Pirandello à moda da casa
A ribeirãopretana Débora Duboc traz para a cidade sua montagem de “O Homem, a Besta e a Virtude"
No cenário e nos figurinos, a criação do premiado carnavalesco Chico Spinosa; na trilha sonora, a composição de Gustavo Kurlat e Rubem Feffer tendo o chorinho como base; a tradução é de Marcos Caruso, grande ator e autor. Una-se a essa deliciosa “mistura” os talentos de Gabriel Miziara, Fernando Fecchio, Thiago Adorno e Débora Duboc, que, além de interpretar, encena e dirige o espetáculo ao lado de Marcelo Lazzaratto. Não resta dúvida de que a versão de “O Homem, a Besta e a Virtude”, que será apresentada no Theatro Pedro II, em 13 de novembro, às 20h, será a de um Luigi Pirandello com tempero brasileiro.
Apesar de o texto ter sido escrito em 1919 por um dramaturgo italiano, a atriz garante que a temática é atual: “Pirandello, no início do século XX, já denunciou um projeto de uma sociedade que não tinha como dar certo. Hoje, vivemos ainda mais a questão da aparência, um jogo hipócrita no qual não podemos estar em estado de sinceridade e, quase sempre, vestimos uma máscara do que não somos, o que faz com que o texto seja extremamente contemporâneo”, ressalta a atriz.
Na peça, a senhora Perella é uma mulher relegada pelo marido, que engravida do professor de seu filho e, na iminência da chegada do cônjuge, gera cenas hilárias para viabilizar a cópula com ele e esconder a traição, tentando perpetuar sua fama de virtuosa. “A hipocrisia da moral burguesa é desmascarada num jogo cênico inteligente de ironias e de mordacidade, em que todos mentem para sobreviver, menos Nonô, o filho de 11 anos que ainda não aprendeu a ser hipócrita”, acrescenta.
Para Débora, a contemporaneidade do texto está na visão Pirandelliana da sociedade, que é incapaz de viver sem máscaras: “é um espetáculo que pensa profundamente o homem contemporâneo, mas diverte porque induz as pessoas a rirem de sua própria fragilidade”. Trata-se de uma comédia refinada no discurso e na reflexão que instiga que, ao mesmo tempo, é popular e hilária, e atrai público de todas as idades.
Na montagem, Débora optou por quebrar a tônica realista e acentuar a dilaceração do “eu”, dando vazão à loucura de Pirandello. “Nesta encenação, os 11 personagens são interpretados por quarto atores. O ator que faz a personagem que bola todo o plano, depois faz a personagem que sofre o plano. É o feitiço virando contra o feiticeiro”, explica, destacando o caráter lúdico da peça em que mesmo a mudança de um personagem para o outro é feita na frente da plateia, numa brincadeira teatral.
Assumindo-se como fã de todo o elenco, Débora ressalta que as críticas têm destacado o virtuosismo dos atores — um “quadrado perfeito” —, como ela define a trupe, sem deixar de citar a importante contribuição de Rogério Santos, diretor de palco. “Quis um espetáculo no qual pudéssemos ‘surfar’ como intérpretes — uma dramaturgia do ator —, e a ela nos entregamos”, comenta a atriz. Cada intérprete incorpora pelo menos duas personagens.
Débora foi uma das grandes militantes pela recuperação do Theatro Pedro II. Pela primeira vez, subirá em seu palco representando uma peça teatral. Trazer a arte para o público de sua terra natal é um desejo antigo. “Lembro-me do dia que o Zé Maurício Cagno e eu fizemos uma perfórmance em meio aos escombros do teatro, em um manifesto que pedia a sua restauração e eu cantei ‘Sonhar, mais um sonho impossível’. Pois é, um sonho que virou realidade! É bom demais sonhar”, afirma.
A peça “O Homem, a Besta e a Virtude” está completando cinco anos, integra a programação do 3º Festival Nacional de Teatro de Ribeirão Preto e, devido ao patrocínio da Pirelli, a entrada é franca. O presente que a atriz gostaria de receber é a casa lotada. “Quero um público que faça tremer aquele quarteirão lindo e que quem estiver na Praça XV possa escutar as gargalhadas e sentir a alegria deste encontro”, conclui Débora.
Com a palavra, a crítica
Nestes cinco anos de apresentação, “O Homem, a Besta e a Virtude” tem colecionado elogios da crítica. Vale conferir.
Despertando paixões
“‘O Homem, a Besta e a Virtude’ cumpre a função de provar que o teatro ‘comercial’, destinado ao grande público, não deve ser sinônimo de caça-níquel, malfeito e burro. Uma montagem para levar a família e despertar a paixão pelo teatro.”
Sérgio Salvia Coelho, Folha de S. Paulo
Elenco afinado
“Gabriel Miziara, Thiago Adorno e Fernando Fecchio dominam as minúcias de seus vários personagens, enquanto Débora Duboc, a locomotiva do projeto, apenas confirma o que já se sabia: é uma das grandes atrizes brasileiras.”
Carlos Alberto Mattos, Crítico de Cinema
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Bruno Zanardo