Pauta musical

Pauta musical

Conduzida por Fernanda Marx, Vânia Lucas mostra os caminhos que trilhou para consolidar sua carreira e transformá-la em um exercício cotidiano de aprimoramento e de paixão pela música

De um lado, Fernanda Marx, jornalista, cantora há 17 anos, solista e coralista do Coral Minaz, do Coral de Câmara e do Madrigal Minaz, que com sua carreira solo presenteou a cidade com os projetos “Flor de Café”, “Use Dorival Caymmi” e “Refazendo Gonzaguinha” e se prepara para lançar, em agosto de 2015, o “Baile da Nega”.

De outro, Vânia Lucas, cantora, regente e professora de técnica vocal, que desde os 12 anos se aventura pelo universo musical, colhendo e ofertando belos frutos, muitos deles resultados de sua parceria com o pianista, compositor e arranjador Mario Feres, como seu primeiro CD solo, “Minha Vontade”, gravado em 2006, cuja direção musical é assinada pelo artista.

Entre as duas cantoras, uma pauta musical não de notas, mas de conhecimento, vivências, histórias, impressões e lembranças que Vânia, generosamente, tece e compartilha, enquanto responde às questões de Fernanda. Um bate-papo informal e agradável, acompanhado pela jornalista Carla Mimessi.

Fernanda: Como nasceu sua relação com a música?
Vânia: Minha primeira inspiração foi um tio que tocava acordeom. Quando ia visitá-lo, acordava com o radinho tocando música caipira, tanto que sou apaixonada por música caipira de raiz, era como canção de ninar para mim. Depois, aos 10 anos, comecei a estudar piano e a ouvir música erudita. Porém, a influência mais forte foi na igreja, onde eu cantava em coral. A regente era interessada e competente; e a pianista uma apaixonada por música. Eu tive a sorte de conviver com pessoas que amavam o que faziam. Meu pai e minha mãe me estimulavam muito; nós vivíamos em um ambiente musical.

 Fernanda: A música clássica trouxe uma disciplina que também faço uso na popular. Qual é a importância de ter iniciado sua carreira musical com o estilo clássico?
Vânia: Essa passagem foi natural, eu fui agregando. Formei-me em Música Sacra no Rio de Janeiro, em 1980. Nessa época, também cantava na Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro. As apresentações eram com a orquestra no Teatro Municipal da cidade. Em seguida, fiz licenciatura na Unirio e comecei a trabalhar com o Grupo de Música Antiga da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, que existe ainda hoje. Para conseguir desenvolver essas atividades, tinha que ser disciplinada. Eu pegava minha viola da gamba, tomava um ônibus e ia; eu ensaiava toda manhã, viajava. Quando comecei a fazer música popular profissionalmente, com o Mário, senti alguma diferença em relação à disciplina que a formação erudita me trouxe. A prática da música popular também exige disciplina, mesmo quando você já conhece a música e um músico experiente propõe uma bela introdução, de surpresa, e acontece aquela conversa musical, uma improvisação criativa, interativa, mas que não deixa de ser resultado de uma disciplina anterior. Fazer o meu show sobre Dorival Caymmi foi maravilhoso porque aconteceu essa troca com os músicos — os ensaios, a pesquisa, a conversa. Comecei a ler muito e a agregar ideias e, quando fomos para o palco, fizemos música. É muito bacana construir, agregar os diferentes aprendizados de estilo.

Fernanda: A pesquisa também contribui muito para que, no ensaio ou no palco, o resultado seja de excelência?
Vânia: Sim, a pesquisa é tudo, é igual à produção de um personagem pelo ator: se ele não viveu, se não conviveu com o que está representando, não tiver aquela experiência dentro dele, não funciona.

 Fernanda: Eu tenho visto as pessoas repetindo muito obras de outros autores, com os mesmos arranjos. Você acredita que quando o artista pretende criar, deve sempre pensar em um diferencial, em imprimir sua marca?
Vânia: Quando vou cantar uma música conhecida, tento ouvir todas as gravações que já foram feitas dela, da original às releituras. Depois que ouço tudo, encontro o meu jeito de cantar e converso com os músicos, ouço sugestões, contribuindo com o processo de criação, que é do arranjador ou coletivo. Entretanto, se o compositor se preocupou em registrar as partituras da sua obra, como fez Tom Jobim em seu “Cancioneiro”, é legal ser fiel e executar tal como ele escreveu. Porém, de qualquer maneira, penso que é preciso pesquisar, ouvir, interiorizar, descobrir um jeito próprio de cantar, assim, o cantor mantém a tradição do compositor, interpretando a música dele, mas de um jeito seu.

Fernanda: Como era o cenário musical quando você chegou em Ribeirão Preto? As pessoas sempre comentam sobre a efervescência cultural e resgatam esse período com saudosismo. Gostaria que fizesse um paralelo entre aquela realidade e a de hoje.
Vânia: Esse saudosismo tem a ver com a idade da gente, com quando você é jovem e está fazendo aquilo. Depois, cada um segue sua vida. Naquela época, Ribeirão Preto não tinha tanto espaço para cultura. Nós reivindicávamos apoio e iniciativas públicas, provocávamos ações e conseguíamos. Hoje, a cidade possui mais músicos e uma diversidade maior de atuação. O movimento de cultura popular cresceu. Os projetos coletivos que fazem hoje, provocando a difusão cultural e viabilizando eventos, são muito interessantes e importantes. É preciso continuar reivindicando, colocar pessoas certas nos lugares certos, cuidar do nosso patrimônio, teatros, orquestra. Porém, a cena já melhorou muito. Não acredito que faltem eventos. Sempre há o que fazer, o que assistir. O que falta é valorização, difusão e manutenção da nossa cultura.

Fernanda: Nós temos vários espaços, hoje, mas como conseguir bancar os custos, com músico, por exemplo? Chega um momento em que você vira parceiro do músico e está todo mundo no risco, mas não dá para viver no risco.
Vânia: Pois é, hoje em dia, você tem que acumular várias atividades: abrir uma empresa, administrar, conhecer os editais de fomento, criar projetos, saber sobre direção e produção executiva e agregar profissionais que colaborem com a realização de suas intenções. E o principal: colocar na vitrine e vender seu trabalho. Enfim, criar novas formas de trabalhar.

Fernanda: Como ocorre o amadurecimento do artista?
Vânia: O artista nasce com um dom, sim, mas o resto é conquista, muito treino e uma responsabilidade enorme. É um processo de reflexão e de interiorização do que experimentamos na vida e conseguimos exprimir, dentro da arte que escolhemos. Acredito que o trabalho, a trajetória, o fazer é que trazem esse amadurecimento.

Fernanda: Como analisa a união de pessoas de diferentes gerações em projetos, a relação dos músicos mais antigos com os da nova geração?
Vânia: Deve acontecer para haver essa troca. O Paulinho da Viola, por exemplo, nasceu no meio musical, em Botafogo. O pai tocava e ele conheceu Cartola, aprendeu com os compositores que faziam música no morro, na roda, e reverencia isso, estimula a tradição, valoriza. Nós temos sempre que agregar valores à música, trazendo o velho e acrescentando o novo para podermos passar uma história de geração a geração. É um dever do músico. Quando Dorival Caymmi chegou ao Rio de Janeiro, disseram a ele que procurasse aula de música. Foi procurar Villa-Lobos, Radamés Gnattali e eles pensaram que, se dessem aula para Caymmi, o estragariam. Então, eles se recusaram porque Caymmi tinha um sistema rítmico que trouxe de sua própria vivência; ele já tinha uma expressão artística particular. Vale, sim, a geração mais nova trazer à luz os antigos, estar sempre estudando, e os mais novos também, que geralmente são as pessoas da nossa turma. Quando acontecem esses encontros musicais, geralmente, ouvimos as músicas que os outros artistas produzem e acabamos levando sua influência para a nossa arte.

Fernanda: E quanto a reunir em um único projeto a nova e a velha geração? Acha isso importante?
Vânia: Sim, é um acolhimento importante, desde que haja afinidade e prazer. Este ano, trabalhei com os meninos do “Choro da Casa”. Foi novidade para mim, aprendi, foi uma delícia. Estou aberta a isso e acho que vale muito. Podemos ser madrinhas, também.

Fernanda: Artistas como você já trilharam um caminho e sabem muitas coisas que podem ou não dar certo. Há também o lado de deixar quebrar a cara para aprender, mas há muito conhecimento que pode ser compartilhado, não acha?
Vânia: Claro! É preciso ter um fio condutor legal. Vale a pena a gente propagar o conhecimento que tem, cada um cantar a sua história, fazendo uma troca com outros artistas, é muito gostoso. Junta o público dos vários artistas no show e aumenta o público da cultura. Penso que isso é o que mais importa: aumentar o público da cultura, contribuir com a educação.

Fernanda: Estive no Festival em Pereira Barreto e saí de lá com a impressão de que festivais são eventos onde a troca talvez seja um dos maiores prêmios. Estou começando a entender os critérios de avaliação nos festivais, mas confesso que ando intrigada com algumas questões. Tirando a parte técnica, o que se avalia, de fato, em um festival?
Vânia: Um festival serve para revelar talentos. Percebemos que estamos diante de um talento quando o trabalho apresentado mostra que o participante tem visão e está no caminho certo. É perceber que a pessoa tem compromisso com a arte. Para cantar, temos sempre que nos perguntar o que está faltando. Às vezes, é mais ritmo; às vezes, desenvoltura no palco, memorização, estilo, mais intuição. Técnica vocal é uma coisa, musicalidade é outra. Como adquirir as habilidades das quais sinto falta? Eu achava que não cantava bem samba e fui atrás, ouvi, fiz aula de percussão. Quando percebemos essa busca na pessoa que está participando de um festival, temos vontade de votar nela.

Fernanda: Que músicas você tem ouvido ultimamente?
Vânia: Depois que saí da fase do Caymmi, tenho ouvido mais o “Clube da Esquina” e fico apaixonada porque é uma obra tão livre, moderna, incrível, que une o erudito ao popular, ao jazz, com todo tempero brasileiro.

Fernanda: Estamos vivendo em uma fase cultural em que se percebe certa infantilização e, principalmente, erotização nas músicas mais ouvidas pelo público. Acredita que a utilização de conteúdos de caráter sexual nas canções podem ter desdobramentos sociais, como por exemplo, a erotização precoce em crianças e adolescentes?
Vânia: Acredito e isso já está comprovado em vários estudos feitos por diversos profissionais das áreas de desenvolvimento humano. É muito sério, pois acontece de modo que as pessoas passam a achar normal. Entendo que esse tipo de “som” não se encaixa em nenhum conceito de cultura, não se pode chamar de expressão musical (coitada da Música Brasileira que tem de carregar esse fardo), nem de entretenimento, nem de humor. É, sim, a banalização da cultura de um povo. É uma tristeza porque sinaliza o nível de cultura e educação do país. Quem compõe é equivocado, quem toca não pensa, quem divulga e promove deveria ser barrado no baile. Não gosto com força. Acho que é um desrespeito ao desenvolvimento não só da criança, que precisa ser protegida, mas de toda a sociedade. Ninguém merece! Como não se preocupar com a difusão dessas coisas, chamadas de música?

Fernanda: De uma forma geral, como analisa o contexto atual da música no país?
Vânia: Percebo uma efervescência musical. Tenho me deliciado com o que estou vendo e ouvindo de inspirador, de interessante, de belo, e também de inovador na música brasileira. Muita gente de talento, grupos fazendo coisa boa, mas não chegam à mídia e, se não procurarmos bem, não encontramos nem no facebook. O Luiz Tatit fez um comentário sobre o CD “Minha vontade” , na época do seu lançamento aqui em Ribeirão Preto, que ilustra um pouco o que estou dizendo. Ele disse: “Seu CD é de fato muito refinado: repertório, arranjos, equipe de músicos, canto, expressão, solução gráfica, tudo em grande estilo e com muita qualidade. Pois é, poderia já ter sido um acontecimento nacional, um disco histórico, mas, provavelmente, ficará como mais um grande disco para poucas audições.”

Fernanda: Acredita que a MPB pode voltar a ter um espaço expressivo nos veículos de comunicação de massa, como acontecia nas décadas de 70 e 80? Por quê?
Vânia: Não acredito. Pelo menos, não a curto ou médio prazo. A Música Popular Brasileira é uma das mais ricas do mundo, mas a educação que traz como benefício, o discernimento para a manutenção da própria cultura e o bom gosto ficaram perdidos, prejudicando a todos. Isso é uma questão de educação e de cultura. E o povo brasileiro tem de fome de quê, sede de quê? Tudo se constrói começando pela vontade, e eu pergunto: os veículos de comunicação têm vontade de quê? Salve as rádios públicas, que atuam de maneira a valorizar a antiga, a nova e a boa música.

Fernanda: Em Ribeirão Preto, o cenário musical é frutífero?
Vânia: A palavra “frutífero” diz bem. Sempre foi, mas acho que cresceu, amadureceu e tem dado bons frutos. Tem maracatu, tem chorinho, tem música instrumental, bons cantores e cantoras, escolas, oficinas, shows e muito mais. Enfim há que se prestigiar e apoiar.

Fernanda: Na sua opinião, quais são os grandes talentos da nova geração?
Vânia: Existem vários talentos, mas não gostaria de esquecer ninguém. Então, vou citar um grande talento que, por acaso, é de Ribeirão Preto: André Mehmari. Não tem como não reverenciar.

Fernanda: Que projetos têm para o futuro?
Vânia: No momento, quero dar continuidade a dois projetos de CD do Mário Feres. Um deles é de músicas autorais, na maioria sambas e outras canções que fez em parceria com Simone Guimarães, com Figueiredo Ferraz, Lília Diniz e Guca Domênico. Ele estava com o projeto pronto quando morreu e é meu compromisso trazê-lo à luz para torná-lo acessível. O outro é uma trilha para um balé da Patty Brown. Consegui aprovar esse CD no Proac e começaremos a captar. Esse é o meu projeto do futuro mais próximo, além de gravar um novo CD com os músicos com os quais tenho trabalhado.

Uma artista completa

“Vânia Lucas é uma das figuras de grande importância na história da música de Ribeirão Preto.
Seu nome e sua arte sempre estiveram muito próximos a mim, mas sem ter havido um encontro de fato. Acompanhei de longe e com muita admiração sua trajetória, até um dia que tive o prazer de ouvi-la cantar, de forma informal, mas nem por isso descompromissada com o cantar, em meio a amigos, em um dia de festa. Neste momento, pude constatar com meus olhos e ouvidos que realmente Vânia era a artista que sempre tive em meu imaginário: sofisticada, elegante, com simplicidade, ao mesmo tempo, e, com tudo isso, não poderia deixar de ser encantadora. Ao nos encontrarmos para essa entrevista, penetrei um pouco mais no universo de uma intérprete com vivências e histórias incríveis. Uma artista que respeita as diversidades, que se interessa pelas mais diversas formas de expressão artístico-cultural de todos os tempos, gerações e que se recicla sempre. Isso faz de Vânia Lucas uma artista completa.”
Fernanda Marx, cantora

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão

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