavam laxantes e adoçantes para controlar a alimentação e o peso. As recaídas são pouco comuns, mas acontecem: nos 30 anos de atendimento do Grupo, somente três ou quatro pacientes regressaram ao tratamento. Normalmente, um caso considerado satisfatório em termos de evolução, com boa adesão do paciente e dos familiares, o tratamento dura de três a cinco anos. 


Conforme Rosane, fatores socioambientais, como a pressão pela magreza, o culto ao corpo, as dietas rígidas associadas à instabilidade emocional, à preocupação em demasia com o controle de peso, a graves conflitos familiares, a relações simbióticas entre pais e criança e à superproteção tendem a contribuir para o desenvolvimento de transtornos alimentares. Geralmente, envolve questões genéticas, de personalidade, culturais e familiares, como perdas e separação. “Os pacientes com bulimia costumam relatar histórias de abandono, de abuso ou de maus-tratos na infância, são mais extrovertidos e desorganizados em termos de sentimentos. Aqueles com anorexia são mais perfeccionistas e introspectivos, mas, nos dois casos, a autoestima é baixa e quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico”, destaca a nutricionista. Nesses 30 anos de atendimento, em média cinco pacientes foram a óbito em função das complicações desses quadros, devido à desnutrição e a problemas cardíacos.
A especialista em Pediatria e Nutrologia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Valeria Moro (CRM 85.656), atua na área de Nutrologia Clínica na saúde pública e privada, como na Unimed. Conforme a médica, em termos emocionais, os pacientes com transtornos alimentares são insatisfeitos consigo mesmos e apresentam baixa autoestima e tendência ao isolamento social. “Muitas vezes, podem se mostrar tímidos e desesperançosos. Necessitam muito de aprovação e são bastante sensíveis a críticas. Sintomas depressivos e ansiosos são frequentes nesses transtornos”, comenta Valéria.
A especialista destaca que a preocupação familiar excessiva com alimentação, o culto ao corpo, o medo de engordar, a supervalorização  da estética e as dificuldades dos pais  com a autoimagem corporal podem influenciar, principalmente os filhos, levando a cobranças  excessivas e prejudiciais com a alimentação e a imagem corporal, podendo desencadear, num indivíduo predisposto, um transtorno alimentar. “A dinâmica familiar e questões envolvendo conflitos não resolvidos, sobretudo na relação mãe e filhos, podem estar associadas a alguns transtornos”, ressalta a médica.
É preciso estar atento aos sinais: comentários negativos sobre o corpo após fatores estressantes e perdas; preocupação excessiva com alimentação e dietas; exclusão  de grupos alimentares; diminuição cada vez maior das quantidades de alimentos ingeridas; preparo de receitas elaboradas, mas com recusa de prová-las; medo excessivo de engordar; transtornos da imagem corporal e grande insatisfação com o corpo; hábitos relacionados a exercícios físicos extenuantes; uso de laxantes, provocação de vômitos; comportamentos  com  tendência ao isolamento social e familiar e baixa autoestima; episódios de consumo de grande quantidade de alimentos com demonstração de falta de controle e perda de sinais de saciedade.
Muitas complicações podem ocorrer em decorrência dos transtornos alimentares. “Alterações metabólicas, deficiência de nutrientes, anemias, alterações cardíacas, como arritmias, bradicardias, alterações renais, atraso no crescimento, osteoporose, alterações dentárias, desnutrição na anorexia, com queda de cabelo, pele seca, alterações psiquiátricas com transtornos ansiosos e depressivos”, explica a médica. Nesses casos, a família deve levar o paciente para o tratamento, mesmo que haja recusa por parte deste. Os familiares devem participar ativamente da sua recuperação, inclusive fazendo terapia familiar, que é parte do tratamento.


Informações adequadas sobre alimentação saudável desde a gestação, transmitida a pais e a educadores, pode prevenir os transtornos alimentares, fazendo com que a criança desenvolva uma relação tranquila, adequada e prazerosa com a comida, tornando o momento da refeição mais especial. “Deve-se incentivar hábitos saudáveis, com atitudes positivas em relação à saúde e não o culto ao corpo perfeito irreal e inalcançável, mas a um corpo saudável. Aprender e ensinar a reconhecer e a lidar com as emoções também é importante, pois alegria, tristeza, insegurança e tranquilidade fazem parte da vida  e os problemas certamente apresentam soluções que não estão vinculadas às alterações do  comportamento alimentar”, conclui a médica. 

Reconheça os transtornos

Ortorexia
É um comportamento alimentar, ainda não reconhecido como diagnóstico no manual de psiquiatria, caracterizado por uma obsessão por comidas saudáveis. Preocupada com a qualidade da alimentação, a pessoa exclui da dieta grupos de alimentos sem a devida substituição, causando carências nutricionais. 

Anorexia nervosa
Caracterizada por magreza extrema, medo de ganhar peso, distorção da imagem corporal, autoestima influenciada pela percepção do peso corporal e da forma e negação da gravidade do baixo peso corporal. 

Bulimia nervosa
Episódios recorrentes e frequentes de comer grandes quantidades de comida, sem controle. Para evitar o ganho de peso, a pessoa recorre a vômitos, uso de laxantes e diuréticos, jejum e/ou exercício excessivo. 

Transtorno da compulsão alimentar periódica
A pessoa não tem controle da alimentação, come exageradamente, mas não recorre a artifícios para compensar o excesso, como ocorre com a bulimia, e ficam acima do peso ou com obesidade.

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