Reverência à arte
Angelica Fabbri, prestes a completar 30 anos de convivência com a história de Cândido Portinari, revela desafios, conquistas e seu amor às obras do artista
Nascida em Brodowski, foi na infância que Angelica Fabbri aprendeu a admirar vida e obra de Candido Portinari. Esse, talvez, tenha sido o fator determinante para sua carreira como museóloga. Criado em 1970, o Museu Casa de Portinari é considerado patrimônio cultural, com móveis, utensílios e particularidades do refúgio sagrado de Portinari. A casa de Brodowski é espaço de muito trabalho e novas experiências, de buscas que se transformaram paredes em obras de arte ímpares, no patrimônio e no cenário artístico-cultural brasileiro — objetos que, impregnados por vivências, contam a história de vida de um pintor e de muitas vidas marcadas por sonhos, alegrias, lágrimas e muito trabalho de imigrantes italianos.
Desde que assumiu a diretoria do Museu Casa de Portinari, Angelica e sua equipe fizeram diversas ações e eventos para manter viva a memória do artista. Na terceira reforma, a preservação das obras e um projeto inovador de extensão da cultura a crianças e jovens do Município têm sido intensificados pela diretora, que vem conseguindo parcerias importantes para o desenvolvimento de seu trabalho como museóloga. Na entrevista ao arquiteto e urbanista José Antônio Lanchoti, também nascido em Brodowski e admirador do filho mais ilustre da cidade, Angelica divide seu amplo conhecimento sobre Portinari, destaca os pontos mais marcantes de sua trajetória à frente do Museu e antecipa alguns projetos futuros.
Lanchoti: Há quantos anos está à frente do Museu e quais foram os momentos mais difíceis e os mais prazerosos desta trajetória?
Angelica: No final de 2014, completo 30 anos no Museu. É sempre um desafio lutar pela memória de um artista com uma presença tão forte como Portinari, ainda mais diante do que o Museu representa para nós e para a cidade. O desafio é justamente encontrar um fio condutor que faça com que desenvolvamos um trabalho de qualidade que repercuta e se legitime perante a sociedade. Os momentos gratificantes são aqueles quando percebemos que o público entende o trabalho e vem ao Museu. Também me sinto extremamente feliz quando conseguimos desenvolver projetos educativos, conscientizando, principalmente, crianças e educadores. Momentos difíceis são aqueles em que não conseguimos implementar um projeto para o qual nos dedicamos. Se pensarmos em Portinari, no que ele significa e em seu papel como cidadão, não dá para se limitar à preservação. Além de tudo, é preciso pensar qual é, de fato, o real compromisso do Museu, como a descoberta de talentos, de habilidades e da vocação artística, o que representa uma grande responsabilidade e demanda construção contínua. Por isso, meu trabalho proporciona alegrias diárias. Mas também há frustrações, quando precisamos adiar projetos, pois desistir deles, jamais. No balanço geral, o trabalho no Museu tem dado mais alegria. Conseguimos, por exemplo, consolidar o significado do Museu e promover a cidade. As conquistas têm sido mais presentes do que as dificuldades.
Lanchoti: Além do profissionalismo, há uma paixão “portinariana” que nasceu contigo e está ligada à sua proximidade com a família Portinari. Quanto isso contribuiu para sua trajetória?
Angelica: Ajudou muito, não só o amor por Portinari, mas também o amor pela nossa terra natal. Descobri este artista muito cedo, pois alguns dos meus familiares são casados com pessoas da família dele, o que gerou uma proximidade muito maior. A Praça do Museu é a praça da minha infância, o que provavelmente acontece com muitas crianças hoje em dia. Sempre admirei o legado do artista por sua convicção e sua história de vida — uma pessoa que nasceu em uma família humilde, superou limites pessoais e circunstanciais e nunca desistiu dos sonhos. Por essa ligação, conheci muita gente apaixonada pelo Museu em minha trajetória. Meu tio, ligado à fundação do local, tinha profundo respeito e carinho pelo pintor. Meu pai também sempre esteve conectado às memórias da família. Por esses e outros exemplos, busco inspiração na trajetória de Portinari que, além de ter conseguido um resultado incrível em suas obras, foi um ser humano admirável. O meu trabalho é a soma de todas essas influências.
Lanchoti: O Museu Casa de Portinari entrou em reforma algumas vezes, mas nenhuma foi tão radical como a atual, que paralisou as visitações internas. Quais foram os motivos que levaram a isso e qual a previsão para a reinauguração?
Angelica: O Museu não chegou a completar dois anos fechado, sua reabertura acontecerá no dia 30 de maio, com uma grande festa na esplanada da instituição, a partir das 10h. Outros pontos de Brodowski também receberão uma programação especial. Assim como acontece com os visitantes, nós, profissionais, sentimos uma dose de frustração e de grande expectativa. Entretanto, essa intervenção era mais do que necessária, pois tínhamos problemas estruturais. Dessa vez, fizemos uma restauração diferente da anterior, pois integramos obras estruturais às pinturas murais. Houve, primeiramente, um trabalho minucioso de diagnóstico para apontar as melhores soluções. Nesse sentido, foi fundamental o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, gestora da obra, pois vínhamos de outras intervenções e reincidências; igualmente importante foi o empenho do secretário, Marcelo Mattos Araujo, da área de museus, em função de seu olhar diferenciado. Tal conjunção de fatores fez com que a restauração acontecesse de maneira completa, solucionando os problemas gerais. Tivemos total acompanhamento dos órgãos competentes, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT).
Lanchoti: Quais atividades o Museu desenvolveu para atender aos visitantes que buscam conhecê-lo durante as obras?
Angelica: Intensificamos o relacionamento nas redes sociais e remodelamos o site. Temos uma ação “extramuros” bem elaborada e reforçamos as “Oficinas Andantes”. Na frente do Museu, preparamos uma exposição completa, que pode ser visitada à noite, pois tem uma iluminação especial. Ao chegar ao local, o visitante pode conhecer a trajetória do Portinari bem de perto.
Lanchoti: Quais foram os pontos favoráveis da criação da Associação Cultural de Apoio ao Museu Casa de Portinari (ACAM)?
Angelica: A ACAM surgiu pelo desejo de unir os amigos para fortalecer e legitimar o trabalho do Museu Casa de Portinari. Isso aconteceu há muitos anos, em uma época em que essas iniciativas eram raras. Com o passar do tempo, o trabalho se fortaleceu e possibilitou a parceria com o Governo do Estado de São Paulo, já na qualidade de Organização Social de Cultura. Temos um Conselho de Administração e outros apoiadores representativos da sociedade com a responsabilidade de levar a fundo esse modelo de gestão. Hoje, desenvolvemos programas de conservação preventiva, programas de acervo, projetos socioculturais, entre outros, com equipes bem constituídas. A gestão compartilhada, baseada em um plano de trabalho pactuado, em programas estabelecidos, com metas e previsão de recursos, só trouxe benefícios para o Museu. Pelo acompanhamento dos órgãos competentes, existe uma expectativa de qualidade, de resultados, de economia, sempre focada na melhoria do serviço prestado. O modelo de gestão por Organização Social consegue responder a todas essas demandas.
Lanchoti: O Museu, em parceria com a ACAM Portinari, está inaugurando um belo projeto itinerante. Qual a proposta desse projeto, por onde passará e quem são os envolvidos?
Angelica: Sempre tivemos vontade de romper fronteiras geográficas, o que era muito difícil por conta da especificidade do Museu, que é uma casa, com o acervo de pinturas murais. Por isso, não conseguiríamos transportar as obras das paredes. Pensando nisso, chegamos à conclusão de que, se conseguíssemos fazer uma réplica em tamanho natural, chegaríamos ao resultado esperado: a difusão da arte sacra do Portinari, muito marcante, tendo na Capela da “Nonna” um exemplo único de fé e religiosidade. A ideia era, pela importância do conjunto, fazer algo que revelasse e ampliasse o alcance desse trabalho. Assim, o Museu sai das suas paredes e alcança novos públicos.
Lanchoti: Qual o número médio de visitantes do Museu?
Angelica: Antes do fechamento, eram em média de cinco mil pessoas ao mês, variando conforme as atividades do período, como por exemplo a Semana de Portinari, em agosto. Outro público muito significativo e crescente é o virtual. Há ainda outros projetos e ações educativas, como o atendimento às escolas, que aumentam o número de visitantes.
Lanchoti: Os murais “Guerra” e “Paz”, da ONU, estão rodando o mundo. Estão, agora, expostos em Paris, coincidindo com a chegada dos franceses na região para a Copa do Mundo. Pelo papel da França na vida de Portinari, há a expectativa de atrair os turistas franceses para o Museu?
Angelica: Para a realização da exposição na França, no início de maio, sob a coordenação do filho do pintor, João Candido Portinari, diretor do Projeto Portinari, ocorreu a vinda, por iniciativa do João Candido, de uma comitiva de jornalistas franceses ao Museu. Portinari tem uma relação muito positiva com aquele país — quando ganhou o primeiro lugar no então Salão Nacional de Belas Artes, o prêmio foi uma viagem à França, onde travou contato com grandes mestres da pintura e suas obras. Dessa viagem, voltou casado. Para nós, de Brodowski, a França tem grande importância pela emblemática Carta de Paris, em que o artista faz referência à cidade. Sempre cultivou os vínculos com a terra natal e o propósito de retratá-la em sua obra, mesmo tendo adotado o Rio de Janeiro, onde desenvolveria sua carreira. Mesmo assim, sempre retornou a Brodowski. Com a feliz coincidência da vinda dos franceses a Ribeirão, o Museu se adequou para recebê-los com a preparação de material informativo em francês, pois é grande a expectativa de que a visitação se intensifique e que possamos viver um momento de troca: eles conhecendo um pouco da cultura brasileira e nós, da França.
Lanchoti: Com a reinauguração, o que fica faltando para aprimorar ainda mais a qualidade do local?
Angelica: A restauração resolveu a maioria dos problemas. Claro que temos planos para o futuro, o Museu tem muito projetos em andamento e planejados, mas a nova reformulação já é uma grande conquista. Colocar o Museu no mesmo nível dos endereços culturais das grandes capitais e centros brasileiros, inclusive no cenário estrangeiro, pela qualidade dos serviços e pela exposição, trará um resultado bem interessante.
Lanchoti: Portinari foi tema de muitas charges no passado, empresta seu nome a rodovias, avenidas, ruas, escolas e centro de artes Brasil afora. Já foi retratado em cédulas da moeda nacional, lembrado em novelas e, recentemente, foi de novo tema de escola de samba do Rio de Janeiro. Como esta valorização é vista pelos moradores de Brodowski?
Angelica: Os moradores têm muito orgulho desse cidadão ilustre e reconhecem seu mérito. O Museu sempre procurou contribuir para esse entendimento e reconhecimento, focando o trabalho com as crianças, que têm a oportunidade de conhecer de perto as obras do artista. Também é importante ressaltar que não limitamos a difusão de Portinari a Brodowski, pois ele extrapola limites locais e regionais. O Museu busca mostrar às crianças, aos jovens e a pessoas de todas as idades o amor de Portinari pela terra natal, assim como sua trajetória daqui para os grandes centros. A carta de Brodowski é uma declaração de amor à cidade, o que é reconhecido pelos conterrâneos do pintor. Termos um Museu como referência para as gerações futuras é um compromisso efetivo. Cuidar de suas obras é reviver mensagens ainda atuais, como a impressa nos painéis “Guerra” e “Paz”, que traduzem nobres sentimentos e valores de respeito e amor à humanidade.
Lanchoti: Visitar o Museu é uma volta no tempo, um resgate histórico do pintor e de sua obra. O que o visitante vai encontrar no “novo” espaço?
Angelica: Até os “portinaristas” mais ferrenhos e os brodoskianos mais apaixonados irão se surpreender e se emocionar. Estamos cuidando para que seja um trabalho bacana. A nova exposição de longa duração trará novas salas de exposições e inovações que prometem um resultado muito interessante. Outros projetos paralelos irão, mais uma vez, estender o Museu a novos espaços e, assim, estabelecer um link com outros endereços e paisagens vinculadas às memórias de Portinari e de todos os brodowskianos. A intenção é criar um roteiro de visita integrado, que resultará em uma visão ampliada do universo do artista, pois não é possível entender Portinari sem saber a história da cidade.
Lanchoti: No Museu, encontramos várias obras, objetos pessoais e ambientações da época. Entre esses elementos, o que mais a emociona?
Angelica: Tento descobrir essa resposta a toda hora, não sei o que mais encanta ou emociona. Hoje, meu olhar está mais profundo, mais crítico, mas também, mais apaixonado; os desafios e as perspectivas me mobilizam e me proporcionam uma renovação. Sinto-me muito feliz em fazer parte disso, como profissional e como cidadã.
Lanchoti: Brodowski completou 100 anos de emancipação política em 2013. Sua Estação Ferroviária completa 120 anos em 2014. Portinari teria feito 110 anos e o Museu, 44, no dia 14 de maio. O que deseja para a Museu nos próximos 44 anos?
Angelica: Espero que o Museu nunca interrompa sua trajetória e que possamos preservar o legado de Portinari; manter o desenvolvimento dos projetos na cidade e o fomento aos artistas locais e à economia criativa. Nosso compromisso é preservar a memória de Portinari, com um olhar atento, na qualidade de instituição de caráter público, de promover o desenvolvimento sociocultural, despertar talentos, exercitar vocações. Espero que, nos próximos 44 anos, eu seja sucedida por pessoas dispostas a lutar por esses e outros desafios e que, acima de tudo, o Museu seja motivo de orgulho para as gerações futuras.
Lanchoti: Se tivesse que escolher uma obra de Portinari, qual seria? Por quê?
Angelica: “Baile na Roça”, que encerra os propósitos do artista, fala de nossa terra e da nossa gente. Portinari a fez ainda muito jovem e, na época, foi recusada no Salão de Belas Artes. Depois, com a carreira consolidada, seu sonho se concretizou e ele pintou o povo brasileiro e sua cultura. Nessa obra, traduziu a situação dos imigrantes, a cultura do interior, a música típica, a alegria dos bailes na roça e registrou tempo, movimento, cor, romantismo e riqueza.
ADMIRAÇÃO PROFISSIONAL MÚTUA
“Candido Portinari é, sem dúvida, o maior pintor brasileiro, representante da leitura social do país nas décadas de 40 e 50. O pintor fez um longo diálogo com a arquitetura de Niemeyer e está presente nas principais discussões culturais do novo país, que nasceu com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Burle Marx, Jorge Amado e muitos outros contemporâneos. Desde muito cedo, Angelica e eu, dois apaixonados por Portinari, tivemos nossas vidas profissionais entrelaçadas pelo Museu, criando um grande laço de amizade e de respeito mútuo. Ela, diretora desta Casa, e eu, profissional de arquitetura e ex-presidente da Associação que mais tarde veio se transformar na ACAM. Ambos temos um laço familiar com Portinari, mas o que nos faz apaixonados pelo artista é o envolvimento com a Casa, com a obra e com a vida do pintor. Esta entrevista reflete o carinho de Angelica por Portinari e a importância que o Museu tem para a nossa região e para o país, como demonstração do carinho do pintor por Brodowski. O Museu passou por uma longa reforma e está aberto a todos os apaixonados pela arte e pela obra de Portinari. Se você não conhece, precisa visitá-lo; se já o conhece, volte. Como brodowskianos e “portinarianos”, garantimos: sempre serão bem-vindos.”
José Lanchoti, arquiteto e urbanista.
Texto: Critiane Araújo
Fotos: Carolina Alves