QUARENTENA ECONÔMICA

QUARENTENA ECONÔMICA

Economistas avaliam os impactos do novo coronavírus em Ribeirão Preto

É consenso entre economistas: seja qual for a medida tomada para conter o avanço do novo coronavírus, grande parte dos países do mundo verá os indicadores econômicos recuarem nos próximos meses – seja pela quantidade de mortes causadas ou pelos impactos do fechamento do comércio. A previsão é, também, de resultados negativos no Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Edgard Monforte Merlo, professor de Economia de Empresas da Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP), avalia que, apesar de todos os impactos econômicos previstos, o ideal é, por ora, manter a quarentena. "Ou para o comércio, ou as pessoas morrem. Se você mata as pessoas, mata a economia", comenta. O economista Luciano Nakabashi, da FEA-RP/USP, avalia que o melhor para o momento é seguir com o comércio fechado. "Acho que isso vai acontecer independentemente de o governo agir ou não. As próprias pessoas vão deixar de frequentar certos lugares", afirma.

O economista Luciano Nakabashi, da FEA-RP/USP, avalia que o melhor para o momento é seguir com o comércio fechado

RIBEIRÃO PRETO

O economista Edgard Monforte Merlo fala sobre as previsões da economia para este ano

Para os economistas ouvidos pela reportagem, empresas ligadas à venda de produtos básicos, como alimentos, itens de higiene, farmácia, delivery e produtos voltados para home office, como computadores, impressoras e similares, não devam sofrer grandes impactos com a crise. Por outro lado, pelo fato de Ribeirão Preto ser uma cidade que depende muito do comércio e da prestação de serviços, o município deverá sofrer com os impactos da crise em breve. "A economia aqui se baseia no agronegócio, em indústrias e em serviços. Só que o setor de serviço emprega quase metade das pessoas da cidade, é o que faz a economia girar", explica Edgard Monforte Merlo.

Por isso, o economista acredita que a cidade sofrerá uma perda entre 5% e 10% da renda nos próximos meses. No país, o PIB, que fechou 2019 com crescimento 1,1% – abaixo do esperado –, teve a estimativa para 2020 revista. Os mais otimistas esperavam um índice na casa dos 2% para este ano. Com a crise do coronavírus, porém, o Relatório de Mercado Focus divulgado na segunda-feira, 6 de abril, prevê um PIB de -1,18%. “Organizações de Saúde sentirão crise de liquidez mais à frente. Escolas já estão sentindo. Parte do setor imobiliário está parado. Bares, restaurantes, lojas de vestuário, estética, enfim, comércio e serviços que exigem mobilidade, estão buscando alternativa no delivery. Muitos irão encerrar atividades e gerar desemprego”, avalia Alberto Borges Matias, professor titular em finanças aposentado pela USP e presidente do Inepad Consulting.

Alberto Borges Matias dez que mercado deve buscar alternativas

Também é consenso entre os economistas que, nesse momento, é essencial que as empresas e os governos consigam manter os empregos. A conta é simples: quanto mais pessoas estiverem trabalhando ao final do período de quarentena, mais rápido o país voltará a crescer. Todavia, grandes empresas que possuem um caixa maior sofrerão menos do que as micro e pequenas empresas.

Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), cerca 98% do total de negócios no país é formado por micro e pequenas empresas, com três perfis diferentes: o Microempreendedor individual (MEI), com uma receita bruta anual de até R$ 60 mil, a Microempresa, com receita de R$ 60 mil a R$ 360 mil ao ano e a Pequena empresa, que arrecada de R$ 360 a R$ 3,6 milhões ao ano. Para o Edgard, é necessário que os bancos, principalmente os públicos, criem linhas de créditos com juros mais atrativos para que as pequenas empresas consigam manter os empregos. “O governo tem de fazer o papel de um aparelho respirador nesse momento. As empresas pequenas estão doentes e ele que tem de fornecer esse oxigênio para deixá-las vivas”, compara o economista.

OTIMISMO COM O FUTURO

Para Chaim Zaher, presidente do Grupo SEB, se todos seguirem as orientações dos órgãos competentes para prevenção do novo coronavírus, é possível minimizar os efeitos da pandemia e encontrar otimismo em meio às adversidades. “Claro que é importante que os mercados reaqueçam para nos afastarmos de uma recessão, mas também não podemos colocar a saúde dos colaboradores e alunos – no caso de SEB – em risco. Se todos agirmos juntos na prevenção, sairemos dessa situação mais rápido. Estou esperançoso de que até o fim de abril o cenário inicie uma retomada da normalidade e não apenas em agosto”, afirma. Independente do contexto atual, que exigiu isolamento social e paralisação de vários serviços – incluindo do setor educacional –, o empresário enfatiza que o SEB está preparado para seguir transmitindo os conteúdos aos alunos pelas plataformas on-line, que já eram ferramentas utilizadas pelas escolas do Grupo.

Em Ribeirão Preto, a rede colocou uma estrutura de alojamento de crianças à disposição para que a Secretaria de Saúde hospede profissionais. Além disso, passou a oferecer, gratuitamente, cursos de extensão e de capacitação aos pais dos alunos. “Nós nos juntamos, também, a um grupo de empresários locais para distribuir cestas básicas e álcool em gel. Estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance. Conforme formos entendendo onde podemos ajudar, vamos fazer nossa parte. É fundamental que todos adotem essa mesma postura: entendam onde podem ajudar e façam a sua parte”, finaliza.

CAUTELA E COOPERAÇÃO

O empresário ribeirãopretano Maurilio Biagi Filho acompanha atentamente os desdobramentos causados pelo novo coronavírus. “A pandemia de coronavírus é séria. Seria uma irresponsabilidade dizer o contrário. Contudo, é preciso, principalmente por parte das lideranças, ter muito equilíbrio para administrar esta crise, sem minimizar o problema, mas, também, sem provocar pânico. Medidas como o distanciamento social, fechamento de fronteiras, entre outras, devem ser tomadas com o cuidado necessário para que o remédio não cause mais mal que a própria doença”, alerta o empresário. Ainda segundo Maurílio, todos os esforços devem ser concentrados, tanto para salvar os pacientes com a Covid-19, quanto para encontrar soluções para a crise econômica que já está instalada e que tende a piorar se o isolamento social se prolongar por muito mais tempo. “Temos de ajudar os milhões de pessoas que também vão correr risco de perder a vida devido a um outro ‘vírus’, o da crise econômica, que pode deixar muitos mortos-vivos”, argumenta. Outro ponto abordado pelo empresário é o oportunismo político. “É inadmissível politizar essa situação, que envolve a todos nós e deve ser tratada sem levar em conta interesses pessoais ou politiqueiros. Este talvez seja o pior ‘vírus’ a combater para conseguirmos mitigar as sequelas dessa pandemia. Em tempos de redes sociais, podemos dizer que, se não agirmos logo, a soma desses três vírus vai provocar uma ‘viralização’ generalizada de uma crise sem precedentes”, finaliza.

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