Protagonista econômico
Em entrevista, economista e professor da USP Sergio Sakurai discorre sobre as razões da expansão do setor imobiliário mesmo durante a pandemia
Texto: Raissa Scheffer
O momento é de abalo para a economia nacional. O tombo recorde de 9,7% no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no segundo trimestre do ano, conforme mostrou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), colocou o país em recessão técnica, causada principalmente pela pandemia da Covid-19.
Uma adversidade que parece não abalar o mercado de imóveis. Ao contrário, o setor apresenta números positivos e encontrou espaço para se destacar em 2020 — efeito da própria pandemia e também da queda brusca na taxa básica de juros, a Selic, que chegou a 2% na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), em agosto. O menor patamar da história para a taxa também significa investimentos mais atrativos no setor imobiliário.
Segundo pesquisa da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), os financiamentos imobiliários registraram a maior alta semestral dos últimos dez anos, em 2020, de 35% ante o primeiro semestre do ano passado.
Os dados do Banco Central mostram que o volume de transações nos financiamentos imobiliários cresceu 20,5% no primeiro semestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2019, somando R$ 50,8 bilhões.
Na entrevista a seguir, o economista e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP Ribeirão (FEA-RP/USP) Sergio Sakurai contextualiza esse cenário e explica as razões do protagonismo do setor. O especialista em Economia Aplicada também destaca a importância dos investimentos e como o mercado de imóveis pode ajudar no processo de recuperação da economia no pós-pandemia.
Qual a explicação para esse protagonismo do setor neste momento da economia?
Existem vários fatores que explicam porque o mercado imobiliário realmente está se destacando nos últimos meses. Inclusive, um deles é a própria quarentena. Com a pandemia do coronavírus, muitas pessoas estão passando mais tempo em casa, home office, isolamento, filhos estudando em casa. Isso leva a uma mudança de comportamento de como as pessoas encaram o imóvel. Então, se antes muitas pessoas encaravam o imóvel só como um lugar onde praticamente apenas dormiam, hoje essa concepção é outra. É preciso ter um imóvel que tenha, por exemplo, uma sala de estudos para as crianças, um escritório. Então, isso faz com que as pessoas procurem imóveis que atendam essas novas demandas. Leva ao interesse por um imóvel novo ou uma reforma, o que movimenta o setor.
Qual o papel da queda na taxa básica de juros (Selic) nesse cenário?
É a outra explicação para essa movimentação do setor. A redução das taxas de juros tem dois canais. Um deles é para quem quer comprar e precisa de financiamento. Basicamente, fica bem mais barato pagar as parcelas com juros mais baixos, do que com juros que se praticava três, quatro anos atrás, por exemplo. Mesmo para quem não quer comprar um imóvel para morar, tem muita gente que compra imóvel para alugar e investimento. Então, nesse canal, haverá o ganho com o aluguel. Como as taxas de juros estão muito baixas, os poupadores que antes investiam seus recursos em ativo financeiro, com por exemplo o CDB, percebem que estão ganhando um juro muito baixo. Então, vale a pena comprar um imóvel e colocar para alugar, porque a renda do aluguel é maior do que o juro que uma aplicação financeira pagaria, por exemplo.
Isso explica o interesse crescente nos investimento em imóveis?
Quem tem dinheiro e quer aplicar em algo, hoje, com o juro bancário muito baixo, não tem bom rendimento. Assim, essa pessoa vai cogitar investir o recurso dela em outras alternativas, e uma delas é comprar imóvel. Então, quando o juro bancário está muito alto, naturalmente, existe a tendência de colocar o recurso na sua poupança, em um CDB ou ações. Mas, quando o rendimento de juro que o sistema bancário paga para as pessoas diminui, elas se sentem menos atraídas em colocar a poupança delas em ativos financeiros. Assim, recorrem a imóveis, para ter, por exemplo, uma renda de aluguel.
Para as pessoas que não têm esse foco investidor, mas querem comprar a casa própria, o momento também se mostra interessante?
Mesmo para quem não tem um foco de investidor, mas quer comprar casa própria, esse realmente também é o momento propício. Isso porque o custo do financiamento está mais baixo. Então, há a tendência de fazer um bom negócio, com parcelas menores. Outro ponto importante é que, eventualmente, você pode ter boas ofertas no mercado. Infelizmente, com a pandemia, muita gente perdeu o emprego, mudou o padrão, teve de entregar imóveis, assim por diante. Ainda tem dos lançamentos do mercado. Então, para as pessoas que têm interesse em comprar, esse momento é interessante, pois o mercado tem boas oportunidades. E como o juro está baixo, é possível financiar a compra de um imóvel com parcelas bem abaixo das já praticadas.
Existe um perfil dentro do setor imobiliário, como residencial ou comercial, que ganha mais destaque neste momento?
O que temos notado é que muitas empresas estão se readequando para trabalhar mais intensamente a distância. Então, devemos ter, nos próximos meses, uma quantidade de imóvel comercial ou ocioso. Esse é um é um cenário possível. Por outro lado, essas pessoas que antes trabalhavam em escritórios, agora tendem a trabalhar nas próprias casas. Acredito que boa parte dessa melhora, que estamos observando agora vem desse movimento. É mais um setor residencial. Para o futuro, com a tendência de as pessoas irem menos ao escritório, haverá mais oferta de imóveis comerciais, os espaços que reúnam essas facilidades. Era uma cultura que já estava crescendo, só que em um ritmo lento. Isso, com certeza, vai se intensificar e acho que é uma mudança que vem em definitivo e vai trazer esse novo perfil de oferta e demanda.
É possível dizer que o setor será um dos que pode ajudar a alavancar a economia?
Tudo ainda é muito incerto. Ainda não temos vacina e não sabemos se ainda estamos sujeitos, por exemplo, a uma segunda onda da pandemia. Ninguém tem certeza do que pode acontecer nos próximos meses ou nos próximos anos. Então, é um setor que pode contribuir, pelo menos, para a economia não ir tão mal neste ano. Todavia, acho que tudo é muito prematuro ainda. Um fator importante é taxa de juros. É pouco provável que as taxas de juros voltem a subir nos próximos anos. Enquanto a inflação estiver sob controle e a economia tiver sofrendo as consequências negativas do coronavírus, provavelmente a taxa de juros vai se manter baixa. Então, isso é um dos principais pontos que pode ajudar o setor a se impulsionar.
O que o setor precisa para manter esse ritmo positivo?
Não basta ter só uma taxa de juros baixa. A pessoa até pode conseguir financiar o imóvel pagando uma parcela menor, mas ela vai ter uma parcela para pagar, né? Então, se ela não tiver renda, por exemplo, perder o emprego, mesmo com uma parcela menor, ela não vai conseguir manter o imóvel. Assim, é um cenário um pouco delicado. Penso que seja um setor que pode ajudar a economia a se recuperar, mas acho que ainda é um pouco prematuro dizer que ele vai ser um dos principais responsáveis, pela retomada.