Reconhecimento ao artista
Hossame Nakamura é o diretor do documentário que trata da vida e da obra de Bassano Vaccarini, ícone das artes plásticas em Ribeirão Preto
Lançado em março deste ano em apresentação realizada nos Estúdios Kaiser de Cinema para cerca de 80 convidados o documentário “Todas Dimensões de Bassano Vaccarini – Dentro de um realismo mágico”, tem feito história no cenário cultural de Ribeirão Preto. Resultado de quase um ano de trabalho do diretor e jornalista Hossame Nakamura, o documentário aborda, em 49 minutos, a vida artística de Vaccarini até sua morte, em 2002.
A trajetória do artista é relatada a partir de depoimentos e arquivos de familiares e amigos recuperados dos mais variados formatos audiovisuais, do 16mm ao amador VHS, inclusive com imagens do próprio artista em uma de suas descobertas com uma câmera em mãos. “A riqueza está justamente nessa diversidade, que permitiu descobrir um Vaccarini na intimidade. O documentário resgata suas experiências no cinema e na Segunda Guerra Mundial, além de retratar o período em que o artista se sentiu mais realizado, quando se aposentou e pôde se dedicar inteiramente à arte”, explica Hossame.
Da passagem pela cenografia e pelo cinema experimental até a intensa e verdadeira entrega ao prazer das esculturas, culminando no Mal de Alzheimer, que, de certa forma, reduziu o período de produção artística de Vaccarini, todos os registros da evolução do artista estão no documentário, plástica e instigantemente.
O primeiro contato do diretor com as obras de Vaccarini aconteceu na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), onde cursou a faculdade de Jornalismo. “Foi lá que surgiu a ideia de documentar a história de Bassano Vaccarini e de sua arte, principalmente a pública: de Ribeirão Preto e de Altinópolis, que contribuiu para o aprimoramento das artes plásticas e transformou a paisagem desses municípios”, ressalta.
Segundo Hossame, o título — “Todas Dimensões de Bassano Vaccarini” — pode parecer pretensioso, mas apresenta de forma autêntica a proposta do documentário: revelar diversas faces do artista, que experimentou diferentes linguagens e viveu o cotidiano de uma maneira poética. Já o subtítulo — “Dentro de um realismo mágico” — corresponde a uma fala de Vaccarini que define, conceitualmente, o recorte do filme, pois o artista criava sob uma perspectiva singular da vida, conferindo fantástico sentido às formas.
“Todas Dimensões de Bassano Vaccarini - Dentro de um realismo mágico” mostra a importância de um homem para a mudança de comportamento na apreciação das artes plásticas no interior de São Paulo e estabelece um reconhecimento, ainda que tardio, a um dos mais significativos artistas de Ribeirão Preto. “Compilando histórias e imagens recuperadas de acervos para uma documentação audiovisual, o documentário cumpre seu objetivo: promover uma ‘reparação’ à memória de um grande artista da cidade, senão o maior”, evidencia o diretor.
Segundo a filha do artista, Daniela Vaccarini, foi bastante tocante rever fitas antigas, que nem mesmo ela se recordava. “Foi uma redescoberta, uma avalanche de emoções. Entreguei ao Hossame todo o material que eu tinha, tanto caseiro quanto de matérias feitas por profissionais. Este é um trabalho que exige confiança e empenho. O diretor foi um excelente profissional, extremamente ético, amigo, solidário e gentil. Foram meses de longos encontros. No documentário, há algumas sutilezas, como um assovio que gravei do meu pai quando ele estava doente. Ele passou a cantar neste período e pedi que as enfermeiras que cuidavam dele gravassem. Essa parte foi para mim a mais difícil, sinceramente, não consegui escutar. Outra curiosidade: Nina Hagen e Ima Sumac são outras peculiaridades musicais do documentário, já que meu pai tinha um certo encantamento por essas cantoras. Enfim, o filme se tornou uma pequena mostra do artista, afinal, foram quase 80 anos de trabalho. São muitas as dimensões de Vaccarini”, conta.
Programa de Incentivo Cultural
O projeto do documentário foi selecionado dentro do Programa de Incentivo Cultural 2010, com apoio da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e da Secretaria da Cultura. Por isso, na noite da apresentação nos Estúdios Kaiser, também foram entregues à secretária da Cultura, Adriana Silva, 100 cópias para serem distribuídas em escolas do município. “Dentro da Rede de Cooperação de Identidades Culturais, estamos trabalhando com propostas que estabelecem relações de pertencimento entre a cidade e seus representantes culturais. Nossa proposta é garantir que as pessoas conheçam os artistas que atuam ou atuaram no município. O trabalho do Hossame dá materialidade a esse projeto. Com o vídeo, poderemos difundir a obra de Bassano Vaccarini, um dos nossos ícones”, avalia a secretária.
Para a professora e produtora audiovisual Roberta Assef, o documentário supera seu objetivo. “Ultrapassa qualquer expectativa, indo além da faceta de ser um simples documentário. Apresenta a vida de um grande artista”, justifica.
Já segundo o estudante de audiovisual Carlos Costa, o documentário serviu de inspiração, mostrando um jeito singular de fazer filmes para quem deseja trabalhar com a cultura, principalmente visual.
Com a sensação de dever (parcialmente) cumprido — por proporcionar acesso ao documentário a uma parcela de público que sempre o apoiou — e a insatisfação comum aos artistas, que nunca veem sua obra finalizada, Hossame espera que seu trabalho possa contribuir com a identidade cultural de Ribeirão Preto. “Esse documentário representa, talvez, uma chance de apresentar Vaccarini a um número maior de pessoas para, um dia, ter a oportunidade de fazer parte do imaginário do ribeirãopretano”, conclui.
O documentário acabou de participar da 1ª Mostra de Cinema de Ribeirão Preto.
Italiano de olhar matuto
Bassano Vaccarini chegou ao Brasil em 1946, após a Segunda Guerra Mundial para uma exposição. Logo foi convidado para integrar a equipe técnica do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Como assistente de Aldo Calvo, dividiu a autoria de grades cenários da época.
Em 1952, passou a integrar a Companhia Cinematográfica Vera Cruz como cenógrafo, para depois assumir a carreira de artista plástico. Em 1954 tornou-se professor de artes plásticas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e, em seguida, fundou o grupo Oficina de Arte (ODA). Já em 1956, mudou-se para Ribeirão Preto e se tornou co-fundador da Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto.
Na década de 60, auxiliou na fundação do Atelier 1104 e do Centro Experimental de Cinema das Faculdades de Artes Plásticas e do Cineclube, além de ter lecionado na Faculdade de Artes Plásticas da Unaerp, entre 1966 e 1967.
Em 50 anos vivendo na região de Ribeirão Preto, participou de mais de 100 exposições (incluindo mostras em São Paulo e Veneza) e transformou Altinópolis na cidade que possui o maior conjunto de esculturas em cimento. São 20 painéis em 18 locais públicos, como a Praça do Trabalhador, a Casa da Cultura, a Praça do Encontro e o Jardim das Esculturas. Em Ribeirão Preto, as obras de Vaccarini permanecem em exibição em locais públicos, como o Parque Ecológico Maurílio Biagi e o Mercado Municipal, além da Unaerp, entre outros. Há, ainda, obras do artista espalhadas por outras cidades da região.
Nem a isquemia no início da década de 1980, nem o Mal de Alzheimer, nos anos 90, foram capazes de desacelerar o processo criativo do homem que correu contra o tempo, ou melhor, reinventou-se no final da vida, período de maior efervescência do multifacetado artista.
A representação do matuto em suas obras e a busca predominante da essência através da forma, deixam para os apreciadores do italiano radicado em terras mogianas a certeza de que um verdadeiro artista não vive somente para a arte, mas para todo o contexto social. Bassano Vaccarini faleceu em 2002.
Depoimentos
Retrato fiel
“Novamente, Hossame me surpreendeu com a ideia de resgatar a história de um dos artistas mais influentes da nossa época. O documentário retrata, de forma primorosa e fiel, a importância artística de Vaccarini.” Marcos Botelho, gerente de marketing do RibeirãoShopping
“O documentário foi muito bem trabalhado, está em sintonia com o estilo da vida e a obra de Bassano Vaccarini. Achei fantástico esse reconhecimento. Os 50 minutos de duração passam rápido, enquanto permanecemos atentos, curiosos. Adorei”. Toninho Torres, diretor da Produtora Torres
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Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão e Julio Sian