Problemas que se arrastam

Problemas que se arrastam

Em seus 28 anos de história, a Revide produziu uma extensa série de reportagens sobre os principais problemas

 

Numa das primeiras reportagens ambientais, com o título “A morte nas águas vivas do Pardo”, em maio de 1990, a matéria assinada pelo jornalista Murilo Pinheiro fez um diagnóstico dos problemas e propostas para o rio, que já naquela época sofria os efeitos da ação do homem. Nove anos depois, em novembro de 1999, uma reportagem assinada por Paulo Viarti “Água escassa” denunciava o desperdício em

 Ribeirão Preto e previa a necessidade de captação de água do Rio Pardo, algo que está próximo de acontecer.  Passados 14 anos, em janeiro de 2013, reportagem de Carla Mimesse trazia à tona, mais uma vez, dados alarmantes. Na matéria “Uma questão de consciência”, a cidade aparecia em 13º lugar no ranking nacional de desperdício, entre as 100 maiores cidades do país, perdendo 165 milhões de litros d’água por dia, número correspondente a 45% da água extraída do Aquífero Guarani.

O lixo, outra pauta das edições da revista, foi abordado, em maio de 1992, na matéria “Embaixo do tapete”, de Célia Rennó, que denunciava o jogo de empurra-empurra entre a Prefeitura de Ribeirão Preto e a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) para sanar o problema dos lixões desativados na rodovia de ligação a Serrana. Um passivo ambiental até hoje sem solução. Em fevereiro de 1994, em “Toque de Midas”, Ana Maria Cicaccio apresentava um cenário positivo para a reciclagem de lixo em Ribeirão Preto. Na época, o setor de coleta seletiva atendia 15bairros da cidade e se esperava que com a conscientização ambiental, em pouco tempo, o lixo se transformaria numa rentável fonte de riqueza. Mas o tempo passou e as previsões da matéria não se concretizaram. Quase 20 anos depois, a matéria de Carla Mimessi, “Punição Questionada”, explicaria por que: mais de R$ 245 mil gastos, mensalmente, com a coleta de resíduos descartados pela população irregularmente em áreas públicas. A falta de consciência ambiental e a terceirização do serviço de coleta do lixo culminaram na diminuição da reciclagem no Município, reduzida ao insignificante número de 1% sobre o total diário de lixo doméstico produzido — 600 toneladas.

Como pode ser visto nesta rápida pesquisa, desde a fundação, a Revide destacou a importância das questões ambientais. Mesmo que todos esses problemas ainda estejam longe de serem resolvidos no Município, uma mudança ocorreu. O meio ambiente virou uma pauta prioritária que recebe uma atenção maior da sociedade e uma vigilância do Ministério Público e de outras entidades que atuam nessa área.

O HOMEM E O RIO

A reportagem de 1990, “A morte nas águas vivas do Pardo”, em alguns trechos, não poderia ser mais atual. No que diz respeito à reposição de mata ciliar, por exemplo, os problemas se acentuaram. “Infelizmente, as ações são feitas pontualmente. Há desinteresse e total falta de acompanhamento”, afirma Paulo Finotti, presidente da Sociedade de Defesa Regional do Meio Ambiente (SODERMA) e vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo. Criado em 1996, contando com a participação de 23 dos 40 municípios que compõem a Bacia, o próprio surgimento do comitê figura entre os avanços registrados nesse período.Diferente da realidade apontada 24 anos atrás, o saneamento é um ponto onde houve melhora. Naquela época, os 40 municípios jogavam esgoto sem tratamento e restos industriais no leito do rio. Hoje, segundo Finotti, apenas São José do Rio Pardo, Serrana e Jardinópolis não possuem estação de tratamento operando. Em Ribeirão Preto, uma concessão tornou a empresa Ambient responsável pelo tratamento de 98% do esgoto e no ranking dos municípios com serviços da iniciativa privada, a cidade aparece em segundo lugar. Com isso, o rio deixa de receber 122.100 m³/mês de esgoto e o índice de poluição da água melhorou bastante. Já existem, inclusive, propostas de captação da água para consumo humano, após tratamento, mas são projetos caros e que esbarram em algumas restrições, alerta Finotti. “Primeiro com relação aos esgotos clandestinos, segundo devido aos agrotóxicos e terceiro por causa da possível presença de hormônios, que não são detectados pelos testes tradicionais e podem estar na água, oriundos tanto da atividade agropastoril quanto da utilização humana. Esses elementos constituem um perigo, pois podem provocar alterações genéticas”, diz o químico. Se o tratamento de esgoto melhorou consideravelmente, a falta de conscientização do ribeirãopretano na utilização da água, no entanto, prevalece. Em pleno terceiro milênio, o desperdício ainda continua com índices expressivos.

ATITUDE VERDE

Em junho de 1991, Matilde Leone já denunciava, em “Terra em transe”, a situação crítica da cobertura vegetal em Ribeirão Preto. No texto, lamentava a presença cada vez mais rara de animais e a extensão cada vez mais curta da Reserva Estadual de Santa Tereza, a falta de estudo de distribuição de área verde na área urbana, o descumprimento do Código Florestal na expansão canavieira e a incoerência do homem, ao levantar bandeiras contra matança de baleias, queimadas na floresta Amazônica, lixo atômico e petróleo derramado no mar, esquecendo-se da sua região, da sua cidade e do seu bairro. Nesse contexto, ressoa através do tempo, a frase do engenheiro florestal Devanir Jerônimo Del´Arco transcrita na reportagem: “Destruir é rápido, formar novamente é quase uma vida”. E está em perfeita sintonia com a declaração feita, em 2013, pelo professor da USP, Marcelo Pereira, em “Déficit verde”, de Yara Racy: “Há uma visão utilitarista do meio ambiente predominante, não é prerrogativa de Ribeirão Preto preservá-lo”. No salto de 22 anos entre uma matéria e outra, apesar de outras tantas que retomaram o tema, pouco mudou. O Plano Diretor de Arborização Urbana, de 2009, ainda não saiu do papel. A estrada da Mata de Santa Tereza,  apesar de temporariamente fechada, ainda serve ao acúmulo de lixo. O patrimônio genético de 45 espécies de árvores nativas foi perdido com um incêndio criminoso que destruiu quase 30 hectares do Banco Genético da USP.Um ponto positivo, na avaliação do presidente da Associação Pau Brasil, Manoel Tavares, foi a inauguração de parques. “Há 28 anos, não havia nenhum na cidade”, afirma. Outro, segundo o secretário do Meio Ambiente, Daniel Gobbi, será a conclusão do plantio de 22 mil mudas de árvores na zona Oeste, sanando um antigo passivo ambiental da cidade. Apesar de programas de plantio realizados pelo poder público e sociedade civil, a falta de continuidade que o assunto exige, associada à falta de consciência ambiental e de recursos inviabilizam a implantação de mais de 100 áreas verdes em Ribeirão Preto. “Não havia obrigação legal de implantação destas áreas, apenas de destinação e isso resultou em uma grande quantidade de áreas reservadas a praças que, na ausência de infraestrutura, por ser oneroso aos cofres públicos, tornam-se locais de depósito de entulhos, perigosos e sujeitos a ocupações irregulares. Áreas inteiras de plantio são destruídas porque a população não reconhece o benefício. Também encontramos resistência para o plantio em calçadas, em função de erros do passado já superados. Hoje, temos uma cartilha para a escolha apropriada de mudas”, explica Gobbi.

 

AVANÇOS IMPORTANTES

 “Verificamos avanços importantes nas questões ambientais, no que se refere à conservação do Aquífero Guarani, tratamentos de esgotos domésticos e recuperação da qualidade de água de nossos córregos e rios. Ainda temos muito a caminhar com relação a resíduos sólidos, desenvolvimento de programas efetivos de educação ambiental e recuperação de vegetação natural. Consideramos como um dos principais avanços a importante participação da sociedade nas discussões e propostas de ações ambientais, sendo fundamental o papel da imprensa, informando e integrando a população neste processo. Parabéns à Revide pelos 28 vinte anos.” 
Marco Antônio ArtuzoDiretor Regional CETESB (Companhia de Tecnologia e Saneamento de São Paulo)

LEGISLAÇÃO

“Dois avanços importantes podem ser citados em termos de proteção ambiental em Ribeirão Preto: a inserção no projeto de revisão do plano diretor de dispositivos de proteção às áreas de recarga e de afloramento do Aquífero Guarani e a entrada em vigor da lei municipal que proibiu a queima da palha da cana-de-açúcar nos canaviais. Noutro giro, falando-se não em retrocesso, mas sim em estagnação, dois grandes desafios são implantarmos efetivamente a coleta seletiva em nosso município, de maneira a abranger toda a população, e cuidarmos de uma das maiores riquezas naturais do planeta – o Aquífero Guarani –, um dos maiores reservatórios de água doce, capaz de abastecer toda a população brasileira por mais de 3.500 anos. A legislação do Município ainda não o protege satisfatoriamente naquilo que diz respeito à garantia da permeabilidade.”
Cláudia Maria Lico Habib eTânia de AndradePromotoras de Justiça do GAEMA - Ribeirão Preto

FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA

“Em parte, a preservação de um meio ambiente depende de fatores sobre os quais os seres humanos não têm possibilidade de intervir. Citamos como exemplos: fatores climáticos e geológicos. Em segundo lugar estão os fatores ligados diretamente à intervenção humana. O ser humano desde muito tempo tem modificado o ambiente ajudando sua preservação ou têm prejudicado, e muito. A formação de consciência preservacionista nos jovens passa obrigatoriamente pela escola. E infelizmente, a escola não tem explorado muito essa área. Temos que dedicar maior atenção ao problema do ensino de matérias ligadas à educação ambiental.”Lelio Favaretto biólogo

 

SUSTENTABILIDADE

Para se falar sobre as questões ambientais de Ribeirão Preto, ou de outros centros urbanos, é importante analisar aspectos individuais e coletivos. A melhoria ambiental e a própria sustentabilidade só podem ser alcançadas quando há esforços individuais em favor de um bem comum, ou seja, coletivo. Assim é com os resíduos, os transportes, o uso da água, a cidadania e a própria civilidade. Nesse sentido, Ribeirão está com diversas propostas de caráter coletivo, como o incentivo às bicicletas e ao transporte coletivo, modernização da malha viária e valorização do pedestre. Mas temos visto o uso de áreas cada vez mais distantes e o abandono de áreas com toda a infraestrutura já consolidada. Será que não poderíamos usar o modelo de Birmingham-UK, chamado de Regeneration, onde se mantém um limite constante da área urbana, regenerando e revitalizando as construções e espaços degradados para acomodar novas atividades, criar empregos e oportunidades de negócios?” 
Sonia Valle Walter Borges de OliveiraProfessora da FEA- USP- Ribeirão Preto

SANEAMENTO

“Existe uma preocupação crescente hoje no Brasil em relação ao Meio Ambiente, contudo, não vem acompanhada dos necessários investimentos para que tenhamos avanços rumo à universalização dos serviços de saneamento. Ribeirão Preto é exemplo para o país de como a iniciativa privada pode, de forma eficiente e correta, investir neste setor, proporcionando maior qualidade de vida para as pessoas. Somos o segundo município brasileiro que trata o maior volume de esgoto e temos capacidade para aumentar e aperfeiçoar esse trabalho.”
Paulo Roberto de OliveiraDiretor-presidente da Ambient


* Publicado em 29/08/2014

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