Protagonista da vez
Qualidade técnica, formatos diferenciados e liberdade para abordar assuntos instigantes conquistam o público

Protagonista da vez

Por conta da facilidade de acesso às TVs por assinatura e aos canais que oferecem o serviço de streaming pela internet, as séries ganham cada vez mais destaque no universo do entretenimento

Está cada dia mais difícil encontrar alguém que não tenha se rendido ao fenômeno das séries de TV. No trabalho, na escola, no café, na academia, na festa de aniversário e na casa dos amigos, ou em qualquer outro lugar, esse formato de entretenimento, inevitavelmente, aparece nas rodas de bate-papo. O sucesso não é uma mera suposição, mas um fato comprovado por números. O primeiro episódio da sétima temporada de Game of Thrones, “A pedra do dragão”, exibido pela HBO no dia 16 de julho de 2017, por exemplo, atingiu 16,1 milhões de espetadores só nos Estados Unidos, levando em consideração a estreia na televisão, as reprises durante a madrugada e as reproduções por streaming pela internet. A marca, considerada impressionante, já foi ultrapassada. O sétimo e último capítulo, intitulado “O dragão e o lobo”, estabeleceu um novo recorde ao entrar no ar no dia 27 de agosto: 16,5 milhões de pessoas acompanharam os 81 minutos de trama, segundo o site especializado The Hollywood Reporter. No mundo, a média de audiência do programa, que é inspirado nos livros As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, gira em torno dos 30,6 milhões de espectadores por episódio. 

Com média de 30,6 milhões de espectadores por episódio, Game of Thrones mostra a força dessa tendência

Diversos fatores contribuíram para que as séries ganhassem o status de queridinhas do público. A democratização da TV por assinatura e da banda larga é um deles. As produções, antes restritas, tornaram-se acessíveis à grande parte da população. Além disso, acabou a obrigatoriedade de aguardar dia e hora determinados para conferir o conteúdo desejado, exceto alguns lançamentos. Canais e plataformas como Netflix, Amazon, Hulu, CBS All Access e YouTube usam a tecnologia a seu favor, permitindo que o espectador crie e flexibilize a própria grade, o que gera uma relação mais ativa e direta com a obra. “As pessoas têm preferido ficar em casa, tanto por restrições financeiras quanto pela segurança e pela conveniência. Com o preço de um ticket de cinema, assino o Netflix, por exemplo, por dois meses, e tenho à minha disposição uma enorme variedade de vídeos no local e na hora que eu quiser. O desgaste gerado pela programação convencional das TVs também propiciou o contexto ideal para que as séries se sobressaíssem como uma alternativa de entretenimento culturalmente interessante e barata”, pontua Ricardo Donegá, professor, consultor em marketing e comportamento e fã incondicional de Game of Thrones e The Walking Dead.



Os investimentos — e os lucros arrecadados — crescem na mesma proporção que os índices de audiência, estimulando o forte desenvolvimento dessa indústria. As produções para a TV são extremamente bem cuidadas, com qualidade técnica, em som e em imagem, digna das telonas de cinema. Em termos de dramaturgia, os roteiristas encontraram nesse meio maior liberdade para soltar a imaginação, testando formatos diferenciados e abordando temas instigantes, do suspense à comédia, que nem sempre conseguem espaço em outras mídias. A possibilidade de trabalhar melhor os arcos narrativos cria uma demanda por personagens mais densos, o que tem atraído para o universo das séries atores consagrados na sétima arte. É o caso de Glenn Close, em Damages; Claire Danes, em Homeland; Kevin Spacey, em House of Cards; Jéssica Lange, em American Horror Story; Terrence Howard, em Empire; Nicole Kidman, em Big Little Lies; e Viola Davis, em How To Get Away With Murder, só para citar alguns. A tendência é que essa lista continue crescendo nos próximos anos. De certa maneira, é um ciclo vicioso: a audiência estimula um volume maior de investimentos, assim como o incremento nos investimentos acarreta em maior audiência.

Apesar de tanta autonomia, esses novos hábitos televisivos devem ser inseridos na rotina com bom senso e moderação. Quem faz o alerta é Donegá. “Equilíbrio sempre será a palavra-chave. Tenho amigos que nunca ouviram falar das minhas séries favoritas. Nem por isso falta assunto entre nós. Estar aberto a essa diversidade de interesses é enriquecedor. Precisamos de tempo para nos relacionar, para trabalhar, para estudar, para nos exercitar, para nos divertir e até para não fazer nada. Um ser humano maduro sabe dosar bem essas atividades durante o dia. Ficar trancafiado em casa, emendando episódios em maratonas sem fim, pode deixar o espectador alheio à realidade que o rodeia. Vejo pessoas até enaltecendo essa dependência como algo positivo. Não é. Qualquer compulsão, seja qual for sua natureza, implica em perda de qualidade de vida. O ideal, nessa situação, é buscar ajuda”, orienta o professor. 

Séries x Relacionamento

A ciência prova que assistir séries faz bem para o romance. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Aberdeen, na Escócia, no início deste ano, mostra que o casal tende a ficar ainda mais unido ao compartilhar esse hábito. Acompanhar as histórias e teorizar sobre as tramas, amando ou odiando os personagens, acaba se tornando um delicioso programa para fazer a dois. Foi o que aconteceu com Mariana Garcia Fabel e Felipe de Campos Fabel. Juntos há 13 anos, descobriram o mundo dos seriados no segundo ano de namoro. “Nossa primeira série foi Lost e já começamos com uma maratona. Lembro que demorava quase a noite toda para baixar os episódios no computador. De lá para cá, houve um grande salto na qualidade e na oferta das produções, além de um avanço significativo da tecnologia, que trouxe a internet para a sala de TV efetivamente, facilitando bastante a nossa vida”, comenta Mariana. 

Juntos há 13 anos, Mariana e Felipe compartilham a paixão por esse tipo de entretenimento

Durante a semana, reservam um tempinho para se atualizarem antes de dormir, mas, quando a temporada está boa, os finais de semana e até a hora do almoço entram em jogo. Apesar de ser uma paixão em comum, cada um tem um perfil diferente como espectador. Enquanto Felipe assiste uma série por vez e não tem muita paciência para continuar quando julga que o conteúdo não vale a pena, Mariana costuma ver, concomitantemente, vários títulos e prossegue por mais uns quatro ou cinco capítulos antes de desistir. Se no catálogo dele as preferidas são Breaking Bad, The Walking Dead e Stranger Things, no dela aparecem Fringe, Downtown Abbey, Dexter, Person of Interest e Ozark. “Isso nunca foi um problema para nós. Mesmo as séries que não assistimos juntos trazem risadas, reflexões e ótimas conversas”, garante Felipe. Quando questionados se um influencia na seleção do outro, Mariana admite. “Ele está tentando me convencer a dar uma chance para The Waking Dead. Ele já me explicou todos os conflitos psicológicos dos personagens e a trama emocional da série, mas, em contrapartida, tenho muita aflição dos zumbis. Digamos que esse trabalho ainda está em progresso”, diverte-se. 

Expert no assunto

Vitor tem um aplicativo no celular para gerenciar os 32 seriados que assiste simultaneamenteCom apenas 18 anos, o estudante de jornalismo Vitor Takatu domina o tópico séries com propriedade. Termos como plot twist, spin-off e crossover fazem parte do vocabulário do jovem, que faz questão de ir a fundo nas informações relacionadas às obras: sabe quem é o diretor, comenta o currículo do roteirista e elogia a fotografia de determinada cena, detalhes que, normalmente, fogem do conhecimento do público em geral. “Gosto muito de acompanhar os mais diversos tipos de seriados. Adoro ver como os produtores e os showrunners vencem o desafio de fazer algo diferente e que fique bom no formato de grandes arcos. Também aguardo, ansiosamente, os ganchos dramáticos no final de cada temporada”, confessa Vitor. 

Para não perder nenhum episódio, baixou um aplicativo no celular que o auxilia a gerenciar as 32 séries que assiste simultaneamente — não, o número não está errado, são 32 mesmo. “O sistema funciona como um planejamento: alerta sobre as datas, lembra quais são os capítulos que ainda estão na lista de espera e registra o tempo que dedico às séries. Desde que iniciei esse controle, em 2015, são quatro meses, 13 dias e 16 horas até agora”, revela o estudante.  Adepto das maratonas, Vitor já ficou 16 horas seguidas na frente da TV, pausando apenas para ir ao banheiro e para comer. Na tentativa de evitar os temidos spoilers, montou um calendário com as estreias dos programas prediletos nos Estados Unidos e se atualiza, no máximo, no dia seguinte. “Spoiler é assunto sério. Perco a amizade se alguém me contar um grande acontecimento da trama antes que de ter visto”, declara Vitor, que dá algumas dicas infalíveis para quem está em busca de uma boa história para seguir: Doctor Who, Game of Thrones, Sense8, Westword e Please Like Me.


Texto: Paula Zuliani | Ilustração: Alexandre Nascimento

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