Recuperação Lenta
Plantios podem revitalizar a aparência da Mata de Santa Tereza, mas o resultado final será bem diferente do cenário que havia quando ela foi queimada, afirma bióloga
Em 2014, um grande incêndio destruía a estação ecológica de Ribeirão Preto. A Mata de Santa Tereza, constituída por cobertura de floresta mesófila semidecídua, com espécies como jequitibás, perobas-rosa, jatobás, jacarandás-paulista, cedros, faveiros, bem como representantes de aves como juriti, tucano, jacu, rolinha, e mamíferos como macaco, veado, cutia, jaguatirica, lobo-guará, teve 98 hectares destruídos — o equivalente a 60% da mata. Ainda que o trabalho de recuperação da mata esteja longe do fim, já é possível presenciar uma área diferente da vista há cinco anos.
Segundo a gestora da Estação Ecológica de Ribeirão Preto Alessandra Pinezi, as parcerias com instituições públicas e privadas estão sendo essenciais nesse processo de recuperação da mata. Um programa de educação ambiental em construção também será essencial para conscientizar os cidadãos com relação à preservação do ecossistema local. A Unidade de Conservação completou 35 anos em setembro e representa um dos maiores fragmentos de Floresta Estacional Semidecidual do município, vegetação pertencente ao bioma da Mata Atlântica. Ela ocupa ambientes que transitam entre a zona úmida costeira e o ambiente semiárido.

Três anos após o incêndio, foi criada uma comissão para estabelecer as diretrizes de recomposição florestal. De acordo com Alessandra, duas empresas tiveram interesse de fazer a compensação ambiental da mata, a Sanen Engenharia, que está restaurando cerca de 42 hectares, e a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que irá restaurar aproximadamente 40 hectares. As áreas a serem recuperadas foram concedidas pela Fundação Florestal do Estado, — responsável pela gestão da reserva — por meio do projeto “Nascentes”. “Quando pensamos em unidade de conservação, é natural imaginarmos algo preservado, local onde ocorrem todas as interações ecológicas. Ao chegar diante de um incêndio como esse, vemos as perdas e o grande desafio é restabelecer o que tínhamos antes, o que pode demorar anos”, ressalta a gestora, que diz não haver uma previsão de recomposição da mata. Ainda que a investigação não aponte a causa do incêndio, para muitos que trabalham na estação ele foi fruto de ação humana.
E é justamente para conter ações criminosas, que a bióloga vem desenvolvendo um trabalho de porta em porta, buscando aliar-se, também, a parceiros que possam participar de todo esse processo de reconstrução. Há muitos profissionais que vão de forma voluntária à mata, e essa atitude é a que mais chama atenção de Alessandra, que acredita estar engajando cada vez mais a comunidade. O condomínio Portal da Mata instalou câmeras em todo o perímetro, que abrange boa parte do entorno da mata, e também disponibilizou uma câmera para ser colocada em cima da torre de observação. A usina San Martinho, por exemplo, é responsável pelos aceiros, além de guardas que trabalham na mata com vigilância 24 horas. “Depois que cheguei, em 2017, fui de porta em porta explicar a necessidade que tínhamos de proporcionar mais segurança. Hoje, podemos contar com ações de prevenção a incêndio, grupos de WhatsApp com vizinhos, seguranças da mata e vigilantes de condomínio. Também investimos muito em educação ambiental, abrimos as portas para que todos venham conhecer a Mata de Santa Tereza. Estamos terminando um programa voltado a esse assunto que será aberto ao município”, completa a gestora.
Nova floresta
A doutora em biologia Olga Kotchetkoff Henriques explica que, em estudo realizado em Ribeirão Preto, foram identificados 102 fragmentos de vegetação natural no município, sendo que a Mata de Santa Tereza corresponde a um dos que possuem maior extensão e maior riqueza de espécies arbóreas. “Comparando as listas de espécies encontradas nos remanescentes de mesmo tipo, nota-se que a Mata Santa Tereza abrigava, antes do incêndio, metade das espécies registradas no município. A restauração florestal permite a recuperação da fisionomia florestal, mas não garante a reposição de todas as espécies já registradas na área”, enfatiza a bióloga.

Segundo a especialista, para resgatar a diversidade de espécies vegetais, além dos plantios, há dependência da chegada de sementes vindas das árvores que sobreviveram ao incêndio ou das proximidades. A produção e dispersão de sementes são mais difíceis de serem restauradas, uma vez que dependem de polinizadores e dispersores, cuja recuperação esta ligada ao retorno desses agentes ao local. “Os plantios podem recuperar a aparência da mata, mas o resultado final desse processo será bem diferente do que havia quando ela foi queimada, tanto no número e tipo de espécies quanto na dinâmica da floresta. Ela estará empobrecida, mas com capacidade de recuperar os processos perdidos em um prazo bem mais longo, para nossos tataranetos verem”, observa. Olga faz questão de reforçar que o comentário não serve para diminuir a importância da restauração em curso, porém para destacar que, caso não sejam feitos os plantios de forma correta, pode ser que a mata desapareça.

O vereador Marcos Papa (Rede), desde 2014, cobrava uma força tarefa para que medidas urgentes fossem adotadas no local. O parlamentar chegou a acionar o Grupo de Atuação Especial em Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público (Gaema), que instaurou inquérito civil à época. “Como presidente da Comissão de Meio Ambiente, acompanho todo processo de recuperação da mata, se está caminhando bem. A questão ambiental diz respeito à nossa qualidade de vida. Em Ribeirão Preto, áreas verdes servem como um catalisador da recomposição do manancial do Aquífero Guarani, por exemplo”, finaliza o vereador.
Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão, Julio Sian, Luan Porto