Preservar para não faltar
Nível da reserva de água subterrânea do Aquífero Guarani está ameaçado pela retirada excessiva e adensamento urbano em áreas de recarga
Considerado o maior manancial de água doce subterrânea do mundo, o Aquífero Guarani possui um volume de água estimado em 37.000 km3 em 1.150 milhões de Km² de área de abrangência, que se estende por quatro países (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai). Mas essa riqueza está ameaçada por um motivo matemático simples de entender: a conta entre a capacidade de reposição do aquífero e a retirada diária de água não fecha.
Isto acontece porque as águas infiltradas no solo seguem muito lentamente pelas rochas basálticas, entre um a 1,5 metro por ano, levando décadas para atingir o nível da reserva, enquanto o rebaixamento gira em torno de um metro anualmente. De acordo com órgãos especializados, a retirada excessiva e o adensamento urbano acelerado, principalmente nas áreas de recarga do Aquífero, são os principais vilões dessa equação.
Em Ribeirão Preto, uma das cidades que mais capta água do Guarani — mais de 94,446 milhões de m³ por ano —, a área de recarga abrange 64 bairros da zona Leste, estendendo-se, também, por Serrana, Sertãozinho, Jardinópolis e Brodowski. Um relatório do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Pardo aponta que o município utiliza quatro vezes mais água do manancial do que a área de recarga consegue repor. A dependência exclusiva desse manancial para o fornecimento de água potável para 650 mil habitantes representa risco de desabastecimento no futuro próximo.
Estudos realizados sob supervisão do engenheiro Edson Wendland, professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), da USP, indica que a área do Aquífero localizada na região central da cidade baixou 70 metros nos últimos 80 anos. Somente nos últimos dez anos, o trabalho apontou um rebaixamento de dez metros, ou seja, um metro ao ano, em média. O grupo da EESC trabalha no assunto desde 2002, coletando e analisando dados. Para isso, foram reunidas informações secundárias de publicações científicas, teses, dissertações acadêmicas, relatórios de projetos, entre outros documentos.
Foram consideradas, também, as bases de dados dos órgãos envolvidos na gestão, na fiscalização e na captação da água. É o caso do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp), do Sistema de Informações de Águas Subterrâneas (Siagas), do Projeto Guarani, entre outros órgãos. Os resultados são divulgados em dissertações e relatórios, como o estudo “Desenvolvimento de Modelo Numérico para Gerenciamento de Recursos Hídricos Subterrâneos na Área do Projeto Piloto de Ribeirão Preto”. “A elaboração do modelo regional contou com uma ampla pesquisa bibliográfica, que resultou na síntese do conhecimento, arrolando os principais trabalhos hidrogeológicos existentes”, explica o professor.
O estudo seguiu quatro etapas básicas: compilação de seções geológicas e hidrogeológicas; coleta e seleção de dados de poços de diferentes fontes de informação; triagem e seleção de dados sobre poços representativos e adequados às escalas dos modelos conceituais propostos e organização, tratamento e integração final em forma de relatório. O professor Edson observa, ainda, que o modelo numérico reproduz as alterações no escoamento entre 1930 e 2010. A distribuição de cargas hidráulicas é compatível com o modelo conceitual, demonstrando a capacidade de reproduzir a situação de escoamento atual na área de estudo.
A comparação dos resultados da simulação com as curvas de rebaixamento observadas em poços de controle na região central de Ribeirão Preto mostrou que o modelo numérico representa adequadamente o rebaixamento observado, indicando que as taxas de recarga, as condutividades hidráulicas e as vazões bombeadas são compatíveis com a situação real. “O modelo pode ser utilizado para a simulação de cenários futuros, permitindo a avaliação do comportamento do Aquífero sob diferentes condições de explotação (aumento, manutenção ou redução do bombeamento)”, orienta Edson.
O Aquífero Guarani também foi objeto de estudo e de debates do Grupo de Trabalho da Zona de Uso Especial (GT-ZUE), composto por técnicos de órgãos ambientais estaduais, de diferentes secretarias municipais, do Daerp, de institutos de pesquisas, de universidades, entre outros segmentos, além de representante do Ministério Público. Concluído em 2010, um relatório apresentou diretrizes ambientais e urbanísticas relacionadas ao uso e à ocupação do solo na zona Leste da cidade, região de recarga do Aquífero. Um levantamento do passivo ambiental e urbanístico, algumas limitações para a ocupação urbana e a necessidade de implantar uma política ambiental e urbanística sustentável foram algumas das propostas apresentadas ao Poder Público Municipal.
O geólogo José Luis Albuquerque Filho, chefe do Laboratório de Recursos Hídricos e Avaliação Geoambiental do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e agente técnico do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro) participou do estudo. Ele aponta que o trabalho de delimitação das áreas de restrição e de controle em Ribeirão Preto foi coordenado pelo Ministério Público Estadual na pessoa do promotor Marcelo Goulart. “Este trabalho foi de suma importância e apontou os caminhos para se definir o zoneamento urbano na zona Leste, visando ao equilíbrio entre o avanço imobiliário e a proteção da área de recarga e de manancial”, observa José Luis.
RESTRIÇÕES
Com a deliberação das áreas de restrições, o engenheiro civil e diretor regional do Daee, Carlos Eduardo Nascimento Alencastre, explica que o nível de exigência aumentou muito, principalmente na liberação para perfuração de novos poços, que está restrita desde 2006. Como a grande demanda de retirada de água subterrânea é do Daerp, que também apresenta altos índices de perda, o diretor ressaltou que Estado e Município estão realizando, em parceria, um estudo para identificar os problemas que contribuem para o desabastecimento do Aquífero Guarani. No final de 2013, foi formada uma equipe técnica para realizar uma operação pente fino nos quase 600 poços outorgados pelo órgão. O resultado deve ser apresentado em meados de março.
De acordo com Alencastre, o trabalho irá mapear os poços para saber ao certo o volume de captação de água e de onde este recurso está sendo captado: se do lençol freático, do manancial Serra Geral ou do Guarani. Em paralelo, o Daee fará um ato convocatório chamando todos os proprietários de poços para que verifiquem suas outorgas. Também serão verificados possíveis poços clandestinos na cidade. “Este trabalho é importante para sabermos quantos poços realmente retiram água do Aquífero e trará subsídios para que possamos traçar estratégias e políticas públicas mais eficientes, assegurando a conservação de um dos mananciais de água doce subterrânea mais importante do mundo”, reforça Alencastre.
Outra iniciativa foi a criação de unidades de monitoramento para avaliar a qualidade e a variação de nível da água no Aquífero. Para isso, foram instaladas, em caráter experimental, duas bombas (uma para qualidade e outra o nível). Os dados são enviados a cada dez minutos, à Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag) em Campinas, porém os intervalos passarão para cada 12 horas. “Outras três sondas de nível serão instaladas em poços a serem perfurados pelo Daerp e feita medição manual em outros quatro poços parados. Também haverá coleta e envio trimestral de água, aos laboratórios para análise físico-químicos e bacteriológicos”, explica o geólogo do Daee, José Laércio Sanches.
Além disso, Alencastre lembra que o Daerp precisa tomar uma série de medidas para evitar o colapso do sistema. A primeira delas é buscar uma fonte alternativa para o abastecimento de água, como a captação do rio Pardo. Reduzir os índices de vazamentos, melhorar as campanhas para o consumo consciente de água, impedir que a população impermeabilize totalmente os quintais são algumas das orientações dos órgãos especializados para combater o rebaixamento do Guarani.
O diretor do Daee afirma que, se não houver investimentos em outras fontes de captação, a zona de rebaixamento vai aumentar ainda mais. “Estudo de 2000 identificou um rebaixamento entre 50 e 60 metros. Em 2010, chegou a 70, ou seja, um metro por ano. Por isso, precisamos melhorar a drenagem do solo nos locais de recarga, permitindo que a infiltração de água chegue ao Guarani. Isso deve acontecer não somente na lagoa do Saibro, como se pensava”, alerta o diretor do Daee.
DESPERDÍCIO ALTO
O volume de água desperdiçado na rede de distribuição municipal é outra preocupação dos especialistas e do Poder Público, que está em busca de soluções para reduzir os índices estimados em 33% pelo Instituto Trata Brasil. Isso quer dizer que dos 248 mil m³ de água captados todos os dias pelo Daerp, mais de 81 mil m³ são perdidos em vazamentos. A água do Guarani, retirada por meio de 109 poços, chega às casas ribeirãopretanas por 2015 quilômetros de rede, que possui mais 50 anos de utilidade.
Édison Carlos, presidente executivo do Instituto, revela que os dados do Ranking do Saneamento de 2013 foram obtidos com base nos números de 2011, fornecidos pelo Ministério das Cidades por meio do Sistema de Informação sobre Saneamento (SNIS). Ainda este ano, o Trata Brasil divulgará o novo Ranking do Saneamento, levando em conta os números de 2012. Na última pesquisa, Ribeirão Preto ocupa a 9ª posição, tendo 99,72% das casas abastecidas com água; 97,70% com coleta de esgoto, e 81,47% com tratamento de esgoto. “No entanto, o município tinha 41,40% de perdas no faturamento em 2011”, alerta Édson.
O Daerp informa que vem reduzindo este percentual ano a ano. Em 2012, o índice de perdas por vazamentos estava em 26,8%, conforme informações disponíveis no SNIS. Deste total, 60,5% são perdas de faturamento devido a ligações clandestinas, hidrômetros vencidos ou inclinados, entre outras causas. A autarquia estima índices de perdas reais na casa dos 39,5%, representadas por vazamentos em cavaletes, em ramais, na rede de distribuição, além dos pontos invisíveis, inerentes ao sistema de distribuição de água. O volume representou perdas no faturamento de mais de R$ 10,2 milhões por ano, de acordo com dados do SNIS.
Todos os dias, o Daerp recebe de 70 a 80 reclamações de vazamentos de água e tem realizado o reparo em até seis dias. A falta de água em muitos bairros tem tirado o sono de cidadãos e da administração municipal. A crise se agravou em janeiro devido a problemas nos equipamentos de diversos poços, principalmente com a queima de bombas, que obrigaram o Daerp a realizar trabalhos emergenciais e até o remanejamento da captação de água.
O Daerp também realiza campanhas de conscientização sobre o uso da água, como o programa ‘Casa a Casa’, que orienta a população quanto à correta instalação das ligações de água e de esgoto, visando à melhoria dos serviços prestados. Já o ‘Daerp na Escola’ atende alunos da Educação Infantil até as universidades, além de empresas, indústrias, hospitais, associações de bairro, clubes, shopping centers e demais interessados. O programa busca sensibilizar e conscientizar a sociedade sobre a gravidade dos estoques de água doce no planeta, o uso indiscriminado, a contaminação, a poluição e a degradação dos mananciais subterrâneos, em especial, do Aquífero Guarani, e as consequências desses problemas no futuro.
SISTEMA EFICIENTE
Em busca de um sistema de abastecimento moderno e eficiente, o Daerp traçou um plano de ação com investimentos estimados em R$ 109 milhões, sendo R$ 50 milhões de recursos próprios e outros R$ 59 milhões do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC II). Priorizando o combate efetivo à falta de água e a vazamentos e preparando o sistema para atuar junto à outra fonte de captação de água, até julho de 2015, a autarquia pretende realizar uma série de medidas, desde o redimensionamento de poços até a automação do sistema.
Ivo Colichio Júnior, engenheiro civil e diretor técnico do Daerp, explica que as medidas visam aprimorar a gestão da autarquia. Para isso, algumas obras já estão sendo colocadas em prática, como a ampliação do número de reservatórios, que contribuirá para equacionar a redistribuição da água, bem como a pressão da água bombeada, um dos fatores de geração de vazamento. Também estão em andamento a setorização do sistema, a ampliação e a troca de adutoras e as novas estações elevatórias para melhorar o sistema de bombeamento de água.
Segundo o engenheiro, o Daerp atuará ostensivamente no combate às perdas físicas, além de automatizar os sistemas para um controle em tempo real do funcionamento da rede. Para isso, está sendo implantado um Centro de Controle Integrado (CCI), que irá envolver as áreas administrativa, comercial, operações e engenharia. “Nosso objetivo é antecipar os problemas, ter mais agilidade na tomada de decisões e, principalmente, melhorar a prestação de serviços à população”, reforça o engenheiro.
A Agência Nacional de Águas (ANA) já concedeu outorga preventiva ao Daerp para a captação da água do Rio Pardo. Em nota, a Assessoria da Agência informou que a autorização, publicada em agosto do ano passado, por meio da Resolução 20121/2013, é válida por três anos e não garante o direito e o uso da água, pois se trata de uma reserva para a realização dos estudos necessários para a construção de uma Estação de Tratamento de Água (ETA).
Em busca de recursos para a construção da unidade, a Prefeitura já encaminhou o primeiro estudo da obra, estimada em R$ 630 milhões, ao Ministério das Cidades. Apesar de ainda não ter uma área definida para a construção, o estudo indica um local acima do ponto de captação e tratamento da rede de esgoto, no final da estrada do Piripau. O projeto prevê obras de captação e tratamento, 12 km de adutoras, quatro centros de reserva com 40.000 m³ cada e 75 km de rede de distribuição.
FECHAR AS TORNEIRAS
Atualmente, existem 566 licenças de poços outorgados. O Daerp possui 109 poços em funcionamento e retira 94,4 milhões de m³ por ano. Os poços particulares totalizam 457 e não há dados precisos sobre o volume de água extraído. Em Ribeirão Preto, a cobrança dos particulares deve começar em 2015, quando será possível medir esse consumo. Apesar de o Município ser abastecido com água do Aquífero Guarani desde 1930, ainda não há um mapeamento conclusivo sobre o número de poços clandestinos.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves, Ibrain Leão e Arquivo Prefeitura
Diagramação: Lucas Chaibub