Referência nos Palcos

Referência nos Palcos

Em um bate-papo inspirador, José Maurício Cagno e Magno Bucci falam sobre lembranças, estudos, trabalho e, especialmente, sobre a essência do teatro


São mais de 30 anos de carreira, grandes peças, célebres personagens, temporadas de plateia cheia em São Paulo e três turnês pela Europa no currículo. Talento reconhecido como ator, diretor e educador, no trabalho com teatro-educação e teatro experimental. Essa é apenas uma pequena introdução à brilhante trajetória que José Maurício Cagno trilhou pelos palcos. Hoje à frente do Núcleo de Investigação Teatral (NIT), desenvolve novas formas de expressão dentro do projeto Ribeirão em Cena, e têm conquistado crítica e público com suas leituras arrojadas. Nesta conversa com outra referência do universo teatral, Magno Bucci, Cagno abre seu arquivo de memórias. Na miscelânea de assuntos, que vai desde o gosto literário até passagens pessoais com a família, o ator revela como as escolhas que fez no passado determinaram o presente.

Bucci: Você teve uma trajetória na contramão da quase totalidade dos atores que eu conheci fora dos grandes centros. Começou em Ribeirão Preto, foi para São Paulo, trabalhou inclusive com o Antunes Filho, fez Ricardo III com Márcio Aurélio. Uma carreira promissora acenava e você voltou. Como foi isso e por quê?
Cagno: Na minha vida, sempre enxerguei o teatro como uma vocação, não uma escolha profissional. Tem a ver com um chamamento, uma voz interior. Isso é muito claro para mim. Se eu enxergasse o mundo artístico apenas como negócio, provavelmente teria continuado em São Paulo ou ido até além. Porém, escolhi me manter fiel a esse sentimento genuíno pela dramaturgia e trilhar um caminho realmente meu, com que eu me identificasse e me sentisse bem, não o dos outros. Certa vez, vi na Tao Te Ching, uma das mais conhecidas e importantes obras da literatura da China, uma frase que me marcou: “O caminho perfeito não pode ser seguido”. Isso quer dizer que não se deve seguir um modelo já estabelecido. O caminho perfeito é você quem faz, é você quem cria, obedecendo sua essência. Nesse sentido me sinto bem, pois respeitei minha vontade, independente do que poderia acontecer se tivesse tomado outro rumo. Confesso que houve apenas um momento, há aproximadamente oito anos, em que titubeei. Foi uma dúvida pequena, que passou rapidamente e, felizmente, logo depois confirmei que aquela não era a minha trajetória. Além disso, teve o aspecto pessoal, que também contou muito.

Bucci: Que aspecto pessoal?
Cagno: Tenho uma história muito bonita e significativa para explicar isso. Estava em São Paulo fazendo uma temporada de cinco meses, com apresentações de quarta a domingo. Na noite em que fizemos a última apresentação, saí do teatro e voltei para Ribeirão Preto. Cheguei em casa bem cedinho. Era aniversário de sete anos da Júlia, minha enteada, que considero como filha. Quando abri a porta, ela já estava acordada. Entreguei então o presente que tinha comprado, uma máquina fotográfica da Minnie. Foi uma festa e ela quis testar o brinquedo. O retrato feito naquele dia eu guardo até hoje. Na imagem, apareço pela metade. Parece que ela intuiu exatamente o meu sentimento: estava dividido. Minha família com a Tereza, a Julia e o Guilherme, já se estabelecia naquela época. Queria ser mais presente e isso pesou na minha decisão de voltar. Não me arrependo de ter investido nessa história, que completou 25 anos.

Bucci: Profissionalmente falando, você ficou satisfeito com a sua escolha?
Cagno: Com certeza. O que fazemos aqui, dificilmente conseguiríamos desenvolver nos grandes centros. Nosso trabalho tem um sabor e uma identidade próprios. Esse cenário do teatro em Ribeirão Preto foi construído através do nosso esforço e isso é sensacional. Lembro que, em 1982, quando estava no Antunes, tive uma conversa com um diretor de teatro alemão, George Froscher, sobre a minha dúvida: mudar de vez para São Paulo ou retornar permanentemente para cá? Ele foi o único a me falar ‘volte para a sua casa’. Isso porque, na cidade grande, as coisas já estão todas marcadas. Para se dar bem lá, você tem que se enquadrar no esquema determinado. Cada vez isso fica mais claro para mim. Como disse anteriormente, uma das coisas mais fundamentais na vida do artista é traçar seu próprio caminho, sua coerência, sua trajetória. Aqui, pude vivenciar situações únicas, que poucas pessoas tiveram o prazer de viver. Mesmo depois de me estabelecer no interior, ainda tive bons momentos na capital, como algumas apresentações com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, com um grupo de eurritmia, com quem fui, inclusive, para a Europa, entre outros. Os vínculos lá foram mantidos e rendem bons frutos, mas a minha raiz é aqui.

Bucci: Você atua, faz dramaturgia, dirige, leciona e pensa teatro. Qual dessas funções o define melhor — ou você prefere se descrever, como diriam dois dos grandes nomes do teatro francês, Louis Jouvet e Jean-Louis Barrault, “Sou apenas um homem de teatro”?
Cagno: É bem isso mesmo. ‘Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro’. Realmente gosto de desempenhar todas as funções que a minha profissão engloba, mas o trabalho de ator é o meu guia, o meu santo forte. Estar no palco é uma benção de Deus.

Bucci: Você consegue conciliar, no mesmo trabalho, a direção e a atuação?
Cagno: Acredito que sim. Com certeza me dedico ao máximo para isso. Fizemos 20 apresentações de agosto a janeiro. Ao final de cada uma delas, tivemos de 30 a 40 minutos de debate com o público. Essa abertura nos trouxe um retorno muito bom, em todos os sentidos, de gente especializada. Precisava desse olhar de fora. Não era tapinha nas costas e sorrisos não. Recebemos críticas contundentes, legais, ideias diferentes, que ajudaram a aprimorar nosso trabalho. Acredito que essa foi uma recompensa porque não tive medo de me expor.

Bucci: Fale um pouco sobre seu trabalho atual.
Cagno: Juntamente com o Núcleo de Investigação Teatral (NIT), estou na peça ‘Dos pés feridos aos pés alados’, baseada em ‘Édipo em Colono’. Muita gente acha que a história de Édipo termina quando ele arranca os olhos. Mas a tragédia escrita por Sófocles continua e era o momento em que o personagem está velho, cego e foi totalmente rejeitado que queríamos retratar. Esse trabalho foi diferente desde o princípio. Nada formal. Não partimos de um texto para desenvolver a peça. Fizemos um laboratório, bem experimental mesmo, no verdadeiro sentido da palavra. Buscamos uma base orgânica, um trabalho com os elementos da natureza, uma pulsão muito forte, intensa. O material foi sendo moldado aos poucos, ao longo de quatro anos. Foi então que recorri ao Eugênio Barba, grande diretor italiano, fundador do Odin Teatret, com quem tinha estreitado contato profissional. Ele me alertou que era hora de encontrar o texto que seria interpretado. A estrutura em si já estava pronta. O conteúdo foi visto, revisto, analisado, feito e refeito até chegarmos a esse formato. Todos participaram ativamente do processo e estou muito satisfeito com o que fizemos.

Bucci: Todo ator sonha com um personagem quase a vida toda. Alguns precisam envelhecer, outros, avolumar a bagagem cênica para representá-lo. Qual personagem espera por você?
Cagno: Agora é difícil falar porque estou muito envolvido com Édipo. Não consigo perceber as possibilidades. Vou responder sua pergunta através de um outro viés: a minha paixão pelas personagens. Sou profundamente grato e converso com cada uma delas para compreendê-las. Isso faz parte da maneira com que vivencio o teatro. Uma vez, li uma obra de Fernando Pessoa onde ele descrevia como os heterônimos apareciam para ele. Guardadas as devidas proporções, eu o entendo completamente. É como as personagens surgem para mim. Parece que elas me escolhem, e não o contrário. Da maneira mais antiga, é a musa inspiradora. Tive o privilégio de desenvolver papéis maravilhosos, que redimensionaram o meu ser. Por exemplo, quando fiz ‘O homem da praça’, meu primeiro trabalho, aprendi a entender a minha função como artista. Fazer todos os poetas que nós fizemos em ‘Stop’ despertou em mim uma sensibilidade em relação à alma humana. De ‘Prometheu acorrentado’, ficou a lição da arte, da política, do poder libertário e escravizador. Todos os personagens que interpretei me acrescentaram algo. Se você está aberto, consegue entender melhor a alma humana e suas nuances.

Bucci: Qual sua obra recorrente? Que autor você revisita com frequência?
Cagno: Constantin Stanislavsk, ator, diretor, pedagogo e escritor russo de grande destaque entre os séculos XIX e XX. Não tem jeito, tudo me leva a ele. Durante o meu mestrado, analisei o ‘Sermão da Sexagésima’, um dos mais importantes sermões do grande orador Padre Antônio Vieira. O texto me remeteu a Santo Inácio de Loyola, fundador da companhia dos jesuítas, que tinha uma técnica elaborada para suas pregações, os exercícios espirituais de Santo Inácio. O poder da imaginação era o principal recurso: reviver a situação para convencer o público. Stanislavsk propunha a mesma coisa em sua obra. Os mesmos princípios. Enquanto eu fazia a comparação, item por item, Barba me indicou um texto de Serguei Eisenstein, discípulo de Stanislavsk, onde ele apontava essa similaridade nos estudos, dizendo que a coroa que tinham dado ao seu mestre deveria ser de Santo Inácio, pois ele tinha chegado àquelas conclusões 500 anos antes. Porém, ao que tudo indica, o diretor russo não sabia disso quando fez suas reflexões. Inconsciente coletivo. Separadamente, chegaram ao mesmo ponto. Fantástico.


Bucci: O teatro é necessário para as pessoas?
Cagno: Vou responder de duas formas. Se pararem de fazer teatro, acho que não vai mudar muita coisa. Porém, acredito que essa arte é fundamental para o ser humano. Trabalho com teatro-educação, com jovens de 12, 14 anos. Vejo como essa atividade está presente desde sempre, aquela coisa do fazer de conta, de interpretar um papel, que não é teatro formal ainda, mas uma sementinha que está lá. É um instrumento facilitador das relações pessoais, destrava, ensina a ouvir, a ver, a compreender o próximo. O teatro só existe através do encontro humano. Se o indivíduo não tiver mais essa capacidade de olhar para o outro, de ouvir e de perceber que a verdade não está nem aqui, nem aí, mas exatamente no meio, acabou tudo. O teatro tem uma função social, terapêutica, pedagógica desde os primórdios da civilização. Uma forma de manifestação extremamente válida.

Bucci: Você ainda assiste todo teatro ou está mais exigente e seletivo?
Cagno: Fiquei mais exigente. Conforme o tempo passa, vamos apurando nosso paladar, nosso olhar. Tem coisas que continuam interessando, outras não. É uma questão de amadurecimento mesmo, tornamo-nos naturalmente seletivos. Em Ribeirão Preto tenho visto trabalhos interessantes. Geralmente o que vem no SESC vale a pena conferir. O pessoal do ‘Engasga Gato’ também produz coisas legais. Adoro o que Dino Bernardi faz: tem estética, tem competência e sensibilidade. Só fujo das montagens escancaradamente comerciais. Aí não é a minha praia.

Bucci: Sei que você é consumidor voraz de todo tipo de arte. O que você lê, que não seja teatro?
Cagno: Não consigo separar isso. Por exemplo, terminei agora de ler ‘Rio da compaixão’. O livro — magnífico, por sinal — foi escrito por um monge beneditino que morou por 50 anos na Índia, em um ashram, e se tornou um mestre hindu. Ele faz uma comparação, verso por verso, do Bhagavad-Gita, texto religioso hindu, com o pensamento cristão. Agora estou lendo ‘O Tao da Física’, do físico teórico Fritjof Capra. Nada a ver com teatro, certo? Errado. Essas coisas têm a ver com o meu caminho interno, com o jeito que enxergo o mundo, com a ampliação do meu conhecimento pessoal e isso se reflete diretamente no meu trabalho, fundamentando minha atuação ou minha direção. Estudo Filosofia, Antropologia, Psicologia, religião, poesia e muito mais.

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