Pela continuidade na amamentação
A Semana Mundial de Amamentação 2015 destaca que é possível prosseguir com o aleitamento materno na volta ao trabalho
Muito se ouve falar sobre a importância da amamentação, tanto para a mãe quanto para o bebê (veja no quadro). Pesquisas recentes sobre o tema continuam ampliando a lista de benefícios para os dois lados, dando ainda mais força para quem quer seguir alimentando seu filho com leite materno. Uma pesquisa realizada em Taubaté, interior paulista, por exemplo, identificou que amamentar por um tempo mais longo — 10 meses, em média — pode prevenir a obesidade precoce. Outro estudo, publicado no Journal of American Medical Association (JAMA), mostra que os pequenos que mamam no peito até os seis meses têm 19% menos chances de desenvolver leucemia.
No entanto, é preciso destacar que o início da amamentação não é tão simples assim. “É um momento de aprendizado, tanto para a mãe quanto para o bebê. Mas com persistência e muita informação, é possível vencer as primeiras semanas e colher excelentes frutos dessa interação mãe-filho”, explica a pediatra Luciana Herrero (CRM: 137.701), especialista na preparação de famílias grávidas. Nesse momento, a mãe precisa lidar com o cansaço e as inúmeras novidades, enquanto o bebê desvenda o mistério da sucção. “O sucesso da amamentação é mais fácil quando há a combinação de quatro fatores principais: o domínio da técnica da amamentação; o apoio da família, especialmente do pai e da avó materna; a autoconfiança da mulher e as rotinas do parto e do pós-parto imediato, como colocar a criança para mamar nos primeiros 90 minutos de vida, que chamamos de ‘hora sagrada’”, continua a especialista. De acordo com a dra. Luciana, buscar orientação especializada ainda durante a gestação é uma ótima atitude para quem quer viver este processo de maneira mais suave. “Se, ainda assim, não for possível amamentar com leite materno, então, alimente seu filho com muito amor e estará cumprindo seu papel de mãe”, recomenda a pediatra.
Vencida esta etapa, uma outra situação chegará mais rápido do que se imagina: a volta ao trabalho. Esta vivência ocorre entre os quatro e os sete meses de vida dos filhos e, geralmente, impõe à mãe mais uma batalha, agora, relativa à continuidade da amamentação. “É muito comum que o desmame aconteça nesse momento, principalmente por conta da falta de informação. É totalmente possível dar continuidade à amamentação mesmo depois de retomar a rotina de trabalho”, garante dra. Luciana, que disponibilizou uma série de dicas em forma de vídeos no canal do Youtube da Aninhare, onde presta assistência a famílias grávidas. Mais uma vez, a orientação adequada pode fazer a diferença.
O tema da Semana Mundial de Amamentação 2015 (SMAM), “Amamentar e trabalhar – podemos conseguir”, ajuda a debater como aliar as duas atividades da melhor forma possível. O assunto foi tratado em diversos eventos em todo o mundo entre os dias 1º e 8 de agosto. Em Ribeirão Preto, uma série de atividades marcaram a data, como o “mamaço” realizado no Parque Curupira no dia 2 de agosto e o 4º Encontro Municipal de Aleitamento Materno, que aconteceu no dia 3, no Anfiteatro do Centro Universitário Barão de Mauá. Palestras, piquenique e roda de amamentação também marcaram a semana. Entre as principais dificuldades relatadas pelas mães estão a ordenha — retirar o leite das mamas e armazená-lo adequadamente para ser oferecido ao bebê no período de ausência da mãe —, a gestão do tempo para amamentar e, claro, a saudade.
O que diz a Lei?
Como explica o advogado especialista em Direito do Trabalho, Daniel De Lucca de Castro, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), dispõe, em seu Capítulo III, de regras específicas de proteção ao trabalho da mulher. “Dentre essas regras, temos a do artigo 396, segundo o qual, ‘para amamentar o próprio filho, até que este complete seis meses de idade, a mulher terá direito, durante a jornada de trabalho, a dois descansos especiais, de meia hora cada um’, sendo certo que o parágrafo único do citado artigo faculta a dilação de tal período sempre que a saúde do filho assim exigir, dilação esta a critério da autoridade competente”, pontua o advogado.
Determina ainda a CLT, em seu artigo 400, que “os locais destinados à guarda dos filhos das operárias durante o período da amamentação deverão possuir, no mínimo, um berçário, uma saleta de amamentação, uma cozinha dietética e uma instalação sanitária”. “Não se deve desconsiderar, também, eventual disposição inserta em convenção ou acordo coletivo de trabalho, instrumentos nos quais é possível criar outras regras e condições que igualmente visam à proteção da criança”, salienta Daniel.
Muito comum, ainda, e pela dificuldade das empresas em oferecer as instalações de que cuidam o artigo 400, é a celebração de convênio com creches ou instituições equiparadas, a fim de que se dê cumprimento ao determinado pela Lei. “Portanto, e de forma bem resumida, verifica-se que além de objetivar a proteção ao trabalho da mulher, conforme o próprio título do Capítulo III, a legislação visa à proteção do bebê desde a gestação, com a estabilidade da empregada gestante, e com o auxílio maternidade, bem como até que este complete, no mínimo, seis meses de idade”, finaliza o advogado.
Feito sob medida
Como explica a médica ginecologista e obstetra Flávia Maciel de Aguiar Fernandes de Mendonça (CRM: 103074), o leite materno é o melhor alimento para os bebês. “Isto porque ele é feito sob medida para aquele bebê específico, naquele período de desenvolvimento. Tanto isso é verdade que a própria composição deste alimento vai mudando: nos primeiros dias, o colostro (uma secreção quase transparente que precede o leite) garante uma alta dose de anticorpos e de energia, sendo totalmente apropriado para o recém-nascido, cujo estômago ainda é bem pequenino”, explica a especialista, que é mãe de Rodrigo, de 3 anos, e de Bianca, que tem 1 ano e 7 meses. Depois da descida do leite — que ocorre, geralmente, entre o terceiro e o décimo dia de vida da criança — este alimento vai se adaptando ao longo da mamada. “No início, o leite anterior, que é mais claro e aguado, mata a sede do pequeno, enquanto, no fim, o leite posterior, que é mais espesso e gorduroso, ajuda o recém-nascido a ganhar peso”, expõe dra. Flávia.
À medida que os meses avançam, a composição do leite materno vai também se ajustando às novas necessidades do bebê. “É por isso que não há como refutar a ideia de que o leite materno seja o alimento ideal, já que nenhum leite artificial consegue imitar com precisão todas essas características. As fórmulas também não são capazes de oferecer tantos anticorpos quanto o leite da mãe, uma particularidade muito importante”, acrescenta a ginecologista e obstetra, destacando que há que se considerar, ainda, a oportunidade de estreitar os vínculos afetivos mamãe-bebê que a amamentação representa.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, é recomendado que o aleitamento materno exclusivo siga até os seis meses de vida da criança. Após a introdução alimentar, a amamentação deve ser mantida até os dois anos. “O desmame deve ser uma decisão da mãe e do seu bebê, podendo até passar de dois anos”, afirma dra. Flávia, acrescentando que o leite materno não perde as propriedades nutritivas no caso dos bebês maiores, continuando a garantir muitos anticorpos.
Principais beneficícios
Para o bebê
• Tem todas as suas necessidades nutricionais atendidas;
• Fica protegido de infecções graças à passagem de anticorpos maternos;
• Mantém intenso vínculo afetivo com a mãe e, por isso, tende a ser mais calmo;
• Sofre menos com cólicas e prisão de ventre;
• Fica menos propenso, segundo pesquisas recentes, a problemas como obesidade, alergias e doenças crônicas.
Para a mãe
• Apresenta uma melhor recuperação no período pós-parto, incluindo perda de peso mais rápida;
• Apresenta menor risco de doenças futuras, como câncer de mama, útero e ovário, assim como problemas crônicos como diabetes e obesidade;
• Usufrui de um anticoncepcional natural, já que a prolactina, da qual depende a produção de leite, costuma inibir a ovulação;
• Reforça o vínculo afetivo com o bebê, o que ajuda a prevenir, inclusive, a depressão pós-parto.
Mãe heroína
Assim como fez com o primeiro filho, Fernando, de 4 anos — que mamou até os 2 anos e 4 meses, quando abandonou o peito naturalmente — Mariana Faria de Moraes pretende agir com os gêmeos Eduardo e Guilherme, de 1 ano e 1 mês. De volta ao trabalho desde que os pequenos tinham sete meses e meio, a funcionária pública diz que conseguiu dar continuidade à amamentação graças a muita persistência. “Os primeiros dias são difíceis, mas com o tempo vamos nos adaptando. Antes do meu retorno, preparei um estoque de leite materno suficiente para uma semana, que consegui manter ordenhando duas vezes ao dia”, relata a mãe, que também utiliza a hora do almoço para amamentar os meninos. Segundo ela, um dos segredos para dar continuidade no aleitamento é praticar a ordenha com antecedência, preparando um estoque de leite que, no freezer, tem validade de 15 dias. “Ter muita paciência também é importantíssimo para o começo dessa fase. Quando me perguntam se é fácil, respondo apenas que nada que vale a pena é tão simples na vida”, reforça a funcionária pública. Segundo ela, retomar as atividades profissionais é um motivo extra para seguir amamentando, pois ajuda a manter o vínculo emocional entre mãe e filho que já não ficam 100% do tempo juntos. “Não é fácil, mas acredite: vale muito a pena”, garante a mamãe dedicada.
Alimentação adequada*
Evitar substâncias pouco saudáveis, assim como investir no consumo de ingredientes de todos os grupos alimentares, garantindo boa oferta de vitaminas e minerais, é a melhor recomendação possível para as mamães que amamentam
Evitar
• álcool: não deve ser encorajado durante a amamentação porque pode mudar o odor do leite, deixar o bebê mais sonolento e poder destruir as células do sistema nervoso.
• cafeína e cigarro: cafés, refrigerantes, chás e energéticos, assim como a nicotina, podem provocar episódios de irritabilidade e desordem do sono no bebê.
• Embutidos e Industrializados: eles costumam vir cheios de sódio, açúcar simples e aditivos químicos que, além de poder causar alergias no bebê, podem afetar a saúde da mãe, causando doenças como hipertensão e obesidade.
• alimentos flatulentos: repolho, brócolis, batata doce, feijão e couve-flor, por exemplo, podem causar cólicas intestinais e flatulências na mãe e no bebê.
• doces: ricos em açúcar simples e pobres em micronutrientes, seu consumo exagerado pode resultar em resistência à insulina e obesidade na nutriz.
• adoçantes: não há comprovação científica sobre a segurança no seu consumo pelas mamães.
Investir
• carboidratos complexos: massas integrais, por exemplo, são uma boa dica para as mães que, enquanto amamentam, tem um gasto calórico extra de cerca de 500 kcal/dia.
• fontes proteicas: carnes brancas, vermelhas e combinações como arroz e feijão ajudam a suprir as necessidades nutricionais da mãe.
• hidratação: a água fundamental para a formação do leite materno.
• ricos em cálcio: queijos, leites e derivados, assim como gergelim, sardinha e vegetais folhosos escuros garantem a quantidade de cálcio necessária para o leite materno e ainda desempenha um papel importante no crescimento de ossos, dentes e músculos do bebê.
• probióticos e prebióticos: iogurtes, leites fermentados, polpa de banana verde, aveia, chicória, entre outros, participam da formação da flora intestinal, melhorando a absorção de nutrientes pela mãe, que serão incorporados ao leite e irão garantir a saúde da criança.
*Fonte: Cristina Trovo
Texto: Luiza Meirelles