Reencontro entre amigos

Reencontro entre amigos

A jornalista Ana Cândida Tofeti relembra o passado em leve bate papo com o chargista Renato Andrade

Francano, nascido em 1964, Renato Andrade é, declaradamente, um cidadão que ama o que faz. Aprendeu na prática o que a formação acadêmica ensina na teoria. Aos cinco anos, mudou-se com a família para Ribeirão Preto e aqui firmou morada. O dom dos traços marcantes, que revelavam sua personalidade forte, já anunciava sua trajetória e hoje, aos 50 anos, tem a criatividade como sua maior aliada no dia a dia.

Inspirado em grandes profissionais, como Pelicano, Jaguar e Ziraldo, Renato Andrade tem na liberdade o principal ponto de partida para a criação de suas obras. Cartunista, chargista ou ilustrador, o artista atribui a si mesmo o título de “jornalista por experiência”.

Autodidata, Andrade iniciou sua colaboração com a imprensa ribeirãopretana no jornal “O Diário”, com charges e cartuns. Passou também pela publicidade e possui no currículo diversas exposições na cidade e na capital.

Entre os locais que já receberam mostras do seu trabalho estão SESC, Casa da Cultura, Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP) e galerias comerciais como a Adearte.

Renato ainda teve seus trabalhos selecionados para o Salão de Humor de Piracicaba, foi premiado no Salão de Humor dos Bancários, no Concurso Pasquim-Malt 90 e no Concurso Folha Regional de Ilustração.

Assina, ainda, capas de livros sobre a Bossa Nova publicados no Japão, além de ter ilustrado, em parceria com André Luís Oliveira, seis livros infantis.

Sua trajetória é tema do bate-papo com a amiga de infância Ana Cândida Tofeti. O reencontro do chargista com a assessora de imprensa é marcado por histórias do passado, lembradas com bom humor e acompanhadas de muitas risadas.

Ana Cândida: Como você se define profissionalmente: artista plástico, cartunista ou ilustrador?
Renato: Até hoje não sei como me classificar. Gosto bastante de ser nomeado como cartunista, chargista e também ilustrador, que engloba quadrinhos, livros e charges em geral. Mas não me vejo muito como artista plástico. O grande professor Millôr Fernandes tem uma frase com que me identifico bastante: “o autodidata é imbecil por conta própria”. Então sou um desses autodidatas.

Ana Cândida: Desde pequeno você tinha este dom e já vislumbrava seguir essa profissão?
Renato: Desde os meus seis anos gosto de desenhar. Comecei a acompanhar cedo a  revista Mad e o Pasquim, por exemplo. Gostava muito das charges, pois, além do desenho, havia informação. Na adolescência, comecei a enviar meus desenhos para revistas e o material era publicado na seção Pretensão, dedicada ao leitor. Também costumava participar de fanzines. Meu pai me trazia aquelas famosas canetinhas da marca Sylvapen. Para os meus amigos da escola, desenhar era uma tarefa árdua. Para mim era diferente, eu tinha prazer em ficar desenhando. Já naquela época, eu representava os sons no desenho: de tiro, de carro, de motos etc. Portanto, o que eu fazia era um filme em desenho, um “storyboard”, mas não associava o ato de desenhar a uma obrigação ou a uma opção para os dias de chuva, por exemplo.  O desenho já era uma grande diversão. Estudava no Otoniel Mota e, em uma das aulas de matemática — nunca fui muito bom em cálculos —, estava desenhando no fundo da sala quando a professora chegou e disse que seu marido trabalhava em uma agência de publicidade para a qual me indicou. Comecei a estagiar aos 16 anos e assim surgiram os primeiros trabalhos com publicidade.

Ana Cândida: Você teve incentivo da família e dos amigos para seguir esta carreira?
Renato: Sempre tive. Na escola também, meus amigos sempre pediam para que eu fizesse caricaturas. Como comecei a trabalhar na área muito jovem, fui tomando gosto pela publicidade, principalmente naquela época antes do computador, quando tudo era feito manualmente. Em princípio, este era só o meu “ganha pão”, mas eu tinha o exemplo de grandes profissionais, como o Jaguar e o Ziraldo. Como ainda era muito jovem, não compreendia que era possível ganhar dinheiro desenhando, pois, para mim, tratava-se somente de uma diversão e uma forma de me expressar. Com o passar do tempo, comecei a cobrar por isso e, até hoje  essa é a minha maior dificuldade: cobrar. Tudo o que faço, faço por amor e como precificar algo que você faz com tanto prazer? Tenho facilidade para desenhar e para expor minha personalidade nas minhas obras e, portanto, colocar preço é difícil, mas acabou virando profissão mesmo.

Ana Cândida: Você tem formação acadêmica?
Renato: Não tenho formação acadêmica, somente estágios e cursos na área, mas sempre faço muita coisa ao mesmo tempo. Há alguns anos, fiquei na dúvida entre a publicidade e o jornalismo. A primeira, aprendi na raça e o jornalismo, de certa forma, é o que faço hoje. Às vezes, você chega à faculdade sem saber se é aquilo mesmo que pretende fazer ou sem saber exatamente o que é a profissão escolhida. Quando os recém-formados chegavam à agência, eu, sem formação acadêmica, acabava ensinando o trabalho. Então, fui adiando a graduação e hoje não sei bem como me classificar. Atualmente, talvez seja um jornalista, pois, em uma única charge, passo a informação ao público.

Ana Cândida: Lembro-me de você, ainda adolescente, fazendo camisetas do Rock in Rio em casa para vender para amigos e vizinhos. Podemos considerar este o seu começo de carreira?
Renato: O Alexandre, um amigo da época, tinha mais visão comercial e propôs que eu fizesse as camisetas para ele vender. Nossa primeira venda foi para o professor dele. Ter ao meu lado alguém com tino comercial, com toda certeza, foi um incentivo comercial. No início, pintava as camisetas à mão e vendia para uma loja indiana da cidade. A vendedora contava aos clientes que era um artista renomado que pintava as camisetas. Um dia, fui à loja e ela tentou me convencer a comprar a camiseta que eu mesmo tinha feito. Hoje, a dona da loja é minha amiga, mas a história mostra que precisamos agregar valor aos produtos.

Ana Cândida: Recentemente, você postou em uma rede social que é tão velho que ainda lê para as crianças antes de dormir. Até que ponto sua profissão influencia na educação dos seus filhos neste mundo tecnológico?
Renato: Meus filhos gostam muito de desenhar, talvez por influência, fazem isso por prazer, nada forçado. Gosto de inventar histórias para eles e eles gostam dos desenhos interessantes que instigam a criatividade. Na minha época, via meu trabalho nas revistas; hoje o meio mudou, mas instigar a criatividade continua sendo importante. Sempre procuro explicar a eles que o processo de criação é sempre melhor do que pegar o trabalho pronto.


Ana Cândida: A  internet, as redes sociais, as novas mídias facilitaram, dificultaram ou não alteraram o seu trabalho?
Renato: A internet facilita muito a vida de todo mundo. O Facebook, por exemplo, é um tipo de fanzine virtual. O que fazemos hoje é de usar o papel, recortar, colar e distribuir o resultado aos amigos, só que de forma virtual.  A tecnologia, em especial as redes sociais, tem ajudado, inclusive, a vender o meu trabalho, que é divulgado na minha página. Então, além de me divertir muito com a internet e com o Facebook, tenho uma vitrine virtual que ajuda a agilizar o meu trabalho. Por um tempo fiquei sem computador e fiz as charges à mão. Demorei o dia todo para fazê-las, levei para o jornal e a equipe escaneou a pintura, o que me tomou o dia todo. A tecnologia nos permite ganhar tempo.

Ana Cândida: Você se opõe a criar uma tela de acordo com o desejo do cliente?
Renato: Não, tenho prazer em tudo o que faço e não tenho problemas com isso. Ultimamente, estou fazendo um painel com a história das pessoas. É legal porque, indiretamente, eu, como criador da tela, estou presente na vida dessas pessoas. De certa forma, tenho liberdade poética para fazer o meu trabalho; em cada um deles tem meus traços, minha personalidade.

Ana Cândida: Como você vê o futuro das publicações impressas, já que há pouco tempo você disse que “ainda” lê jornal de papel?
Renato: Acho que a tendência é a tecnologia invadir cada vez mais o nosso espaço. O livro tem uma sobrevida maior, mas o jornal, talvez em futuro ainda um pouco distante, irá acabar. Acredito que o ribeirãopretano, com seus hábitos interioranos, ainda vai cultivar  o ritual de pegar o jornal no domingo de manhã e folheá-lo, mas estamos trilhando um caminho sem volta. Exemplo disso são os próprios jornais, que estão diminuindo de tamanho. Hoje, eu mesmo leio somente o que me interessa na internet. O cinema também é afetado pela modernidade. Hoje, todo mundo assina canais de filmes e pouco se vai ao cinema. Contrário a isso, tenho amigos que colecionam vinil, como é o caso do Jefferson Barcelos e da banda Motormama, que recentemente lançou um álbum em vinil.

Ana Cândida: Como se firmar em um mercado tão competitivo e em uma profissão tão restrita? Qual o caminho para quem tem o mesmo interesse profissional?
Renato: Acho que o caminho é a internet, é usar todas as ferramentas que ela proporciona. Enviar portfólios de trabalho para editoras, para agências e, principalmente, gostar do que faz.

Ana Cândida: Hoje, Renato Andrade se tornou uma marca?
Renato: Você acaba conquistando certo reconhecimento pelo trabalho realizado e as pessoas divulgam aquilo que gostam.

Ana Cândida: Em outra publicação no Facebook, você disse que existem assuntos difíceis de ilustrar. Política, esporte, cultura: o que é mais fácil?
Renato: Meu grande mestre, influenciador e herói no mundo das charges é o Pelicano. Ele sempre diz que faz humor caipira. Significa pegar um assunto político, por exemplo, e transformar em algo do cotidiano. Tenho uma história engraçada de uma charge do Pelicano para contar: na época do racionamento do combustível, as pessoas estavam colocando botijão de gás nos veículos e o Pelicano fez uma charge com o motorista do carro dirigindo e sua esposa atrás no fogão cozinhando. Isso é o mais gostoso da nossa profissão: encontrar uma linha de comunicação popular, com uma mensagem acessível a todos, para criticar algo da esfera política, nacional ou municipal. É por isso que a responsabilidade do chargista é grande.

Ana Cândida: Como fica a imparcialidade nas suas críticas?
Renato: Tento sempre ser o mais imparcial possível, independente do que acredito ou não, mas criticar o que há de errado é o meu trabalho. Tenho um exemplo claro disso: fazer charge da chegada dos esquerdistas no Brasil ficou muito difícil, pois eles não aceitam. Mas o fato é que os mesmos que criticam  se tornaram situação e passaram a se incomodar com as críticas. Reconheço que o Brasil tem melhorado e tem muita coisa boa, mas isso não quer dizer que eu não possa criticar o que ainda está errado. Recentemente, fiz uma crítica aos black blocs e fui repreendido por isso. Para mim, o que aconteceu com o cinegrafista foi um assassinato. Hoje, muitos criticam o capitalismo, mas é neste modelo que vivemos. Quem critica o sistema é o mesmo que usa celular de alta tecnologia, então, sejamos coerentes com as nossas convicções e manifestações! João Goulart tinha uma boa frase para isso: “Eu sou do tempo em que ser de esquerda dava cadeia. Hoje em dia, dá dinheiro”.

Ana Cândida: Você já fez charge de alguém em quem votou?
Renato: Sim, do Lula, do Zé Dirceu, do Genoíno e até do Tiririca e, por incrível que pareça, foi uma charge positiva. Em recente pesquisa, ele foi o mais assíduo, então: quem é o palhaço? Foi o que questionei na charge. Eu fico orgulhoso de ter votado no Tiririca. Para mim, ele é honesto e tem bastante projeto bacana.

Ana Cândida: Como fica a questão espiritual? Você segue algum ritual, alguma religião?
Renato: Não sigo religião, somente acredito em Deus. Já participei do Budismo, do Santo Daime, de centro espírita, hoje tenho a minha fé sem seguir um ritual. Entendo que o amor não precisa de normas ou regras. Acho bacana as religiões que existem, mas não as sigo. Acredito que, com a espiritualidade, temos um norte e a religiosidade é importante, pois dá um sentido à vida e nos conforta em muitas situações.

AMIZADE E ADMIRAÇÃO

“Sou amiga de infância do Renato Andrade e, desde pequena, admirava sua habilidade para os desenhos e a arte. Muitas vezes, ele trocava as brincadeiras na rua para ficar desenhando e criando suas histórias. Ele realmente foi uma criança que fez muita arte, no sentido literal da palavra. Hoje, somos companheiros de profissão no jornalismo, que não sobrevive sem um bom ilustrador. Suas charges passam, de maneira simples e direta, a mensagem que muitas vezes nós, jornalistas, ocupamos muito mais espaço para transmitir com as palavras.

Admiro seu dom e seu jeito de levar a vida. Relembrar boas histórias da nossa infância e todas as pessoas que passaram por nossa vida quando crianças é uma maneira de reviver o passado que deixa saudades. Dizem que tão bom quanto fazer novos amigos é conservar os velhos. Portanto, para mim, foi muito prazeroso viver este encontro. Temos um grupo chamado Amigos da Ayrton Roxo no Facebook, onde sempre ficamos sabendo as notícias daquela turma, mas nada como um bom papo para recordar bons momentos e aprender sempre.”
Ana Cândida Tofeti, assessora de imprensa

Texto:
Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves

Compartilhar: