Pouco espaço para a música local

Pouco espaço para a música local

Apesar do cenário desfavorável, é possível destacar esforços relevantes para esta construção musical, por parte de bandas da cidade

Quem mantém o hábito de frequentar bares, restaurantes e casas de shows na noite ribeirãopretana sabe que a cidade tem músicos talentosos e inventivos. O cenário para eles, no entanto, é restrito.

O leque de opções musicais para o público é vasto, mas as atrações que lotam as casas, são as preferidas pelos contratantes e, muitas vezes, são bandas e músicos que não traduzem uma arte própria e não são responsáveis pela criação das canções que tocam.

Não há uma preocupação real com a formação de público. Ainda assim, apesar do cenário desfavorável, é possível destacar esforços relevantes para esta construção, de bandas como Vinil Verde, Blue Sunset, Motormama, Lesér MC, Pó de Café Quarteto e Fred Sun Walk. Casos raros de músicos que compõem suas próprias canções e conseguem encontrar brecha para divulgá-las e formar um público fiel.

Vinil Verde
A banda ribeirãopretana, conhecida hoje como Vinil Verde, nasceu em 2007 com a proposta de ser uma banda cover do grupo carioca Los Hermanos. A LHC – sigla para Los Hermanos Cover – logo alcançou prestígio no circuito de bares da cidade, chegando a tocar em outras regiões do Estado de São Paulo, sul de Minas Gerais e Paraná. Após um tempo de estrada, os músicos Breno Vettorassi, Cesar Domeneghetti, Guilherme Carvalho, Jonathan Minelli, Renato Gonçalves e Thiago Siqueira trataram de escolher outro nome para o grupo e se aventurar nas próprias canções.

Dessa aventura musical, nasceu o disco Vinil Verde, em 2011, com 11 composições autorais, todas gravadas no Estúdio Vira Disco, do baterista da banda, Breno Vettorassi.

O processo de transição da banda foi natural e sutil. Logo após o lançamento do primeiro álbum – realizado durante um show no SESC Ribeirão Preto – a banda foi incluindo aos poucos suas composições ao repertório da Los Hermanos Cover e o resultado agradou.

Jonathan Minelli, um dos compositores e vocalista da banda, afirma que a ideia inicial era simplesmente homenagear ao Los Hermanos e que nenhum integrante tinha intenção de se enveredar em composições próprias. Contudo, na opinião de Minelli, que foi influenciado musicalmente pelo avô, que também se apresentava na noite ribeirãopretana, começar a compor foi inevitável.

O vocalista ressalta que o fato de a banda já ter um público formado por fãs de Los Hermanos ajudou no processo. “Se você for uma banda cover de qualidade, a chance de te chamarem pra tocar é maior. Assim, o cover acaba sendo uma vitrine para trabalhos futuros”, indica.

Breno Vetorassi afirma que a banda não pensa em abrir mão das músicas cover, pelo simples fato de terem fôlego para tocar o projeto autoral paralelamente. “Se algum dia houver conflito de agendas entre o projeto da LHC e da Vinil Verde, com certeza priorizaremos as músicas da Vinil Verde, mas ainda falta muito para chegarmos ao ponto de vivermos de música própria”, diz.

Com a maioria dos integrantes escrevendo novas canções, a Vinil Verde já tem um novo disco em processo de criação. Segundo o baterista, o disco já apresenta uma identidade própria e está 40% concluído. O lançamento de um novo disco da Vinil Verde é aguardado para o começo do ano que vem.

Emaranhado de estilos
Rica em estilos musicais, Ribeirão Preto também é berço do jazz instrumental, feito por bandas como o Pó de Café Quarteto, que mistura Música Popular Brasileira ao consagrado jazz. Bruno Barbosa, baixista do quarteto, acredita que para fortalecer o cenário de música autoral na cidade, é necessário criar um evento específico onde bandas autorais possam tocar, pois o espaço existente é pequeno. “Tivemos o fechamento de muitas casas que recebiam esses músicos devido à tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria”, recorda.
Pó de Café Quarteto - Foto Monise Terra
O baixista lembra ainda do sucesso do evento “Jazz na Coisa”, realizado mensalmente no Espaço A Coisa, atualmente fechado para reformas e adaptações. Barbosa assume que, hoje em dia, levantar a bandeira da música autoral é arriscado, pois, tocar somente composições próprias durante uma apresentação pode afastar o público da banda. “Pra nós é mais fácil. Compomos música instrumental, quem vai aos nossos shows, sabe o que vai ouvir. Mas para outras bandas é mais difícil”, salienta.

Bruno Barbosa também toca na Banda Balaco, que interpreta músicas em ritmos latinos e da Black Music. Através deste projeto, o músico percebeu a preferência do público por músicas comerciais, ao “estilo balada”.

Leia também: Pó de Café Quarteto lança álbum com apoio do Programa de Incentivo (PIC), de prefeitura de Ribeirão Preto

Rock na raça
Regis Martins, vocalista da banda Motormama, que ao longo da carreira já tocou em diversas cidades brasileiras e também no Festival Pop Montreal, no Canadá, reforça a ideia de que Ribeirão Preto não fomenta a música autoral local. O vocalista analisa o momento da música brasileira e acredita não ser uma falha somente da cidade, mas aponta como um reflexo do cenário nacional.  “Ribeirão é reflexo do que há de pior no Brasil. É uma bola de neve. Os donos de bares não abrem espaço para som próprio, o público não tem hábito de ouvir música própria nos bares e os artistas acabam desistindo de mostrar o trabalho próprio”, lamenta o vocalista. Assim como muitas bandas na história do rock, a Motormama foi conquistando seu espaço gradativamente, como o próprio vocalista ressalta, “abrindo o caminho a fórceps”.

Regis conta que tem muitos colegas que possuem bandas de música autoral na capital paulista mas, mesmo sendo de uma cidade grande como São Paulo, têm de manter projetos com músicas cover para pagar as contas.  Regis lembra que em Ribeirão Preto alguns bares até davam espaço para bandas de música própria, mas, segundo o vocalista, este espaço foi se afunilando cada vez mais. “Para quem toca música própria, o SESC é a salvação da lavoura. Existem ainda o SESI, que abre editais para artistas locais, assim como a FNAC”, salienta.

Em Vinil
A banda lançou este ano o compacto “Flores Sujas do Quintal”. O vinil, fabricado pela Polysom, única fábrica de discos da América Latina, traz duas músicas inéditas da banda: Flores Sujas do Quintal, no Lado A do disco e Rio Grande, no lado B. As músicas foram gravadas em março deste ano no Understudio, sob a produção da Motormama e de Romulo Felício.

Leia Também: Motormama lança Compacto

Blue Sunset
Em Ribeirão Preto tem também bandas fazendo música em inglês, caso da Blue Sunset, que em fevereiro de 2012 lançou o CD “Rises”, um disco cheio de referências do rock norte-americano feito durante a década de 1990.

JP Nakashima, o jovem vocalista da Blue Sunset, que ao lado de Felipe Sato, Felipe da Silva, Guilherme Nakashima e Tobias, formou a banda, cita dois lugares que, na opinião dele, são interessantes para músicos da cidade se apresentarem. A loja Crazy Miranda e o Estúdio Pentatônica.

A Crazy Miranda é uma loja no centro de Ribeirão Preto que surgiu com a proposta de agitar a cena cultural da cidade. A loja abre sua garagem para que músicos façam um ensaio aberto ao público nas tardes de domingo. “Apesar de serem pequenos e de visibilidade menor nesse cenário, creio que esses lugares estão ganhando mais espaço a cada dia”, analisa.

Os integrantes da Blue Sunset não são músicos profissionais, todos tocam por hobby e JP acredita que existam dois tipos de bandas: aquelas que usam a sua música com o intuito de se expressar e se divertirem; e outras que pretendem ter a música como profissão. Na opinião do vocalista, no primeiro caso, se o músico pretende apenas se divertir, sem pretensão, a única dificuldade será criar boas músicas e encontrar um local para tocar. Já para a segunda opção, das bandas que buscam ganhar dinheiro tocando, Nakashima acredita que a complicação aumenta. “Acho o mercado nacional lamentável quando o assunto é dar chance para artistas novos. O grande empecilho para o músico investir na música autoral é o alto custo com equipamentos, gravação, divulgação e todo o resto. Pensando nisso, parece ser impossível achar investidores para esse tipo de produto”, lamenta.

Leia mais sobre a Blue Sunset clicando aqui

Ajudando músicos da cidade
A cadeia de lojas Fnac, inaugurada em 1954 na França, hoje com filial em Ribeirão Preto, já abriu as portas a muitos artistas brasileiros que estavam iniciando suas carreiras e hoje são consagrados. A produtora cultural da Fnac-RP, Déborah Palma, conta que artistas como Zeca Baleiro, Lenini, Nando Reis, Leoni e Elba Ramalho utilizaram os espaços da Fnac na Europa no início de suas carreiras e, ainda hoje, lançam seus projetos da mesma maneira, sem cachê, somente com o intuito da divulgação e da interação com o público. “Os eventos da Fnac são gratuitos para o público, para o artista e para a loja. É uma relação colaborativa onde todos se envolvem e cedem para podermos viabilizar o conteúdo ao público”, ressalta.

Ainda na opinião da produtora, há pouco espaço e pouco público para música autoral, mas o maior problema é a falta de incentivo a esses músicos, pois a cidade não amadureceu e ainda é movida a música “cover de bar”. “Consequentemente, quando não se tem uma valorização do trabalho autoral, não se cria um público preparado para receber novos sons, novas letras, novos artistas e assim temos um padrão que se repete sempre”, afirma.

Contudo, como a salvação para os músicos autorais da cidade, Déborah cita espaços culturais como os Estúdios Kaiser de Cinema, o Espaço A Coisa e as ações independentes como o “Se Vira Ribeirão”, que levam os músicos para tocarem em locais públicos da cidade. “Há uma grande movimentação nesses locais. Quando derem espaço para o trabalho autoral, em todos os sentidos, com certeza ele aparecerá e crescerá”, explica.

O SESC Ribeirão Preto, outro lugar que abre espaço a músicos da cidade, mantém um projeto denominado “Música Ribeirão”, que visa uma valorização dos compositores, instrumentistas e cantores da cidade e da região. Cleber Rocha, Animador Cultural no SESC Ribeirão Preto, responsável pela seleção dos músicos que tocam no espaço, afirma que a instituição prima sempre pela qualidade artística. “Se o músico tiver um trabalho com tal competência artística, com certeza terá seu espaço no SESC”, explica.

Para ele, a cidade possui bons compositores e instrumentistas como Márcio Coelho, Andrei Furlan, Jorge Nascimento, João Nacaratto, Dimi Zumquê, Luciano Duarte e Fred SunWalk. O animador cultural é mais otimista com relação ao cenário musical da cidade e do país. “Me parece que a produção autoral é muito promissora. No Brasil o leque aumenta muito com os novos nomes da MPB como Criolo, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Céu, Karina Buhr, Fernanda Porto, Paulinho Moska e muitos outros que vem se destacando nesse cenário”, completa.

Hip Hop ribeirãopretano
Lesér MC, compositor ribeirãopretano de hip hop, esteve recentemente em Santo André e São Paulo para uma curta temporada de shows ao lado da banda FrontLine Reggae Band. O cantor, que compõe desde 2009 e possui dois CDs lançados, afirma que na capital os músicos enfrentam as mesmas dificuldades de Ribeirão Preto.

Assista ao vídeo de Leser MC


Ligado diretamente a projetos sociais na periferia de Ribeirão Preto, Lesér também se mostra otimista em relação à música composta na cidade. Na opinião do músico, e ativista social, a cidade, assim como outras do país, passa por um bom momento de bandas e compositores. O problema continua sendo a escassez de lugares onde esses músicos podem se apresentar. “Tem muitos músicos fazendo suas composições e lutando para conquistar público. Algumas dessas bandas têm um público que sempre acompanha os shows. Mas, as casas e espaços para shows são raras, podem ser contadas nos dedos, o que para uma cidade do porte de Ribeirão Preto, com 600 mil habitantes, é pouco”, diz.

Outro ponto de Vista
O veterano Fred Sun Walk, considerado um dos precursores do Blues em Ribeirão Preto, brinca que no início de sua carreira a principal dificuldade era tocar bem. Sun Walk afirma que o público ribeirãopretano está bem diversificado e que há locais para todos os estilos. O músico, que iniciou sua carreira em 1994, conta que atualmente não encontra dificuldades para apresentar o seu trabalho, e dá uma dica para os músicos mais jovens: “Acho que os músicos devem fazer aquilo que seja convincente pra eles e para os outros. É a nossa sinceridade, perante o trabalho, que toca as pessoas. Se você quer tocar cover, vá em frente. Senão, vá em frente também. Fazer de tudo para agradar acaba ficando feio”, finaliza.

Revide On-line
Texto: Bruno Silva
Fotos: Júlio Sian e Divulgação

Compartilhar: