Realidade forjada

Realidade forjada

Em vez de retratar os fatos objetivamente, as “fake news” apresentam um recorte deturpado da realidade, por conta disso, elas vêm tomando lugar de destaque na pauta do dia

a tradução literal do termo em inglês, as famigeradas “fake news” remetem às “notícias falsas”, ou seja, a conteúdos veiculados como informações que não representam a verdade. No entanto, a conceituação dessa expressão cada vez mais comum nos meios de comunicação — e também em discurso presidencial — não é tão simples assim. De acordo com a pesquisa “Trust In News”, conduzida pela consultoria Kantar no ano passado em quatro países — Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e França —, as pessoas dão significados diferentes ao termo. Mais da metade dos brasileiros entendem, por exemplo, as “fake news” como histórias deliberadamente fabricadas por um meio de comunicação; outra boa parcela relaciona a expressão a histórias divulgadas por alguém que finge ser um meio de comunicação. Há, ainda, quem chame de “fake news” um conteúdo falho por conta de erros de apuração ou atribua essa tarja a histórias tendenciosas. 

Independentemente do grupo de maior identificação, é possível afirmar que as notícias falsas não são exatamente um fenômeno contemporâneo. “A questão da veiculação de informações é complicada e remonta a tempos anteriores ao advento do jornalismo. Primeiro, eram as lendas, que no ocidente também se assemelham aos mitos. Essas histórias cheias de fantasias acabam incorporadas ao imaginário popular como verdades históricas”, argumenta Silas Nogueira, que é mestre em Ciências Sociais pela Unesp, doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e professor de Teoria da Comunicação no Centro Universitário Moura Lacerda e do Centro de Estudos Latino-americanos sobre Comunicação e Cultura, da USP.

Da antiguidade à história recente, o passado está cheio de episódios marcados por notícias falsas, diz o professor Silas Nogueira

Mais adiante, segundo o professor, a Igreja, as monarquias e o Estado se tornaram os grandes propagadores de “fake news”, capazes de reinventar a história de maneira a dar legitimidade ao poder e aos privilégios que acumulavam. “Durante a Guerra Fria, a principal arma utilizada foi a informação. Por aqui, o Golpe Militar de 1964, que gostava de ser chamado de ‘revolução’, impôs um noticiário e um fluxo de informações controlados, justamente, para deturpar a verdade. As notícias sobre Colômbia, Chile ou Cuba, por exemplo, passavam pelo crivo de grandes agências e, assim, a grande maioria das pessoas só tinha acesso  a algo próximo da realidade em tempos de Copa do Mundo — ainda assim, somente sobre futebol”, ilustra Silas. Portanto, falsidade, distorção e ocultação não são, de acordo com o professor, características da contemporaneidade.

O mestre e doutor em Ciências da Comunicação destaca, sim, que as notícias falsas ganharam novas dimensões em função das tecnologias, que potencializaram e criaram condições para uma maior divulgação e convencimento do público. “A expansão dessa prática se intensificou com a internet e a criação das chamadas ‘redes sociais’ — que, na verdade, são redes virtuais. Difere do antigo boato porque ganhou possibilidades de veiculação ilimitadas e, devido ao caráter de ‘novidade’, também adquiriu uma estranha credibilidade”, continua Silas, sugerindo que quem deseja comprovar que o aparato midiático dominante sempre foi campo de disputas e de conflito em relação aos interesses e embates sociais e políticos deve recorrer às obras dos teóricos da comunicação Theodor Adorno e Max Horkheimer.

Na sua forma atual, as “fake news” são, de fato, um fenômeno, entre outros tantos da história recente, como a globalização das economias e das culturas, a predominância do capital financeiro sobre outras formas, o consumo como referência de vida e de valor social. “Na proporção que chegou atualmente este é um fenômeno de grande preocupação social, humana e política, sobre o qual organizações do mundo todo buscam um entendimento para uma superação que seja ao mesmo tempo democrática e que favoreça ao desenvolvimento da comunicação humana”, acrescenta Silas.

Nesse sentido, vale a pena olhar para o passado recente e voltar a 2016. O ano das últimas eleições presidenciais norte-americanas, que levou Donald Trump a ocupar o posto executivo mais alto dos Estados Unidos, acendeu ainda mais a discussão sobre o poder das mídias sociais e das “fake news”. “O próprio Trump é um ser midiático e tem um perfil construído midiaticamente a partir do uso e do abuso dessas ferramentas e também da mídia tradicional e comercial. O processo todo está sob investigação, mas várias pesquisas e analistas identificaram participação efetiva das grandes empresas chamadas de redes sociais, particularmente o Facebook, que até hoje está tentando dar explicações sobre manipulação de dados, engajamento e veiculação em massa de ‘fake news’, inclusive, envolvendo o papa Francisco, o Estado Islâmico e a agência Wikileaks”, exemplifica Silas. 

No mesmo 2016, suspeita-se que a decisão pela saída do Reino Unido da União Europeia, apelidada de Brexit, por meio do voto popular, tenha sido impulsionada pela força das redes sociais. Em função do impacto em questões tão relevantes, as “fake news” tornaram-se extremamente recorrentes nas pautas do momento e se transformaram em matéria de pesquisadores e teóricos do mundo inteiro. “Essas notícias falsas são criadas para gerar algum tipo de vantagem, que pode ser dividida em dois grupos principais: financeira ou ideológica”, esclarece o jornalista do UOL Rafael Reis, que é, também, professor de Teoria do Jornalismo, entre outras disciplinas, da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp). O segundo caso, a finalidade ideológica, já está ilustrada acima — caso do Brexit, por exemplo. Ao primeiro grupo, também não faltam casos relacionados.

Segundo Rafael Reis, o jornalismo sério e comprometido também está crescendo diante da proliferação das “fake news”

“Bolha” nas redes

Notícias com conotação sensacionalista, esdrúxula ou até bizarra atraem a atenção do público, que não resiste a um clique. Esse movimento simples do dedo indicador na tela ou no mouse significa audiência e também retorno financeiro: quanto mais cliques, mais dinheiro é gerado. “Além do estranho, somos atraídos, também, por conteúdos alinhados às nossas crenças e opiniões. No caso do Facebook e outros serviços do gênero, os algoritmos colaboram para que as notícias da nossa ‘timeline’ estejam alinhadas a elas. Daí surge o nomeado ‘fenômeno das bolhas’”, explica Rafael. 

Ao estabelecer filtros para temas de interesse e também por meio das escolhas on-line feitas anteriormente, o usuário informa ao Facebook, por exemplo, do que ele gosta e com que se identifica. Com base nessas informações, os conteúdos são apresentados na “timeline”. Sendo assim, a tendência é que, ao acessar as redes sociais, as pessoas tenham suas convicções e crenças reforçadas. O mesmo acontece com ideologias das mais diversas naturezas, inclusive, políticas.

O filtro não faz diferença entre notícias inventadas, o que explica o fato de que, muitas vezes, informações não checadas são incorporadas como possíveis verdades sem grandes questionamentos. “Algumas notícias — mesmo que, se analisadas, gerem certa desconfiança — são aceitas como verídicas, porque vão ao encontro das nossas crenças. Essa seria a explicação de ‘pós-verdade’, palavra do ano em 2016, segundo o dicionário de Oxford”, analisa o professor da Unaerp. O substantivo “relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Conhecendo, portanto, as ideias que movem determinado público, não é difícil moldar notícias — ainda que sem compromisso com a verdade — capazes de convencer.

Há, inclusive especialistas em “fake news”. Algumas agências dedicam-se integralmente ao desenvolvimento de chamadas capazes de atrair milhares de cliques e gerar milhares de recursos. Por outro lado, a proliferação das mentiras maciçamente propagadas pelas redes sociais têm mudado, também, a atitude das pessoas conectadas. De acordo com a consultoria Kantar, essas plataformas digitais vêm perdendo credibilidade junto ao público. Entre 8 mil pessoas ouvidas em quatro países diferentes, 58% confiam menos nas informações em circulação pela rede e 57%, não dão mais tanto crédito ao conteúdo que chega por meio de aplicativos de mensagem. A mesma pesquisa da consultoria revelou que 77% dos entrevistados garantiram que confiam igualmente ou mais em informações divulgadas em jornais e revistas; 78% acreditam naquilo que veem pela TV.

De fato, a confiança no jornalismo profissional parece estar voltando a crescer, inclusive, entre os jovens em função das “fake news”. Como continuam indicando os dados da Kantar, 39% das pessoas ouvidas disseram que, hoje, acessam mais fontes de notícias do que acessavam há um ano. O índice sobe para 49% se considerados os entrevistados de 18 a 34 anos. Entre os brasileiros, 78% dos participantes da pesquisa dizem se preocupar com a origem das notícias recebidas. No entanto, 20% confessaram compartilhar notícias depois de ler apenas o título. De acordo com Rafael Reis, há uma reação do jornalismo profissional em curso. “Um exemplo disso é o surgimento das agências de ‘fact checking’, em resposta aos criadores de notícias falsas”, aponta o jornalista e professor. 

As agências de checagem de fatos dedicam-se, justamente, a verificar a veracidade de informações contidas em publicações, discursos e outros modelos de difusão de conteúdo. “Elas são uma tentativa de resposta a esse momento, em que as ‘fake news’ proliferaram por conta do alcance que atingiram”, continua Rafael, que alerta para a necessidade de redobrar a atenção diante de qualquer informação em ano eleitoral. De acordo com o jornalista, as pessoas não devem acreditar em nada recebido pelo WhatsApp sem identificação de fonte; ainda que haja indicação do produtor daquela informação, é recomendável recorrer a outros endereços para averiguar a veracidade do que foi divulgado antes de engrossar o time de replicadores. “Dê crédito a veículos que possuem uma reputação a zelar e que possuem um time de profissionais igualmente interessados em manter a idoneidade de sua assinatura”, recomenda o jornalista.

Dúvida ou censura?

Para o cientista político Luiz Rufino, que é mestre em Filosofia social Pela PUC de Campinas e especialista em Marketing Político pela Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP), a revolução digital em andamento permitiu que os comunicadores de livre associação, que desenvolvem conteúdos e reforçam o time da livre expressão e da liberdade política, estão sendo considerados falsos pelos órgãos da velha mídia. “Hoje, alguns blogueiros são mais lidos do que grandes jornais e têm um índice de acertos em análises de cenários políticos mais elevados do que muitos representantes ‘oficiais’. Depois da eleição de Trump e do surgimento do conceito de pós-verdade, o Facebook, por exemplo, decidiu marcar como ‘fake news’ determinados sites de ‘notícias falsas’. No entanto, caberia aqui uma reflexão: é melhor a dúvida ou a censura?”, questiona Rufino, emendando à pergunta outra indagação: quem estaria por trás dessa censura?

Para Luiz Rufino a expansão das blogosferas assustou a grande mídia, que engrossou o coro contra as  “fake news”

De acordo com o cientista político, que é professor de marketing político e de mídias digitais no curso de pós-graduação em Gestão de Marketing da FAAP, o uso de informações falseadas é fartamente conhecido nas artes militares e também nas redações de jornais e que o poder de repetir informações elevando à enésima potência é típico das redes sociais. “É preciso aprender a conviver com essa realidade. Nenhum filtro será capaz de controlar esse fenômeno. Afinal, o homem faz ‘telefone sem fio’ desde que o mundo é mundo”, frisa. Para Rufino, a mídia tradicional perdeu credibilidade com o surgimento das blogosferas — termo que se refere ao universo de blogs, muito conectados uns aos outros — e, por isso, fortaleceu o movimento de combate às “fake news”. O especialista duvida que tenha havido um impacto real de notícias falsas nas eleições de Trump, pois notícias dessa natureza, em política, nascem e morrem rapidamente.

Ano eleitoral

As “fake news” estão inseridas em todos os segmentos da sociedade, mas é na política que ganham maior expressividade porque podem (ou não?), real e completamente, impactar a sociedade. Ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no início de fevereiro deste ano, o ministro Luiz Fux defendeu, em discurso, o combate às “fake news” como ferramenta de campanha, dizendo que esse tipo de conteúdo tem o poder de “derreter” candidaturas legítimas. De acordo com o advogado Domingos Stocco, presidente da 12ª subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), de Ribeirão Preto, a internet, de fato, desafia a adoção de respostas jurídicas rápidas e eficazes. “Temos que pensar em como coibir o que há de falso para não brecar o livre fluxo de informações”, analisou Stocco. 

Stocco destaca que a 12ª subseção da OAB, de Ribeirão Preto, está atenta ao debate sobre o tema, especialmente em ano eleitoral

Até as próximas eleições, o presidente da OAB local espera um debate amplo e irrestrito de toda a sociedade em torno dessa temática. “Nossa contribuição vai ao encontro da imprensa , de termos uma democracia libertária, mas que não sofra ataque de comportamentos falaciosos”, continua, destacando que a 12ª subseção acompanha com a atenção devida as mudanças nos maiores provedores de comunicação nas redes sociais. De acordo com Stocco, a Comissão de Direito Eleitoral — uma entre as cerca de 90 comissões da OAB local — já está estudando o assunto com vistas às eleições. 

Mito ou verdade?

Para ilustrar que as “fake news” não são um fenômeno exclusivamente relacionados às redes sociais, um bom exemplo, no caso brasileiro, é de 1998. A final da Copa da França entre os donos da casa e a Seleção Canarinha ainda gera desconfiança. Há quem acredite que o jogo, que terminou 3 a 0 para os franceses, envolveu negociações financeiras e de resultados posteriores. Zinedine Zidane e seus companheiros campeões mundiais superaram a equipe liderada por Ronaldo Fenômeno em campo, que teve uma convulsão na data da final. No entanto, inúmeras reportagens não foram suficientes para convencer quem prefere acreditar que aquele título foi perdido por causa de um acerto extra-campo do Brasil.



O fim da espiral do silêncio

De acordo com Rafael Reis, as redes sociais eliminam a teoria da ciência política denominada Espiral do Silêncio, centrada na ideia de que os indivíduos tendem a omitir sua opinião quando ela não está em consonância com a opinião dominante. Fazem isso por medo da crítica e do isolamento. Esse comportamento tenderia ao silêncio progressivamente, como em uma espiral. No entanto, com a ampliação dos contatos em escala global, fica quase impossível não encontrar quem compartilhe as mesmas ideias, por mais absurdas que possam parecer. Assim, em contato com seus “semelhantes”, a coragem vem e a pessoa se sente livre para expor qualquer reflexão.

Não comprem gato por lebre
*Por Luiz Puntel

“Pós-verdade” foi a temática escolhida pela Unicamp este ano na prova de Redação. Os candidatos tinham que escrever dois textos. No primeiro, era preciso redigir uma palestra a ser lida, explicando o termo “pós-verdade” e as consequências nefastas que as mentiras, tomadas como verdade, provocam. Na segunda redação, os candidatos tinham que redigir, a partir de uma postagem de mensagem de ódio contra nordestinos, um artigo de opinião, cuja temática era “há limite para a liberdade de expressão”? O candidato que, durante o ano, aguçou seu espírito crítico e que está focado no termo “pós-verdade”, que os psicólogos chamam de “ilusão da verdade”, não tiveram dificuldade em escrever a respeito. Aliás, este é um tema recorrente e foi proposto por vários vestibulares muito concorridos. É importante que todos nós, estudantes ou não, tenhamos em mente que é preciso, como disse o articulista Stephen Kanitz, na proposta da prova de Redação da Fuvest/2008, termos “vigilância epistêmica”, ou seja, estarmos vigilantes, atentos em como adquirimos conhecimento. Dessa forma, não seremos mais um a repetir uma mentira já propagada mil vezes para que ela se torne verdade.  Assim, não compraremos gato por lebre, que dá uma indigestão danada! 

Luiz Puntel é professor, escritor e empresário

Vacina contra a desinformação

Pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, desenvolveram, em parceria com um grupo de jornalistas holandeses, um jogo que permite divulgar notícias falsas, teorias da conspiração e propagandas fictícias para conquistar audiência. O objetivo da ferramenta, disponível na página fakenewsgame.org, é desenvolver uma espécie de anticorpo mental: ao entrar em contato com um modelo de produção de notícia falsa, aquele indivíduo se torna menos vulnerável às “fake news” recebidas. A ideia é exatamente a mesma de uma vacina, que expõe o organismo a uma dose enfraquecida de determinado vírus para que o corpo produza os anticorpos capazes de combater determinada doença.

Alerta ligado

Atente-se a alguns indicativos listados por Rafael Reis e não se deixe convencer pelas notícias falsas com facilidade.

Verifique se conhece o site ou veículo que assina aquela notícia, assim como seu autor ou autora

• Certifique-se em relação à data da publicação

• Atente-se para as fontes da reportagem, como institutos de pesquisas ou especialistas em determinado tema

Desconfie de notícias bombásticas ou cheias de ingredientes inusitados, estranhos – elas podem ser verídicas, mas também podem ter sido potencializadas

Comprova, Revide!

Desde o dia 20 de março, o Portal Revide faz parte da guerra contra as “fake news”. A iniciativa, pioneira entre os veículos locais, já ajudou a solucionar uma série de dúvidas de internautas e leitores. 

Confira quais foram as perguntas que o Comprova, Revide! já respondeu e aproveite para enviar a sua dúvida.

 

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