Pausa para um café
Bate-papo com o artista que enfeita cafeteiras e xícaras com sua arte
Quem está acostumado a circular pelas ruas de Ribeirão Preto já deve ter se deparado com algumas intervenções urbanas facilmente identificáveis. Os personagens de cores fortes, que interagem com a paisagem da cidade, estão em postes, em painéis e em outros elementos do cotidiano por iniciativa do artista João Naccarato, um jovem ribeirãopretano que vem ganhando reconhecimento dentro e fora do Município em que nasceu.
Seu traço marcante, cheio de estilo e de identidade própria, chamou a atenção da agência responsável pela comunicação da também ribeirãopretana Utam, comandada por Ana Carolina Soares de Carvalho, que convidou o artista para criação de artes exclusivas e intervenções artísticas para sua linha de produtos Utam Uno e também para o bate-papo a seguir.
Foi para conhecer ainda mais o talento de Naccarato e dividir seu encantamento com outros conterrâneos do artista que Ana Carolina decidiu entrevistá-lo especialmente para a Revide. O bate-papo mostra que a veia artística de João não se limita às artes visuais. Sua paixão pela arte também está revelada na sua formação profissional, em Arquitetura. Mas é na pintura e na música, manifestação artística anterior às telas e tintas, que ele realmente se realiza.
Ana Carolina: Há quanto tempo você trabalha com artes visuais e como essa história começou?
João: Sempre tive o gosto pelo desenho. Com cinco ou seis anos, contava com as dicas da minha avó. Foi assim que surgiu meu interesse pelo traço, mas nunca imaginei que isso se tornaria uma profissão. Antes de começar a pintar, tive contato com outras formas de arte visual, como escultura e modelagem. Minha primeira tela é de 2003. Na ocasião, misturei óleo e água e fiz uma verdadeira lambança. Mas assim surgiu minha curiosidade por esta arte e pela composição das matérias-primas que utilizo.
Ana Carolina: Realmente, a mistura dos materiais dá um toque diferenciado à sua arte. Você considera que esta característica é marcante nas suas obras?
João: Pois é, desde as primeiras telas tive esse interesse. Misturava tintas com uma espécie de cola, que já utilizava entre 1999 e 2000 na composição de outros trabalhos. Este, talvez, tenha sido meu primeiro contato com as artes plásticas. Antes disso, naquela fase da adolescência em que se formam as bandas com amigos, descobri a música e fui tomando gosto por ela. Achava que este seria meu caminho. A pintura surgiu posteriormente, como um hobby, que me permitia novas experiências e formas de expressão.
Ana Carolina: Quais foram as primeiras influências no seu trabalho com artes visuais?
João: Como sou autodidata na pintura, nunca fiz cursos e, portanto, não tinha uma base teórica. Mas quando comecei a produzir minhas obras, as pessoas começaram a comentar que o resultado tinha um toque de surrealismo. Ao ouvir isso, foi buscar referências e comecei a identificar elementos que realmente me interessavam. Nesse momento, descobri Salvador Dali, que passou a ser minha principal referência durante anos. Até 2006 ou 2007, posso dizer que o artista catalão foi a principal influência do meu trabalho. Mais tarde, senti a necessidade de conhecer mais artistas contemporâneos, atualizar meu trabalho, incluir novas referências.
Ana Carolina: Entre os contemporâneos, que artistas você destacaria?
João: É difícil citar nomes, mas há vários exemplos brasileiros e internacionais. A street art do nosso país é muito bacana. O que se vê pelas ruas de São Paulo serve como referência para o mundo inteiro. Posso destacar Os Gêmeos, que são pioneiros e reconhecidos, o Eduardo Kobra, o Rui Amaral, entre tantos outros.
Ana Carolina: Você desenvolveu recentemente um mural dentro de um conhecido evento de música. Como foi isso?
João: O mural foi desenvolvido a convite dos organizadores do João Rock, em homenagem ao Chorão, vocalista do Charlie Brown que havia acabado de ter uma morte trágica. Gostei da experiência, primeiro porque a Banda fez parte da minha adolescência — quando comecei a aprender as primeiras notas no baixo, escutava muito o Charlie Brown. Mas havia uma série de ingredientes ali que tornaram o desafio ainda maior, como a tensão de fazer um trabalho ao vivo, de ter que começar e terminar na hora marcada. O esforço valeu a pena porque o resultado foi positivo e a repercussão foi fantástica.
Ana Carolina: Mas essa não foi sua única experiência do gênero?
João: Esse foi o primeiro trabalho dentro de um evento, que não estava, na verdade, ligado ao cotidiano urbano da cidade. Mas tem também o painel no encontro da Avenida Presidente Vargas com a Diederichsen, painéis sob encomenda e outros tipos de muro e de lugares. Na arte urbana, cada artista tem um viés diferente. Tem aqueles que gostam de trabalhar só em muros com autorização do proprietário, outros preferem usar locais proibidos e assim por diante. A arte de rua ainda gera muitas discussões. Há quem curta as intervenções, há quem as critique. Acredito que a fórmula mais fácil de exercer a arte na rua é com autorização. Assim, posso fazer meu trabalho, deixar minha manifestação e não ter problemas, mas admiro todos os estilos. O principal, para mim, é que haja respeito entre os artistas dispostos a interferir no espaço público e os cidadãos.
Ana Carolina: Para você, como é sair pela cidade e ver sua marca cada dia mais reconhecida?
João: O reconhecimento é muito bacana. Com os personagens que eu levei para as ruas de Ribeirão Preto queria apenas manter uma comunicação visual, independentemente de ser fácil ou difícil, de ser bonito ou feio. A ideia é apenas me comunicar com as pessoas. Queria que cada um que batesse o olho, sem precisar ler, soubesse que aquele era o meu trabalho. Acho que consegui. Quando estou circulando pela cidade, o que me surpreende, na verdade, é quando eu não encontro um trabalho feito, porque eu sei onde cada um está.
Ana Carolina: Essa talvez seja um pouco da graça da arte urbana?
João: Sim. A arte urbana, na maioria das vezes, é efêmera e mutável. O mais importante é o respeito. O artista não vai pintar por pintar, nem as pessoas vão apagar aquela representação só para apagar. A única proposta é se manifestar no espaço público, é a expressão de cada um.
Ana Carolina: Imprimir essa assinatura, deixar sua impressão digital em cada peça ou intervenção, foi um processo natural?
João: Não pensei muito sobre isso. Na verdade, eu só queria deixar minha manifestação nos lugares por onde passava. Foi esse o intuito de tudo e o reconhecimento começou a chegar. Todo artista urbano acaba inserindo elementos que se tornam sua própria identidade, seu estilo e sua personalidade.
Ana Carolina: Como você define sua identidade? Que mensagem você pretende passar?
João: Na verdade, não acredito que a arte tenha sempre que levar uma mensagem conceitual. No meu caso, pelo menos, não tenho essa pretensão em muitas obras que faço. Já em outras, às vezes, vale mais o conceito do que as próprias cores, mas tudo é uma questão de momento. As artes que faço nas ruas são apenas para interferir no cotidiano urbano. A manifestação em si já tem o seu conceito e o seu valor, que é a alteração da paisagem urbana.
Ana Carolina: Recentemente você foi convidado a participar de uma oficina para alunos de Juazeiro do Norte. Como surgiu essa oportunidade e como foi a experiência?
João: Tenho uma pessoa que trabalha comigo na produção, a Simone Portugal, que fica antenada em editais pelo Brasil. Foi ela quem sugeriu que mandássemos uma proposta para fazer esse workshop para os alunos de Artes Visuais da Faculdade de Juazeiro do Norte. O trabalho incluía oficina, palestra e intervenção urbana. Foi uma troca de experiências incrível, pois fui para ensinar, mas aprendi muito mais. Também fiz uma palestra para os alunos do curso de artes visuais da Universidade Regional do Cariri (Urca). Antes disso, tive uma turma de alunos do Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) na cidade de Sousa, na Paraíba, onde trabalhei com pessoas especiais, maravilhosas. É impressionante perceber como alguns deles já revelavam uma grande identidade artística. Tive uma aprendizagem incrível durante os quatro dias em que estive lá. Considero que ainda estou aprendendo a fazer esse trabalho, mas é fantástico poder compartilhar aquilo que já sei. Durante o curso, foi desafiador responder a algumas dúvidas de pessoas que já tinham algum contato com arte. Um fato marcante foi que, ao final do trabalho que desenvolvemos juntos, pedi que o pessoal assinasse a tela. Naquele momento, alguns alunos confessaram que não sabiam escrever. Para mim, isso é que faz valer a pena. Saí de lá realmente emocionado, isso não está embutido no preço de nenhum edital.
Ana Carolina: Fora isso, você tem várias facetas, também é músico e arquiteto. De onde vem tanta inspiração?
João: Tenho sorte porque a música e a pintura se alternam em mim. Nunca aconteceu de estar pintando e, ao mesmo tempo, ter uma inspiração para compor: ou estou fazendo uma coisa, ou outra. Quando estou envolvido com a pintura, faço isso intensamente. Mas já aconteceu de ficar oito meses sem entrar no atelier. Durante a faculdade, pintava somente nas férias, pois era impossível conciliar a rotina universitária e as artes plásticas. Naquele momento, eu me dedicava bastante à música, de onde vinha, inclusive, minha renda. Era difícil conciliar, mas deu tudo certo, apesar de ter demorado um pouco para conseguir me formar. Cheguei a trancar a faculdade duas vezes antes de concluí-la. Depois de formado, acabei me dedicando muito mais à pintura e à música. A arquitetura está ligada à segurança profissional, pois viver de arte no Brasil é muito difícil. Posso dizer que sou privilegiado por encontrar bons parceiros no caminho. Graças a Deus, estou conseguindo viver da pintura e da música, então, a arquitetura está em stand by.
Ana Carolina: O que observo é que tudo aquilo que você faz, consegue executar bem e ser reconhecido. Pessoalmente, qual dessas paixões é mais latente?
João: Posso responder tranquilamente que a música e a pintura me realizam. Entre as duas, é muito difícil escolher uma só. São duas atividades completamente diferentes e duras, pois músicos costumam ralar muito antes do sucesso e pintores geralmente conquistam reconhecimento postumamente. Essa é uma brincadeira, mas com um fundo de verdade. Espero que eu consiga consolidar minha carreira conciliando essas duas paixões, sem nunca precisar escolher entre a música e a pintura. Isso vem dando certo.
Ana Carolina: Como está sua carreira musical?
João: Tenho um CD gravado, chamado Café com Paçoca, e estou caminhando para gravar o segundo, que ainda não tem um nome. Estamos na fase de pré-produção, compondo, definindo arranjo e repertório. A ideia é estar com este trabalho pronto até o início do segundo semestre deste ano. Mas como tenho a pintura, e os trabalhos costumam aparecer com prazo definido, não dá para fazer uma previsão exata.
Ana Carolina: Você tem recebido convites para trabalhos em outras regiões. Como está ocorrendo viver esse crescimento profissional, esse amadurecimento?
João: Quem me conhece há muito tempo sabe que a pintura sempre foi um hobby para mim. Meu ciclo de amigos, por exemplo, estava muito mais ligado à música do que a qualquer outra coisa. Mas, em casa, sempre me mantive em atividade. Às vezes, nos meses em que eu tocava mais, sobrava mais dinheiro para investir na pintura. De repente, isso começou a se tornar profissional, o que foi uma surpresa. Fico feliz com o reconhecimento, que vem aumentando a cada dia.
Ana Carolina: Quando estávamos em busca de um artista, foi nossa agência de São Paulo que indicou seu nome. Isso comprova que sua arte está sendo reconhecida também fora da cidade. Como foi para você fazer esta parceria com a Utam?
João: Foi muito positivo. O artista, no Brasil, precisa matar um leão por dia. Oportunidades como essa são gratificantes. Particularmente, sou um grande apreciador de café e sempre acompanhei a história da Utam, ribeirãopretana como eu. Foi um grande prazer fazer essa parceria, que conceitualmente tem tudo a ver com a minha arte. Ao escolher um representante da arte urbana local, a Utam está ajudando a fortalecer essa forma de arte como um todo. O resultado ficou excelente, pois muita gente está comentando, e por isso estou muito feliz. Acho que outras empresas deveriam buscar maneiras de apoiar a arte, como fez a Utam com suas máquinas Utam Uno e as xícaras personalizadas.
Ana Carolina: Todo este amadurecimento tem levado a um aumento de trabalho?
João: O Natal do último ano foi maravilhoso, muitas encomendas e muitos feedbacks positivos. Metade das telas que entreguei no fim de 2013 foi para interessados de outras cidades, o que significa que mais gente está vendo meu trabalho. Já estou com algumas obras vendidas em Brasília, em Campo Grande, em São Paulo, entre outros municípios. Já posso dizer que não apenas meus amigos compram minha arte. Brincadeira a parte, isso, para um artista, é extremamente gratificante, pois é muito difícil vender uma única tela. Pintando desde 2003, posso dizer que comecei a vender meus trabalhos nos últimos dois anos.
Ana Carolina: Quais são seus planos futuros?
João: Além de terminar o CD e de cumprir os compromissos já estabelecidos, gostaria de ir para o exterior, quem sabe para a Irlanda, para fazer uma residência, ampliar minhas influências artísticas, tanto nas artes visuais quanto na música. A internet já contribui muito para apresentar novos horizontes e para encurtar distâncias, mas nada como a vivência na prática.
ARTISTA PLURAL
“Sempre apreciei arte moderna e, ultimamente, tenho acompanhado mais de perto o movimento da arte urbana. Por isso, conversar com um jovem talento da nossa cidade e mostrar às pessoas um pouco mais desse estilo de arte, já consagrado na Europa e nos Estados Unidos e que vem crescendo a cada dia no Brasil, é muito especial. O João é um multiartista! Suas obras refletem sua mente criativa que compõe, interpreta e toca. A forma como ele vê e projeta suas visões do mundo fica nítida nas criações de cores fortes — intensidades que revelam muito do seu talento.”
Ana Carolina Soares de Carvalho, diretora da Utam
Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Carolina Alves