Problemas auditivos
Trânsito, baladas e fones de ouvidos são alguns exemplos clássicos de ambientes barulhentos e terríveis para os ouvidos
Todos estão expostos a algum tipo de som, independente do local onde estejam, em diferentes intensidades e por diferentes períodos de tempo. Porém, exposições por longos períodos de tempo ao som alto e pesado — barulho ou ruído —, prejudicam o ouvido humano e podem causar, inclusive, lesões irreversíveis.
Trânsito, baladas e fones de ouvidos são alguns exemplos clássicos de ambientes barulhentos e terríveis para os ouvidos, responsáveis por grande parte dos problemas auditivos, como o zumbido e a perda da audição.
O que realmente conta, segundo os especialistas, para o dano auditivo é o tempo de exposição ao som. Uma pessoa que ouve som alto por muito tempo, a 75 decibéis (medida do som), por exemplo, está sujeita a perda de audição a longo prazo (seis meses). Exposta a um som a 120 dB, por um longo tempo, a pessoa já sente dores nos ouvidos. Entre 110 e 140 dB, a perda de audição ocorre em curto prazo (três meses).
Segundo o médico otorrinolaringologista Dr. Miguel Angelo Hyppolito (foto ao lado), coordenador do Programa de Saúde Auditiva e Implante Coclear do HCRP-FMRP-USP, um ruído no ambiente de 30 dB causa dificuldades à pessoa em iniciar o sono e a perda da sua qualidade. “Com 40 dB a pessoa terá dificuldade na comunicação verbal. Com 55 dB haverá forte mal estar diurno. Com um ruído ambiental de 65 dB a comunicação verbal é extremamente difícil”, explica. Esse tipo de intensidade sonora pode ser facilmente atingida em cinemas, baladas, shows musicais, comemorações com fogos de artifício, entre outros hábitos comuns da vida cotidiana.
O som das festas
Noites agitadas são comuns na vida da estudante Lígia Dalboni dos Santos (à direita na foto), 20 anos, que chega a frequentar até quatro baladas por semana e gosta de exagero quando o assunto é som. “Sempre sinto zumbido nos ouvidos, principalmente depois que saio de uma balada de música eletrônica”, conta Lígia, que diz nunca ter se preocupado em cuidar dos ouvidos.
A vendedora Bianca Botura (à esquerda na foto), 21, também não perde as noitadas aos finais de semana e conta que prefere o som alto por causa da animação. “O som alto não me incomoda, mas fico com um zumbido no dia seguinte”, relata.
O zumbido é a grande queixa dos baladeiros de plantão. O ruído contínuo é sinal vermelho para quem fica muito exposto ao barulho, é o primeiro indício da perda precoce auditiva.
“Numa primeira exposição, o indivíduo poderá sentir perda auditiva e zumbido que são transitórios e, geralmente, desaparecem após 14 a 24 horas. No caso de frequência semanal neste ambiente [balada], ao longo do tempo, as alterações para a audição serão definitivas”, aponta Hyppolito.
No topo das queixas, o zumbido é o sintoma precursor dos demais problemas auditivos. Em um show de rock, por exemplo, o ouvido humano pode receber a intensidade de 120 decibéis – esse volume é menor se comparado a uma pista de pouso e decolagem de aviões em aeroportos, que chega a 110 dB.
Mesmo com todos os riscos que o som alto pode causar aos ouvidos, os jovens parecem não se atentar muito a isso. “Eu e meus amigos queremos o som no último, seja na balada ou até dentro de um carro”, afirma o estudante Airton Grupioni, 20 anos. Ele reconhece não fazer nada para proteger os ouvidos. “Acho que ficaria muito estranho ir à balada com um daqueles protetores”.
O médico otorrinolaringologista Dr. Alexandre Bianchi Barichello explica que as pessoas não precisam parar de se divertir, mas o uso do bom senso em shows e baladas é necessário. “Em festas barulhentas, usar protetor de ouvidos e retirar-se do local, por algum tempo, a cada hora de exposição é o recomendado”, ensina.
O caos das ruasO trânsito é outro ambiente perturbador aos ouvidos e pode causar problemas semelhantes aos já vistos. “Um buzina de automóvel emite 110 dB”, explica Barichello. Já o médico do HC-USP conta que já mediu a intensidade do barulho no trânsito de Ribeirão Preto. O ruído no cruzamento das avenidas Nove de Julho e Presidente Vargas, em horário de pico, chegou a 78 dB. “Imagine uma pessoa exposta a este ruído, trabalhando no semáforo por horas. Ao longo de anos ela terá grande chance de apresentar problemas de audição”, afirma Hyppolito.
Há situações também onde o barulho do trânsito, muitas vezes ensurdecedor, invade residências e acaba por interferir na vida dos moradores. Hyppolito explica que um ruído noturno de 40 dB já é capaz de atrapalhar o sono alterando suas fases.
Um trânsito intenso com, aproximadamente, mil veículos/hora equivale a um ruído de 70 dB. Agora se o tráfego chega a 5 mil veículos/hora, além de indústrias, salões de música e proximidades de aeroportos, a intensidade do som chega a 80 dB. “O barulho maior é o do motor, depois são os pneus, e por fim, o modo como se dirige”, detalha o engenheiro e consultor em acústica Dr. Luiz Alberto Navarro Araujo. Outro componente do ruído no trânsito é a presença de semáforos e cruzamentos. “Nestes locais a circulação é regida por uma série de acelerações e desacelerações, com pequenos períodos de movimento fluido e outros completamente parados”, explica.
Na cabeça — e nos ouvidos — da moçada
Eles estão por toda parte, mais precisamente na cabeça dos adolescentes. Os fones de ouvido já se tornaram acessórios indispensáveis na vida dos jovens, que não abrem mão da diversão musical e também do som bem alto.
O estudante Abner Tosati, de 13 anos, afirma que usa fones de ouvido com o som no máximo volume, seja na escola, quando anda pela rua ou mesmo em viagens de carro. “Gosto de ouvir música com foninho, acho melhor assim e dá para se distrair, a viagem é mais rápida”, conta.
O som alto dos fones pode causar sérias lesões nos ouvidos e a exposição por horas ao ruído pode levar a problemas irreversíveis. Segundo Hyppolito, se o som aplicado pelo fone de ouvido for maior que 60 decibéis, usado de maneira contínua e por mais de uma hora ao dia, pode causar a perda de audição em um período de seis a 12 meses.
“O indivíduo pode começar a apresentar dificuldade em discriminar sons em ambientes com barulho, dificuldades para assistir televisão, ouvir música em ambiente aberto, dificuldades de se comunicar em festas e eventos sociais”, explica.
A jovem Gabriela Alves da Silva, 17, viaja de ônibus todos os dias para estudar. Ela conta que durante o trajeto sempre ouve música com fones de ouvido, mas já sofre com o uso excessivo. “Começo a ficar com dor de cabeça e desligo o som”, afirma Gabriela, acrescentando que sente dores mesmo quando o som não está alto.
A dor de cabeça causada pelo excesso de barulho e som alto entrando diretamente nos ouvidos é um dos sinais de alerta aos quais os jovens precisam se atentar.
“O uso do fone de ouvido não causa perda total da audição, mas a lesão adquirida dificilmente será recuperada”, afirma o otorrinolaringologista Alexandre Barichello. “Uma pessoa que tenha sua audição prejudicada ou um som estranho em sua orelha, na sua cabeça, pode ter sua qualidade de vida bastante alterada”, explica.
Mas os ouvidos não são os únicos prejudicados. Uma lista de sintomas pode ser montada: alterações emocionais, irritabilidade, ansiedade, falta de concentração, agitação, taquicardia, desestabilidade do convívio social e insônia são evidências dos problemas auditivos no corpo humano.
É necessário, portanto, observar se a música que os jovens escutam não está alta demais para os ouvidos. Basicamente os adolescentes podem notar que o som está alto demais quando não entendem outra pessoa falando a menos de meio metro ou quando alguém precisa gritar para falar com eles. Para aqueles que não conseguem se livrar do hábito dos fones de ouvido, é importante pontuar algumas medidas, como evitar o contato com o aparelho por mais de uma hora seguida, ajustar o volume na potência média e optar por não escutar mais o som no volume máximo.
Veja na lista abaixo uma ideia comparativa da intensidade sonora de algumas situações e ambientes, listada pelos médicos Dr. Miguel Hyppolito e Dr. Alexandre Barichello:
- Avião a jato (durante a decolagem a 20 metros): 130-140 dB
- Arma de fogo: 130-140 dB
- Show de rock: 110 dB
- Serra elétrica / furadeira: 100-105 dB
- Pista de aeroporto: 110 db
- Motosserra: 100 dB
- Cortador de grama: 90 dB
- Tráfego pesado: 80 dB
- Automóvel passando a 20 metros: 70 dB
- Conversação a 1 metro: 60 dB
- Sala silenciosa: 50 dB
- Área residencial à noite: 40 dB
- Falar sussurrando: 20 dB
Prevenção é importante para saúde dos ouvidos. Veja:
Na balada: evite ficar próximo às caixas de som e em ambientes muito fechados. É bom também não permanecer muitas horas dentro desses locais e procurar não frequentar baladas toda semana.
No trânsito: não use o som do rádio em volume muito alto. Evite veículos com motores ruidosos, como os caminhões. Durante viagens, procure não deixar a janela aberta e opte pelo ar condicionado. O ruído do vento e do trânsito na orelha esquerda do condutor pode causar a perda auditiva unilateral.
Fones de ouvido: evite o contato com o aparelho por mais de uma hora seguida; dê descanso aos ouvidos após escutar música com os fones. Outra dica é retirar do volume máximo e deixá-lo no som médio.
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Texto: Fernando Belezine (colaborador)
Fotos: Carolina Alves, Ibraim Leão, Júlio Sian e arquivo pessoal