Passarela (não só) do samba

Passarela (não só) do samba

Comumente associado a comemorações embaladas por marchinhas e batucadas, Carnaval foi, aos poucos, oferecendo ritmos distintos, com festas para todos os gostos dos foliões

Fantasias, danças e diferentes ritmos musicais tomam conta de uma das festas mais populares do planeta. O Carnaval — palavra derivada da expressão latina “carne levale”, que significa “retirar a carne”, ou seja, abster-se dela, associada ao controle dos prazeres mundanos — representa parte da diversidade cultural do país. Sendo multicultural, agrega várias tradições em um mesmo evento. E se antes o evento estava reservado aos amantes do samba e do axé, hoje, a festa que une cultura popular e de elite, está renovada a cada ano. Maracatu, rock, sertanejo, pagode, funk são alguns estilos musicais que fazem parte do repertório dos foliões.

A pesquisa “O cotidiano cultural em Ribeirão Preto: a cultura e o lazer entre os anos 1880 e 1920”, da pesquisadora Liamar Izilda Tuon, evidencia que o Carnaval tem origem na tradição europeia do entrudo e dos cortejos. A cultura negra influenciou a festividade ao longo das gerações: a festa já era celebrada no Rio de Janeiro desde o século XIX e os quatro dias que antecediam a quarta-feira de cinzas eram comemorados com o entrudo — brincadeira popular, de origem portuguesa, que consistia em jogar água, farinha e cinzas no público. Contudo, essa atividade foi proibida por um delegado de polícia em 1909. A partir dos anos 1910, grupos Carnavalescos como o Club dos Lords (1910), Clube dos Democráticos Carnavalescos (1912) e o Casacas Vermelhas (1916) se sobressaíam no município. Outro destaque da autora é que esse evento ficou elitizado, destinado aos sócios de clubes, por exemplo. Em 1918 e 1919, bailes de Carnaval da Sociedade Recreativa surgiam como opção de lazer à sociedade.
O Maracatu Chapéu de Sol foi fundado em Ribeirão Preto em 2008
Segundo Sandro Cunha dos Santos, professor de história, pedagogo e pesquisador de música popular brasileira, não há como falar da história do Carnaval de Ribeirão Preto sem mencionar a influência do francês François Cassoulet. Ele chegou à região em 1903, atraído pela economia cafeeira. O historiador relata que, em busca de riquezas, Cassoulet criou o Cassino Eldorado Paulista, uma casa de shows e diversões que se destacou nesse período e, consequentemente, levou o francês a ser conhecido como magnata das diversões. 

Desfiles dos primeiros carros alegóricos percorriam a região. A festividade era realizada nas avenidas que constituem o quadrilátero central da cidade. À época, Ribeirão Preto tinha uma população de aproximadamente 20 mil habitantes. Sandro ressalta que a festa mais agitada do ano durou até 1930, em razão da quebra da safra do café. “O primeiro cordão de Carnaval se formou na cidade em 1927. Dois anos depois, sob a presidência de Aristóteles, ele já havia se tornado Sociedade Recreativa Dançante Bambas. A escola desfilou no ano seguinte com 200 componentes. A primeira competição entre escolas de samba foi em 1936, quando dissidentes dos Bambas formaram o cordão ‘Meninos e Meninas Lá de Casa’, que foi campeã na estreia. Depois, surgiu a Escola de Samba Aliados, em maio de 1957”, lembra o historiador, que também foi um dos fundadores e organizadores do bloco Carnavalesco “Os Alegrões”, que desfilou pelo bairro Jardim Irajá e pelas ruas do centro por 11 anos. 
Maurício e Carolina afirmam que a ideia de criar o maracatu na cidade surgiu de mulheres que conheceram o estilo no Recife
Do nordeste

O Maracatu de Baque Virado ou Maracatu Nação é uma manifestação da cultura popular brasileira afrodescendente, originalmente de cunho religioso e do período escravocrata, datando, provavelmente, segundo historiadores, dos séculos XVII e XVIII, onde hoje é o estado de Pernambuco. Trata-se de uma mescla de culturas ameríndias, africanas e europeias. A explicação mais difundida entre estudiosos do assunto é que essa manifestação teria surgido a partir de coroações e autos do Rei do Congo, prática que pode ter sido implantada no Brasil por colonizadores portugueses. 

Influenciado pelo ritmo de séculos, o Maracatu Chapéu de Sol, fundado em 2008 em Ribeirão Preto, foi idealizado por mulheres amantes da cultura popular e que tinham certa ligação com o bloco “Alegrões”. Quando essas idealizadoras conheceram o Maracatu de Recife, decidiram criar um grupo que representasse essa cultura na cidade. Pouco a pouco, formaram uma identidade visual do estilo. “O Chapéu de Sol é uma árvore que existe em vários lugares da cidade, conhecida, também, como Amendoeira ou Sete Copas. A ideia era de que essa árvore representasse uma sombra em meio ao calor de Ribeirão Preto e que abraçasse a todos que fizessem parte do grupo. O maracatu é uma cultura afro-brasileira que representa um ato de resistência negra”, afirma Mauricio Puntel, dirigente do grupo. 

Para Carolina Gregório, integrante do maracatu, esse estilo ainda encontra muita resistência por parte de pessoas que ainda associam o ritmo à macumba ou algo semelhante. “Em tempos sombrios, de intolerância religiosa, preconceito, racismo e homofobia, é muito importante fazermos esse trabalho. Nosso som vem contra tudo isso, para mostrar a resistência de um povo. O maracatu não existe apenas na data do Carnaval, mas há 300 anos, lutando contra todas as questões já estruturadas na sociedade”, argumenta.
Segundo Portella, o Carnaval une todos em torno de um sentimento comum
De carteirinha

Dançando no ritmo em que for, há os ribeirãopretanos que aproveitam os festejos sem moderação, desfrutando, ao máximo, a alegria da data. Depois de curtir o pré-Carnaval das personalidades, em 23 de fevereiro, o empresário Marco Portella segue para São Paulo para desfilar pelo terceiro ano na escola de samba Dragões da Real. Em tempo: ele ainda participará da folia dos blocos de rua no Guarujá. “Desde criança gosto do Carnaval. Esse é um momento de extravasar, de estar ao lado de pessoas e interagir com elas. Uma festa onde não há distinção de rico, pobre, branco, negro. O evento une a todos em um sentimento de alegria”, reforça.
“A festa traz união e alegria, sempre exercemos um sentimento de amor”, destaca Garima
Ao mencionar o Carnaval, os olhos da professora de dança Garima Augusta Sitrangulo Calixto se enchem de alegria. Aos 65 anos, ela prova que a idade não é impedimento para se divertir na festa. Garima narra que desde muito cedo era frequentadora assídua de clubes como o de Regatas e sempre gostou de confeccionar e criar ideias de fantasias. “Sou uma pessoa que adora estar em bando. Eu gosto dessa folia, adorava quando eu tinha de bordar fantasias para o Regatas. O preparativo para o Carnaval é uma delícia. A festa traz união e alegria, sempre exercemos um sentimento de amor”, ressalta. 
“O clima Carnavalesco do Rio de Janeiro é leve, bem diferente de outros lugares”, enfatiza Ana
Para Ana Corsino Picão, contadora e presidente da Associação das Empresas Contábeis, o amor pela folia vem da cidade do Carnaval. Incentivada a conhecer o Rio de Janeiro por uma amiga, desfila com o marido há quatro anos pela escola de samba Império Serrano. “Sempre achei o Rio fascinante. O clima Carnavalesco de lá é leve, gostoso, bem diferente de outros lugares. Quando desfilo, sinto uma alegria imensurável, que transborda. Escuto a bateria e parece que toca o coração”, descreve com bom humor a contadora. 

Donos do som

Atualmente, ainda há riqueza de clássicos Carnavalescos, como as marchinhas “Mamãe eu quero”, “Abre alas” e “Me dá um dinheiro aí”. Contudo, com a evolução dessa comemoração ao longo do tempo, outros ritmos ganharam espaço e caíram no gosto do público, como a música feita pela banda Chavala Talhada. “Rock, samba, ska, reggae, groove, música. Os chavalas não se intitulam, não se rotulam, fazem som. Influenciados por tudo e por todos, não existem limites para criatividade dessa trupe”, como descreve a própria banda.

É com essa criatividade que, em meio ao Carnaval ribeirãopretano, os músicos levarão canções aos quatro cantos da cidade. Criado em 1999, o grupo mantém a formação atual há cerca de 10 anos. Os artistas prometem um Carnaval dançante, com músicas de Tim Maia e Jorge Benjor. “Pessoas novas foram agregando novos estilos e valores à banda. O rock é uma forma libertária de comunicação e sempre rompeu barreiras. Queremos agradar ao público que espera algo mais dançante nessa festa e não somente rock”, afirma o guitarrista Walter Oliveira. A banda lançará o disco “Luxo Tóxico e a Maravilha Curativa”. O novo single “Simbala” será lançado também após o Carnaval.

Tequila na Mesa é outro grupo que promete um Carnaval com muita bebida e samba no pé. Há cerca de seis anos na cidade, o vocalista Joraci Catarina, mais conhecido como Pará, percorre o município com mais oito amigos, apresentando um repertório diferenciado, especialmente em eventos corporativos. “É maravilhoso cantar em Ribeirão Preto, me sinto em casa. Neste ano tocaremos em quatro lugares, sinal de que as pessoas estão reconhecendo nosso trabalho”, comenta.

Dupla sertaneja formada há cerca de um ano também compartilha a experiência. Neto e Mateus, que já passaram por quase todas as casas de shows da cidade, mostram um repertório eclético. Pagode e funk são estilos que integram a moda. “Hoje, o ritmo está atrelado à festa, o sertanejo mistura muitos sons. Ele ganhou espaço porque se renovou com o passar dos anos. Estamos falando de um estilo inovador, que acompanha o ritmo da galera”, finaliza Mateus Segobe.

Dedicação ao samba

Com sete décadas de samba, Luiz Carlos do Nascimento, de 76 anos, conhecido popularmente como Nascimento, mostra que o ritmo persiste por gerações. A casa do Carnavalesco divide o mesmo espaço com a quadra da Escola de Samba Embaixadores, dos Campos Elíseos. Ele, que já foi passista-mirim, mestre-sala e diretor de bateria, luta para que uma das culturas mais populares do Brasil não morra. “Chegamos a ter em 14 escolas em Ribeirão Preto. Lembro-me de quando subia a General Osório e fazia um desfile em frente à Esplanada do Theatro Pedro II. Comecei no Carnaval com seis anos. A festa daqui foi uma das melhores do interior paulista, com escolas como a Acadêmicos da Vila Paulista, Aliados e os Bambas. Espero que um dia elas retornem”, lembra, saudoso. No domingo e terça-feira de Carnaval, a festa no local onde Nascimento cresceu promete esquentar a quadra da escola. Sem poder desfilar pelas ruas da cidade, ele, ainda assim, garante que o público irá se divertir com passistas, grupo de bateria, destaque, mestre-sala e porta-bandeira, bem como intérpretes que cantarão samba-enredo. A promessa é de casa cheia. A escola, que conta com 600 componentes e cinco carros alegóricos, já foi a casa de ensaios dos jovens estudantes de medicina da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp).

Para o historiador Sandro Cunha dos Santos, além da música e de todas as expressões culturais, o Carnaval traz identidade. Ele se torna representativo em razão da diversidade e reflete distintas formas de viver e expressar de um povo. “O Carnaval de Ribeirão Preto, hoje, é pobre. Não há mais escolas de samba e os blocos estão minguando por falta de apoio do poder público e de empresas. Ao invés de facilitar e incentivar os blocos, ele dificulta com burocracia extrema e falta de incentivo finaceiro, o que desanima os entusiastas do Carnaval. Espero que os blocos resistam bravamente a tudo e a todos”, finaliza.

O goiano Gustavo Almeida estará pela primeira vez no Carnaval da cidade. O mestre de bateria de medicina da Atlética da Unaerp é apaixonado por samba e, para ele, a festividade é um momento de deixar as preocupações de lado e curtir com os amigos. “O samba, para mim, é alegria, carrega história e a identidade do estilo me fascina”, comenta o estudante. A também goiana Ana Carolina Santana, diretora da mesma bateria de que Gustavo faz parte, ainda não sabe em que bloco sairá, mas tem certeza de que os dias serão de muita festa. “A época é de aproveitar, resgatar origens e estar ao lado de amigos no momento que todos vão se unir em torno de diferentes estilos musicais”, acrescenta.

Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão, Júlio Sian e divulgação.

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