Parto em casa
Manifestação aponta os anseios das mulheres em relação a escolha de onde e como realizar o parto
O mês de junho foi marcado em Ribeirão Preto pela primeira manifestação de mulheres acerca do nascimento em casa. Chamada de Marcha do Parto em Casa, a manifestação reuniu mulheres de diferentes idades em frente ao Theatro Pedro II, que através de cartazes e sons, chamaram a atenção para a tematica do parto dito humanizado.
A marcha integrou um movimento nacional, articulado principalmente através das redes sociais, motivado pelo pronunciamento do Cremerj contra o médico Jorge Kuhn por ter se manifestado no programa de televisão Fantástico a favor do parto domiciliar em gestações de baixo risco. Segundo as manifestantes, o movimento não teve a intenção de fazer apologia ao parto domiciliar, mas sim reivindicar o direito de escolha da mulher.
“Hoje existem evidências científicas mostrando o parto domiciliar como uma possibilidade segura quando assistido adequadamente. Existem também evidências de que cesáreas agendadas ou sem indicação precisa são prejudiciais tanto às mães quanto aos bebês, e mesmo assim, sofremos de uma verdadeira epidemia de nascimentos cirúrgicos. Marchamos para protestar quanto ao abuso do corporativismo médico, que finge ignorar a violência obstétrica e a prática inadequada de inúmeros profissionais, enquanto persegue de forma hipócrita quem ousa respeitar a gestante em primeiro lugar. Marchamos para inspirar um novo olhar sobre a forma de nascer no Brasil e em nossa cidade. Marchamos por mais respeito e por uma assistência obstétrica de melhor qualidade. Marchamos pelo direito de escolha. Marchamos por acreditar no parto e no protagonismo da mulher., escreveu em sua página na rede social facebook, a manifestante Marina Bagnara Fernandes.
Mãe, ativista e uma das representantes da Parto do Princípio em Ribeirão Preto, Marina respondeu algumas perguntas para o portal da Revide. Acompanhe a entrevista.
Como esse movimento teve início em Ribeirão Preto?
Marina B. Fernandes - Mesmo com inúmeras campanhas da OMS e do Ministério da Saúde em favor do parto normal o Brasil é campeão mundial de cesáreas. Ribeirão Preto entra como uma das cidades onde a situação é ainda pior. As mulheres de Ribeirão estão praticamente sem opções. As que não aceitam se submeterem a cesáreas eletivas precisam buscar informações por conta própria, questionar e pressionar obstetras para que não sejam realizadas intervenções desnecessáreas. Muitas se sentem inseguras e coagidas. Já que existe esse desamparo em relação aos profissionais da saúde, começamos a buscar apoio umas nas outras. Nos reunimos para tirarmos dúvidas, resolver angústias, trocar relatos e isso fortalece demais, cria vínculos. Temos dentro do grupo um alto índice de partos normais satisfatórios, temos também mulheres que foram vítimas de violência obstétrica ou que foram submetidas a cesáreas indesejadas e que lutam para ajudar outras mulheres. Oficialmente, temos os GAPPs, que são encontros gratuítos mensais, promovidos pela Parto do Princípio, mas informalmente nos encontramos muito mais.
Por que resolveram ir às ruas em manifestação?
Marina B. Fernandes - Porque apoiamos a indignação, após a nota do Cremerj contra o médico Jorge Kuhn. Os Conselhos de Medicina fingem ignorar a violência obstétrica realizada a cada dia, aos montes, nunca emitiram uma linha contra a epidemia de cesáreas, contra os partos prematuros que são antecipados sem nenhuma indicação médica, muitas vezes por simples conveniência do obstetra ou do serviço. Ouvimos puérperas chorarem seus não-partos todos os dias e muitas vezes apenas por falta de preparo ou paciência da equipe. Sem contar nos prejuízos a saúde da mãe e do bebê que essa irresponsabilidade toda provoca. Isso tudo é um absurdo. Hoje temos milhares de mulheres que buscam informações e se apoiam aos poucos profissionais que priorizam a escolha da gestante dentro das possibilidades de uma assistência segura e embasada na Medicina baseada em evidências. Jorge Kuhn é um desses profissionais, é professor em uma das maiores universidades de Medicina do país. Inibir um profissional como esse. apenas por se pronunciar em rede nacional trazendo informações verídicas. é um grande desrespeito e afronta a democracia.
Como foi a sua experiência do parto?
Marina B. Fernandes - Meu parto foi normal, mas sofri intervenções desnecessárias e indesejadas como indução artificial do trabalho de parto, anestesia, episiotomia, ausência de recursos não farmacológicos para alívio da dor, etc.
Tem conhecimento de algum(a) médico(a) que seja favorável ao parto em casa?
Marina B. Fernandes - Em Ribeirão Preto nenhum obstetra faz essa assistência. Nem direito ao parto natural hospitalar temos aqui na cidade. Ou as mulheres procuram profissionais em outras cidades, viajando quilômetros em trabalho de parto ou importam profissionais para a assistência domiciliar.
Mais informações sobre o parto humanizado podem ser obtidas através do Despertar do Parto www.despertardoparto.com.br
Revide Online
Fotos - divulgação (Carol Mafra, Gi Brigato, Ludmilla, Mari Kuboiama, Helena Junqueira)