Questões do cotidiano

Questões do cotidiano

Confira o bate-papo entre o jornalista e professor Antonio Cassoni e o psicólogo Guilherme Davoli

Psicólogo, psicoterapeuta e professor de Psicologia, além de consultor empresarial e educacional, Guilherme Davoli conta com amplo conhecimento teórico, aliado a uma desenvoltura que só a experiência clínica traz. Através dessa combinação, o especialista fala com naturalidade sobre os mais variados temas relacionados ao comportamento humano. Com ideias claras e linguagem simples, repleta de exemplos, o especialista consegue apontar alguns dos fatores que têm tornado o ser humano tão desprotegido emocionalmente, como a educação muitas vezes falha dentro de casa e na escola, a busca constante pela perfeição e a influência demasiada da mídia.

Compreender esses problemas da sociedade moderna é o primeiro passo para encontrar a solução. Por isso, Guilherme é extremante requisitado para ministrar palestras, cursos e oficinas e para prestar assessoria em empresas e em instituições de ensino. Mesmo com a agenda corrida, ainda encontrou tempo para expressar seus pensamentos na literatura, em obras como “Admirando a tempestade e brincando com o vento”, “Vítimas e aprendizes da própria história”, “Somos mais que um simples espetáculo” e “Colecionadores de histórias”, e no blog, guilhermedavoli.blogspot.com.br. Nesta conversa com o jornalista e professor Antonio Cassoni, o especialista discute tudo isso e muito mais.  

Cassoni: Quais são as causas que justificam tanto estresse na vida cotidiana? Especialmente o chamado estresse emocional: é um problema pessoal ou social?
Guilherme: É um problema social e global. Estresse não é trabalhar demais, nem passar raiva no trânsito. O estresse aparece quando a pessoa tem tantas coisas diferentes para pensar ao mesmo tempo que não consegue se encontrar em nenhuma delas. Essa indecisão causa uma fragilidade e é nessa hora que começamos a nos sentir responsáveis por tudo o que acontece. Quando vai bem, somos o máximo. Agora, quando dá errado, somos os vilões, os culpados. Antigamente, víamos esses sinais predominantemente nos adultos. Hoje, já notamos isso em crianças, que se acham super-heróis por realizarem uma pequena proeza, ou se sentem extremamente derrotados se algo não sai de acordo com o planejado. O estresse é consequência de uma pressão social pela perfeição, que vai minando o ser humano, machucando aos poucos. Quanto mais você achar que a vida está totalmente dominada, mais vai sofrer para admitir que um dia ela possa sair do controle.

C: Todo mundo quer tanto a realização plena que chega a desconsiderar o fracasso e os aprendizados que ele traz. Estamos condenados a viver em busca do sucesso a toda prova?
G: Tem dois aspectos que precisam ser apontados. O primeiro é uma questão de costume, de hábitos. Somos educados para sermos fortes, melhores que os outros e não admitir fracassos nunca. A família tem um papel determinante nisso. Muitas vezes, os pais têm a necessidade da vitória e, como não conseguem, projetam isso nos filhos, como forma de compensar as próprias frustrações. Não adianta o filho fazer um ótimo curso e ser competente. Tem que escolher a profissão e estudar na faculdade que esses pais querem. Por outro lado, tem a responsabilidade da mídia que, principalmente nas últimas duas décadas, relaciona o sucesso ao ter, e só. Você precisa ter celular, carro e diploma. Sem isso, não consegue chegar a lugar nenhum. A gente se torna escravo desse consumismo e não atingir a conquista desejada, mesmo que representada por um objeto pequeno, massacra.

C: Ao analisar os modelos atuais de família, constatamos mudanças brutais. Parece que os pais estão perdidos. As famílias têm estrutura para enfrentar tais mudanças?
G: De forma geral, não. Entendo que estrutura se constrói a partir de um alicerce conhecido, confiável. Só que muitas vezes os pais criticam a educação que tiveram. Frases como “meu filho nunca vai passar por aquilo que eu passei” e “vou criar meus filhos completamente diferente do que foi feito comigo” são comuns. Porém, com essa atitude de negar o passado, os pais estão arrancando o alicerce antes de erguer a parede e isso não pode dar certo. Mesmo que eu tenha críticas ao modelo em que fui criado, posso encontrar nele referências para me espelhar. Aí sim, consigo adicionar as minhas próprias crenças, definindo que tipo de família nós somos, que tipo de criação meus filhos terão, em valores éticos, morais, religiosos, entre outros. Quando você parte do nada, chega ao nada.

C: É preciso educar pensando a longo prazo?
G: Sim. Basicamente, os pais devem preparar os filhos para ter conhecimento, aproveitar as oportunidades e ter “jogo de cintura”. O mundo é tão dinâmico que não sei qual a realidade que a minha filha vai encontrar em três anos. Não sei qual profissão vai estar em alta, quais hábitos a sociedade vai admitir ou não, então, não tem como se preparar de maneira específica. Um exemplo simples: há pouco tempo, um pai se sentiria orgulhoso ao dizer que o filho já dirigia com 13 anos. Agora, com o enrijecimento das leis, poucos acham isso bonito. Essa atitude de irresponsabilidade, inclusive, pode render um processo judicial. As crianças e jovens de hoje têm mais informação e oportunidades. Essa é a receita da felicidade, certo? Não. A informação está aí, mas tem muita gente que não sabe o que fazer com ela. O mesmo acontece com as oportunidades. Algumas pessoas simplesmente não têm coragem de agarrá-las. Os pais precisam ensinar os filhos a pensar. As escolas também. Quando uma professora faz uma pergunta e não cria um debate, está condicionando o aluno a responder perguntas importantes apenas agora. Se esse mesmo aluno é levado a discutir e formar uma opinião a respeito do tema, estará pronto para responder a pergunta de hoje e, talvez, a que será feita daqui a dez anos.

C: Você costuma dizer que os jovens são bons para falar e não para conversar. Parafraseando Rubem Alves, você diz que deveríamos estimular mais a ‘escutatória’ do que o falatório. É isso mesmo?
G: Sem dúvida. Os jovens fogem de tudo aquilo que eles não têm habilidade para conversar. Quem gosta de futebol fala sobre o esporte nos mínimos detalhes. Mas é só alguém puxar outro assunto na roda que ele foge alegando desinteresse. Não pode ser assim. As pessoas mais valorizadas são aquelas que comentam sobre os mais variados temas e, quando aparece um tópico que não conhecem, sempre escutam para se informar e aprender. Ninguém sabe tudo de tudo, mas não podemos nos esconder por não saber. Temos a internet à disposição para entender o desconhecido e formar nossa opinião com propriedade. Esse é um dos motivos que levam alguns jovens a ter relacionamentos vazios como o “ficar”. Em um verdadeiro namoro, o papo é fundamental e é aí que tudo, muitas vezes, torna-se complicado. Perde-se muito com isso. Conviver com os contrários é interessantíssimo.

C: O que sustenta uma relação sólida? Existe a alma gêmea, a tampa e a panela?
G: Tampa boa é a de panela de pressão porque trava. Porém, sem o devido cuidado, destrói tudo que tem lá dentro, vira sopa. As outras tampas, assim que o negócio começa a ferver, tremem e até pulam fora. Portanto, esse negócio de tampa e panela não é legal. Tenho que procurar alguém que me atraia nas semelhanças e nas diferenças e, depois, através da convivência, a gente vai se conhecendo e crescendo juntos. Acredito que, dessa forma, o número de divórcios cairia bastante. Não desistiríamos da relação ao encontrar o primeiro ou o segundo defeito, como acontece na maioria das vezes. Depois, não sabemos o porquê ainda tem gente buscando o casamento perfeito pela quarta ou quinta vez.

C: Por que tanta violência e criminalidade, especialmente na faixa jovem? O que fazer diante desse assustador quadro social?
G: Colocar a culpa apenas na droga não dá, até porque ela não é novidade. Faz parte da história da humanidade, vista como um remédio utilizado para amenizar sofrimentos, um escape da realidade. O problema não é o que a droga gera, mas as razões que levam o indivíduo a recorrer a ela. Quando me sinto fracassado, tenho três alternativas: ou tento resolver, ou seguro o problema em mim, fico remoendo e me arrebento, ou explodo e agrido o meu próximo.  Como as pessoas não estão preparadas para solucionar os percalços, costumam escolher um dos outros dois caminhos, ambos prejudiciais.

C: E a literatura de autoajuda, ajuda mesmo ou solidifica o autoengano?
G: O termo autoajuda define a capacidade da própria pessoa se ajudar. Então, não dá para imaginar que eu vou conseguir superar o meu problema através do que foi escrito por outra pessoa. Algumas obras dão exemplo, dicas de quem conseguiu passar por momentos de adversidade a partir de determinados conceitos. Entretanto, não é porque li uma linda história que isso vai me dar ferramentas para resolver os meus problemas. A força daquela pessoa está dentro dela, no universo em que ela vive e nas oportunidades daquele momento. O que acontece na minha vida é totalmente diferente. O mundo não conspira a favor, nem contra. O primeiro passo para entender esse quadro é descobrir quem somos por completo. Nossas competências, qualidades e também nossas limitações. A partir daí, consigo trabalhar meus pontos fracos, melhorar o que sou e o universo a minha volta. Em segundo lugar, preciso colocar a minha felicidade em níveis possíveis. Se eu tenho um carro que anda a 80 km por hora e eu sonho em andar a 120 km, nunca vou ficar satisfeito. Temos que nos descobrir e conhecer bem nossa realidade, e isso não encontramos disponível nos livros.

C: Você também é consultor empresarial. Como mediar conflitos no mundo corporativo? Como deixar o ambiente de trabalho menos competitivo e mais prazeroso?
G: Não dá pra ignorar o mercado. Pequenas, médias e grandes empresas têm a necessidade de bater metas e atingir o lucro estipulado. Se você falar com o proprietário que é preciso humanizar a empresa, ele vai achar o discurso lindo, mas frisar que, na prática, é diferente. Mas como atingir os resultados esperados? Através de competência técnica, comportamento arrojado e, especialmente, equilíbrio das pessoas. Vemos times de futebol formados por grandes estrelas que simplesmente não vencem. A dinâmica é a mesma. É necessário ter um profissional que nem aparece tanto, mas que tem um trabalho fundamental para que o outro apareça. O conjunto precisa interagir para produzir. De uns anos para cá, poucas empresas se preocupam com isso. Assim, a harmonia fica realmente comprometida.



Um craque
“Ao convidar para escolher um profissional que admiro e que seria entrevistado por mim, a Revide me colocou numa saia justa, ou melhor, numa calça justa. Depois de mais de duas décadas entrevistando em programas televisivos e radiofônicos, não é difícil lembrar de pessoas que me impressionaram em virtude de sua competência, fluência e clareza. Optei por um tema que acredito ser de maior interesse dos leitores por estar diretamente relacionado a nossa vida cotidiana: o comportamento. A partir daí, ocorreu-me entrevistar o consagrado e respeitado Guilherme Davoli. Ele é muito requisitado para palestras e conferências em todo o país, mercê de sua eficiência no trato das questões relacionadas ao universo educacional e empresarial, além de realizar atendimento clínico como psicólogo. Um craque. Sem falar que escreve muito bem. Tem livros valiosos publicados. Agradeço à Revide a oportunidade de, mais uma vez, conversar com tão interessante psicólogo.” Antonio Cassoni, professor e jornalista

Texto: Paula Zuliani | Fotos: Julio Sian
Agradecimento: Restaurante Gourmet Santilli

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