Ribeirão grisalho

Ribeirão grisalho

Até 2050, um terço da população de Ribeirão Preto será composta por pessoas com mais de 60 anos idade, índice praticamente igual ao do Japão

A reportagem da Revide tentou falar por quatro vezes com o aposentado Ildo Melani, de 79 anos. Na primeira tentativa, havia saído de casa para comprar o almoço dele e da esposa. Na segunda, foi levar a neta à escola. Na terceira, precisava ir ao banco. Somente na quarta ligação foi possível encontrar uma brecha no dia corrido do aposentado. “Meu exercício é nunca ficar parado”, brincou Ildo, quando perguntado como consegue manter o pique. “Tudo o que eu fazia com 20 anos de idade, eu faço hoje”, comenta. Segundo o policial aposentado, a rotina movimentada o ajuda a manter a qualidade de vida. “Se eu ficar um dia sem trabalhar, eu morro”, acrescenta. Ele dirige, vai ao banco, faz compras e tem tempo para brincar com as netas. No passado, além de policial, também se formou em Direito, exerceu a profissão ao lado da esposa e até já deu aula de música. 
“Tudo o que eu fazia com 20 anos de idade, eu faço hoje”, declara o aposentado Ildo Melani, de 79 anos
O exemplo de Ildo é uma realidade que se repete com outros idosos em Ribeirão Preto e em todo o País. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro em 2018 é de 76 anos. Em 2000, a expectativa de vida ao nascer era de 70 anos. Além de viverem mais, os idosos estão vivendo com mais qualidade de vida. O avanço da tecnologia, a descoberta de novos medicamentos e a popularização das academias e práticas de atividades físicas voltadas para a terceira idade auxiliam na mudança inevitável da pirâmide etária brasileira. Cada vez mais, as famílias optam por terem menos filhos. Com isso, a sociedade que era composta, majoritariamente, por jovens, dá espaço a uma sociedade mais madura. Segundo o Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), até 2050, um terço da população de Ribeirão Preto será composta por pessoas com mais de 60 anos idade, índice praticamente igual ao do Japão, atualmente.
Segundo o economista Luciano Nakabashi, se nada for feito em relação à Previdência, em breve, o governo não terá dinheiro para pagar as aposentadorias
Com isso, o envelhecimento da população altera a gama de serviços oferecidos pelo mercado. Segundo o economista da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Luciano Nakabashi, os setores farmacêuticos, de planos de saúde e prestadores de serviço para idosos, como cuidadores, já podem ser considerados clichês: é evidente que estes mercados irão crescer com o envelhecimento da população. Contudo, o avanço da tecnologia e a melhora na qualidade de vida fazem emergir novos segmentos. Novas ideias para adaptação da casa para receber os idosos com segurança, opções de cultura e lazer, pacotes de viagem, alimentação saudável, academias e cursos voltados para a terceira idade são alguns dos muitos segmentos que podem ser explorados. Há, ainda, muito espaço para crescer. Ao se observar as necessidades e mudanças de hábito, é possível encontrar um produto para um público específico. “As pessoas mais velhas tendem a dirigir menos, então há uma tendência no aumento de transportes coletivos e transportes por aplicativo. Esse já é um novo mercado”, exemplifica Luciano. 
 O personal trainer Gustavo Gironi explica que busca respeitar as restrições dos idosos durante as atividades físicas. “Tem que trazer benefícios e não dor”, declara
Oportunidades de mercado

A prática de exercícios físicos, sem dúvida, é imprescindível para uma melhor qualidade de vida. Apesar de muitos idosos seguirem o exemplo do entrevistado, o ideal, segundo especialistas, seria realizar essas atividades físicas com o acompanhamento de um profissional. Segundo o personal trainer Gustavo Gironi, nos últimos anos a procura por pessoas da terceira idade por academias cresceu muito. “Respeitamos sempre as restrições e limitações do idoso, para que a atividade traga benefícios e não algo que cause desconforto ou dor”, explica Gustavo. Dentre os exercícios mais procurados, o personal destaca as atividades aeróbicas, como caminhada, bicicleta ergométrica e os exercícios musculares, que dão mais força e contribuem para os idosos realizarem tarefas diárias. Gustavo também ressalta os benefícios que estas atividades trazem, como o bem estar físico e psicológico, aumento da imunidade, aumento do colesterol bom, diminuição da pressão arterial, redução de gordura e fortalecimento muscular.

Se a terceira idade rompe, a cada dia, as barreiras físicas, com a melhora na qualidade de vida e a prática cada vez maior de atividades físicas, a tecnologia é o novo desafio a ser vencido. Pensando nesse nicho de mercado, surgiu, em Ribeirão Preto, a Escola de Celular. Um local onde pessoas com mais de 40 anos podem aprendem a utilizar as funções e aplicativos do celular. Fundada em 2018 por Rodrigo Colucci e Marília Castelo Branco, a escola já atendeu cerca de 180 idosos e continua em expansão. No curso, os alunos, que possuem, em média, 65 anos, aprendem a operar as funções básicas do celular, instalação e funções de aplicativos e até recebem uma aula sobre “etiqueta virtual”. “O diferencial da nossa escola é que, além da tecnologia, nós humanizados o relacionamento. Acolhemos o problema daquela pessoal para que ela possa ser incluída”, destaca Rodrigo.

A Escola de Celular surgiu, tanto de uma necessidade dos idosos, quanto de uma necessidade do fundador. Há 10 anos no mercado digital, Rodrigo relembra que encontrava dificuldades em conseguir clientes para o blog pessoal. “Eu batia de porta em porta procurando clientes e percebia que eles não entendiam o meu trabalho. Não entendiam o universo digital”, conta. Já do outro lado, ele percebeu que muitos idosos se sentiam excluídos do meio digital, gerando, inclusive, problemas de autoestima. Com o distanciamento da tecnologia, fica difícil se recolocar no mercado de trabalho. “A terceira idade quer voltar para o mercado de trabalho. Só que, para voltarem, precisam compreender a ferramenta que abre portas para o mundo digital, que é o celular”, destaca Rodrigo. Comprovando a afirmação, o aposentado Ildo Melani confessa que só recentemente se aventurou no mundo digital. “Quando eu me aposentei, eu ainda usava uma máquina de escrever. Mas, agora, estou aprendendo a mexer nisso”, diz Ildo.

Texto: Paulo Apolinário.

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