Reta final das películas nos cinemas
Desde 2011, as líderes do mercado de câmeras que usam filmes de 35mm, pararam a produção

Quando menino, Carlos Eduardo da Silva, o Du Cauim, se apaixonou pelo cinema através do dono da casa que a família dele alugava, em Pitangueiras. O homem era dono de uma das duas salas de projeção da cidade, nos anos 1960, e deixava Eduardo assistir aos filmes, mesmo quando era proibido para as crianças.
Ele conta que gosta muito dos filmes estilo faroeste, os chamados westerns, e lembra que quando assistiu ao filme O dólar furado, de Giorgio Ferroni, e estrelado por Giuliano Gemma, se escondia atrás das poltronas para que não fosse acertado pelos tiros. “Aquele cara me deu muitas emoções. Não vou esconder que gosto de faroeste”, acrescenta.
Já adulto, Du Cauim se formou radialista, mas se manteve próximo às telonas. Depois de trabalhar em rádio e televisão, ele foi se encontrar com sua paixão. Se tornou operador cinematográfico do Cineclube Cauim. “Sou o último operador da região, agora é projecionista. A diferença é que o operador dá manutenção, desmonta a máquina, conserta ela. É tudo artesanal”, explica.
Com mais de vinte anos de experiência, ele enxerga o fim da era dos filmes em película. Desde 2011, as três maiores fabricantes de câmeras no formato de filme em 35mm, a Arri, Panavision e a Aaton, não produzem as câmeras de película.
Eduardo lembra que na história do cinema, a sétima arte foi se adaptando. No começo era um piano que tocava dentro da sala de cinema. Com o advento da televisão, o cinema teve que se modernizar rapidamente, então veio o áudio. “Isso era lindo, porque a pessoa podia viajar no tempo. E ela tinha a imagem e o áudio”, conta.
Porém, ele recorda que houve novidades tecnológicas, mas as imagens não melhoram, continuaram do mesmo jeito. “Agora inventaram essa coisa de digital. Para mim digital é uma televisão, porque é um equipamento que decodifica uma imagem, não é cinema”, protesta.
Ele ainda diz que todos os equipamentos digitais acabam se tornando analógicos, por um fenômeno comum da física. “Tudo isso passa a ser analógico a partir do momento que isso sai do projetor para tela através de luz. Porque luz é analógico”, diz.
Por isso ainda tem ressalvas com essa mudança, pois ele prefere os filmes tradicionais. “Eu sou da velha guarda, eu não evolui. Gosto muito do analógico, da película. Sou antigo mesmo. Talvez os garotos que já nasceram com isso gostem mais”, comenta.
Além disso, Eduardo vê a difusão do cinema digital como o fim dos cinemas pequenos. “Projetores digitais custam por volta de R$ 400 mil. Uma mudança mais pro comércio, do que para a qualidade propriamente dita. E qual cidade da região tem salas de cinemas? Nenhuma. Quem quer ver um filme tem que vir para Ribeirão”, lamenta.
Já para o crítico de cinema, Marcos de Castro, que foi diretor operacional dos Estúdios Kaiser de Cinema, a entrada do cinema digital não muda para as salas. “Você apenas ganha mais experiência”, e ele também palpita que “o que prevalece é a qualidade artística e original”.
Marcos também acredita que os cinemas pequenos, que não são das grandes redes, precisam apostar mais na divulgação. “Acredito que podem melhorar na divulgação, afinal propaganda é a alma do negócio”, conclui.
Estoque no fim
O cineclubista Fernando Kaxassa, diretor do Cineclube Cauim, diz que assim que os estoques de películas acabarem, não haverá filmes novos em fitas, apenas os digitais. “Na verdade, as produções já são digitais e são passadas para película, mas isso vai acabar. Assim como acabarão os filmes fotográficos”, diz.
Kaxassa está buscando financiamento para a compra de um projetor digital, que custa cerca de R$ 450 mil. “Vamos pedir apoio da Ancine (Agência Nacional de Cinema). Temos chance de conseguir financiamento por sermos o último cineclube em funcionamento”, afirma.
O diretor do Cauim, no entanto, garante que não irá retirar o projetor de 35 milímetros de funcionamento. “Eu adoro película. E sempre haverá filme em película para exibir. Mas as grandes redes de cinema não têm interesse em manter (os projetores). Estão até doando os equipamentos”, afirma.
Ele considera também que os pequenos cinemas irão sofrer. “Será uma troca traumática”. Mas também aponta que a produção e distribuição apenas de filmes digitais vão reduzir muito os custos do cinema com a possibilidade de se aumentar o acesso a filmes. “Na China, por exemplo, já estão colocando projetores de filmes nas escolas”.
Revide Online
Leonardo Santos (Colaborador)
Fotos: Julio Sian e Arquivo Revide