Rastros da tempestade
No dia em que registrou a temperatura mais alta do ano, Ribeirão Preto também sofreu com a chuva mais violenta de 2019
A passagem de uma frente fria pelo sudeste brasileiro deixou rastro de destruição em Ribeirão Preto. Mais de uma centena de árvores caídas, milhares de moradores sem energia elétrica e a morte de um idoso de 72 anos foram o resultado da tempestade de 3 de fevereiro. Naquele domingo, a cidade registrou rajadas de vento de 70km/h, além de 54mm de chuvas — inclusive granizo, em algumas regiões. Tudo isso no dia mais quente do ano, quando os termômetros indicaram 38ºC. Até então, a temperatura mais alta havia sido registrada em 25 de janeiro, com 37,6ºC.
Segundo meteorologistas da Somar Meteorologia, o temporal se formou em razão da passagem de uma frente fria pelo sudeste do país, que reforçou a formação de nuvens carregadas na região. Embora a força do vento tenha surpreendido os ribeirãopretanos, o fenômeno é considerado comum no verão. Durante a estação, a previsão climática é de que os dias sigam com comportamento climático semelhante, alternando chuvas, ventania e altas temperaturas.
A Empresa de Trânsito e Transporte Urbano de Ribeirão Preto (Transerp) informou que, na data, pelo menos 25 vias do município ficaram interditadas. Alguns locais, embora também tenham registrado problemas, não precisaram da interdição, como o caso da Avenida Professor João Fiúsa, onde pelo menos 10 árvores caíram.
Segundo o professor de política ambiental da Universidade de São Paulo (USP), Marcelo Marini Pereira, quando a intensidade do vento é grande, até árvores sadias podem cair. No entanto, para evitar que espécies sejam plantadas em locais inadequados, é fundamental um planejamento inicial de arborização no município, não apenas o acompanhamento periódico após o plantio. “Há espécies naturais da Amazônia em Ribeirão Preto. Na floresta, elas estão em um cenário diferente, em agrupamentos maiores das mesmas espécies e, por isso, resistem por anos. Plantadas isoladamente na zona urbana, correm mais riscos de cair em uma tempestade”, explica.
Segundo o chefe de Divisão de Parques e Praças Públicas da Coordenadoria de Limpeza Urbana, Hamilton de Oliveira Júnior, chuvas como a que atingiu a cidade trazem imprevisibilidade, impedindo que se possa tomar alguma atitude. “Quando os ventos são contínuos, em uma direção, temos uma segurança maior de que as árvores que estão saudáveis permaneçam de pé. Já quando temos fenômenos instáveis, com a ventania oscilando em várias direções, não é possível controlar, nem medir o impacto”, afirma.

FISCALIZAÇÃO
Hamilton afirma que a Coordenadoria de Limpeza Urbana possui três agrônomos que fazem fiscalização frequente nas árvores do município, para verificar a saúde de cada uma delas e avaliar possíveis extrações. Para que o trabalho seja mais efetivo, no entanto, a administração municipal conta com o auxílio da população, que pode fazer denúncias sobre a situação de alguma espécie que esteja condenada. “A ajuda dos moradores é fundamental para fazermos um bom trabalho. Pelo tamanho do nosso corpo técnico, precisamos priorizar algumas regiões, como a Avenida Nove de Julho, que possui muitas árvores antigas e grandes. Para termos uma noção melhor de toda a cidade, contamos com as informações repassadas pela população”, explica.

JÁ ACONTECEU ANTES
Em 24 de novembro, uma rajada de vento de 70km/h levou ao chão uma figueira de grande porte, no Centro de Ribeirão Preto. A queda da árvore, localizada em frente à Esplanada do Theatro Pedro II assustou moradores da região.

VÍTIMA FATAL
O aposentado Ricardo Antonio Simões Villa, de 72 anos, morreu durante o temporal de 3 de fevereiro em Ribeirão Preto. Ricardo fechava a janela quando foi atingido por estilhaços de vidro. O acidente ocorreu no apartamento do aposentado, na Rua Visconde de Inhaúma, no Centro da cidade. Segundo informações do Boletim de Ocorrência (B.O.), os estilhaços atingiram a artéria tibial posterior e a artéria pediosa da vítima — região da perna e pés —, causando corte de 12 e 10 centímetros, respectivamente. Em razão do ferimento, o aposentado, ainda consciente, telefonou para um amigo, que não teve a identidade revelada, e contou o que havia acontecido, pedindo por socorro. O amigo foi até o apartamento da vítima, mas não foi atendido ao tocar a campainha. Foi necessário arrombar a porta do apartamento do aposentado para entrar. A vítima morreu às 19h45 do domingo.

TELEFONE PARA DENÚNCIAS
Os moradores que quiserem informar o poder público sobre alguma irregularidade em plantios podem manter contato com a Coordenadoria de Limpeza Urbana pelo telefone (16) 3968-8650.
BANCO DA PRAÇA
Durante a chuva de 3 de fevereiro, uma região amplamente afetada foi a da Catedral Metropolitana, no centro da cidade. A ventania começou por volta das 17h30 e derrubou uma árvore de grande porte na Praça das Bandeiras. Quem passa pela região ficou impressionado com os estragos causados pela tempestade.

“Houve uma poda no fim do ano, mas ainda há algumas árvores que estão com galhos podres. Tenho medo do vento forte, que pode derrubar essas mais frágeis. Acho que deveria ter mais fiscalização por parte de pessoas que entendam que esses galhos precisam ser retirados”.
Adriana Medeiros, funcionária de uma banca de jornal.

“Fiquei assustado, achei que estavam fazendo poda das árvores. Em casa, não percebei que o estrago havia sido grande. Mas não sabemos nem dizer, olhando para raiz da árvore, se ela caiu devido à chuva, ou se foi falta de manutenção”.
Cacildo Pinto Filho, advogado.

“Estou pasma de ver o que aconteceu. Eu cheguei a presenciar a ventania, mas não pensei que teria chegado a esse ponto, pois perto da minha casa só tinha folhas caídas ao chão. Mas uma árvore dessa é a primeira vez que vejo caída. Estou em estado de choque”.
Maria Tereza Mendes Vilela, aposentada.
DESDE O COMEÇO
De acordo com o professor da USP, Marcelo Marini Pereira, é urgente a necessidade de implantação de uma política urbana de arborização em Ribeirão Preto. “A cidade não tem um planejamento inicial. Cuidar não é apenas fazer fiscalizações frequentes depois do plantio, mas, também, fazer escolhas corretas na hora de decidir que árvore escolher. A decisão não pode ser pela estética, mas por uma análise da espécie e do ambiente”, afirma. Por meio de nota, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente informou que possui um Plano Municipal de Arborização Urbana, que está passando por revisão para ser inserido no Novo Código do Meio Ambiente, integrante do Plano Diretor. A pasta informa, ainda, que está em fase de aquisição de equipamentos penetrógrafo (permite uma avaliação interna da árvore por meio de gráfico) e um tomógrafo de avaliação da arborização urbana. Desta forma, haverá um diagnóstico mais preciso do estado fitossanitário das árvores urbanas.

Texto: Marina Aranha | Colaboração: Bruna Romão | Fotos: Julio Sian