Reflexões literárias
Por meio da análise da obra de grandes autores, é possível compreender o poder das palavras como uma ferramenta de expressão cultural e artística do ser humano
Engana-se quem pensa que o Instituto Figueiredo Ferraz (IFF) é exclusivamente dedicado às artes plásticas. Inaugurado em Ribeirão Preto em 2011, o espaço foi concebido para abrigar e difundir a cultura nas mais variadas expressões. Por isso, além do movimentado calendário de exposições, o Instituto promove uma série de cursos e de palestras que contempla toda essa diversidade. Entre as atividades disponíveis na programação, os encontros sobre reflexões literárias têm despertado o interesse do público. Com vasta experiência nessa área, Roberta de Figueiredo Ferraz é quem está à frente da turma. Graduada em História e em Letras, Mestre e Doutora em Literatura Portuguesa, a pesquisadora e escritora divide com os alunos os conhecimentos sobre a vida e a obra de autores de expressão nacional e internacional, contextualizando as narrativas com os tempos atuais.
Você tem ministrado cursos no IFF. Como surgiu a ideia de compartilhar esse tipo de conteúdo com a população da cidade?
O Instituto sempre considerou a importância do acesso a palestras e cursos como parte fundamental do trabalho que realiza, paralelamente à agenda expositiva. Embora grande parte desses eventos verse sobre o universo das artes visuais, existe o plano de levar, cada vez mais, conteúdos de diversas áreas para lá. Desde 2012, ministro, com alguma regularidade, cursos literários no auditório do Instituto. O público vem crescendo consideravelmente e as trocas são riquíssimas. Tenho feito amigos queridos entre os alunos e aprendido muito com eles.
Qual é o público-alvo dessa iniciativa? Qualquer pessoa pode participar?
Todos são bem-vindos. Embora alguns conteúdos pareçam específicos demais, a ponto de sugerirem uma dificuldade de acesso, garanto que isso não acontece.
Que temas já foram abordados?
Já ministrei um curso que adoro, de “Astrologia e Literatura”, em que cruzo essas duas linguagens de modo que uma possa jogar luz sobre a outra. O grupo começou pequeno e foi crescendo. As pessoas comentavam com os amigos e, ao fim, chegamos a um número de participantes expressivo, com uma qualidade notável no interesse dos alunos. Também estive à frente de encontros de “Cinema e Literatura”, de um curso sobre Fernando Pessoa e de outro sobre os mitos de criação de antigas culturas ocidentais (Babilônia, Egito e Oriente Médio, entre outras).
Qual será o cronograma para este ano? Já definiram datas e assuntos?
A agenda de cursos para 2019 ainda está em elaboração. Teremos, com certeza, um minicurso sobre Hilda Hilst, em abril, por ocasião da exposição de fotos do português Fernando Lemos e a série deslumbrante de retratos da autora, que estará à mostra no Instituto de 13 de abril a 4 de maio. Também em abril, iniciaremos um curso sobre a construção imaginária do Diabo na cultura ocidental, a que chamei de História(s) do Diabo. Considero esse conteúdo apropriadíssimo para o atual momento político que vivemos. É uma maneira de abrir espaço para dialogar sobre os modos mais inflexivos e autoritários que herdamos, muitas vezes de forma acrítica, em um universo simbólico e moral que nos serve de carapuça para tudo que lemos como “mal” e não damos conta de conviver, conosco e com outros, sem punir, violar ou banalizar. Quem quiser acompanhar o cronograma pode acessar o site do Instituto.
Ter um contato próximo com a cultura e com a arte é essencial para o ser humano?
Toda expressão humana compõe isso que entendemos como cultura. É nossa maneira de ler, reconhecer e projetar o que somos em comunidade. Nesse sentido, a cultura talvez seja a própria essencialidade do ser humano, as perguntas e as repostas de sua cognição espaço-temporal, a reformulação incessante das marcas deixadas pelos que nos antecederam, o esforço árduo da consciência de que é possível habitar o futuro por meio do fantasma de nossos gestos, as heranças que deixamos, materiais ou imateriais, sobre a terra. Não conhecemos existência fora da cultura. Tudo que é linguagem é, imediatamente, expressão cultural. A arte seria um dos ramos desse terreno comum. Cada um, reorganizando em si os elementos mais coletivos de seu meio cultural, vai entender o que é arte de uma maneira própria. É essa qualidade porosa, de linhas sem fronteira, essa dificuldade interpretativa que me interessa. Ela permeia nossas relações de modo total. Não é possível se esquivar da arte. Tem sempre um excesso de imagens atravessando nosso cotidiano, ruídos sonoros de todo tipo, uma miscelânea sensorial disponibilizada a nós e ao nosso tempo. A questão é quanto cada um quer ou pode investigar a brecha, o desvio, o desvão que a arte aciona em nós. De que modo, com que intensidade, que atenção conferir ao seu impacto. É, em primeiro lugar, um trabalho de educação e, depois, uma urgência própria.
Desde criança você já apresentava interesse pela literatura?
Fazendo uma faxina recente nos meus papéis, encontrei uma pasta de plástico com poeminhas de amor datilografados, assinalados com “da 6ª série” ou “da 7ª série”. Não me lembrava de ter essa atenção com os meus escritos desde tão cedo, no sentido de passá-los à máquina e guardá-los em uma espécie de arquivo. Foi interessante perceber que um olhar especial e específico à literatura já estava em curso, mesmo antes das experiências mais conscientemente seladas como literárias. Gostava de ler, mas não era uma leitora muito diferente dos demais leitores de minha idade.
Acredita que o ambiente em que você cresceu te influenciou de alguma forma?
Sim. Houve uma contribuição poderosa do ambiente em que fui criança, no sentido de aguçar uma sensibilidade à arte. Meus pais começaram a colecionar artes plásticas no ano do meu nascimento. Nessa época, meu pai mantinha uma rotina bastante compromissada com a pintura. Havia, ainda, um certo culto à música, especialmente MPB, que dava à casa uma atmosfera sonora própria. De certa forma, a impregnação das artes visuais e da música alimentou o desejo de me relacionar com o mundo e com minha própria intimidade pela via escrita. Essas duas expressões artísticas engendraram um volume único — sensorial, visual, auditivo — que escoou por meio da palavra, também composta de imagem, de ritmo e de som.
Por que decidiu seguir por esse caminho profissionalmente?
A minha primeira opção de faculdade foi o Jornalismo. Acabei me frustrando com o tempo demandado das notícias, com a flutuação das pesquisas e com a falta de comprometimento com longas narrativas. É claro que nem todo veículo jornalístico trabalha nessas linhas, mas foi o que aprendi no pouco tempo que fiquei nesse curso. Logo entendi que queria estudar Letras e escolhi o português, provavelmente porque planejava, assim, um maior convívio com a língua na qual eu me expressaria, quem sabe, profissionalmente. Ali, descobri a paixão por pesquisa acadêmica, que, digamos, ultrapassa em muito o “acadêmico” do rótulo. Ser bolsista e poder viajar longos períodos por uma obra ou por um autor foi se revelando o meu caminho profissional possível, já que, embora escrevesse e publicasse, não entendia e entendo cada vez menos a prática da escrita literária como profissão. Escrever é um exercício de insubordinação. Escapa à lógica adulta de um mundo regulado por horários, valores, salários, competição e sucesso. Depois, comecei a ver que a pesquisa também escapa ao currículo e ao “empreendedorismo” acadêmico que certos modelos educacionais querem forçar. A educação, ir pra sala de aula, como aluna ou professora, é a ponta da lança desse caminho atravessado pela literatura. Há, na prática de ensino, espaço para falar em profissão, é claro, mas, saudando no termo tudo aquilo que a complexifica, não o que a regula, contabiliza e uniformiza.
Quem é o autor que mais te inspirou?
São muitos. Por conta da escolha de seguir em pesquisa na literatura portuguesa, acabei lendo mais autores portugueses do que outros. Cito, especialmente, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Teixeira de Pascoaes. Os dois primeiros são bastante conhecidos do público brasileiro, por isso destaco Pascoaes, o autor a quem dediquei cinco anos de pesquisa no doutorado. Sua obra, volumosa, inédita no Brasil, pode ser lida como um largo romance da saudade, pensando no romance conforme o gênero foi idealizado pelos românticos alemães, como uma obra aberta, inacabada e infinita. O tema maior da obra de Pascoaes é a saudade, no sentido mais filosófico possível, como uma condição epistemológica do sujeito. Somos seres permeados pela falta. O fôlego, também algo ingênuo e aparentemente espontâneo, com que ele levantou essa escrita da ausência é algo impressionante. Quero muito tentar trazer o Pascoaes para o nosso país, publicá-lo aqui.
E atualmente, além dos cursos, há algum projeto em andamento?
Estou revendo um texto muito antigo meu, o “Livro do Contágio”, que comecei a escrever em 1999, aos 19 anos, com a intenção de ser um projeto inacabado, um livro nunca editado, que fosse interrompido, de fato, pela minha desaparição. Porém, ele está imenso. Embora tenha aí uma afetação fúnebre, uma pose literária, o “Livro do Contágio” é um espaço de exercício indiscriminado do que eu chamei uma “ética herética”. É ir à escrita sem qualquer utilidade de troca, encontrando, ali, uma heresia do silêncio. Chega próximo, talvez, de uma paixão mística. É complicado explicar mais. O que talvez possa acontecer, este ano, é a publicação de um excerto desse livro, algo solto, um pedaço dele. Estou trabalhando nisso, na reescrita desse projeto.
Fotos: Fábio Abreu