Quanto mais perto, melhor

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Os filhos estão saindo mais tarde da casa dos pais

Um novo padrão de comportamento configura as relações familiares. Os chamados filhos cangurus contrariam o que acontecia com os jovens adultos de décadas anteriores, que sonhavam em sair de casa assim que começavam a trabalhar e a ganhar o próprio dinheiro. Os jovens de hoje não seguem mais isso à risca e muitos deles continuam vivendo com a família depois dos 25, 30 anos, mesmo tendo conquistado seu espaço no mercado de trabalho e adquirido liberdade financeira. Assim como os mamíferos típicos da Austrália, eles continuam “pegando carona” na bolsa da mãe.
Vinicius
Em um primeiro momento, pode parecer comodismo ou falta de determinação desses jovens — e uma certa dose de superproteção dos pais —, mas os cangurus mostram que não é bem assim e que vários motivos determinam esse novo comportamento. O primeiro deles é exatamente o que fazia as gerações anteriores buscarem seu próprio espaço: a liberdade. Hoje, os jovens adultos têm isso sem precisar sair de casa. Com pais liberais, os filhos podem levar amigos e até mesmo namoradas em casa sem entrar em conflito. Afinal, a regra número um da relação é o respeito mútuo.

É exatamente isso que baseia o convívio do administrador e consultor imobiliário Vinícius Casseb Spinola de Castro, de 27 anos, com sua família. Para ele, falar em liberdade e privacidade na relação é um tanto complicado, por isso prefere usar o termo bom senso. “Estabelecer regras nunca foi necessário porque sempre tivemos um diálogo muito tranquilo e aberto. Há um respeito mútuo e, nas decisões familiares, costumo participar sempre com o cuidado de não causar algum tipo de atrito para os meus pais, que hierarquicamente terão sempre a preferência”, explica Vinícius. 

Assim como ele, a empresária Bruna Barbim, de 25 anos, também prefere não sair de casa por enquanto. Ela mora com a mãe e só pensa em se mudar quando quitar sua casa própria. Depois que se formou, ela começou a trabalhar em uma multinacional e viajava toda semana, para várias cidades, e voltava para a casa dos pais no fim da semana. Apesar do ritmo bastante corrido, a administradora de empresas percebeu que era o momento de investir na carreira profissional. Então, adquiriu uma boa experiência e juntou dinheiro para conquistar seu sonho: ter o próprio negócio. Com a ajuda da mãe e sem a necessidade de morar em outra casa, seguiu firme no objetivo e este ano abriu sua loja.  Bruna também comprou uma casa como forma de investimento, mas, por enquanto, quer continuar com suas conquistas e só sair de perto da mãe quando o imóvel estiver quitado.

WilliamO empresário William Yoo é outro que ainda não viu ainda a necessidade de sair da casa dos pais. Prestes a completar 30 anos, um fator que o faz ficar ainda mais próximo é que os pais são estrangeiros e o filho sente a necessidade de estar por perto. “Moramos na mesma cidade, ainda não sou casado e não vejo necessidade de morar sozinho, pois tenho um bom relacionamento com minha família. Morando sozinho, além de um gasto desnecessário, não teria todas as facilidades que tenho em casa hoje”, argumenta William, que se prepara para mudar esse cenário, já que está de casamento marcado para o próximo ano.

Desta forma, Vinícius, Bruna e William enquadram-se no que se chama de filhos cangurus. Conforme explica a psicóloga e psicanalista Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis, os filhos cangurus, em um sentido mais subjetivo, são aqueles que demoram mais tempo no colo dos pais, necessitando de sua proteção para seguirem adiante na vida. “Em termos mais objetivos, podemos dizer que os filhos cangurus são aqueles jovens que já concluíram um curso (universitário ou não) que lhe dê condições de emprego remunerado, ou seja, são jovens que já teriam possibilidade de morar fora da casa dos pais, mas permanecem nela”, esclarece. Bernadete ainda expõe que há outra categoria de filhos cangurus: aqueles que, embora já tenham se formado, ainda não conseguiram independência financeira e, por vezes, condições psicológicas que lhes garanta autonomia.
Maria Bernadete
Segundo a psicanalista, para falar de filhos cangurus é interessante pensar na palavra “des-envolvimento” (assim, com hífen mesmo). O prefixo “des” pode ter o sentido de saída, de término, como aparece, por exemplo, em descartar, desocupar, desmamar, etc. Assim, des-envolvimento tem o sentido de movimento em direção à autonomia, em direção à saída do envolvimento. “Entenda-se aqui o envolvimento exatamente como aparece na imagem do canguru, que é a do bebê dentro do útero materno”, esclarece Bernadete, completando que durante todo o desenvolvimento do ser humano, a partir do momento que ele nasce até se tornar adulto, há diversos movimentos de desprendimento, seguidos de movimentos de retraimento, de volta, de necessidade de amparo.

Existem diversos fatores que estão implicados na constituição desse fenômeno que se apresenta na sociedade contemporânea: emocionais, sociais, históricos e culturais. Entre os emocionais, está, por exemplo, o medo da independência e da autonomia. Outro fator emocional importante é não querer abandonar a famosa zona de conforto. Bernadete comenta que a tendência a buscar o que é mais fácil e prazeroso é forte no ser humano, não apenas entre os jovens. Permanecer na casa dos pais é, como se diz popularmente, ter cama, comida e roupa lavada, ou seja, uma parte grande de preocupações típicas da vida adulta é eliminada. Se essa estrutura básica está garantida para o jovem, abre-se o espaço para maior investimento na vida profissional, para mais economia, mais viagens, mais consumo, enfim, mais prazeres.

Essa comodidade realmente é um dos fatores que deixa Bruna tão à vontade na casa da mãe. “Tenho um quarto só meu, não preciso limpar, lavar roupa, passar e nem cozinhar. Tenho todo o suporte graças a ela”, conta. Mas a empresária ajuda a lavar a louça e, quando a mãe não pode, ela mesma cozinha. Apesar da mãe evitar que ela pague as despesas, algumas vezes Bruna faz compras no supermercado com o seu dinheiro. No caso de William, há algum tempo ele tomou frente das despesas da família, mas desfruta das mesmas comodidades que Bruna: um quarto só pra ele, comida da mamãe, roupa lavada e sempre alguém cuidando dele. O empresário não costuma colaborar nas tarefas do dia a dia pela falta de tempo, já que, apesar de ter se formado fisioterapeuta, comanda duas lojas no Novo Shopping.

É esse conforto na casa dos pais que também pesa na decisão de Vinícius de se manter por perto. “Sem dúvida, esse é um dos fatores principais que me levam a permanecer em casa. Tenho minhas refeições regularmente nos horários, roupa lavada e passada, casa sempre muito limpa e organizada pela nossa funcionária. Meu quarto é bem estruturado e temos uma área de lazer bem agradável. Para mim, são motivos de sobra, visto que hoje o que mais procuramos ter é qualidade de vida associada a pessoas que amamos por perto”, avalia o consultor, que aproveita os momentos em casa para ouvir música, ler matérias esportivas, notícias de economia e atualidades, e, quando não está no seu canto, gosta de papear com os familiares e brincar com seu cachorro. Quanto às despesas da casa, Vinícius até gostaria de ajudar, mas na prática sua participação seria insignificante. Porém, faz questão de ressaltar que tem prazer em colaborar com algumas tarefas, pois é muito grato por tudo o que tem e é junto da família.

Mas não é só a liberdade e a comodidade na casa dos pais que estimulam os filhos cangurus. Bernadete enumera alguns outros fatores, como a superproteção dos pais, que, desejando oferecer o melhor aos filhos, acabaram sendo, inadvertidamente, promotores de inseguranças ou pais de uma geração que lutou por liberdade e, como consequência, têm dificuldade de impor limites aos filhos porque o não poderia soar como repressão. Na lista da psicóloga, ainda estão o aumento da violência urbana, que levou as classes média alta e alta a protegerem exageradamente os filhos; o prolongamento da formação acadêmica em função das exigências cada vez maiores do mercado de trabalho; e a liberdade sexual, pois os jovens não precisam mais se casar para ter uma vida sexual ativa e estável.

Relacionado a um dos itens listados por Bernadete, o sucesso profissional vem sendo colocado à frente da formação de uma família. “É comum que os jovens de classe média alta e alta queiram se casar somente depois de já terem casa própria, ótimos salários e condições de usufruírem de uma vida semelhante à que tiveram na casa dos pais. Essa meta social leva à postergação da maternidade/paternidade, uma vez que cuidar de filhos pode ser visto como um obstáculo para o desenvolvimento profissional”, comenta.

William teve a oportunidade de estudar em período integral na faculdade, fazer pós-graduação e se dedicar ao que era importante para ele, sem a preocupação de trabalhar para se sustentar. Assim que se formou, recebeu uma proposta para trabalhar em Manaus e decidiu arriscar, já que era jovem e não tinha muito a perder. Ficou fora por um ano e voltou para ficar mais próximo da família. Hoje, tem liberdade financeira e, em breve, parte para uma nova fase de sua vida, buscando constituir família.

Vinícius também desfrutou desse benefício, tendo tempo suficiente para estudar e aproveitar as oportunidades que lhe foram apresentadas, como a viagem que fez durante um mês em Berlim. Aliás, esse foi o maior tempo que ficou longe da família. Com esse respaldo, pode fazer suas economias, mas sempre trabalhou e fez investimentos sozinho. Da mesma forma agiu Bruna, que contou com a ajuda dos pais enquanto estudava e dava os primeiros passos na trajetória profissional e hoje comemora suas próprias conquistas.

Esse novo padrão de comportamento acontece por uma atitude tanto dos filhos quanto dos pais. “Penso que ambas as partes tenham responsabilidade sobre esse acontecimento, mas atribuo maior influência ao comportamento dos pais, no sentido de não promoverem exercícios de independência e autonomia desde o início da vida dos filhos”, declara Bernadete. Os filhos cangurus discordam. William acredita que seja mais por sua postura. “Hoje, sou independente e não haveria problema em morar sozinho, mas não vejo a necessidade”, diz. Vinícius compartilha da mesma opinião. “É uma atitude mais minha. Meus pais nunca me pressionaram porque sabem que sempre fui um cara família, não apenas pelo fato de morar com eles, e sim, por gostar de cuidar bem da casa, participar das decisões e ser atencioso com eles”, frisa.  Já Bruna credita a responsabilidade às duas partes. Sua por só querer se mudar quando tiver realmente condições de quitar uma casa e de poder se sustentar sozinha, e da mãe por lhe dar suporte e apoio enquanto busca essa conquista.

No que se refere aos pais, Bernadete diz que as gerações sofrem diferentes influências históricas, sociais e econômicas, e isso necessariamente implica em diferenças na educação dos filhos. As gerações contemporâneas, de classe média e alta, tendem a ser mais superprotetoras com os filhos, seja em função da violência urbana crescente, seja porque valorizam em excesso o conforto material. “Atualmente, o sucesso dos pais costuma ser medido também por aquilo que podem oferecer aos filhos, mais em termos de bens de consumo do que em termos de valores subjetivos. Essa atitude dos pais pode promover uma geração de filhos que buscam o conforto material acima da busca por autonomia”, analisa.

A psicanalista ainda ressalta que geralmente os filhos cangurus pertencem às famílias de classes média e alta, já que esse fenômeno está muito associado à manutenção de comodidades que se tem na casa dos pais, que requerem uma boa condição financeira. Nesse sentido, fatores como o desemprego e a recessão econômica contribuem para o aumento dos filhos cangurus, uma vez que dificuldades financeiras levam à busca por proteção e ela pode estar na casa dos pais.

Protegida, Bruna afirma que a relação com sua mãe é totalmente aberta, tem bastante apoio, liberdade e segurança. “Sinto um profundo agradecimento, pois tudo o que fiz na minha vida, a pessoa que sou hoje, foi graças à força e à ajuda da minha mãe, e tudo que ela fez por mim, com certeza, irei retribuir”, salienta. Ela sabe que essa situação não vai durar para sempre e sente que já está preparada para sair de casa, mas quer preservar a boa relação, estando sempre por perto. “Só acho que ainda não estou muito preparada para as atividades domésticas, mas com bastante prática vou me sair bem”, complementa a empresária, que adora assistir TV quando está em casa.

Como seu casamento será no ano que vem, William já se sente pronto para a mudança. Ele percebe que está maduro o suficiente, apesar de achar que ainda tem muito a evoluir e crescer. Apesar de considerar que por enquanto está à vontade, assim como seus pais, Vinícius também se sente preparado para sair de casa. “Hoje, conto com alguns frutos dos investimentos e economias que consegui fazer, sei que já poderia sair de casa sem a ajuda deles, mas não sinto essa obrigatoriedade. Nossa relação é muito boa, os amo e quero fazer essa fase gostosa durar mais porque sei que um dia a vida irá tirá-los de cena, e isso sim não tem volta”, revela. Como acredita em ciclos e gosta de família, vê-se em breve constituindo a sua.

Uma filha quase canguru
Ana Carolina Coletty Artal, de 29 anos, saiu de casa pela primeira vez aos 21 para fazer faculdade na Unicamp, em Campinas. A experiência de sair da casa dos pais mudou sua vida. “Fui morar em república, aprendi a cozinhar, comer legumes, cuidar da casa, administrar as contas, resolver problemas domésticos e até matar barata”, brinca, completando que essa experiência a fez amadurecer muito e em um curto espaço de tempo. No início, os pais esperavam que ela continuasse estudando em Ribeirão Preto, mas Carolina bateu o pé e quis ir para Campinas. Aquele momento, para os pais, foi uma mistura de felicidade e orgulho com a dificuldade de encarar que a filha mais velha ia alçar voo sozinha em um ambiente que eles não controlariam. 
Carolina
A insegurança inicial fazia com que a mãe ligasse cinco vezes por dia para a filha. Tudo era muito novo para as duas. Nos primeiros meses, Carolina voltava praticamente todos os fins de semana para casa, mas depois, com as amizades, festas e eventos, voltava de 15 em 15 dias e, às vezes, uma vez por mês. Depois de oito anos morando em Campinas, onde se formou, fez pós-graduação — Carolina é socióloga e antropóloga — e trabalhou durante um tempo, participou de um processo seletivo em uma importante indústria de alimentos em Ribeirão Preto. “Esta era a oportunidade de trabalhar em algo que eu queria muito, com a chance de aliar as ciências sociais ao marketing e começar a me realizar profissionalmente”, conta. Carolina foi aprovada e contratada, e não hesitou em voltar por conta da oportunidade, mas confessa que o fato de retornar à casa dos pais a afligia. Voltou a morar com eles, mas colocou na cabeça que aquilo seria provisório e deixou isso claro para os pais.

O retorno não foi muito fácil e qualquer hábito diferente era motivo de discórdia. “Apesar do controle todo que meus pais queriam exercer, eles foram muito compreensivos com minha vontade de não ficar ali por muito tempo, tanto é que reformaram um imóvel que já era deles para que eu pudesse ir morar lá com toda segurança e conforto. No fundo, eles sabiam que eu não era mais a mesma que tinha saído de lá há oito anos”, conta a analista de marketing, que há pouco mais de um ano mora sozinha. Apesar de ter toda a comodidade na casa dos pais — até fruta picada para ela comer — e de perceber que eles seguraram ao máximo sua saída, Carolina não consegue mais abrir mão da liberdade que experimentou tempos atrás. Hoje, eles moram próximos, mas é ela quem cuida de tudo na sua casa e, apesar de visitá-los com frequência, não tem mais a cópia da chave da casa dos pais.

A independência financeira é outro ponto a ser considerado na relação. Morar com os pais possibilitou que ela conseguisse poupar um pouco mais, mas, morando com eles, ela não se sentia independente financeiramente e considera importante essa quebra. “Se quero viajar, comprar algo de maior valor ou fazer novos cursos, tenho que me virar para economizar, pois pedir para eles está fora de cogitação. Talvez, agora, algumas conquistas demorem mais, mas foi uma escolha. Eu escolhi morar sozinha e arcar com essa conta”, afirma. A analista de marketing acredita que a mudança de casa só melhorou a relação com os pais. “Estávamos brigando muito na fase que morei com eles; a relação se desgasta fácil. Hoje, sempre que estamos juntos não é por obrigação e, sim, porque queremos. Fazemos almoços juntos, assistimos jogos de futebol, tênis, filmes, e tudo se tornou mais prazeroso”, finaliza.

Mudanças no Imposto de Renda
A Comissão de Assuntos Econômicos já aprovou o Projeto de Lei do Senado (PLS) 145/2008, de autoria do ex-senador Neuto de Conto, que estende de 21 para 28 anos o limite de idade de dependência econômica para efeitos de Imposto de Renda da Pessoa Física. Pela proposta, filhos e enteados podem ser considerados dependentes. Irmãos, netos e bisnetos que sempre foram sustentados pelo contribuinte também. Se o dependente estiver cursando uma faculdade ou escola técnica de segundo grau, a idade limite pode chegar a 32 anos.

A justificativa é que o projeto é uma forma de aliviar a carga tributária das famílias que têm altos gastos com jovens, que cada vez mais demoram a entrar no mercado de trabalho. A proposta tem decisão terminativa na comissão, onde recebeu voto favorável do relator, senador Benedito de Lira (PP-AL). Se houver recurso, a proposta será votada ainda no plenário do Senado. Caso contrário, segue para análise da Câmara dos Deputados.

Texto: Máisa Valochi
Fotos: Carolina Alves, Ibraim Leão e Júlio Sian
Produção: Marcela Versiani e Mel Candido 

 

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