Raio X do cinema Nacional

Raio X do cinema Nacional

Na opinião de Sibélius Olivério há um grupo que controla muita coisa no cinema brasileiro

Recentemente, o cineasta Neville D’Almeida, conhecido pelos filmes “A Dama do Lotação” (1977), “Os Sete Gatinhos” (1980) e “Rio Babilônia” (1982), criticou ferrenhamente o cinema brasileiro dizendo que “a censura continua no Brasil, mas em forma dos patrocínios”. D’Almeida criticou a quantidade de festivais de cinema, dizendo que isso não é bom para o cinema brasileiro. 

Nas décadas de lançamento dos filmes de Neville, havia uma lei que obrigava a transmissão de curtas-metragens nacionais, como forma de incentivo a outros diretores nacionais menos prestigiados, no entanto, Neville afirma que os oprimidos da época hoje viraram opressores e controladores do tipo de cinema que ele faz.

Para Sibélius Olivério, cinéfilo batataense que busca com o apoio da Lei Rouanet recursos para produzir o seu filme, as criticas feitas por Neville de Almeida são procedentes. Para Olivério, há sim uma “panelinha” que controla muita coisa no cinema brasileiro. “Os filmes que recebem verbas oficiais, não raras vezes, são sempre dos mesmos diretores e produtores”, aponta. 

Olivério lembra que não pode participar de um concurso do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), pois no regulamento constava que a produtora proponente deveria ter filmes premiados. “Pode isso?  E como fica o estreante? Quem nunca produziu, não tem vez?”, indaga Olivério.

Na opinião de Olivério, como não existe maior compromisso com a inovação e variação de temas e estéticas o que se produz são filmes onde impera a baixaria, a vulgaridade e a grosseria. “Mas existem bons filmes brasileiros. Aqui mesmo em Ribeirão Preto temos Guilherme de Almeida Prado, que realizou varios filmes de alta qualidade artistica”, cita Sibélius. 

O cinéfilo cita, ainda, diversos produtores que, não opinião dele, são sérios e que têm buscado novos enfoques da realidade brasileira com filmes feitos com baixos orçamentos, mas com criatividade. São eles: Beto Brant, André Sturm, Flavio Tambellini.

Confira a entrevista na integra com Sibélius Olivério
- Onde aprendeu sobre cinema?
“Não frequentei escolas ou faculdades de Cinema. Aprendi lendo críticos como Rubem Biáfora [já falecido] e Alfredo Sternheim do Jornal Estadão, que hoje é meu amigo e grande colaborador na luta para tornarmos o ‘Tem dia que é Noite’ uma realidade.  Outro grande crítico com que iniciei meus estudos de cinema foi José Julio Spiewak [também falecido], do antigo Diário de São Paulo. Foi com eles que aprendi sobre os grandes nomes do cinema mundial”.

- Na sua opinião, qual o melhor diretor da atualidade?
“Existem dezenas de grandes diretores no cinema atual especialmente no cinema asiático. Além dos veteranos que continuam na ativa, como Martin Scorsese, Win Wenders, David Lynch , Terence Mallick,  Werner Hersog, Bergman, Michelangelo Antonioni, Alain Resnais, Akira Kurosawa, Eizo Sugawa, Kenji Mizoguchi, Andrzej Wajda, Louis Malle, Federico Fellini, Valerio Zurlini, Bernardo Bertolucci, Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola, Pedro Almodóvar, entre outros que sempre despertam grandes expectativas ao lançarem seus filmes ao público. Eles não envelhecem. No cinema brasileiro existem ótimos diretores como Walter Salles Jr, Fernando Meirelles, Murilo Sales, Beto Brant, Lina Chamie, entre outros”. 

- O “Tem dia que é Noite” será o seu primeiro longa-metragem? Já havia realizado outras produções? “Caso seja concretizado, será o meu primeiro longa-metragem. Porém, há uns quatro anos produzi, junto com o Canal Livre de Ribeirão Preto,  o média-metragem chamado ‘Perdendo o Caminho’, com 38 minutos de duração. Bem antes, na década de 80, produzi dois curtas para o José Adalto Cardoso, chamados ‘Portinari’  e  ‘Uma aula de astronomia’, que foram exibidos nos cinemas comerciais, antes dos filmes que estavam em cartaz. Naquela época havia uma lei que obrigava tais exibições de curtas antes dos filmes principais. Acho que esta lei deveria voltar”. 

- Muitos diretores produzem filmes, mas têm dificuldades de veiculação e um lançamento adequado. Com tantas leis de incentivo existentes no Brasil, por que você acha que um filme não consegue lançamento comercial?“Este é o ponto central. Bons ou maus, os filmes estão saindo. Eles precisariam ser exibidos ao grande público, para que o público possa avaliá-los. Porém, há falhas na distribuição e exibição dos filmes. Os exibidores querem filmes que dêem lucros, grandes bilheterias. Preferem claro, as grandes produções estrangeiras. É neste ponto que seria necessária a intervenção estatal, com rigor e firmeza que deem posições favoráveis ao cinema nacional. Inclusive fazendo uso de espaços nas emissoras de televisão, não só nas fechadas, mas nos canais abertos”. 

- Como você vê a influência de filmes estrangeiros nas produções brasileiras? 
“A produção nacional não pode se limitar a sempre ter de mostrar a tal ‘realidade brasileira’, no sentido de que a realidade brasileira seja apenas folclore, violência ou criminalidade urbana. Isso nós vemos diariamente nos jornais e nas reportagens das televisões. Aliás, é a ‘realidade brasileira’ mais latente, que todos conhecemos e combatemos e que o cinema tem reiterado e mostrado ao mundo. Embora, de concreto, nada tenha melhorado. Os crimes e as balas perdidas continuam matando no cotidiano, todavia, entendo que o Cinema tem muito mais a mostrar, sendo um amplo espaço para a diversidade de formas e conteúdos, demonstrando aspectos da condição humana, não sendo necessário se acomodar nos temas reiterados da miséria e da criminalidade. Nada contra, tais aspectos são verdadeiros na nossa realidade social. Mas, onde estão nossos filmes de terror? Nossos filmes de suspense? Algum science-ficcion? E os dramas da classe média? O universo cinematográfico é amplo”. 

- Acha que a dificuldade na exibição de alguns filmes nas salas de cinemas do Brasil tem a ver com o monopólio?“A Globo está no mercado e faz bom uso da sua alta tecnologia e do seu profissionalismo. O que se lamenta é que os investimentos no campo do cinema fiquem restritos aos aspectos puramente comerciais. A televisão, muito profissional, vende e ganha muito. Logo resolveram também fazer filmes. Geralmente são comédias, baseadas nos sucessos das novelas e nos atores globais - lucro certo! Pois, nesse caso, a distribuição e a exibição são garantidas. Mas não há nada de interessante e eles nem querem isso. Estamos no campo do capitalismo onde quem pode mais, chora menos. Ninguém pode impedir que a Globo continue fazendo seus filmes, e arrecade ainda mais dinheiro com eles. E as outras emissoras também podem entrar nesta onda. Mas tudo deveria ter uma contrapartida. Repito: deviam ceder amplo espaço para exibição de outros filmes nacionais. Aqueles que não chegam ao grande público”. 

- Como lutar contra um monopólio?“Quando insisto na obrigatoriedade, por lei, da rede de televisão aberta exibir aos filmes nacionais, é porque os cinemas do Brasil inteiro foram fechando as portas e hoje subsistem com algumas exceções, apenas em shoppings, onde o valor dos ingressos é alto. A solução para os filmes nacionais seria a mudança de atitude com rigor do governo, com uma lei que determine a exibição obrigatória diária, na TV fechada e aberta sobretudo. Se foi produzido, precisa ser exibido. E o público terá o direito de ver. E só assim, uma real indústria cinematográfica nacional estaria em andamento, podendo ser analisada”.

Revide On-line
Texto: Bruno Silva
Fotos: Divulgação

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