Redefinindo a rota

Redefinindo a rota

Em busca de felicidade e de realização pessoal, famílias da região de Ribeirão Preto decidem transformar completamente a rotina e saem pelo mundo enfrentando novos desafios

Fugir da rotina requer ânimo e coragem. Encarar o comodismo de frente e partir para uma jornada completamente distinta de tudo a que se está acostumado não é das tarefas mais simples. No entanto, quem já arriscou uma mudança completa na vida garante que as sensações de liberdade e de aprendizagem são recompensadoras. Os motivos para a mudança no hábito cotidiano variam: viver o sonho, buscar novas oportunidades, morar em outro país ou conhecer pessoas novas são algumas das justificativas que fazem muita gente descumprir o verso “deixa a vida me levar”.

De acordo com o sociólogo Wlaumir Souza, a busca pela felicidade é a principal justificativa dessas bruscas transformações no estilo de vida. Apesar disso, essa motivação pode não ser suficiente daqui para frente. “Agora, as coisas tendem a mudar com essa nova gestão. O Estado quer impor um modelo familiar e, com isso, o medo de ser reprimido aumentará, pois ele tem como punir e constranger por meios legais”, declara o sociólogo. Enquanto isso não acontece — se a previsão de Wlaumir se concretizar — tem muita gente redefinindo as rotas e, literalmente, colocando os pés na estrada em busca de novos caminhos.

Vida em movimento
A família de Cristiane se programa há dois anos para a viagem pelo Brasil e pela América Latina
A paixão pela estrada e o fardo de trabalhar por quase 20 anos no mesmo ramo foram as motivações de Cristiane Mingroni Banzi para deixar, junto com a família, tudo para trás e seguir, pelos próximos cinco anos, em uma viagem pelo Brasil e pela América Latina. Ao lado do marido Luiz Henrique e do filho Gustavo, a comerciante uniu, em uma aventura, a vontade de viajar com a necessidade de trabalhar. O trio começará a viagem de três anos pelo Brasil no dia 21 de janeiro, saindo de Ribeirão Preto rumo ao Mato Grosso do Sul, depois Pará e, na sequência, percorrerão por toda a costa brasileira, até o Chuí. Após esse período, a família viajará pela América Latina.

Depois de trabalhar por 18 anos em comércio, desde que se casaram, ela e Luiz Henrique resolveram adaptar um veículo e partir para a pista. “Estávamos esgotados depois de trabalharmos por tanto tempo no comércio. Fomos pais muito novos. Criamos cinco filhos, -juntando o meu, os três dele e o nosso. Precisávamos olhar para nós mesmos. Sempre gostamos de viajar, mas não tínhamos tempo nem dinheiro, então surgiu a ideia de trabalhar enquanto viajamos”, afirma Cristiane.

Inicialmente, a família pretende vender doces, vídeos e fotografia, além de produzir vídeos institucionais e privados durante o percurso. “A venda de fotos e vídeos será para empresas — pousadas, hotéis, restaurantes e comércio em geral — que queiram fazer divulgação, seja por folder ou redes sociais. Além disso, temos um canal no YouTube, em que serão postados vídeos semanalmente sobre o nosso trajeto e rotina, e o Instagram, que também alimentaremos com fotos dos destinos”, explica Cristiane.

A família se programa há dois anos para a viagem. Rodar pelo Brasil e América Latina não foi a primeira ideia. No princípio, eles pensavam em morar na Itália, mas, em razão da questão financeira, decidiram mudar de vida, sem ir tão longe. “Começamos a ver vídeos no YouTube de outras pessoas que viviam nas estradas e, simplesmente, nos apaixonamos pela ideia. Esse estilo de vida é muito mais econômico do que muita gente pensa. A pergunta que mais nos fazem é se somos ricos, e a resposta é não. Vamos trabalhando e seguindo. Temos uma pequena reserva financeira para uma eventual necessidade, mas nada substancial”, informa a viajante.
Carro adaptado serve de casa para a família de Cristiane
Para tornar a viagem possível, a família teve que adaptar um carro e transformá-lo em uma casa, carinhosamente chamada de “Xereta”. “Nosso carro é uma EcoSport 2007, que está conosco há oito anos. Ela foi totalmente remodelada para uma ser nossa ‘casinha’. Fizemos uma mini cozinha, com fogão, pia, geladeira e armários. Adaptamos, também, um pequeno guarda-roupas, uma minimáquina de lavar roupas, um box pra banho e um vaso sanitário. Para dormir, nós teremos uma barraca, que será nosso quarto. É tudo muito minimizado, mas com o suficiente para vivermos”, esclarece Cristiane, que gosta de dizer que abriram mão do conforto e da praticidade para viver com liberdade e intensidade.

Novos ares
Depois de viverem dois anos na Inglaterra, Rafael, Alice e Talita estão há quatro anos na Irlanda
Saindo das estradas, mas ainda assim longe de casa, Rafael Assugeni e Talita Gabriele Zica não resolveram levar a família para uma aventura, mas, sim, construí-la em outro lugar. Na busca por uma melhor qualidade de vida, o casal, que estava há somente três meses junto, vendeu tudo o que podia e resolveu tentar a vida na Europa, de cabeça aberta e disposto a enfrentar um choque de realidade.

Primeiramente, mudaram-se para Londres, onde ficaram por dois anos. A mudança, de imediato, foi muito boa, mas nem um pouco fácil. Rafael e Talita não sabiam falar bem o inglês e a questão financeira também era um problema. “Quando você muda para outro país, não consegue, muitas vezes, atuar na mesma área em que trabalhava no Brasil. Minha esposa trabalhava com vendas e eu na área de marketing e, quando chegamos lá, ela começou como garçonete e eu lavava pratos. De certo modo, isso foi muito bom, nos fez crescer e abrir nossa cabeça”, diz Rafael.

Após dois anos na Inglaterra, o visto venceu e o casal teve que voltar para o Brasil. Durante o período que permaneceram no país, resolveram tentar cidadania italiana, sempre com o intuito de retornar à Europa. Enquanto isso, compraram uma casa, um carro e começaram a trabalhar, mas, rapidamente, perceberam que a situação era completamente diferente da vivida nos anos anteriores. Nesse meio tempo, sofreram um baque — a casa deles foi assaltada na véspera de Natal — que foi o suficiente para voltarem ao velho continente.

Desta vez, o casal foi para a Irlanda, onde está há quatro anos. “Optamos pela Irlanda por ser mais em conta para quem quer aprender inglês e trabalhar. Além disso, o país é muito promissor. Apesar de termos visto de estudante, podemos trabalhar 20 horas por semana. O país cresceu muito economicamente, proporcionando várias opções de emprego”, informa Rafael.

O começo, novamente, não foi fácil. Tiveram de se adaptar e ir com calma, esperando por melhores oportunidades. “Quando chegamos à Irlanda, minha esposa começou a trabalhar de garçonete em um pub e eu lavando pratos, mas, depois de alguns meses, eu já estava como chefe, onde permaneci por mais de dois anos. Atualmente, não estamos mais nesses empregos. A Talita trabalha em uma empresa de energia e eu faço parte de um projeto do Google”, relata o profissional em marketing.

Apesar das dificuldades enfrentadas, o casal não pensa em retornar para o Brasil. Na Irlanda, eles construíram uma família, junto da filha Alice, de oito meses, nascida em Dublin. “Acho que não há nem comparação entre os estilos de vida irlandês e o brasileiro. Começando pelo clima, muito frio e chuvoso. A vida noturna aqui, também, é muito diferente. Aqui tem muitos pubs e eles não ficam abertos até tarde. Apesar disso, a questão positiva da mudança prevalece”, finaliza o casal.

Pé na estrada
Amantes da liberdade, Ana e Antônio Luiz se aventuraram em um novo trabalho e adotaram outro estilo de vida
A história de um casal que se conhece desde os sete anos não pode ser diferente de uma vida de total comprometimento. Para acompanhar e trabalhar junto do marido, Ana Maria Pereira Pires deixou de ser desenhista de publicidade para viver na estrada realizando viagens, conhecendo novas culturas e interagindo com pessoas diferentes a cada semana. Casada desde os 19 anos com Luiz Antônio Pires, Ana se aventurou neste novo estilo de vida por amor à liberdade e aos amigos e companheiros de viagens. “Eu comecei a organizar as viagens e, como meu marido já trabalhava como motorista, era ele quem nos levava. Eu contratava a empresa que ele trabalhava”, recorda Ana 

Após alguns anos, surgiu a ideia de comprarem o próprio ônibus. Diante disso, o casal começou a trabalhar por conta. A monitora e guia de viagens diz que não se imagina fazendo outra atividade e que toda viagem é como se fosse a primeira. “Gosto da liberdade e adoro meus amigos e companheiros de viagens. Faço meu trabalho sempre com muito amor. O melhor disso tudo é que faço ao lado do homem que escolhi para ser meu amor”, afirma.

A primeira viagem do casal foi para o Termas de Ibirá, a 180 km de Ribeirão Preto. No início, essa excursão era realizada uma vez por ano. Atualmente, fazem quase uma vez por semana. Também já fizeram passeios para Natal, Fortaleza, Salvador, Porto Seguro, Maceió, Punta Cana, entre outros. O sonho de Ana é conseguir levar um grupo para a Grécia.
Um dos motivos que mais animam a monitora a continuar viajando é levar, como ela mesmo chama, os “filhos adotivos” para serem felizes. “Acho maravilhoso proporcionar essa sensação toda semana. Pretendo ir muito mais longe, ainda há muitas viagens para fazermos. Tenho muitos lugares para mostrar para meus viajantes”, finaliza a monitora. 

Mudança de governo e  comportamento
Wlaumir diz que a busca pela felicidade é a principal justificativa dessas bruscas transformações no estilo de vida
Mesmo com tantos motivos em favor da qualidade de vida que justifiquem a transformação radical nas rotinas, o sociólogo Wlaumir Souza destaca que, com a mudança de governo, que propõe uma linha mais conservadora de pensamento, pode haver certa mutação no comportamento aventureiro de muitas famílias. “Com o início do novo governo, mais conservador, a tendência é um retorno à valorização dos modelos tradicionais, o que influi na tomada de decisão, já que o cidadão pode sentir medo da coerção social e da exclusão”, explica Souza.

Texto: João Camargo
Fotos: Julio Sian e Arquivo Pessoal

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