Patrimônio em risco
A instabilidade financeira mexe com as estruturas de uma das maiores instituições culturais do município: a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto
Mais uma vez, o patrimônio cultural mais antigo e um dos mais importantes do município, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP), passa por uma crise. O ano de 2014 ainda não acabou para os que dependem da Instituição: dois salários e o 13º salário não foram pagos, apesar de estarem em dia os vencimentos relativos a 2015. Devido a essa insegurança financeira, seis músicos já saíram da Orquestra. 
A crise econômica tornou o cenário ainda mais desalentador: a Prefeitura de Ribeirão Preto, parceiro histórico da OSRP, não renovou o convênio firmado com a Orquestra, que não poderá contar com o repasse de R$ 500 mil para 2015. Apesar de a Associação Musical de Ribeirão Preto, mantenedora da Orquestra, já ter reduzido o passivo da OSRP em aproximadamente 50%, nos últimos quatro anos, para restaurar o equilíbrio financeiro terá que enfrentar um déficit de cerca de R$ 1,5 milhão.
Para os músicos, a situação é alarmante, pois muitos não têm a quem recorrer. “A maioria não tem família no município, sendo alguns, inclusive, estrangeiros. Escolhemos Ribeirão Preto para viver atraídos pelo trabalho. Alguns que têm outras fontes de renda estão um pouco mais tranquilos, mas tem gente desesperada. Há contas a pagar e elas não esperam. A Orquestra é de onde tiramos o nosso sustento”, conta o flautista Sérgio Francisco Cerri Júnior, que atua na Orquestra há 14 anos.
Parcival Módolo, ex-regente titular e diretor artístico da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, tem acompanhado a crise e decidiu contribuir, assumindo os mesmos cargos na OSRP. “A crise da Orquestra não é musical, é financeira, pois, tecnicamente, é uma das melhores do Brasil”, afirma. Porém, Parcival reconhece que a situação de crise pode acabar interferindo na excelência do trabalho, pois se trata de uma orquestra para 80 postos, que atualmente conta com 55 músicos, o que reduz a possibilidade de realizar qualquer obra, além de onerar a Associação Musical. “Se não tivermos um fagote ou um oboé para realizar um concerto, temos que contratá-los. Além do mais, músicos contratados têm outra técnica, podendo interferir na qualidade do trabalho”, explica o maestro.
Parcival destaca que a formação de um bom músico leva, em média, 15 anos e ter que abrir mão de profissionais com esse
nível de excelência é uma perda inestimável e um risco cada vez maior, pois não faltam convites a músicos de qualidade. Segundo o regente, a população tem que se conscientizar de que a OSRP é de todos e que a Orquestra e o Theatro Pedro II constituem o mais importante aparelho cultural de Ribeirão Preto, já que se completam. “Hoje, existe Lei Rouanet, mecanismos de incentivos à cultura e vemos o trabalho de um século de uma das mais importantes orquestras do Brasil, histórica e musicalmente, ir pelo ralo”, comenta Parcival. 
A gerente administrativa da Associação Musical, Mariangela Quartim, enfatiza que o maior problema enfrentado na gestão é a oscilação constante de receita. “Se parte das pessoas se juntar e colaborar com um pouquinho, se tivermos um número maior de associados, conseguimos honrar a folha de pagamento da Orquestra”, comenta Mariangela.
O presidente da Associação Musical de Ribeirão Preto, Cyrilo Luciano Gomes
Júnior lembra que a OSRP participa ativamente do cotidiano de Ribeirão Preto e região, através de projetos de cunho social, apresentando-se nas datas festivas. “Fazemos isso para retribuir o reconhecimento e o carinho da população”, destaca. Cyrilo ressalta, ainda, que se pensar na dimensão da cidade, ajudar a Orquestra não é uma tarefa tão difícil. “Se 1% da população contribuir com R$ 2,00 ao dia — valor necessário para tornar-se sócio da Orquestra —, conseguimos manter um equilíbrio financeiro satisfatório, dinheiro que pode ser descontado do imposto de renda, no caso de pessoa física e/ou jurídica, e da cota do ICMS, no caso de pessoa jurídica. É um valor muito irrisório para colocar em risco um patrimônio cultural inestimável”, conclui, o presidente da Associação.
Quem quiser contribuir, pode comparecer pessoalmente à rua São Sebastião, 1002, ligar para (16) 3605.8932 ou acessar o e-mail só[email protected] ou o site Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto.