Questão de educação
A vacina eficaz contra os quatro sorotipos do vírus será fundamental para erradicar a doença
Um dos principais problemas de saúde pública no mundo, especialistas estimam que entre 50 a 100 milhões de pessoas, em mais de 100 países, sejam infectadas por algum dos quatro vírus causadores da dengue. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 550 mil pacientes necessitam de hospitalização e cerca de 20 mil morrem em consequência da doença todos os anos. Somente nos quatro primeiros meses do ano, Ribeirão Preto registrou 12.405 pessoas infectadas e quatro mortes confirmadas em decorrência da dengue. Outros quatro casos de óbitos estão sendo investigados.
Para a OMS, a urbanização acelerada e os hábitos de consumo exacerbados, aliados à falta de educação ambiental e sanitária, contribuem sensivelmente para a proliferação dos focos do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue. Na cidade, as temperaturas elevadas, a alta taxa de luminosidade e os índices pluviométricos característivos da região criam condições ideais para a reprodução do transmissor, como explica Claudio Souza de Paula, médico epidemiologista da Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde.
O controle da doença é complexo e envolve ações conjuntas dos setores público e privado e da população, responsável, segundo ele, por cerca de 80% dos focos de criadouros. “Sem se preocupar com o destino correto de muitos resíduos, a comunidade acumula em casa objetos que se transformam em criadouros para o mosquito da dengue”, destaca Claudio, lembrando que o número de infectados ainda pode aumentar, pois o ciclo de proliferação do mosquito acontece de março a maio.
De janeiro a abril, a Vigilância realizou arrastão em 19 bairros, retirando 46 caminhões de resíduos, correspondentes a 23 mil quilos de potenciais criadouros do mosquito. As equipes do Controle de Vetores visitaram 61 mil imóveis e fizeram o controle casa a casa, mas encontraram 18 mil residências fechadas. O trabalho de nebulização continua por 20.274 imóveis, de cinco bairros da cidade: Jardim Marchesi, Jardim Santa Rita, Jardim Vida Nova, Quintino Facci II e parte do Conjunto Habitacional Avelino Palma.
Para o infectologista Benedito Antonio Lopes da Fonseca, do setor de Virologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, a guerra contra o mosquito já foi perdida. “Desde a década de 1960, a quantidade de Aedes aegypti vem aumentando no mundo todo. Este, por sua vez, adquiriu uma resistência maior aos inseticidas. O importante agora é centrar esforços para controlar o volume de criadouros enquanto a vacina não chega”, aponta Benedito, que cita Cingapura como exemplo de combate bem-sucedido.
Com uma extensa rede de saneamento básico, o país adotou a cobrança de multas pesadas para o cidadão que deixar água parada. Os valores variam entre US$ 66 e US$ 13.100 (entre R$ 108 a R$ 22 mil). Outro recurso positivo foi um sistema computadorizado que mapeia, em tempo real, os pontos com novos casos, permitindo maior eficiência na elaboração das rotas diárias de controle sanitário. Mesmo assim, no primeiro trimestre do ano, Cingapura contabilizou 1.144 pessoas infectadas, segundo números do Ministério da Saúde.
Além de maior rigidez no controle dos focos, a chegada de uma vacina eficaz contra os quatro tipos do vírus da dengue será, segundo Benedito, fundamental para erradicar a doença. O especialista estima que em um período de dois a cinco anos um medicamento que está sendo pesquisado nos Estados Unidos deve ser lançado no mercado.
Em cerca de 15 anos de trabalho, em seu laboratório de pesquisa no campus da USP, o infectologista já conseguiu produzir uma vacina que combate os vírus tipo 3 e 4, já testada em camundongos. “Agora estamos trabalhando nos tipos 1 e 2, mas precisamos de uma vacina eficaz contra os quatro sorotipos juntos”, avalia o pesquisador.
Em paralelo, laboratórios do mundo todo correm contra o tempo. Entre eles a empresa francesa Sanofi-Aventis já divulgou que sua vacina estaria pronta para ser comercializada a partir de 2013. O Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Bio-Manguinhos, ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e o Instituto Butantan, vinculado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, também trabalham na produção de vacinas em parceria com laboratórios internacionais.