Romance em um clique
Já não são tão raros assim os casos de amor que começaram com a ajuda das redes sociais. Os casais apaixonados garantem: existe romantismo na internet
Usar a web para se informar ou para saber o que amigos e familiares estão fazendo já não é nenhuma novidade. Mas a utilização da internet está em constante transformação. A tecnologia passou a fazer parte da vida das pessoas de maneira arrebatadora, expandindo as possibilidades. A febre das redes sociais é mais um exemplo da presença da web no dia a dia de cidadãos ao redor do globo. Em muitos casos, o acesso ao outro acontece estritamente por meio da internet, seja no âmbito profissional ou no pessoal. A popularização dos dispositivos móveis que permitem fácil acesso à rede mundial de computadores ajudou a consolidar a utilização do meio on-line.
E quando as redes sociais estão no centro do debate, o Brasil merece destaque: o país está em quarto lugar no ranking dos maiores usuários de ferramentas do gênero, atrás somente dos Estados Unidos, da Espanha e do Reino Unido, que ocupam lado a lado a primeira colocação, segundo informações divulgadas pela comScore, empresa de consultoria e análises especializada no assunto.
Para tornar mais fácil o encontro de pessoas com interesses afins, são várias as redes sociais disponíveis. Cada uma delas propõe atender objetivos específicos, como fazer novos amigos, compartilhar ideias, curtir publicações, fazer negócios e até se apaixonar. Facebook, Instagram, Twitter, Linkedin, Foursquare — apenas para citar algumas — estão entre as ferramentas mais usadas do momento.
O Facebook, aliás, parece ser um dos preferidos em solo nacional. Prova disso é que, considerando apenas os adeptos dessa rede, os brasileiros sobem para a segunda posição do ranking mundial. Diariamente, 47 milhões de brasileiros usam a rede, sendo que cerca de 58% conectam-se a ela tanto a partir de computadores quanto a partir de dispositivos móveis, como celulares e tablets. “A internet e, mais especificamente, as redes sociais apresentam novidades e tendências a cada minuto e isso vem mudando o hábito das pessoas. Hoje, qualquer um pode tirar uma foto do cardápio antes de comer, fazer um check-in no local onde está, compartilhar sentimentos e angústias em suas redes, etc”, explica o publicitário Cadu Evangelist, da agência Rebellion, especializada no assunto.
Antes de mais nada, é importante saber a procedência do aplicativo a ser usado e, no caso de sistemas que compartilham informações do Facebook, verificar se as normas estão corretas. “É importante checar se as funções do aplicativo não direcionam o usuário para outros links que fogem do limite público, por exemplo, e verificar as permissões de visualização”, recomenda.
O publicitário ainda comenta que a internet se tornou o divã virtual de muita gente, que chega a criar e viver um personagem fictício. “A internet é, muitas vezes, o refúgio para os mais tímidos, para quem possui algum tipo de vergonha quanto à aparência ou simplesmente para os ‘heavyusers’ de redes sociais que, por conta deste vício, acabam tendo toda a sua vida dentro do mundo digital”, alerta Cadu.
Muito estudadas, as redes sociais são descritas por diversos teóricos do pensamento mundial. Jacob Levy Moreno, o criador do Psicodrama, denominou esse fenômeno de Sociometria, que pode ser compreendida como a medida dos relacionamentos sociais. Outros pesquisadores se debruçaram sobre teorias acerca do uso da internet. Para a terapeuta Elenice Gomes, as redes sociais podem auxiliar as pessoas com dificuldades de relacionamento. “O resultado, positivo ou negativo, depende de cada usuário. É preciso entender que se a liberdade for exercida com responsabilidade e respeito, esta ferramenta sempre será positiva. Conheço casais que se conheceram pela internet e são muito felizes”, comenta.
Por outro lado, a terapeuta avalia que a exposição demasiada da vida alheia na internet e em páginas de relacionamento tem levado as pessoas ao descontrole emocional. “O mundo virtual, vivido de forma coletiva, é uma experiência nova na história da humanidade, tendo, no máximo, duas décadas. Expor as intimidades de alguém à revelia, por exemplo, tem levado a grandes tragédias. O suicídio entre jovens vem aumentando na mesma proporção em que fotos e vídeos são revelados sem consentimento por alguém que não se preocupou em avaliar as consequências disso. Ainda não existe uma jurisprudência e nem mesmo um código de ética definido para as redes sociais virtuais”, alerta.
Para ela, viver uma vida fora da realidade significa fugir de conflitos internos. “Felizmente, muitos estudos têm sido feitos a respeito do assunto e as pessoas vêm fazendo suas próprias reflexões. Há os ‘modismos’ no universo dos sites e aplicativos que passam pelo ciclo ‘curiosidade, êxtase, uso e desuso’. Mas o bom senso nos aponta que os relacionamentos reais é que são satisfatórios: nada virtual substitui o velho e bom abraço entre duas pessoas, capaz de liberar o importante hormônio do amor, a ocitocina”, garante Elenice.
As redes sociais mudaram a vida de Fernanda Marchioretto, planner digital de uma indústria multinacional e professora de Mídias On-line. “O contato com as redes foi tão intenso que tive uma crise de identidade, pedi demissão e criei um blog de contos e crônicas. Meses depois, uma empresa me convidou para monitorar os perfis do Twitter, Facebook e blogs depois de ler meus textos e acompanhar meus perfis nas redes sociais”, conta. A partir daí, Fernanda se especializou no assunto e, hoje, é defensora do contato via redes sociais. “O preconceito de conhecer alguém pela internet já caiu faz tempo. Não estamos mais conectados, mas somos conectados. E nada mais natural que encontros e paqueras comecem de forma conectada também”, afirma a especialista. Para ela, o uso das redes sociais aproxima as pessoas com mais afinidades. “Conheci meus melhores amigos pela internet. A web revela gostos e linguagens e, por isso, promove uma aproximação instantânea entre pessoas independente da distância física. Há anos conheci uma das minhas melhores amigas pelas redes e nosso contato é diário até hoje”, confessa Fernanda.
Apesar de adepta e defensora das redes sociais, reconhece que é preciso ser bastante cuidadoso ao se relacionar no ambiente on-line. É importante ficar atento a informações como endereço fixo, telefone, local de trabalho, ciclo social, entre outras, acessíveis com apenas um clique. “É fácil criar um perfil com informações falsas, mas esse risco também existe ao conhecermos alguém em uma balada, por exemplo. Estar atento aos detalhes é o que faz a diferença”, afirma. Receber uma mensagem inesperada ou uma declaração de amor é bom em qualquer lugar, inclusive na internet, especialmente quando a distância é um problema. “A era digital ajuda a diminuir essa distância, mas, para mim, o melhor da vida ainda acontece off-line”, conclui.
Romantismo virtual
Os críticos de plantão afirmam: não há romantismo nas redes sociais. Declarar o amor, postar fotos apaixonadas e compartilhar cartões eletrônicos pode ser, sim, uma demonstração de carinho. Tem ainda aqueles que preferem a declaração virtual que, de certa forma, é pública e alcança um grande número de amigos e conhecidos. Elenice comenta que, em qualquer circunstância, o objetivo de usar as redes é pessoal e depende das intenções de cada um. “Se tomarmos o significado do termo romantismo, em um sentido mais amplo, como a tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo para sua vida, ele pode estar presente no mundo virtual sim. Uma vez que o romantismo valoriza as forças criativas do indivíduo e da imaginação popular, as redes sociais podem ser um bom veículo”, avalia a terapeuta.
Com o boom das páginas de relacionamento e dos aplicativos que avaliam a vida social das pessoas, os contos de fadas tradicionais, em que o príncipe resgatava a princesa em um cavalo branco, perderam espaço para a tecnologia e com apenas um clique é possível encontrar o príncipe encantado.
Foi assim para Mayara Bellini, que há sete anos encontrou seu par perfeito nas redes sociais e está de casamento marcado para 2014. Segundo ela, o processo para oficializar a relação foi de muito respeito e, principalmente, amadurecimento. “Por se tratar de um relacionamento vindo das redes sociais, sentia muito ciúme, mas amadureci e, hoje, nossa parceria é total. Somos cúmplices um do outro e, por todo amor que construímos ao longo dos anos, resolvemos nos casar”, comenta.
No princípio, o contato ocorreu apenas por uma questão de atração física. “Vi o Murilo no Orkut e o achei muito bonito. Então resolvi adicioná-lo”, recorda Mayara. A resposta veio logo, seguida de um elogio: “Gata hein”. Depois, as conversas foram se estreitando e as afinidades, surgindo. Quatro meses se passaram até que o casal decidiu se conhecer pessoalmente. O local escolhido foi uma festa. “Eu tive o cuidado de escolher um lugar cheio de gente para o primeiro encontro. Então, fiquei surpresa e percebi que ele era mais do que eu esperava. Ficamos juntos a noite toda como namorados e assim estamos até hoje, com muito amor e confiança”, finaliza.
A empresária reforça que, por se tratar do mundo virtual, existem alguns cuidados a serem tomados. “É importante saber detalhes sobre a vida da outra pessoa, informar-se sobre o ciclo de convivência com amigos e familiares. Além disso, o encontro deve acontecer em locais movimentados e, de preferência, não ir sem um acompanhante. Esses cuidados certificam a sua segurança. Tomando as devidas precauções, não há o que temer”, garante.
Jogo on-line
Controlar um personagem e aprimorar suas habilidades para, então, formar aliança com outros jogadores virtuais é o objetivo do jogo World of Warcraft , que se passa no mundo de Azeroth. A atração possui mais de 9,6 milhões de jogadores interligados em diversos países, como Brasil, Estados Unidos, Portugal, China, entre outros. Foi nessa multidão que Viviane dos Santos Pereira, analista de relacionamento com o cliente, conheceu seu atual noivo. O casal jogava com mais oito amigos on-line de diferentes lugares. O contato logo se expandiu para conversas nos programas de bate-papo virtual. “Além desses meios, usávamos cartas, que guardo até hoje, embora seja algo antigo. Achava romântico recebê-las, e, além disso, foi a forma que encontrei de confirmar o endereço dele”, revela.
Viviane sempre recorreu às redes para trocar informações sobre jogos on-line e sobre tecnologia. Apesar de ter tido outro relacionamento nascido por meio da internet, afirma que não é fácil convencê-la sobre as boas intenções do outro lado da tela. “Nunca procurei namoros on-line. Com o meu noivo, sempre nos demos bem, gostamos das mesmas coisas e conversávamos quase todos os dias. O relacionamento apenas aconteceu”, garante.
Natural de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, Viviane relembra a história que a fez viajar para Ribeirão Preto. “Conversávamos sempre como amigos, tínhamos gostos e interesses em comum. Certo dia, ele me ligou para me pedir em namoro e, em algumas horas, recebi um buquê de rosas em casa. Depois de alguns meses trocando e-mails carinhosos, decidi que queria conhecê-lo”, conta.
Determinada, veio para a cidade de ônibus acompanhada de uma amiga e marcou o encontro para um local cheio de gente. Há seis anos junto com Guilherme Nogueira, Viviane tem a certeza de que encontrou a pessoa certa, mas recomenda se certificar de todas as informações antes do contato pessoal. “Na internet, é mais fácil convencer as pessoas e inventar histórias. Pessoas de má índole se aproveitam disso, principalmente em chats de bate-papo. Recomendo que, se alguém quiser se aventurar nesse caminho, deve ter certeza de que tudo aquilo que a pessoa diz é verdade, conhecer a família, principalmente os pais, ter o telefone e o endereço e confirmar todas as informações”, lista.
Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Carolina Alves
Diagramação: Lucas Chaibub
