Respeitar é preciso

Respeitar é preciso

Um em cada dez estudantes no Brasil é vítima de bullying, agressão física ou psicológica intencional e repetida que pode resultar em traumas e lembranças negativas por toda a vida

Por causa do bullying, Talissa passou 11 anos alisando os cabelos cacheadosAos 11 anos Talissa Silverio passou a encarar maratonas de cinco horas ou mais no salão de beleza. Foi nessa idade que decidiu alisar os cabelos crespos pela primeira vez. Os motivos que a levaram a suportar longos períodos de ardência nos olhos e irritações na garganta eram piadinhas que ouvia dos colegas da escola. “As comparações com Bombril e outros materiais afetavam profundamente a minha autoestima na época, por isso, achei que alisar os cachos poderia solucionar a situação”, relata a estudante.

Por muito tempo, a estudante cumpriu o ritual que a fazia se sentir mais aceita no ambiente escolar. Somente aos 21 anos passou a aceitar o estado natural do seu cabelo. “As mudanças características da adolescência tornam tudo mais difícil. Hoje, vejo que não deveria ter ligado para nada daquilo”, argumenta Talissa.

O medo de frequentar a escola foi a consequência enfrentada pela bióloga Sara Ferreira Ferro de Souza aos sete anos, quando ganhou apelidos nada delicados, como “estrupício”, “lixo”, entre outros. O motivo para os xingamentos eram também os cabelos, que viviam despenteados. Certa vez, cuspiu no rosto de um colega de classe para que os apelidos desagradáveis parassem. “As brincadeiras inconvenientes nunca acabavam, só mudavam de um colega para o outro. Com o tempo, aqueles comportamentos passaram a me atingir cada vez menos e eu deixei de agredi-los de volta, passando a ignorá-los. Só consegui mudar a minha postura com muito apoio familiar, que, para mim, foi primordial”, conta Sara. 

No passado, Sara reagia com agressividade aos xingamentos e às brincadeiras maldosasSituações assim são cada vez mais frequentes e, segundo especialistas, estão levando jovens a atentar contra a própria vida. Dados do terceiro volume do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de 2015, apontam que um em cada dez estudantes no Brasil é vítima de bullying. Esses adolescentes sofrem agressões físicas ou verbais, são alvos de piadas ou de boatos maldosos e são excluídos propositalmente por colegas de escola.

Para as duas jovens, a escola precisa agir de maneira eficaz e imediata ao perceber qualquer atitude dessa natureza em suas dependências. Apoio da instituição e dos familiares também são fundamentais para minimizar o avanço de situações de bullying. “Atualmente, essas lembranças só me fazem dar risada, mas, no fundo, sei que, se não fosse o apoio que tive em casa, hoje, minha autoestima estaria comprometida, assim como meu desempenho profissional”, completa Sara. 

Pais e professores

O que, hoje, é reconhecido como bullying, antigamente era visto como “brincadeira de criança” e, normalmente, nem a família nem a escola pareciam perceber a intensidade das atitudes. Com consequências sérias para as vítimas e para os agressores, o bullying  pode ultrapassar as ofensas verbais e chegar na forma de pontapés, insultos e mentiras graves, capazes de colocar a vítima em situações vexatórias ou até diante de ameaças e exclusão. Tais situações afetam os envolvidos de formas e intensidades variadas. Medo, apatia, baixa autoestima, dificuldade com a aprendizagem e até depressão podem ser algumas das consequências. Os agressores também tendem a desenvolver dificuldades de relacionamento, conflitos no trabalho, resistência a regras e a limites na vida, chegando até conflitos com a lei e uso de drogas na fase adulta. 

Para Alessandra, é importante que a escola crie um ambiente seguro para os alunosPara Alessandra Perez, pedagoga e especialista em Direito Educacional da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), as escolas precisam desenvolver projetos efetivos para que quem sofre qualquer tipo de intimidação possa se sentir seguro para procurar o responsável e conversar sobre o ocorrido. Isso porque, muitas vezes, quem sofre a agressão se cala por medo de retaliações. “Cabe à escola garantir um ambiente seguro para os alunos, certificando-se que as crianças e os adolescentes encontrarão respaldo junto ao corpo docente da instituição caso se sintam ofendidos”, afirma.

Para a especialista, abordar o bullying abertamente permitirá que sejam desenvolvidas formas de combate cada vez mais eficazes. “A melhor maneira de barrar atitudes negativas é mostrando que elas não têm espaço no ambiente escolar. Se as agressões são combatidas com medidas educativas contundentes, não ganharão maiores proporções. Essas medidas coíbem a ação de novos ataques e mostram para os estudantes que eles estão sendo vistos, respeitados e protegidos no ambiente escolar”, acrescenta Alessandra. 

Discutir o assunto com educadores, psicólogos e pais de forma contínua é o caminho para abolir tais comportamentos.  Para a pedagoga, não há uma regra ou uma ação isolada a serem copiadas para mudar essa realidade. Segundo Alessandra, cada escola pertence a um contexto, que precisa ser levado em consideração no planejamento de ações contra a prática. “As escolas devem capacitar professores e colaboradores para identificar qualquer ação nesse sentido e atuar rapidamente. Por sua vez, os pais precisam cobrar as escolas e, principalmente, trabalhar na educação dos filhos quando ouvirem que há bullying na escola. É preciso, também, que haja diálogo entre escola, pais e alunos”, conclui a pedagoga. 

Mudar a filha de escola depois de quatro anos de sofrimento: esta foi a escolha de Camila Campos (nome fictício). A filha, Ana Carolina (nome fictício), de dez anos, era excluída pelos colegas e costumava ouvir piadinhas a respeito do seu peso. “Antes de tudo, ela era sorridente, brincalhona e muito carinhosa. Com a intensidade das brincadeiras, perdeu o interesse pela escola, pelos colegas e pelos professores e entrou em depressão”, relembra a mãe.

Segundo Camila, não houve apoio por parte da escola. “Certo dia, a diretora disse que minha filha não tinha amigos porque era chata e que as situações que estava enfrentando eram culpa dela”, recorda a mãe. Tantos anos de bullying renderam à estudante muitas sessões de terapia antes de dar novo rumo à vida escolar. “Atualmente ela está feliz, alegre, vai pra escola empolgada e com disposição.  Os novos amigos e professores são maravilhosos e estão tratando minha filha como toda criança merece: com respeito, dignidade e igualdade”, conclui Camila. 

Para a psicóloga Katia Paschoali Miguel, é importante saber diferenciar quando, entre colegas, há brincadeiras saudáveis e quando as atitudes se tornam maldosas. Bullying é sempre uma agressão, trata-se de um comportamento com objetivo de ofender, humilhar e intimidar. “Todos os envolvidos nesse fenômeno — quem é agredido, quem agride e quem assiste —sofrem consequências, em maior ou em menor grau, a curto, médio ou a longo prazo. Quem sofre bullying  pode lidar, futuramente, com problemas psicossomáticos, ansiedade, medo e dificuldade de contato social, por exemplo.  Crianças e jovens em idade escolar podem apresentar, ainda, queda no rendimento e recusa para ir à escola”, destaca.

Kátia afirma que bullying é sempre uma agressão, comportamento com objetivo de agredir, humilhar e intimidarSegundo a especialista, uma rede de apoio precisa amparar os envolvidos em uma situação de bullying. “É ingênuo pensar que a pessoa que está sendo alvo de bullying vai sozinha solucionar tamanho conflito. Geralmente, falamos de bullying relativo a crianças e jovens; então, reagir ao bullying pressupõe adultos atentos e capazes de intervir na situação, protegendo, orientando e tomando medidas mais drásticas se necessário”, completa Kátia, destacando que, em alguns casos, a intervenção jurídica pode ser indicada.

A psicóloga ainda acrescenta que o bullying se instala onde o adulto se ausenta. Tanto quem sofre quanto quem pratica apresentam comportamentos diferentes dos habituais e que chamam a atenção. “Dizer que ‘nunca notamos nada’, ‘foi um ato repentino’, ‘fulano era calmo e de repente se desestabilizou’ é assumir nossa distração como adultos, pais, educadores ou pessoas próximas às crianças e aos jovens. Por mais difícil e doloroso que seja perceber, a falha é nossa”, conclui.

Combate ao bullying

Criada depois da tragédia conhecida como “Massacre de Realengo”, onde 12 crianças foram assassinadas a tiros na escola Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, em 2015, a Lei 13.185/2015 obriga que estabelecimentos de ensino, clubes e agremiações recreativas assegurem medidas de conscientização, prevenção, diagnose e combate à violência e à intimidação sistemática (bullying).

O texto define que os objetivos propostos pelos programas poderão ser usados para fundamentar ações do Ministério da Educação, das secretarias estaduais e municipais de educação e também de outros órgãos relacionados à matéria. Entre as ações previstas está a capacitação de docentes e de equipes pedagógicas para a implementação das ações de discussão, prevenção, orientação e solução do problema.

Ainda de acordo com a legislação, a punição aos agressores, em casos de bullying deve ser evitada tanto quanto possível, “privilegiando mecanismos e instrumentos alternativos que promovam a efetiva responsabilização e a mudança de comportamento hostil”.

A previsão é que sejam produzidos e publicados relatórios bimestrais das ocorrências de bullying nos estados e nos municípios para o planejamento das ações. Segundo a lei, os estados e municípios poderão firmar convênios e estabelecer parcerias para a implementação e a correta execução dos objetivos e diretrizes do programa. 



O que diz a Lei

Art. 2º: Caracteriza-se a intimidação sistemática (bullying) quando há violência física ou psicológica em atos de intimidação, humilhação ou discriminação e, ainda:

I - ataques físicos;
II - insultos pessoais;
III - comentários sistemáticos e apelidos pejorativos;
IV - ameaças por quaisquer meios;
V - grafites depreciativos;
VI - expressões preconceituosas;
VII - isolamento social consciente e premeditado;
VIII - pilhérias.

Art. 3º:  A intimidação sistemática (bullying) pode ser classificada, conforme as ações praticadas, como:

I - verbal: insultar, xingar e apelidar pejorativamente;
II - moral: difamar, caluniar, disseminar rumores;
III - sexual: assediar, induzir e/ou abusar;
IV - social: ignorar, isolar e excluir;
V - psicológica: perseguir, amedrontar, aterrorizar, intimidar, dominar, manipular, chantagear e infernizar;
VI - físico: socar, chutar, bater;
VII - material: furtar, roubar, destruir pertences de outrem;
VIII - virtual: depreciar, enviar mensagens intrusivas da intimidade, enviar ou adulterar fotos e dados pessoais que resultem em sofrimento ou com o intuito de criar meios de constrangimento psicológico e social.

Na tela do cinema

Polêmico e impressionante, o filme “Extraordinário”, adaptação do livro homônimo escrito por R.J Palacio, mostra o bullying sofrido por Auggie Pullman, interpretado por  Jacob Tremblay  que nasceu com Síndrome de Treacher Collins, ou disostose mandibulo-facial, e passou por diversas cirurgias e complicações médicas na infância. Educado em casa até os dez anos, passa a frequentar uma escola regular e precisa se esforçar para se encaixar na nova realidade. O longa-metragem leva uma mensagem importante sobre aceitar as diferenças e não ligar para a aparência. O elenco conta com Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson e com a brasileira Sonia Braga.



Texto: Cristiane Araujo
Colaboração: Gabriela Maulin

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