Patrimônio em risco
Fissuras surgidas nas paredes e nas cúpulas da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto podem comprometer, a médio e longo prazos, a segurança do templo
Cravada no centro nervoso de Ribeirão Preto, a Catedral Metropolitana, se não fosse um bem material e cultural, poderia ser considerada uma das maiores testemunhas da história ribeirãopretana. Sua localização central e os pontos de ônibus instalados em seu entorno a transformam em um importante aporte à malha viária — partindo da Catedral, pode-se chegar a qualquer lugar do município. Mas a importância da Igreja para a comunidade é bem anterior às facilidades que sua localização propiciam ao deslocamento de cargas e de pessoas.
Quando, em 1904, lançaram a pedra fundamental para a construção da Matriz de São Sebastião, estavam, na verdade, iniciando a construção de um lugar que se converteria no principal ponto de encontro da cidade: namoros, conversas de negócios, bate-papos, combinação de eventos, convites — as missas eram, no início do século passado, o melhor lugar para o convívio social e seus desdobramentos. Na Igreja, reuniam-se políticos, comerciantes, profissionais liberais, pessoas de todas as idades e camadas sociais. Enfim, não é exagero dizer que boa parte da vida social ocorria ou se iniciava nos bancos ou ao redor da igreja.
Há cinco ou seis anos, duas pequenas rachaduras começaram a surgir nas paredes e nas cúpulas da Catedral, que aumentaram com o passar do tempo. Atento à evolução dos estragos, padre Francisco Moussa comunicou, no início de dezembro do ano passado, que pretende pedir a interdição do trecho da rua Florêncio de Abreu, que fica em frente à Catedral, para criar um calçadão, já que um estudo de engenharia de uma empresa paulistana, Falcão Bauer, indica o intenso tráfego de veículos como uma das possíveis causas dos danos nos afrescos e nas paredes do templo. “Chamamos uma empresa especializada para uma consultoria técnica que explicasse o que estava causando essa deterioração. Preliminarmente, o trânsito intenso de caminhões e ônibus, no entorno da igreja, foi um dos fatores apontados como possível causa, assim como a absorção de água da Praça das Bandeiras e da Catedral”, conta o pároco. 
O padre se refere à retirada de duas calçadas laterais ao redor da Igreja. Por isso, há possibilidade da água da chuva e da irrigação dos jardins estarem afetando o alicerce da construção. Outra hipótese que pode estar colaborando com o aparecimento de rachaduras é um vazamento de água: há um hidrômetro que não para de rodar e um técnico fará a sondagem de terreno para detectar onde está o possível vazamento. “Todas essas hipóteses estão sendo verificadas, inclusive a incidência de cupins na terra do jardim. Quanto à vibração do terreno, será trazido um aparelho para medir a intensidade do trânsito de veículos”, afirma Padre Chico, acrescentando que, no momento, aguarda o laudo técnico que apontará a obra a ser executada.
Segundo as observações preliminares dos técnicos paulistanos, as rachaduras representam um risco a médio e longo prazos, sendo que as deteriorações mais preocupantes afetam o presbítero. Como a Igreja não tem condições de realizar uma reforma deste porte, o padre pretende fazer projetos relacionados à cultura em âmbito municipal e estadual para conseguir apoio financeiro. “Temos que conseguir parceiros nas esferas pública e privada para realizar a restauração. Acho justo pedir a contribuição de todos, já que a Catedral retrata a história da cidade, sendo uma das igrejas mais visitadas do interior de São Paulo e um dos pontos turísticos de Ribeirão Preto. Tentaremos fazer parcerias com todas as lideranças do município para recuperar este patrimônio da cidade”, destaca.
Conforme Nainôra Maria Barbosa de Freitas, doutora em História e professora de História do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto nos cursos de Filosofia e Teologia, e de História no Centro Universitário Barão de Mauá, foi o culto ao santo padroeiro que estimulou o surgimento da Vila de Ribeirão Preto. “Foi a partir da Capela de São Sebastião que se originou a Vila. A Igreja não foi feita para suportar esse tráfego pesado que existe hoje em seu entorno”, ressalta a historiadora, acrescentando que em qualquer parte do mundo as pessoas se ajustam para preservar os patrimônios culturais.
A professora afirma que o Theatro Pedro II é protegido por um calçadão, que assegura mais garantias de preservação e questiona por que não pode ser feito o mesmo em relação à Catedral, que também é um bem cultural. “O templo é um legado construído com o esforço de gerações que se mobilizaram, fizeram festas para angariar fundos para usufruir deste bem”, explica. Nainôra conta que, a até a República, o catolicismo era a religião oficial do Estado e todos tinham que frequentar a Igreja, o que fez com ela se tornasse um ponto de encontro social. “Além das obras de arte valiosíssimas, que retratam uma geração, a Igreja tem um significado para a estrutura de Ribeirão Preto”, destaca. Ainda que seja necessário desviar o trânsito, mudar o local dos pontos de ônibus, a historiadora acredita que vale a pena. “Tem que ser feito. As pessoas precisam entender que a Catedral compõe a história da comunidade, não pode ignorar esse bem cultural. A importância Catedral está acima das diferenças de crença porque a igreja é um bem patrimonial de Ribeirão Preto”, defende.
Fernando Antunes, gerente de trânsito da Transerp, afirma que o órgão não tem como se posicionar enquanto não tiver o resultado do laudo técnico, mas tem dúvidas quanto ao fato de as fissuras nas paredes serem decorrentes do tráfego de veículos em torno da Catedral. “Pode ser decorrente de problemas da fundação, da vida útil do material utilizado, o que não é incomum em obras com mais de 50 anos de idade”, sugere.
O gerente de trânsito explica que o tráfego na região é limitado a 3,5 toneladas de carga e a uma velocidade de 40 km por hora. Ele ressalta que o sistema viário ribeirãopretano é antigo e que a Florêncio de Abreu é um importante elo entre as zonas leste e oeste da cidade. De qualquer maneira, acha mais prudente aguardar o resultado dos estudos solicitados pelo Padre Chico antes de se pronunciar, mas acrescenta que considera improvável uma ligação entre o intenso tráfego e as fissuras das paredes, já que nunca recebeu nenhuma outra queixa do gênero de proprietários de outros imóveis daquela região.
A presidente do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural do Município de Ribeirão Preto (Conppac), Dulce Palladini, afirma que está aguardando o envio de um dossiê, com um laudo certificado por responsável técnico, que especifique os restauros necessários, com as respectivas fotos para que possa autorizar as possíveis intervenções.
Segundo Dulce, não existe, no município, nenhuma lei que impeça a circulação de veículos pesados ao redor de patrimônios tombados. “Mas nada impede que os vereadores criem essa lei”, destaca. A presidente do Conppac acredita que a Igreja não foi projetada para suportar o tráfego intenso atual e também que, ainda que a mudança cause algum transtorno inicial, a população acabará se adaptando às mudanças. “Desde que os pontos de ônibus estejam bem localizados, em espaços protegidos de chuva, e ofereçam conforto, pode haver alguma reação no início, mas, a população logo perceberá que a mudança foi para melhor. Há sempre uma boa aceitação quando as alterações são conduzidas de forma bem organizada e conduzida. As pessoas sabem o que é bom”, acrescenta.
Dulce afirma, ainda, que a Catedral é um marco religioso, cultural e histórico e que tudo deve ser feito para garantir a sua preservação.
O povo fala
Mesmo com a possibilidade de alterações importantes na malha viária, a população defende a preservação da Catedral. A Revide foi às ruas na última semana para perguntar: “Você concorda com a interdição da Rua Florêncio de Abreu e com a transformação do trecho em um calçadão se for para preservar a Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto?”. Saiba o que os ribeirãopretanos acham sobre essa possibilidade.

“Todo patrimônio deve ser conservado. Além do mais, as pessoas poderão circular melhor pelo Centro e acho importante o bem-estar da população.” Adilson de Oliveira Ortolan, livreiro

“Eu quase não uso ônibus, mas concordo com a mudança se for para preservar o patrimônio. Acho que vale a pena.” Maria Lúcia Baronceli Medeiros, agente administrativo

“O trânsito no Centro está muito ‘estrangulado’. Se for para melhorar e para preservar a Catedral, vale a pena.” Osmani Cripriano da Silva, auxiliar de enfermagem

“Acho negativa a ideia: vai proteger um patrimônio, mas vai afetar o comércio. Não acredito que os ônibus estejam deteriorando o patrimônio.” Salomão Mesquita de Alencar, empresário
História contada em livro
Para quem tem interesse em conhecer melhor a história da Catedral, vale a pena ler “Catedral Metropolitana de São Sebastião”, escrito pela jornalista Rosana Zaidan, publicado pela Editora Coruja. A obra pode ser adquirida na Livraria Paulus, na Paraler Megastore, na livraria da Catedral ou através do site www.editoracoruja.com.br.
Texto: Carla Mimessi
Diagramação: Marcelo Mantovani