Pelas lentes de Verger
Pela primeira vez em Ribeirão Preto, a mostra reflete 40 anos da vida e da obra do fotógrafo francês
Pela primeira vez, o público ribeirãopretano terá acesso ao acervo do francês Pierre Verger. Apaixonado pela liberdade, o fotógrafo transformou a objetiva de sua máquina em um portal através do qual desvendou os contornos e as paisagens de inúmeros países pelos quais viajou de 1932 a agosto de 1946, sobrevivendo exclusivamente de fotografias negociadas com jornais, agências e centros de pesquisa. As obras que estarão à disposição da população na Galeria Marcelo Guarnieri contam uma história mais ampla: abrangem 40 anos da vida de Verger pelos vários continentes, entre 1930 e 1970, com destaque, entretanto, para as décadas de 30 e 40.
Com predominância das paisagens, o acervo de 50 obras escolhidas pelo galerista Marcelo Guarnieri traz também fotos raras. “São imagens assinadas de próprio punho por Pierre Verger; devem existir menos de 60 fotos como essas, as demais têm certificado de autenticidade e origem, timbre da fundação e da galeria. É uma mostra importantíssima do ponto de vista artístico e histórico para a cidade”, afirma o empresário.
Marcelo acrescenta que a herança do francês vai muito além de suas fotografias, pois tendo sido um grande pesquisador, viajante e antropólogo, foi também um ser humano raro, cujo legado é imenso. “É uma obra incrível dentro da história da fotografia. Tenho pesquisado bastante sobre fotografia e recentemente vi algumas mostras internacionais nas quais sempre havia referências à produção de Verger”, ressalta.
Ao desembarcar da Europa em Salvador, em 1946, Verger embarcou em uma nova viagem que o projetaria não só no meio artístico, mas também no meio acadêmico: através do candomblé, considerado pelo fotógrafo francês fonte da vitalidade do povo baiano, passou a estudar o culto aos orixás, interesse que rendeu a ele uma bolsa para estudar rituais na África, para onde seguiu dois anos depois.
Na África, Verger ressurgiu com o nome de Fatumbi, “nascido de novo graças ao Ifá”, em 1953. Sua proximidade com a religião permitiu contato com sacerdotes, autoridades e acabou sendo iniciado como babalaô — um adivinho através do jogo do Ifá, com acesso às tradições orais dos iorubás. Cada vez mais seduzido por esse universo, o fotógrafo passou a se dedicar à pesquisa através do Instituto Francês da África Negra (IFAN). Depois desse mergulho inicial na pesquisa, aprofundou-se cada vez mais, tendo como foco a história, os costumes e, principalmente, a religião praticada pelos povos iorubás e seus descendentes, na África Ocidental e na Bahia.
Em 1960, comprou uma casa na Vila América. No final dos anos 70, parou de fotografar, realizou suas últimas viagens à África e passou a se dedicar à sobrevivência de seu acervo, criando em 1988, a Fundação Pierre Verger (FPV). O fotógrafo faleceu em 1996.
São fragmentos dessa vida de descobertas e conhecimentos que Marcelo traz, inicialmente para Ribeirão Preto, seguindo com outra seleção de fotos para a Feira Internacional de Arte em São Paulo. A galeria será a única representante do interior no evento, considerado um dos mais importantes do Brasil e do exterior. “Estamos organizando, também para este ano, uma mostra do artista na capital”, destaca o galerista.
Parte do montante arrecadado com a comercialização de obras durante a exposição será destinada à edição deste ano da Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto.
exposição pierre verger:
Quando: de 19 de março a 16 de abril, de segunda a sexta, das 10h às 18h e aos Sábados, das 10h às 14h. Com abertura no dia 18, às 20h
Onde: Galeria Marcelo Guarnieri (Rua São José, 1497). Mais informações pelos tels.: (16) 3632.4046 e 3625.1216
Quanto: entrada gratuita