Protagonismo feminino
A capacidade da mulher de se reinventar, de buscar os direitos e de encontrar a felicidade foi o tema do bate-papo com a psicóloga e professora Ludmila Puntel
A ideia de sexo frágil está mais do que ultrapassada. O que aconteceu em um passado não tão longínquo assim, quando as mulheres ficavam à margem da sociedade, sem direito a opinião, a educação, a voto ou a trabalho remunerado, tendo o papel restrito aos cuidados com a família e às obrigações do lar, serviu de lição para as gerações seguintes. Na contemporaneidade, elas encontraram forças para deixar a posição de inferioridade que lhes era imposta, saíram do anonimato, listaram argumentos que embasaram as lutas e se empoderaram. Com empenho e dedicação, combateram os costumes deixados como herança pelo sistema patriarcal. Encontraram voz, ocuparam espaços, cumpriram deveres e defenderam seus direitos — o principal deles, o da igualdade nos campos político, jurídico, trabalhista e civil.
Claro que ainda falta muito para acabar com essa disparidade histórica, mas, um passo de cada vez, as mulheres têm colecionado conquistas significativas. Essa capacidade de superação, de se reinventar e de buscar a realização apesar de todas as adversidades parece fazer parte do DNA feminino. A trajetória de Ludmila Puntel é a prova disso. Nascida em uma família repleta de mulheres inspiradoras, ela cresceu sabendo que tinha tudo o que precisava para perseguir seus sonhos. Formou-se em Psicologia e, além dos atendimentos, construiu uma carreira bem sucedida como professora de Português e de oratória na Oficina Literária Puntel. Após uma separação, decidiu não se render à tristeza e procurou novas alternativas para voltar a sorrir. Fez uma segunda graduação, em Letras, descobriu a paixão pelo esporte, especialmente pela corrida. Criou um grupo de corredoras amadoras, o Lud’s Run, fez novos amigos e conheceu diferentes lugares. Acreditando em seu potencial, testou limites, superou desafios e hoje sua jornada serve de exemplo. Por isso, Ludmila foi escolhida como a entrevistada para essa edição em homenagem ao Dia da Mulher. Nas respostas a seguir, ela discorre sobre as batalhas femininas e revela um pouco mais sobre essa caminhada.
O que há de mais especial em ser mulher?
Ser mulher é saber valorizar em si qualidades essenciais ao ser humano, independente de gênero. É ser determinada, ética, altruísta, proativa, autêntica e gentil.
Quais são as principais dificuldades enfrentadas no dia a dia, sejam no campo pessoal ou no profissional?
As dificuldades encontradas são inúmeras. Existe a discriminação, o desprezo, o assédio sexual, o feminicídio e a desvalorização, só para citar algumas. No campo profissional, a desigualdade salarial ainda é presente e marcante, infelizmente. Mulheres assumem os mesmos postos de serviços que os homens e recebem menos, o que é inaceitável.
Para alcançar mudanças e reverter esse quadro desfavorável, as mulheres precisam assumir o controle da situação?
Com certeza. É importante assumirmos as rédeas das nossas vidas, por mais difícil que seja encontrar forças para deixar a passividade de lado e sair de uma possível zona de conforto. Acredito que todas as mulheres têm a capacidade de tomar a iniciativa frente às adversidades e, de acordo com as próprias vontades, traçar o caminho que querem percorrer para alcançar a felicidade. Podemos e devemos ser protagonistas das nossas histórias.
O termo “empoderamento feminino” tem sido bastante utilizado atualmente. Qual o significado dele para você?
“Empoderamento feminino” significa a conquista do poder de participação social às mulheres, garantindo que lutem pelos direitos, com a total igualdade entre os gêneros. Empoderar-se é ter voz ativa, é mostrar que a mulher não precisa ter medo de falar sobre os abusos enfrentados, não precisa sentir vergonha de correr atrás dos seus sonhos e nem pedir desculpas por suas conquistas. É acreditar em si, em todo o potencial, e verbalizar os desejos. Para mim, empoderar é enaltecer a mulher. É algo relacionado à representatividade, ao engajamento, à sororidade e à colaboração. Por isso, tem de ser um ato diário. Lógico que, ainda hoje, esbarramos nas regras patriarcais, no universo machista e, milhares de vezes, silenciamos a nossa voz. Temos de nos conscientizar e nos unir para acabar com essa repressão, seja ela explícita ou velada.
Acredita que um dia teremos a igualdade de gêneros em todos os aspectos sociais e econômicos?
Lutaremos sempre para atingir essa equidade, afinal, nascer homem não deve ser um privilégio. Somos todos humanos e essa condição nos torna iguais.
Você sempre se sentiu confiante para ir em busca dos sonhos?
Confesso que não foi sempre assim. Os obstáculos que enfrentei na vida me deram forças para superar e avançar. Foi dolorido, difícil, angustiante, mas, agora, quando olho para trás, é reconfortante ver o quão longe cheguei e o quanto ainda posso conquistar.
Na sua trajetória até aqui, alcançou conquistas que antes nem faziam parte dos seus planos? Foi preciso se reinventar?
Sim, a palavra reinventar cabe bem na minha história de vida. Após uma separação, sendo mãe de duas meninas, a primeira imagem que vem à cabeça é de derrota, de fracasso. E, nós, mulheres, temos de criar alternativas para redescobrir a nossa verdadeira essência, encontrar um tempo para respirar e para enxergar as situações sobre outra perspectiva, mesmo quando estamos mergulhadas em um turbilhão de emoções. Umas encontram na dança ou na música formas de expressar seus sentimentos, outras em novas atividades profissionais. Eu reinventei meu caminho quando me identifiquei com o esporte — principalmente, com a corrida de rua. A corrida me deu subsídios para me empoderar. Criei um grupo, o Lud’s Run, que acabou se tornando uma poderosa ferramenta de sociabilização. Fiz novos amigos, propus a mim mesma o desafio de ser meia-maratonista, conheci lugares diferentes, realizei ações sociais juntamente com uma corrida oficial e também me divirto desempenhando a função de locutora em algumas provas da cidade e da região.
Você vem de uma família com mulheres fortes. Consegue ver a evolução de cada geração?
Sim. Com o passar das gerações, vamos avançando e conquistando mais voz. Dentro da minha família, tenho vários exemplos de mulheres que fizeram a diferença em suas áreas de atuação. Com minhas filhas, abordamos a temática sempre que nos deparamos com cenas da vida real, envolvendo, nós, mulheres. Como professora, leva esse tema para a sala de aula? É muito prazeroso trabalhar com esse assunto em sala de aula. Adolescentes desmitificam as dúvidas e conceitos preconceituosos e passam a lidar com a questão com mais criticidade e naturalidade. Discutimos temas como gravidez na adolescência, feminicídio, o papel da mulher na sociedade, a ditadura da beleza, a violência doméstica, entre tantos outros. Esses bate-papos são sempre enriquecedores para todos os envolvidos.
O quanto os padrões de beleza podem ser cruéis com as mulheres?
Essa ditadura é algo extremamente prejudicial. Corrói a nossa autoestima. Temos de ensinar aos nossos filhos a não julgar as pessoas pela aparência. A beleza está, justamente, na individualidade, nas particularidades de cada indivíduo e na diversidade.
Qual o caminho para as mulheres fugirem dessas imposições e se valorizarem como são?
Não só os homens, mas, muitas vezes, nós mesmas nos visualizamos como objeto sexual masculino. Acredito que a transformação se faz por meio da educação dentro de casa, nas instituições escolares, nas campanhas televisivas e pelas mídias sociais. O caminho é a mulher se autovalorizar. Ela pode ser o que quiser, da forma que quiser, onde quiser e quando quiser. E, o mais importante, ter coragem para lutar, dia após dia, com os micromachismos que acompanhamos na sociedade.
Qual o papel dos homens nesse cenário?
O papel do homem é o de ser parceiro, incentivador, empático no discurso e também nas ações.
Essas questões devem ser discutidas com frequência e não apenas em uma data especial como o Dia Internacional da Mulher?
Sem dúvida. Se os números revelam que 12 mulheres são assassinadas no Brasil diariamente e que os milhares de casos de feminicídio ainda são subnotificados, a sociedade tem o papel de discutir frequentemente e cada vez mais essas questões.
Quais são suas maiores inspirações nesse universo feminino?
Existem muitas mulheres que, por diferentes razões, são inspiradoras para mim. Frida Kahlo, por exemplo. É uma figura importante no âmbito político e cultural mexicano. Mulher que superou traumas físicos e sociais e demonstrou garra e luta diária para viver. Kathrine Switzer também merece ser citada. A ex-maratonista alemã entrou para a história por ser a primeira mulher a participar da maratona de Boston, em 1967. Desbravou o machismo e fez com que fosse possível a participação feminina nas maratonas a partir de então. Nessa lista, incluo, ainda, a cantora americana negra Nina Simone. Ela sempre demonstrou ter consciência da sua posição social e soube usar seu talento para ser referendada na música e na resistência negra. Por fim, destaco Maria da Penha, mulher que teve coragem de denunciar seu agressor. Alertou às autoridades governamentais brasileiras e internacionais sobre a necessidade de medidas que protegessem mulheres em situação de vulnerabilidade, vítimas de violência física e psicológica. A lei que leva seu nome entrou em vigor em 2006 e fez com que a sensação de desamparo diante do domínio masculino diminuísse
Texto: Paula Zuliani Fotos: Julio Sian