Passando de fase
Crescimento do mercado de jogos amplia oportunidades profissionais — e de diversão —, conforme esclarece o professor de programação de Ribeirão Preto Lucas Martins
Até o final do ano, o mercado mundial de games deve gerar uma receita estimada em 152 bilhões de dólares, de acordo com pesquisa realizada pela consultoria Newzoo, que possui escritórios nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. O destaque da tendência está nos jogos para dispositivos móveis, como celulares e tablets, que, sozinhos, têm o lucro estimado em 68,5 bilhões de dólares para desenvolvedores e jogadores.
Atualmente, o Brasil é o 13º maior mercado de games do mundo e o maior da América Latina. No país, o setor gerou 1,5 bilhão de dólares em 2018, o equivalente a R$ 5,6 bilhões, segundo dados da mesma consultoria. A pesquisa ainda mostrou que existem aproximadamente 75,7 milhões de jogadores — conhecidos como players — no país.
Em conversa com a Revide, o professor de programação Lucas Martins afirma que os games requerem moderação tanto para desenvolvedores quanto para jogadores, no entanto, os jogos podem contribuir com o desenvolvimento infantil. “Hoje, as crianças trocam experiências jogando on-line umas com as outras, além disso, há games que alimentam a criatividade de uma maneira impressionante”, afirma.
Temos acompanhado uma evolução no mercado de games, especialmente com a formação de profissionais nessa área. Como tem sido essa transformação em Ribeirão Preto?
Em Ribeirão Preto, já temos algumas desenvolvedoras de games, mas ainda existe muito espaço para crescimento, tanto na evolução das que já existem, quanto da criação de novas empresas. É importante fomentar o mercado para que haja evolução.
Há pessoas que jogam como profissão e outras que desenvolvem os jogos. Quais as possibilidades profissionais nessa área?
Desenvolver um game é quase como fazer uma produção cinematográfica de Hollywood: existem infinitas possibilidades de trabalho. Assim como no cinema existe o ator e o responsável pelo cenário, nos games temos o animador e o level designer. Existem, também, os jogadores profissionais, os que participam de competições e os que fazem entretenimento, como youtubers.
Desenvolver games é uma tarefa fácil?
A pessoa que queira aprender sobre o desenvolvimento de games precisa estudar muito. É igual produzir um filme, com vários cargos dentro da produção. Com o trabalho em conjunto, chega-se ao produto final. Os games não são diferentes. Há pessoas que criam os roteiros, os efeitos especiais, a animação, os programadores, os ilustradores, entre muitos outros profissionais. O importante é estudar um pouco de tudo, pois, com o conhecimento geral, você consegue ter uma visão positiva e se direcionar às áreas específicas. O que é fundamental é saber ler e conhecer um pouco do inglês. Eu dou um curso para crianças, que, com oito anos, já conseguem desenvolver coisas bem legais. Não é nada tão difícil. Se der certo, a chance de ganhar dinheiro em pouco tempo é grande. Não existe uma fórmula, se houver sorte, criadores podem ficar milionários. Há os mais variados gostos para jogos.
O que é preciso para se tornar um jogador de games profissional? E um desenvolvedor?
Para se tornar um gamer profissional, como em todo esporte, é necessário muito treino, disciplina e dedicação. Já no caso do desenvolvedor, o importante é possuir muito estudo e muita prática, pois o mercado é bem competitivo.
Existem oportunidades em Ribeirão Preto para quem deseja se aventurar nessa carreira, tanto no desenvolvimento quanto na prática de jogos?
Sim, esse mercado tem crescido muito e, diferentemente de outras profissões, é possível trabalhar no mercado global sem sair da própria cidade, desenvolvendo props ou animações e vendendo pela internet.
Há quem diga que, atualmente, crianças passam uma quantidade excessiva de tempo em frente às telas, jogando. Qual a sua avaliação sobre esse cenário?
Acredito que o mundo mudou muito nos últimos 30 anos. Brincar na rua com os amigos não é mais uma realidade frequente. Hoje, as crianças interagem e trocam experiências jogando on-line umas com as outras. Além disso, há jogos que alimentam a criatividade de uma maneira impressionante.
Como dica aos pais, como conciliar os games com as demais obrigações para manter uma vida saudável e evitar vícios?
Como tudo na vida, não se pode cometer excessos, pois a experiência se torna prejudicial. O ideal é ter os games como um hobby e não como uma necessidade diária. E, se for um desenvolvedor, saber se desligar do projeto quando não estiver trabalhando nele.

Em relação aos jogos, faz diferença respeitar a classificação indicativa?
Desde que foi lançado o Mortal Kombat, nos anos 90, há essa discussão, Nos Estados Unidos, o debate foi grande, pois lá há um conselho de pais e responsáveis sobre o assunto. Com isso, foi feito um sistema de classificação e, se for respeitada essa recomendação, não haverá problemas com os filhos. No Brasil, nós respeitamos e seguimos o molde norte-americano. Isso não significa que o jogo é proibido, mas ele é recomendado. O pai e responsável precisa ficar de olho no que o filho está consumindo, mas não só em games. É importante se atentar ao sistema de classificação em filmes, na televisão e nos conteúdos on-line. A criança jogar não significa que ela irá agir como no jogo, mas não se pode considerar tal pensamento como algo garantido.
Quais são os jogos mais procurados pelos fãs, atualmente?
Depende muito do fã. Existe uma infinidade de estilos e tipos de jogos, assim como de pessoas, e cada jogador se identifica mais com um tipo especifico. Os jogos mais jogados, atualmente, são o Minecraft e o Fortnite, que possuem estilos diferentes, mas têm milhões de adeptos no planeta em razão do leque de oportunidades diferentes criadas dentro do jogo e da interação entre os jogadores, além dos relacionados ao esporte, como Fifa e o Pro Evolution Soccer (PES).
Hoje é possível jogar jogos virtuais em várias plataformas diferentes. Isso permite mais adeptos a esses produtos. É uma forma de fomentar a indústria dos games?
A indústria teve um crescimento grande quando os smartphones se popularizaram, pois, hoje, cada um de nós tem um console no bolso. O mercado de games já é considerado o maior de entretenimento do mundo. Um reflexo disso é que os jogos movimentam outros canais, como o cinema, que, constantemente, lançam filmes baseados em histórias e nos vídeos do Youtube, onde jogadores apresentam os conteúdos aos fãs.
Os óculos com tecnologia de realidade virtual, que permitem a interação dos gamers no mundo on-line, chegaram para ficar?
Ainda não é possível saber se a realidade virtual é uma tecnologia capaz de se manter ao longo do tempo. Hoje já existem indicativos de que isso tem funcionado, mas ainda é algo recente. Tudo começou com o Nintendo Wii e, depois, no Xbox Kinect, que já permitiam tecnologia de interação. Pode ser que esse presente vire o futuro, tanto que marcas já lançaram o mecanismo sem fio.
Qual sua opinião sobre gameplays?
Eu acredito que, como toda novidade, é algo que renda opiniões das mais variadas. As gameplays são frequentes no Youtube desde o início da plataforma. Penso que as pessoas que têm crescido atualmente aproveitam desses vídeos para aprender e ver os jogos. As crianças buscam alguém que mostre o caminho, pois ainda não possuem certo tipo de habilidade para continuar. É um modo novo de se divertir. Isso acontecia, da mesma maneira, há um tempo, mas era na forma escrita.
Antigamente, existia forte pirataria na compra de jogos. Com a tecnologia avançada e a chance de jogar virtualmente, isso acabou?
Infelizmente não acabou. Apesar de tecnologias como a Steam terem barateado a distribuição, ainda existe um mercado muito grande para a pirataria. No Brasil, a carga tributária ainda é muito alta, levando muitos jogos a passarem da casa dos R$ 200.
O primeiro console mundialmente conhecido foi o Atari. Existe influência dessa origem no trabalho de desenvolvimento realizado hoje?
Com toda certeza! Os games antigos, apesar da interface simples, conseguiram cativar multidões de jogadores, muitas vezes em razão da simplicidade. Hoje, vemos as mesmas técnicas aplicadas em jogos casuais de celular e, também, games independentes.
Aos desenvolvedores, o que é preciso para divulgar um jogo?
Hoje é muito mais fácil e rápido publicar um jogo para celular. Há várias plataformas via computadores e também a Google Play e a Apple Store, mas ambas têm suas particularidades. Para publicar um aplicativo no serviço da Google, o valor é de 25 dólares, já na Apple, a conta paga fica em torno de 299 dólares. Há outros locais em que os jogos são publicados de maneira gratuita, mas a monetização é dividida com o responsável pela hospedagem.
Como funciona a monetização dos games?
Alguns games são monetizados por visualizações de vídeos no momento em que os jogadores estão conectados à internet. Cada propaganda vale por volta de um centavo de dólar, mas a porcentagem se torna milionária com o grande acesso de jogadores.
Como funciona o ganho aos criadores?
As empresas aproveitam muito os anúncios. Há vários tipos de monetizações de games. Alguns são eficientes, outros tradicionais e, outros, polêmicos. Nesse terceiro caso, o problema é que os jogadores têm acesso gratuito ou de baixo custo às plataformas, mas precisam investir constantemente nos jogos. Algumas marcas têm aproveitado dessas situações para ganhar dinheiro. É um sistema diferente do tradicional.
Glossário
• Games: jogos
• Gamers: jogadores
• Youtubers: Criadores de conteúdo no Youtube
• Steam: software de gestão de direitos digitais
• Props: suporte
• VR: Virtual reality ou realidade virtual
Texto: Pedro Gomes | Fotos: Luan Porto