Patrimônio cervejeiro

Patrimônio cervejeiro

Ribeirão Preto ganha destaque entre as produtoras de cerveja artesanal

Carioca apaixonado por Ribeirão Preto, Marcelo Carneiro ainda trabalhava no laboratório farmacêutico da família quando viu-se intrigado ao ser questionado sobre microcervejarias. Yussif Ali Mere Jr., médico nefrologista que divide a presidência do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de Ribeirão Preto e Região (SINDHORP) e do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de São Paulo (SINDHOSP), também se surpreendeu com a descoberta de novos sabores de cerveja. Rodrigo Silveira é um empreendedor nato curioso por natureza e sempre manteve a ideia de que, independente do setor, seria um empreendedor. Augusto Balieiro atuava no ramo de organização de feiras e eventos há 26 anos e, ao lado dos filhos e de amigos, resolveu desbravar novos horizontes e difundir o gosto pela cerveja herdado do pai.  Todos eles mudaram os rumos de sua vida por causa da bebida feita de lúpulo, malte e levedura, uma das preferidas dos brasileiros. A arte de fazer cervejas artesanais tem atraído cada vez mais adeptos e apreciadores, uma vez que permite a criação de uma receita própria, um desafio prazeroso. Graças a empreendedores como esses, Ribeirão Preto está resgatando sua história cervejeira e vem tornando a “Capital do Chope” na terra também da cerveja, especialmente daquela direcionada a quem prefere mais qualidade, em detrimento da quantidade.


JEITINHO BRASILEIRO

A paixão pelo trabalho pode ser vista nos olhos do empresário Marcelo Carneiro. Ao contar a história sobre o nascimento da Cervejaria Colorado, destaca a ânsia e a dedicação que teve para desbravar novos sabores. Segundo o conselho de um amigo, que sugeriu que ele abrisse uma microcervejaria em Ribeirão Preto, Marcelo reuniu a família e, juntos, resolveram investir na experiência. Pioneira no setor de cervejas artesanais em Ribeirão Preto, a Colorado completou a maioridade, acumulou prêmios nacionais e internacionais. Aos 18 anos, a cervejaria é uma das mais famosas do Brasil. Da fábrica, localizada em um bairro tradicional de Ribeirão Preto, os Campos Elíseos, saem cerca de 150 mil litros de cerveja por mês, o que só confirma o fato de que a cervejaria atingiu seu ponto alto em relação aos quesitos sabor, produção e distribuição de cervejas artesanais.

Segundo Marcelo, em 1996, ano em que inaugurou o “restaurante cervejaria”, as microcervejarias eram destaque nos Estados Unidos, mas ainda não havia expectativa para que chegassem ao Brasil. “Abrimos a Colorado no final de 1996, já com oito chopes diferentes, seguindo o estilo mais amargo das cervejas puro malte. Por mês, produzíamos de 5 a 10 mil litros, mas as pessoas achavam o sabor estranho. Naquela época, os consumidores estavam acostumados a beber as chamadas cervejas “louras” e demoraram a captar a essência das cervejas artesanais”, conta o empresário.

Hoje, a Colorado exporta para países como Estados Unidos, França, Japão, Nova Zelândia e Noruega. “Fico feliz em saber que parte desse sucesso ocorreu a partir do momento que, ao lado da minha família, decidi romper barreiras e apostar na identidade brasileira”, declara, orgulhoso.

A identidade brasileira a que se refere está relacionada aos produtos tipicamente nacionais utilizados em suas receitas. A ideia surgiu nas viagens do empresário, que percebeu que grandes escolas cervejeiras buscavam valorizar os ingredientes locais. “Resolvi fazer cerveja com o que tinha a minha volta. Utilizamos rapadura, café, castanha do Pará e mandioca”, lista Marcelo. Essa prática tornou-se uma tradição e, atualmente, toda cerveja Colorado tem um ingrediente bem brasileiro. Além disso, as cervejas produzidas na Colorado levam em seus rótulos diversas histórias. A Vixnu, por exemplo, tem esse nome em homenagem a uma deusa hindu que cuida do mundo abandonado por outro deus hindu, Brahma, enquanto a Berthô, feita com castanha do Pará, lembra o nome científico da árvore desse fruto, a Bertholletia Excelsa. O cervejeiro destaca que, desde o início, a Colorado usa a água proveniente do Aquífero Guarani, uma das maiores e mais puras reservas de água doce do mundo.  “Além disso, incluímos uma boa dose de ousadia, originalidade e tradição”, pontua.

Criado, simultaneamente, com a fábrica de cerveja, o Colorado Cervejarium é um dos locais pioneiros em Ribeirão Preto direcionados aos adeptos de cerveja artesanal. “Além de ter todas as nossas cervejas, às vezes, há rótulos convidados e outros fabricados em diferentes regiões do Brasil”, orgulha-se Marcelo. Nas paredes do bar estão expostos rótulos de cervejarias brasileiras já fechadas. Para o cervejeiro, o Cervejarium é um verdadeiro “museu” das cervejas artesanais nacionais.

A história da Colorado está conquistando o mundo e, para isso, conta com o auxílio dos novos apreciadores das cervejas artesanais. Para o cervejeiro, o sucesso é consequência. “Esse reconhecimento torna o prazer maior ainda, mas faço cerveja porque gosto, e o que eu gosto mesmo é ver que, da Colorado, surgem novas cervejarias e outras ideias. A gente faz mais do que cerveja, fazemos uma revolução”, finaliza.

CONQUISTANDO PALADARES

À frente da Cervejaria Lund, o empresário Yussif Ali Mere Jr. analisa o reflexo dessa nova onda cervejeira para o Município. Segundo o empresário, quando a fábrica foi implantada na cidade, há cinco anos, apenas três tanques fabricavam seis mil litros — atualmente, são 30 mil litros. “Ao experimentar a cerveja artesanal, o consumidor sentirá a diferença no primeiro gole. Para produzir essa cerveja, é necessário um minucioso cuidado com a matéria-prima. Ao apreciar as cervejas artesanais, é possível perceber a riqueza de aromas e sabores”, pontua Yussif.

Toda a produção da Lund é elaborada com base na Lei da Pureza Alemã, de 1516, que determinava que a cerveja daquele país só poderia ser produzida com água pura, malte e lúpulo. O fermento, por sua vez, foi inserido na lei anos mais tarde. Atualmente, a cervejaria produz quatro estilos de cervejas: Pilsen (cerveja mais leve e mais consumida), Munich Dunkel (de tonalidade escura por conta do malte torrado em sua composição), Hefe-Weizen (cerveja de trigo alemã) e Witbier (bebida de estilo belga). “Cada cerveja traz nuances diferentes em seus sabores, por isso, o consumidor deve estar aberto a conhecer estilos e ter novas sensações bebendo cerveja”, acrescenta. O empresário destaca que o consumidor iniciante pode começar por uma cerveja do estilo Pilsen, menos complexa, e depois experimentar opções mais encorpadas.

Além de fabricar as cervejas artesanais, a Lund também possui um espaço integrado na cervejaria, onde os clientes podem degustar os quatro estilos da cerveja ou realizar seu evento. “Aos sábados, durante todo o dia, os clientes podem degustar as cervejas aqui”, convida o empresário. Yussif ressalta que Ribeirão Preto possui grande potencial de consumo e produção das artesanais. “Com as cervejarias locais, estamos reanimando a tradição cervejeira de Ribeirão Preto de uma maneira diferente, dando à cidade mais um atrativo turístico”, observa o especialista.

Apesar da expansão, o mercado de cervejas artesanais ainda é pequeno no Brasil, a Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe) estima que existem, hoje, cerca de 200 microcervejarias em atividade, mas elas representam apenas 0,15% do setor cervejeiro nacional, dominado por grandes empresas. “A participação das cervejas artesanais ainda é pequena no Brasil. Contudo, com qualidade, dedicação e união do setor, chegaremos aos 2% em breve”, salienta.

AGUÇANDO OS SENTIDOS

Desde que os olhares se voltaram para as cervejarias artesanais, o setor está se sofisticando. Nesse cenário, já são muitos os títulos conquistados pelas marcas ribeirãopretanas. Um exemplo disso é a Cervejaria Invicta que, com três anos, já conquistou paladares nacionais e internacionais. Desde o início, a trajetória da Invicta é marcada pela experiência e pela dedicação do mestre cervejeiro Rodrigo Silveira, que trabalhou durante 11 anos em uma renomada cervejaria ribeirãopretana. Desde então, vêm se dedicando a estudar, experimentar e desbravar os mistérios das cervejas artesanais.

Segundo Rodrigo, o plano inicial da Invicta era ser uma fábrica para a cerveja de terceiros: as cervejarias que tivessem toda a capacidade comprometida, assim como cervejeiros caseiros e empresários em busca de receitas exclusivas poderiam recorrer ao local. “Porém, depois de muitas pesquisas, vi que esse meio não era vantajoso. Então, fui em busca de um sócio e, juntos, estruturamos a Invicta. Além das nossas cervejas, ainda produzimos rótulos para terceiros, pois é uma troca de experiência muito intensa”, argumenta Rodrigo.

A Invicta é o carro-chefe de todas as cervejas da linha, que tem nos rótulos o complemento de um nome próprio ou estilo. Em 2011, ano da inauguração da fábrica e do bar, a Invicta lançou dois rótulos: Invicta Imperial India Pale e a Invicta India Black Ale, com um estilo mais ousado. “Não era tão comum escolher bebidas desses estilos para lançar logo após a inauguração da fábrica. Mas as cervejas da Invicta sempre têm algo a mais. Inovamos, por exemplo, com os quatro elementos básicos — água, lúpulo, fermento e malte — ou trazemos um ingrediente de fora da lei de pureza”, explica o cervejeiro. Hoje, a fábrica produz 45 mil litros ao mês.

A produção de uma cerveja passa por diversas etapas e, segundo o mestre cervejeiro, o desenvolvimento de uma receita pode demorar anos entre a pesquisa, o estudo e o resultado. “Tenho receitas guardadas há anos, assim como outras ideias surgiram e rapidamente foram realizadas com excelência”, completa.

Em 2014, por exemplo, a Invicta celebrou o aniversário de três anos, com o lançamento da Bavarian IPA, que traz um ingrediente inusitado, a Damiana, flor famosa por suas propriedades afrodisíacas de aroma singular. “A ideia de uma receita surge, primeiro, de um gosto pessoal — em algum momento experimentei uma cerveja e quis fazer algo parecido. Também pode seguir uma tendência de mercado, que pede por determinado estilo de cerveja. Partindo desse princípio, damos um toque Invicta à cerveja”, explica Rodrigo.

O ingrediente especial da Invicta já foi aprovado dentro e fora do país. O resultado pode ser visto em diversos prêmios conquistados. Em 2014, a Cervejaria ficou com a uma medalha de ouro e outra de prata no South Beer Cup, realizado em Belo Horizonte. A Invicta + 2 Cabeças Saison à Trois, cerveja colaborativa, levou o ouro na categoria Belgian and French Ale. Para Rodrigo, as novas fábricas e o aumento da renda per capita no Brasil estão permitindo que as artesanais se tornem conhecidas de um público cada dia mais amplo. “Tudo isso mostra o crescimento do setor microcervejeiro”, pontua.

CERVEJA FEITA EM CASA

Visitar as microcervejarias da cidade é uma experiência impressionante. Das quatro fábricas localizadas em Ribeirão Preto, três estão operando no limite de sua capacidade e passam por obras de ampliação. A Walfänger Cerveja Gourmet, que será inaugurada no final deste ano, já iniciará a produção de seus rótulos em um local com capacidade para atender ao crescente público cervejeiro.

À frente da Walfänger, o empresário Augusto Balieiro revela que sua família sempre foi apreciadora de cervejas e, há cerca de ci nco anos, começou a pesquisar sobre sua fabricação e os estilos artesanais. “Acredito que começamos a ter mais oportunidade de tomar cervejas diferentes das habituais”, afirma Augusto. Não demorou muito para que, ao lado dos sócios Raoni, Diego, Caio e Thiago, se envolvesse completamente com o tema e criasse a Walfänger. “Há dois anos, estamos trabalhando no projeto físico da indústria, entre procurar o local, idealizar os espaços e harmonizar os rótulos com o cardápio da casa”, explica Augusto.

A previsão para a inauguração da cervejaria — que estará localizada em Bonfim Paulista — é o final de 2014 ou início de 2015. “Os apreciadores de cervejas gourmet podem esperar um espaço exclusivo, com boas harmonizações e decoração singular: uma verdadeira Boutique da Cerveja” define Augusto.

Enquanto a inauguração não acontece, os empresários trabalham em um espaço piloto onde fazem experimentos das cervejas, discutem e degustam novas receitas. “Optamos por produzir a bebida no estilo alemão, que segue a lei da pureza”, expõe o empresário.

Inicialmente, a Walfänger irá produzir 14 mil litros de cervejas e apresentará ao público três rótulos: Helles (cerveja do estilo alemão com característica mais leve), Weiss (cerveja de trigo, com aroma e paladar enigmático agradando, principalmente, as mulheres) e Doppel Bock (cerveja com teor alcoólico mais elevado, que leva o dobro do malte, ótima opção para o inverno).

Augusto completa que cada cerveja tem seu tempo de maturação diferente e o segredo está nas combinações de cada receita. “Não queremos apenas promover um produto de qualidade, mas também apresentar uma experiência única aos apreciadores das cervejas artesanais, como degustá-las juntamente com um prato exclusivo. Nossas receitas, por exemplo, levam as cervejas como ‘tempero’”, antecipa. Para o empresário, fazer cerveja é uma arte e todas são suas variáveis que fazem o estilo e a sofisticação da cerveja. “Nossa expectativa é atender aos cervejeiros que querem uma experiência única, com tudo estudado e preparado, pronto para servir”, conclui.

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian
Produção de moda: Marcela Versiani
Diagramação: Lucas Chaibub

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