Proposta cocriadora

Proposta cocriadora

O coração da cidade, reconduzindo-o ao seu devido e merecido lugar de destaque, em função da memória histórica, patrimonial e econômica

Ponto de partida para o crescimento da cidade, a partir das margens do Ribeirão Preto e delimitado pelas avenidas Jerônimo Gonçalves, Francisco Junqueira, Independência e Nove de Julho, o centro reúne considerável parte da história do Município. Assim como em outras tantas cidades, tem suas ruas e edificações marcadas pelo desenvolvimento e pela vivência cotidiana da contradição entre a memória e o esquecimento. Uma peculiaridade que o coloca, vez ou outra, no centro de discussões relacionadas com preservação, restauração, revitalização, cuidados, enfim, para garantir às gerações futuras conhecer e usufruir dessa importante referência.

Partindo deste pressuposto, o Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), criado em 2012 com o objetivo de estudar a realidade das cidades brasileiras e com base nas suas referências culturais transformá-las em lugares criativos, resolveu reunir propostas de reorganização urbana para o bairro e apresentar um estudo de ações criativas para o local. “Dada a dimensão da cidade, decidimos fazer um recorte para estudá-la e optamos por começar pelo centro porque ele é de todos os ribeirãopretanos. Essa foi nossa motivação”, justifica a presidente do instituto, educadora e ex-secretária da Cultura, Adriana Silva.

Para isso, o instituto foi a campo com cerca de 20 pesquisadores que compõem sua Rede de Cooperação Cidade Criativa e passou a realizar projetos de memória, de identidade, de patrimônio e de economia criativa. Identificando que o problema ali não é o edificado, o tangível, mas o intangível, o IPCCIC chegou à conclusão de que não resolve fazer um projeto urbanístico se as pessoas não mudam. Ponto comum entre os pesquisadores, os projetos apresentados pelo instituto precisam sempre ser endógenos, ou seja, partir da realidade da localidade onde estão inseridos. Assim, surgiu a proposta do IPCCIC de requalificar o centro. Diferente da revitalização, que olha para o lugar como algo sem vida, a requalificação, um conceito bastante utilizado em outras cidades com perfil criativo, tem a visão de uma localidade viva e que precisa ser ouvida para ser repensada.

No centro existem dois grupos: o das pessoas que circulam pelo bairro, que não se sentem donas daquele espaço, e o das pessoas que moram lá e que se sentem, de certo modo, abandonadas, vivendo em um lugar sem segurança e qualidade de vida. De acordo com os pesquisadores, qualquer proposta precisa levar em conta essa realidade. “O centro não é de quem transita, porque quem transita acha que é de quem mora, e nem de quem mora, que acha que é de quem transita. Quem mora não cuida porque quem transita não cuida. Quem transita não cuida porque não mora ali, ou seja, não é meu, não é seu, não é de ninguém. A pergunta é: afinal, quais são as identidades desse lugar para ser meu e ser seu? Esse é o lugar da nossa pesquisa”, explica Adriana.

Passo a passo
Robert M. Solow, prêmio Nobel da Economia, em 1987, afirmou que, em longo prazo, lugares com forte e distinta identidade têm chance de prosperar mais do que aqueles que não as possuem: “Todas as cidades devem conhecer seus atributos de identidade mais fortes e desenvolvê-los ou correrão o risco de serem tudo para todos e nada de especial para ninguém”. A afirmação sintetiza a proposta do IPCCIC para o centro, criada a partir de sua própria metodologia social e organizada em cinco cadernos, considerando a necessidade de uma mudança de percepção, de postura, baseada no conceito de cidade colaborativa.

Primeiro, os pesquisadores levantaram as referências culturais e de identidade relacionadas ao centro e elas se tornaram uma base que se repete em todos os demais cadernos. Nessa etapa, foi identificado que o bairro reúne três forças importantes: a política (traduzida na arquitetura do Palácio Rio Branco); a religiosa (impressa pela Catedral Metropolitana); e a econômica (simbolizada pela magnitude do conjunto de prédios do Quarteirão Paulista). A despeito dessa imponência, também reúne contradições como o Mercadão, o Memorial da Classe Operária – UGT, o Palácio Camilo de Matos e o Hotel Brasil.

No caso específico do centro, o patrimônio ganha destaque no projeto porque há muita identidade cultural vinda dele. São várias edificações significativas e, por isso, foi proposta sua recuperação e reutilização. Porém, a referência cultural nem sempre está relacionada à questão do edificado, como explica a vice-presidente do IPCCIC, historiadora e ex-diretora do Patrimônio Cultural de Ribeirão Preto, Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa. “Surpreendemo-nos, por exemplo, com o que nos disseram ser referência no bairro Ipiranga. Para eles, é muito menos significante o edificado do que as relações de vizinhança. Isso tem que ser levado em conta. Se um dia formos fazer um projeto no Ipiranga ou em qualquer outro bairro, outras questões virão à tona que não o patrimônio edificado. Serão outras formas de referência”, ressalta Lilian.

Além disso, o IPCCIC faz um uso particular do termo Patrimônio Cultural, diferente do sentido clássico, como o senso comum entende, associando-o ao Patrimônio Histórico e Arquitetônico. “Não trabalhamos com projeto arquitetônico de restauro. Patrimônio Cultural, para nós, é muito mais do que isso: é memória, identidade, saber fazer, são os modos de vida, as formas como as pessoas se relacionam, a relação de pertencimento, tudo o que dá ancoragem social aos indivíduos, enfim, fazendo-os saírem do individual para o coletivo”, explica a historiadora.

Já no segundo caderno, o IPCCIC fez um diagnóstico das potencialidades relacionadas ao centro, mergulhando, inclusive, em outras propostas já apresentadas anteriormente. O grupo recuperou todas as informações disponíveis, porque sempre soube que não estava começando do zero, que muita gente já tinha pensado o centro antes. Assim, foram avaliados projetos como o Concurso de Ideias, de 1991, o Ribeirão 2001 e o Cidade Histórica, de 2010, em busca de pontos comuns como a questão do patrimônio, que se destaca em quase todos, ora apenas a título de levantamento, ora propondo sua recuperação. Também foram analisadas as fragilidades, como sua relação com a política, sendo sempre projetos de prefeitos e não de governo, o que não lhes confere continuidade, e também o fato de nenhum deles falar em cocriação, colocar o cidadão como mais importante. “O que pode diferir um pouco nosso projeto de outras ideias sobre o centro é que nós não começamos do nada. Partimos de um referencial teórico que prioriza o homem em relação às instituições e coisas. Isso nos leva a perguntas diferentes e, consequentemente, respostas diferentes”, classifica Adriana.

No terceiro caderno, do universo das possibilidades, o IPCCIC elencou projetos criativos que podem ser implantados, fazendo uma proposta também econômica para a preservação histórica e objetivando superar o conceito de “baixada”, de “velho”, substituindo-o pelo de “histórico”, de um “lugar de todos”. Assim, surgiram ideias de apoio ao projeto de restauração e ocupação do Casarão da Caramuru para que ele saia do papel; de incentivo por parte dos bancos a trazerem seus centros culturais para patrimônios históricos como o Hotel Brasil e o Palacete Camilo de Matos ou de trazer o projeto Guri para o centro da cidade.

Nesse ponto, o IPCCIC formatou seis propostas de cadeias produtivas relacionadas a questões de identidade e patrimônio: do sorvete, do café, da moda, da cerveja, do livro e da música. (veja quadro completo). A do sorvete, por exemplo, baseia -se no fato de Ribeirão Preto ser uma cidade quente, que combina com sorvete, e de o centro ter sorveterias tradicionais. A ideia consiste em se incentivar a produção de sorvetes artesanais e a concentração de sorveterias no centro da cidade para que as pessoas o tenham sempre como referência quando desejarem tomar sorvete. Pode ser criado um Festival do Sorvete no mês mais quente do ano e um projeto social com plantio de pomares em áreas de bairros periféricos, ampliando a cadeia produtiva da iniciativa.

Em outra proposta, na cadeia da moda, propõe-se o resgate da tradição da rua Barão do Amazonas relacionada às boutiques, incentivando a criação de um cluster de moda intimamente ligado ao centro, o que giraria toda uma cadeia produtiva, podendo incluir antigos camelôs que receberam destinação equivocada no passado, muitas costureiras, estilistas e lojas centenárias de tecido. Sugere-se a criação de uma escola de Moda e de uma cooperativa.

Para o instituto, cultura criativa não é idealismo sem pé no chão, mas uma alternativa muito interessante para que as pessoas possam ser inseridas no mercado e obter lucro. “Em longo prazo, pensando desse modo, há mais chance de o projeto dar certo porque envolve muitas pessoas em torno de objetivos comuns. Dá para fazer todo um trabalho de requalificação do centro que não passa por tijolo e cal”, afirma Adriana

No quarto caderno, o instituto identifica stakeholders (possíveis parceiros para a execução do projeto, como moradores, consumidores, comerciantes, pessoas que desejam que o centro fique melhor para fazer negócios ou para ter mais fonte de renda ou para morar num lugar melhor) e propõe a criação de redes de cooperação. Por último, especifica a realização, o acompanhamento e os resultados.

Maria de Fátima da Silva Costa Garcia de Mattos, doutora em História da Arte, professora do Centro Universitário Moura Lacerda e integrante do IPCCIC, diz que, com tudo isso, os pesquisadores descobriram que o centro tem diversidade, patrimônio, gastronomia, coletivo forte, iniciativa privada, história, praças, escolas, eventos, uma parcela bastante significativa da identidade da cidade (a fase do café), ou seja, muita personalidade e potencialidade. “Sabemos que é um lugar de contrariedades e de contradições. Nós temos uma cidade dentro do centro. Por que não torná-lo melhor do que é hoje?”, questiona Maria de Fátima.

Um sonho possível
Grande parte das pessoas considera a proposta atraente e importante para a cidade, assim como outras que surgiram antes desta, mas não consegue responder com precisão qual a razão de não terem dado certo, não terem sido colocadas em prática. Por isso, para aqueles que pensam ser tudo muito bonito na teoria, mas que falta materialidade à proposta, que é muito filosófica e que tudo deve continuar como está, o IPCCIC responde: “É uma questão de querer fazer e fazer. Ponto! É complicado, mas não impossível e há exemplos bem-sucedidos, como o da Cidade do Cabo, de Roma ou do Rio de Janeiro, que podem ser seguidos. A questão é que, em algum momento, isso tem que se tornar prioridade para alguém, seja iniciativa privada, poder público ou sociedade civil. Alguém tem que acordar e ir dormir com isso em mente”, diz Adriana.

Para corroborar essa viabilidade, o instituto aponta, ainda, uma série de possibilidades, entre elas, o potencial de Ribeirão Preto para atrair o turista cultural, que, diferente do comercial, gasta quatro vezes mais e tem maior senso de preservação do local. Adriana salienta que Ribeirão Preto tem grandes eventos científicos que podem auxiliar nesse sentido, mas as pessoas precisam se sentir convidadas a ficar na cidade. É preciso criar roteiros atrativos para que elas entendam como é bom conhecer a cultura de Ribeirão Preto. Essas cadeias produtivas podem auxiliar nesse processo.

Diante do contraditório, em vez de o instituto apresentar um projeto único, impondo sua vontade para o centro, a proposta do IPCCIC está aberta, de acordo Adriana, sendo apenas um conjunto de ideias que devem ser avaliadas, excluídas ou somadas a outras, que partam de outros grupos, transformem-se em uma mobilização, em uma pactuação da sociedade. “A questão urbana — que é a grande expectativa, pois as pessoas querem que apresentemos uma proposta urbana — só terá êxito se resolvermos um problema anterior: que é o do homem fazendo o uso do espaço urbano. Nosso foco, nesse momento, é justamente nesse homem, o que ofertar para ele conviver no centro, gostar dali, para ele querer interagir com o bairro e se sentir pertencente a ele. Na essência, é isso”, finaliza Adriana.

Estudos desenvolvidos nos EUA, onde a questão do patrimônio é abordada de forma diferente do Brasil, comprovam que a reabilitação é economicamente mais viável, do ponto de vista da geração de empregos, de renda e preservação do meio ambiente, do que demolir. 

ESTUDOS COMPROVAM: DEMOLIR É MAU NEGÓCIO

Segundo a historiadora Lilian Rosa, vice-presidente do Instituto de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), um contraponto importante da questão do patrimônio nos EUA é que lá, como a legislação favorece a propriedade privada, o desenvolvimento do processo de preservação patrimonial aconteceu de forma inversa ao do Brasil, partindo como uma demanda da sociedade para o Estado. “Historicamente os EUA têm dificuldade em efetivar ações de preservação do patrimônio, principalmente quando ele é privado, porque há um entrave constitucional que dificulta muito a interferência na propriedade privada, o que a constituição brasileira não tem desde 1934, pois estabelece que sobre a propriedade declarada com potencial social, prevalece o direito coletivo e não o privado”, afirma Lilian.

Isso fez com que os EUA desenvolvessem uma pactuação muito maior entre a população para a preservação desses bens, ou seja, a história da preservação lá não se deu do Estado para a população como aqui, ao contrário, a sociedade civil demanda para o Estado, que age sobre essa demanda e essa pactuação foi interessante porque demandou pesquisas e desenvolveu a questão econômica.

“Os estudos lá estão muito avançados sobre porque demolir e construir novas edificações — e não é só patrimônio no sentido lato da palavra, que é o patrimônio tombado, mas todos os prédios, todas as edificações dos anos 50, 60, 70, 80,e tc. —, é mais caro do que reabilitá-las. Não demolir gera muito mais empregos do que a indústria petroleira, automobilística e construção civil. Nenhuma outra área bate a geração de emprego e renda da preservação do patrimônio. Isso porque ele vai se formando em rede. São vários pequenos negócios criando uma cadeia produtiva”, explica a pesquisadora.

Outra vantagem, afirma Lilian, é que a reabilitação mantém a população na localidade, fortalecendo os laços de pertencimento, mantendo a autoestima da população elevada. “Recentemente lançaram outra pesquisa sobre o impacto disso para o meio ambiente. Dá para imaginar o quanto se gera menos resíduos sólidos, a energia potencial construtiva que já foi gasta na construção desses prédios, não é perdida, então, se é bom para o meio ambiente, para o social, para o afetivo e para a economia, por que continuar insistindo na falácia de que manter as edificações antigas atrasa o desenvolvimento? Até quando vamos continuar ouvindo e acreditando nisso se já se avançou demais a pesquisa nesse sentido, mostrando que é o contrário?”, questiona a vice-presidente do IPCCIC.

As pesquisas de Donavan Rypkeda 

Mestre em ciência da preservação histórica pela Columbia University, Donavan Rypkeda é dirigente da Place Economics. Entre os vários argumentos econômicos que apresenta em defesa do patrimônio ele o defende como importante gerador de empregos e renda, portanto, essencial para o desenvolvimento sustentável. Para o autor, a preservação passa pela gestão cuidadosa dos fundos da comunidade, mitigando gastos desnecessários com um planejamento e redução de despesas.

Exemplos: 

1. Preservação histórica gera empregos.

- na Georgia entre 1992-1996 a reabilitação de propriedades históricas criou 7.550 empregos / gerando um impacto de $559 milhões na economia do estado. A preservação cria 25% mais empregos que a construção de novas estradas, por exemplo. A criação de empregos não para apenas nos empregos da construção civil, mas são distribuídos pela economia local.

Ex: em Michigan com $1 milhão de dólares investidos se cria 12 vezes mais empregos do que com o mesmo dinheiro investido na indústria automobilística. 

2. A reabilitação de edifícios históricos cria mais empregos do que a construção de novas edificações.

A reabilitação de edifícios históricos é muito trabalhosa. Como regra básica da construção civil metade da verba vai para os materiais e a outra metade para a mão de obra, já quando se trata de uma reabilitação entre 60 e 70% do valor é para o custeio da mão de obra. Estes funcionários como pedreiros, marceneiros, eletricistas, encanadores, pintores, entre outros, gastam seus salários no comércio e no serviço local, como restaurantes, barbearias e pagando seus impostos, gerando um impacto local muito mais direto do que seria com os materiais para novas construções. O departamento americano de comércio mede o impacto da produção dentro de uma determinada indústria de três maneiras: o número de postos de trabalho criados, o aumento dos rendimentos da compra de casa locais e o impacto sobre todas as outras indústrias. A reabilitação supera as novas construções nestes três fatores.

3. A preservação histórica significa um impacto econômico contínuo além do próprio projeto.

Certamente estas intervenções criam empregos na construção civil, mas vai além. Os benefícios para a comunidade resultam direta e indiretamente, como foi identificado: formação de novos profissionais, estímulo de investimento privado, estímulo no turismo, aumento no valor das propriedades, aumento da qualidade de vida e do senso e orgulho da comunidade, criação de novos empregos, padrões de uso da terra compatíveis, aumento do valor de venda das propriedades, deterioração e pobreza diluídas. No ano que o Advisory Council preparou essa lista a economia da preservação local foi medida em doze lugares.

4. A preservação histórica não impacta positivamente apenas o trabalho local, mas também o fornecimento.

 Quando se trata de uma construção nova fica difícil imaginar que uma viga de aço seria encomendada daquela comunidade, mas quando se trata de projetos de reabilitação produtos como novas maçanetas, ou painéis de vidro, são facilmente pedidos na manufatura local, gerando um surpreendente impacto na economia. O uso de materiais e artesãos locais promove a economia sustentável local.

 Saiba +

Heritagem conservation and the local economy. Disponível em: https://www.globalurban.org/GUDMag08Vol4Iss1/Rypkema.htm

The Economics of Historic Preservation. Resenha do livro traduzido por Ana Carolina Cléria. Disponível em: https://media.wix.com/ugd/b1bc65_34c6e0b8c09441feb02b726743279391.pdf

Texto: Yara Racy

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