Por um sentido para a Educação
Sérgio Kodato, coordenador do grupo de pesquisa Observatório de Violência e Práticas Exemplares da USP, em Ribeirão Preto, conta a origem e o sentido do livro “
O professor e coordenador do Observatório de Violência e Práticas Exemplares de Ribeirão Preto, Sérgio Kodato, aborda, de forma enérgica e crítica, uma realidade bastante conhecida, mas pouco comentada: a da violência nas escolas. Não apenas essa violência “da moda”, intitulada de “bullying”, mas principalmente a da pobreza, do descaso com o professor e da corrupção, que tanto mal causam ao ensino público e ao futuro do país.
Autor de “O Brasil fugiu da escola - Motivação, criatividade e sentido para a vida escolar”, uma elucubração da atual conjuntura das relações em sala de aula — marcadas pelo medo, pelo descaso e pelo desânimo —, Sérgio Kodato é enfático ao afirmar que a violência nas escolas se combate com uma boa aula e com uma produção pedagógica.
Mas como oferecer uma boa aula diante do sucateamento da educação pública? Para responder a essa pergunta, um grupo de 30 professores, orientados por Sérgio Kodato, trabalhou durante quatro anos em um projeto de pesquisa nas piores salas de aula de algumas escolas públicas de periferia em Ribeirão Preto, apenas munidos de tinta, cartolina, argila, máquina fotográfica, filmadora e muita boa vontade. “Fomos para as salas onde se juntam aqueles que não estão aprendendo. São crianças de 11 e 12 anos, alunos de 5º, 6º e 7º ano do Ensino Fundamental de escolas onde, principalmente no período vespertino e noturno, os professores dão aula para meia dúzia de interessados, enquanto70% dos alunos ficam zanzando para lá e para cá”, conta Sérgio.
Foi oferecendo atividades criativas, interessantes e motivadoras da arte de educar que os pesquisadores, ou professores eventuais, conseguiram exercer o chamado controle ativo da indisciplina, fugindo do tradicional controle passivo, aquele que geralmente ordena que os estudantes sentem-se e fiquem quietos.
Na aula de geografia, por exemplo, os pesquisadores pediram para que cada aluno desenhasse um croqui de sua casa para aprender sobre ocupação espacial e organização espaço-temporal. Durante a aplicação do exercício, foi percebida uma grande diferença na motivação e no envolvimento dos alunos, que não ficaram zanzando, olhando para trás, conversando ou brigando.
“Com o controle ativo da indisciplina começando a funcionar, os alunos produzindo e as professoras eventuais elogiando, a autoestima melhorou e a euforia tomou conta daquele espaço esquecido”, narra esperançosamente um trecho do livro. Em outra página, a emoção predomina com o relato do resultado da aplicação do método da não violência, de Mahatma Ghandi, na escola. “Um grupo de alunos, munido com revistas, tesouras, cola e papel sulfite, recortando figuras, buscava mostrar com colagens o que entendera dos poemas. No fundo da sala, dois deles que, no dia anterior haviam sido encaminhados para diretoria, estavam com as almas dóceis e domesticadas”, escreve Sérgio.
A fórmula, que não é nova — violência nas escolas se combate com ciência, arte, esporte, cultura e cidadania —, não é nada simples. Isto porque há quem negue a própria existência da violência nas escolas. Além disso, aplicar o método exige ultrapassar complexos obstáculos.
Abandono
Como oferecer uma boa aula, por exemplo, se falta infraestrutura, materiais de apoio pedagógico e professores criativos e motivados? Atualmente, para ter um nível razoável de vida, o professor precisa dar 40 aulas semanais, o que significa ter cerca de 1.600 alunos na cabeça, cada um com suas demandas e problemas. Preparar uma boa aula neste contexto é um enorme desafio.
Segundo o docente, há 30 anos que não se investe na escola pública no Brasil. “As salas de aula continuam iguais, com as mesmas cadeiras e lousas de 30 anos atrás. Nesse período, houve um inchaço do ensino público sem o consequente aumento do investimento na infraestrutura. Muitos alunos dividindo um espaço pequeno e sem graça significa um convite à violência”, alerta Sérgio.
Não são poucas as histórias de professores que tiveram bens furtados, carros danificados e a própria vida ameaçada. Os “boletins de ocorrência” que esses profissionais são orientados a fazer podem comprovar a violência.
Associado a isso está o desmoronamento da autoridade do professor, que hoje em dia não pode reprovar um aluno, apenas advertir. “Na minha época, três advertências implicavam em expulsão. Isso era uma vergonha e uma mancha para o resto da vida. Essa era a conotação”, relembra Sérgio. Hoje, o desrespeito institucionalizado ao professor começa dentro de casa, como se lê em outro trecho do livro. “Minha mãe sempre perde os papéis que eu levo pra ela assinar, tia. A senhora tem de me dar uns três para levar pra casa. Assim, quando ela falar que perdeu um, eu entrego o outro e, se ela perder o outro, eu dou o último. Mas e se ela perder o último, a senhora vai me deixar fazer o teatro de máscaras sem o papel assinado?”
Um quadro assustador, pintado a óleo (quente) e emoldurado em ferro. De um lado o professor, que foi perdendo o poder, sentindo-se impotente, desanimado, depauperado e produzindo doenças como enxaqueca, depressão, varizes, úlcera, até chegar ao câncer. De outro lado, os alunos, que hoje em dia sofrem com a degradação da sociedade e com o avanço da pobreza — e não apenas com a miséria material, mas também a afetiva e a espiritual — muito piores do que há 30 anos.
“Hannah Arendt, historiadora da escola de Frankfurt, diz que a melhor forma de minar a autoridade é através da desobediência e da ironia do riso. Por isso, se o professor dá uma tarefa, precisa se certificar que o aluno tem capacidade cognifitva e psicomotora para realizá-la, senão ele vai desobedecer. A função social da escola é essa, mas o professor perdeu essa capacidade arrebanhadora de liderança. Muitas vezes, esse profissional até se esquece que é o adulto e que precisa orientar, mesmo quando está sendo alvo de piadas”, explica o pesquisador.
A melhor forma de resgatar a autoridade perdida do professor, ainda segundo a historiadora alemã, é através dos “implementos de guerra”, ou seja, dando a ele o suporte necessário ao encantamento do aluno, o que, nos dias de hoje, é traduzido em tecnologia, conhecimento e arte. “Ao levar tecnologia para a escola, os alunos e familiares sentem que estão tendo acesso ao progresso. Modernizar a escola é ressaltar o potencial desses alunos. Agora, deixar a escola deteriorada e ainda instalar câmeras de vigilância, porta giratória e revista cotidiana são medidas que só fazem com que os alunos se sintam e ajam como se estivessem em um presídio. Antigamente, quando se entrava na escola, a expectativa era de, com muito esforço, adquirir cultura. Hoje não existe mais essa visão, por isso é preciso encantar novamente esse ambiente. Um caminho para isso está na tecnologia”, afirma Sérgio.
Lição de casa
Segundo o docente, a fórmula para dar novamente sentido à escola e ao ensino é planejando a longo prazo. Nesse aspecto, o Brasil precisa aprender a fazer a lição de casa, assim como fez a Coreia do Sul, que reduziu altos índices de analfabetismo e mortalidade infantil e se projetou, em 30 anos, entre os Tigres Asiáticos, investindo “apenas” em Educação.
Conhecedor de outras culturas, o pesquisador conta que alunos de Xangai obtiveram o 1º lugar no exame internacional de matemática e que, na maior cidade chinesa, a educação científica da criança começa aos três anos de idade. “Os educadores da China criaram um grande Museu de Ciências para crianças pequenas, onde são ensinados volume, força, noções sobre o corpo humano e outros conteúdos científicos. Isso tudo foi feito com uma renda per capta igual a de São Paulo”, relata Kodato.
A ação transformadora desse investimento se reflete no olhar e nas atitudes das crianças que, segundo o professor, tornam-se mais ágeis, seguras, interativas e respeitosas. “Observei no metrô de Pequim como as crianças são espertas. Isso acontece porque o chinês desperta a curiosidade da criança e estimula sua inteligência. Lá, elas não usam chupeta ou outros objetos porque nos primeiros anos de vida a boca é o canal de comunicação e interação com o mundo. Já em São Paulo, observei como agem as mães brasileiras. Com medo da violência, embrulham as crianças como se fossem múmias, metem uma chupeta em suas bocas e ficam balançando-as para sossegar. Essa diferença é crucial. Enquanto lá as crianças estão querendo descer, andar e conversar, aqui as nossas estão dormindo. Quando você leva seu filho a um espaço público e o abraça e segura bem firme, pode estar transmitindo a ele que o mundo é perigoso e que ele terá que ficar o resto da vida grudado na barra da sua saia. Por isso existem tantos ‘adolescentes’ de 30 até 40 anos. O chinês está passando para o filho a mensagem oposta, de um mundo com muitas pessoas e oportunidades que precisa ser conhecido o quanto antes”, relata o professor.
Refúgio
O reflexo do descaso e do descuido está nas casas, nas ruas e está na escola, que virou o grande palco da desconstrução, onde medos e frustrações dividem a cena com a agressividade. “O Brasil fugiu da Escola” conta essa realidade em detalhes e revela, através das vivências desses 30 professores, como é possível reinventar as relações de aprendizagem e buscar transformar o “círculo vicioso” em um “circulo virtuoso”. “As intervenções do Observatório de Violência e Práticas Exemplares são diversas, mas no espaço da sala de aula, o objetivo é único: tentar equacionar a desordem e o caos para favorecer um mínimo de aprendizagem e dar sentido à função docente”, afirma Sérgio.
No final das contas, ainda há esperança como se lê no relato do livro. “Impressionante! Minha energia e meu entusiasmo como professor parecem estar renovando-se. ... [ter entusiasmo] É acreditar em si mesmo, em suas ideias, na possibilidade de uma solução, mesmo nas situações mais adversas. É deixar essa energia e convicção refletirem em sua voz, palavras e ações. Ter entusiasmo é estar surdo à voz do desânimo. O entusiasmo, com um grau moderado de sabedoria, levará o homem muito mais longe do que qualquer dose de inteligência, sem ele”.
Texto: Yara Racy
Foto capa: Julio Sian
Fotos: Julio Sian e Carolina Alves
Produção: Pamella Turatti, Marcela Versiani e Marina Casemiro