Resgate da "belle époque"

Resgate da "belle époque"

A conclusão do projeto de revitalização do centro da cidade, que existe há 20 anos, ainda levanta acaloradas discussões

Assim como na maioria das cidades, a história de Ribeirão Preto começa com o progresso do centro. Mas como também é comum em diversos municípios, esta região foi ficando de lado na medida em que o desenvolvimento expandiu-se para novas áreas. Restauração de casarões antigos, construção de banheiros e áreas para mulheres com trocador de bebês, restauração dos paralelepípedos, fomento a ações culturais e turísticas para visitação, construção de um Poupatempo e diversas outras ações fazem parte do projeto de Revitalização do Centro de Ribeirão Preto.

Junto a tais obras, o projeto de revitalização do chamado Centro Histórico inclui o projeto Cidade Limpa, que visa à regulamentação da propaganda nas fachadas, outdoors e características visuais de lojas e estabelecimentos comerciais. “O ribeirãopretano vive, nos últimos anos, um despertar da ‘consciência histórica’. Em outras palavras, grupos significativos da cidade estão mais atentos ao passado e às experiências coletivas já vividas. Nesse movimento, vem crescendo o interesse por uma paisagem urbana composta por formas construídas ao longo de um século e meio de história”, introduz Lilian de Oliveira Rosa, historiadora que coordena os cursos de História e Geografia do Centro Universitário Barão de Mauá.

Nascida da divisão judicial da fazenda Barra do Retiro, em 19 de junho de 1856, Ribeirão Preto, que já possui 619 mil habitantes, foi fundada por produtores rurais através da doação de terras para a formação do patrimônio de São Sebastião. Em 1870, o povoado passou a se chamar Freguesia de São Sebastião de Ribeirão Preto. No ano seguinte, foi elevada à condição de vila. Como município, Ribeirão Preto começou a consolidar um setor administrativo com a criação da Câmara Municipal, em 1874, ano em que as leis começaram a ser elaboradas. Entre 1889 e 1930, Ribeirão Preto era conhecida como Primeira República, caracterizada pelo poder político e econômico dos cafeicultores ligados ao Partido Republicano Paulista (PRP).

A fonte luminosa da Praça XV de Novembro, que originalmente abrigava a primeira Igreja matriz, é o marco zero da cidade.  “No entorno dela, consolidou-se o território de convívio da comunidade, caracterizado principalmente por festividades de caráter religioso promotores da integração por meio de celebrações, que representavam as únicas formas de lazer nesse período”, explica a historiadora.

Com o passar dos anos, o centro concentrou a maioria das atividades de comércio, serviços, administração pública e lazer, em especial, a área em torno da Praça XV. A elite, ligada direta ou indiretamente ao café, ocupava o centro em todos os sentidos. Nas duas primeiras décadas do século XX, a Praça XV se definiu como um espaço dedicado ao convívio das classes abastadas e interditado aos pobres, que viviam para além dos córregos. Um dos edifícios representativos desse processo é a sede da Sociedade Recreativa, atual Museu de Arte de Ribeirão Preto, o MARP.

Quarteirão Paulista de Ribeirão Preto
Com o capital adquirido pela cultura do café, a paisagem urbana se modificou. A partir da década de 20, o Centro se tornou ponto de referência para investimentos da iniciativa privada. Antigas construções passaram a fazer parte do conjunto arquitetônico denominado Quarteirão Paulista. “O quadrilátero foi um marco arquitetônico que definiu o final desse período marcado pelas belas residências e pelo lazer da classe alta na área central. Constituído pelo Theatro Pedro II, pelo Edifício Meira Júnior e pelo Palace Hotel, esse conjunto construído com o capital da indústria cervejeira completou o cenário da cidade, que desejava ser vista como moderna”, explica Lilian.

Na década de 1940 foram criados os loteamentos Higienópolis e Jardim Sumaré. A cidade se setorizava e a Zona Sul era destinada às classes mais abastadas. A Avenida Nove de Julho, que em 1955 finalizou sua abertura, passou a representar a artéria da área de alto padrão, recebendo residências com estrutura arquitetônica evidentemente superior. “Fenômenos urbanos contemporâneos, como o deslocamento das classes altas para a Zona Sul e a implantação de shopping centers, em outras áreas, a partir dos anos de 1980, deram início ao lento e gradativo abandono do centro histórico pela elite e, especialmente, pelo poder público”, complementa.

A revitalização busca, justamente, resgatar o valor cultural e histórico do Centro. O projeto está estruturado em um conceito de requalificação de áreas centrais, onde a proposta contempla um trecho do Projeto Cidade Histórica. “A grande obra de reurbanização do calçadão é apenas uma das ações previstas. Outras virão com a identificação dos conceitos: morar, trabalhar, circular e ter lazer e paisagem urbana”, explica José Antônio Lanchoti, arquiteto e urbanista, consultor do projeto de revitalização.

Algumas ações já foram realizadas, como a obra Antienchente, o Memorial das Palmeiras, a Revitalização da Francisco Junqueira e da Rua José Bonifácio, a fonte da Praça XV de Novembro, entre outras. Porém, o que se nota até então são ruas esburacadas, reformas inacabadas e fachadas destruídas. O descaso pode ser notado ao transitar pela Rua General Osório. Ali, percebe-se que a característica principal do Calçadão já não existe mais e que as obras para a instalação da rede elétrica subterrânea estão paradas — apenas reformas emergenciais estão em andamento.

Para José Carlos Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP), o atraso nas obras implica em prejuízo para os comerciantes e consumidores. “A ACIRP entende que as obras do Centro, como quaisquer outras, estão sujeitas a problemas pontuais. Porém, deve-se lutar para que o cronograma seja cumprido, o que infelizmente não ocorre. A promessa era de que a reforma ficaria pronta antes do fim do ano passado. Agora, muito provavelmente chegaremos ao Natal de 2013 sem que o Calçadão esteja pronto”, argumenta.

Carvalho aponta, ainda, que a situação compromete a imagem da cidade e que a Associação contribuiu para as obras do Quadrilátero Central e do Calçadão. “Obras, de R$ 54 mil não tiveram custo para a Prefeitura, pois foram pagas pela ACIRP”, comenta.

Para a historiadora, as paisagens urbanas correspondem à cultura da sociedade e à história da cidade. “Nesse sentido, as paisagens urbanas refletem as formas de fazer, de viver e de se relacionar; guardam o DNA da comunidade, e, por isso, são únicas, o que torna a sua preservação e a sua conservação, essenciais para a consolidação de laços de pertencimento entre o munícipe e o local onde se vive”, analisa Lilian.

Marcos Zeri Ferreira, presidente da Amigos, Moradores e Empresários do Centro (AMEC), destaca que o crescimento dos bairros e o surgimento dos shoppings contribuíram para, nos últimos 20 anos, a progressiva deterioração das ruas e calçadas, iluminação, limpeza, segurança e praças, além de deixar esquecida a conservação dos prédios históricos. “Ribeirão Preto nunca teve um planejamento na área central que pudesse abrigar um desenvolvimento sustentável. É evidente que surgiram dificuldades que contribuíram para o atraso das obras, entre elas, a complexidade do subsolo com relação a rede de água, canos e esgotos envelhecidos, até lajes de concreto encontradas debaixo do solo, além das datas especiais do comércio e as chuvas,  motivo pelos quais as obras foram interrompidas a consenso dos comerciantes e construtora. A AMEC continua atenta ao cronograma de obras e para tanto são realizadas semanalmente reuniões com as autoridades competentes  como CPFL, DAERP, TRANSERP, Polícia Militar, Guarda Municipal, AMEC, SINCOVARP, ACI, Fiscalização, Vigilância Sanitária e moradores da área e infraestrutura”, afirma.

Ferreira ainda ressalta que as melhorias não se restringem à parte física do projeto de Revitalização. “A AMEC defende  um Projeto Cultural permanente para o Centro, com Escola de Música e Artes Plásticas, mais Museus, Bibliotecas e áreas de convivência, de forma a despertar a consciência da preservação dos prédios históricos e patrimônios públicos. Ribeirão Preto, em breve, será um Polo Metropolitano, precisa de infraestrutura a altura de uma grande cidade”, acrescenta.

O projeto de Revitalização
O Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), responsável por estudar a realidade das cidades brasileiras e criar programas de ações integradas entre poder público e sociedade para a transformação das cidades em lugares criativos, apoia o projeto de revitalização do Centro de Ribeirão Preto, de autoria da arquiteta urbanista Rose Borges. “Dentro das propostas criativas e inovadoras para Ribeirão Preto, o IPCCI defende o projeto de revitalização como uma solução para os problemas atuais do centro”, afirma Adriana Silva, responsável pelo IPCCIC.

O projeto inicial do calçadão da cidade, à primeira vista, impressionou: uma paisagem de encher os olhos, digna de um processo de modernidade de última geração. Ambiente refinado, adequado a pessoas incapazes de atirar lixo ou qualquer outro objeto que traria má impressão aos passantes nas ruas. Saem os camelôs, o terminal de ônibus dá lugar aos pontos espalhados pelas ruas, as pombinhas não fazem mais parte da natureza do local, lixeiras espalhadas em todo canto e calçamento impecável das ruas principais, além da construção de garagens subterrâneas e do alargamento das ruas mais estreitas.

Essas eram as primeiras mudanças na paisagem do Centro. Mas o que se vê em 2013 pouco se assemelha ao projeto. “A Reabilitação do Quadrilátero Central está inserida no Projeto Cidade Histórica – Revitalização, das manchas urbanas identificadas como de relevância histórica, desenvolvido pela Prefeitura através das secretarias da Cultura e do Planejamento e Gestão Pública, com a colaboração dos diversos órgãos municipais e de lideranças que representam a comunidade local”, explica a arquiteta.

Dividido em quatro etapas, o projeto tem como eixo principal a união dos conceitos de morar, trabalhar, circular, divertir e admirar a paisagem urbana. “A proposta está pautada na identidade cultural da cidade, a partir da cultura do café e dos imigrantes, que se traduz na trama, na textura e nas cores do piso”, complementa Rose Borges. O objetivo é transformar o Calçadão em espaços de permanência, valorizando as esquinas como elementos de referência e praças de convivência com mobiliário interativo.

Marco histórico da cidade
Em 1926, foi inaugurado o Central Hotel que, mais tarde, passaria a se chamar Palace, ponto fundamental para o surgimento do Quarteirão Paulista. Um dos marcos mais importantes do Quarteirão Paulista, o Theatro Pedro II, viveu dias de glória e de desastre em cerca de 30 anos. Tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio, Arqueológico, Histórico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), teve as atividades iniciadas em 1927, com a exibição do filme “Alvorada do Amor”. Sua arquitetura, inspirada nos grandes teatros europeus, seria destruída por um incêndio em 1980. O capítulo da reconstrução do Theatro iniciou-se em 1991 e sua reinauguração aconteceu em 15 de maio de 1996.

Outro marco importante na história de Ribeirão Preto, que compunha o famoso Quarteirão Paulista, é a lendária choperia Pinguim. O sabor da bebida, apreciada pelo reduto da elite cafeeira da época, era explicado por uma história fantasiosa de que, por meio de uma tubulação subterrânea, uma serpentina ligava a fábrica da Antartica à choperia.

Confira algumas propostas para transformar o centro

Eixo General Osório

- Reformular a quadra onde se localizam o Palácio do Rio Branco e o MARP;

- Valorizar o conjunto arquitetônico e urbanístico definido pelo Quarteirão Paulista e o Edifício Diederichsen;

- Utilizar a vegetação não apenas para dar conforto térmico, mas também para organizar os espaços;

- Preservar os edifícios e os conjuntos de valor histórico através da restauração, proteção visual e a adoção do projeto “Cidade Limpa”;

- Compatibilizar a locação do mobiliário ao longo do calçadão com a infraestrutura de redes existentes e a serem instaladas;

- Instalar medidores de água no piso público junto ao imóvel, considerando a revitalização com a valorização das fachadas;

- Desapropriar imóveis para a instalação de serviços de apoio à comunidade, como fraldários e sanitários.

Eixo José Bonifácio

- Implementar vagas de estacionamento para veículos, motos e bicicletas utilizando a terceira faixa, de forma  que a calçada seja alargada;

- Criar dois terminais urbanos para o transporte coletivo e dois bolsões de estacionamento;

- Preservar os edifícios de valor histórico, como o Hotel Brasil, o Mercado Municipal e os Estúdios Kaiser de Cinema, bem como os edifícios da rua, através da restauração, proteção visual e adoção do projeto “Cidade Limpa”.

Eixo Nove de Julho

- Reforçar o eixo da Avenida Nove de Julho;

- Aproveitar o potencial existente entre as avenidas Santa Luzia e Caramuru;

- Resgatar a importância da Nove de Julho como marco referencial da cidade, interligando o parque da Pedreira, através de um parque linear até a rua Saldanha Marinho;

- Implantar um mirante e um teleférico com conexões às áreas verdes e parques da cidade.

O progresso econômico

1890 - Entre 340 estabelecimentos, 186 eram comerciais, 127 profissionais liberais e prestadores de serviços e 27 estabelecimentos industriais.

1904 - Cerca de 60% dos 538 estabelecimentos do Centro eram comerciais; aproximadamente 35%, profissionais liberais, e o restante, industriais.

1913 - Entre 151 proprietários de casas comerciais e fábricas no município, 93 eram italianos. Havia estabelecimentos de secos e molhados, botequins, padarias, restaurantes, açougues, entre outros.

1920 e 1951 - Cerca de 8% dos comerciantes e 64% dos industriais este período eram estrangeiros.

1950 e 1962 - O número de estabelecimentos comerciais, industriais, profissionais liberais e serviços chegou a 2.443, em 1950, e a 4.252, em 1962.

1970 - A região administrativa se torna a maior produtora de cana-de-açúcar, laranja, soja, milho, tomate e limão, arroz, café e pecuária.

2000 - A indústria era responsável por apenas 18,3% do emprego formal, ou 21.292 trabalhadores, enquanto o comércio empregava 26,3% e o setor de serviços, 54%.

2013 - Do total de empresas ribeirãopretanas, 75.540, 33.144 são formadas por sociedade, 41.503 formadas por empresários e 74, por cooperativas.

O Centro e seus personagens do passado

Diversos imigrantes fizeram parte do desenvolvimento da cidade. É o caso de artesãos, proprietários de pequenas fábricas, entre outros. Um exemplo foi o italiano Conde Matarazzo. Fundador e presidente da Sociedade Anônima F. Matarazzo, entre 1934 e 1943, adquiriu terrenos e instalou, nas ruas Saldanha Marinho, José Bonifácio, Campos Salles e Prudente de Moraes, uma série de edifícios para o beneficiamento de algodão e de azeite, extração de querosene e barracões.
Adolfo Bianchi também foi um típico exemplo. Com diploma de técnico em mecânica, chegou ao Brasil para trabalhar no café. Depois de três anos na Fazenda Dumont, passou a se dedicar a uma oficina mecânica. Em 30 anos, os Bianchi já possuíam um negócio próspero de fabricação de máquinas agrícolas, além de peças de ferro como postes de iluminação, vendidos para Santos, São Paulo, Ribeirão Preto e mais de 35 cidades paulistas.
Já nos primeiros anos do século XX estavam estabelecidos muitos negócios em Ribeirão Preto, como o Hotel De Martino; a Photografia Passig, do alemão João Passig, e a Electro-Metallúrgica Brasileira S.A., idealizada por Flávio de Mendonça Uchôa, prestador dos serviços de Força e Luz, Água e Esgoto na cidade desde o final da década de 1910. Empresas nacionais também se instalaram na cidade, como foi o caso da Companhia Antarctica Paulista com o famoso Pinguim, responsável por dar à cidade o título de “Capital do Chope”.

Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Ibraim Leão

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