Saídas para a crise
Em entrevista ao consultor de empresas Antônio Ribeiro, Angelo Guerra Netto, sócio-diretor da Exame Auditores Independentes, faz uma análise econômica do país e sugere saídas para setores da região
Em meio a um cenário econômico turbulento, com o crescimento da dívida pública e a elevação da taxa de juro, dois especialistas se encontram para discutir os problemas e apontar possíveis soluções para a crise do país. O primeiro é Antônio Ribeiro, doutorando em Controladoria e Contabilidade da FEA-USP-Ribeirão Preto e consultor de empresas. Convidado pela revista Revide, Antônio entrevista Angelo Guerra, sócio-diretor da Exame Auditores Independentes, que atua na área de reestruturação empresarial. Além do momento econômico, os especialistas discutem sobre as dificuldades pelas quais passam as empresas sucroalcooleiras e de serviços e as possíveis estratégias de sobrevivência, diante desse período conturbado. O encontro foi acompanhado pela jornalista Carla Mimessi.
Antônio: O país passa por uma turbulência econômica, com reflexos diretos nos índices de produção. Que avaliação faz do mercado, em 2015?
Angelo: A insegurança política que estamos vivendo trouxe para o mercado produtivo várias incertezas, desde a política de juros à escassez de crédito. Consequentemente, tivemos uma diminuição da produção e de investimentos, reflexo da redução do consumo que está diretamente relacionada às incertezas da população. Em 2016, esse cenário continua, principalmente, no primeiro semestre.
Antônio: Acredita que essa desaceleração pode ser mais branda em 2016, já que em 2015 tivemos uma defasagem no PIB na ordem dos 3%?
Angelo: Para abrandar a crise, precisamos de investimentos e para investir, precisamos de capital. Vivemos um momento especulativo em nossa economia. Quando temos grandes crises, como essa que assola nosso país associado à incerteza política, o capital disponível passa a ser especulativo, um recurso muito caro que restringe investimentos. Alguns setores têm sinalizado melhoras importantes, principalmente, em nossa região, o setor sucroenergético. A recuperação do preço do etanol desde outubro do ano passado é uma sinalização muito importante para a região, que concentra um grande número de unidades industriais de etanol. Em função desse fator, temos boas perspectivas se mantidas as premissas de precificação dos combustíveis para 2016. O desdobramento da crise está alicerçado na questão de termos ou não capital para investimento e da recuperação da confiança dos empresários para retomarem os investimentos. Há alguns meses, o governo liberou algumas linhas de crédito especiais para as montadoras de carros para que não houvesse demissão, mas não adianta só reter o funcionário. É uma mudança paliativa, precisamos ter, também, um planejamento para o consumo. Sem consumo, não tem negócios e consequentemente produção, emprego e crescimento.
Antônio: Passamos por um período de inflação alta e o empresariado aprendeu a lidar com ela; depois houve um período de estabilidade e ficou a impressão de que o empresariado desaprendeu a se comportar em períodos desfavoráveis, demorando a reagir nos momentos mais críticos. Como analisa essa questão?
Angelo: Nas economias mais maduras, como a economia americana, alguns economistas dizem que períodos de crise e de desgaste são cíclicos. O nosso empresariado era muito bem treinado para lidar com a inflação: nós acordávamos e vivíamos um mundo novo, a cada dia. Com a estabilidade econômica, não sei se desaprendemos ou nos acomodamos. É um cenário um pouco diferente. O que temos que manter é nossa capacidade de nos reinventar. No momento em que acalmarmos os ânimos e descobrirmos que não é o fim do mundo, seguramente, encontraremos os trilhos e cresceremos novamente.
Antônio: As empresas e os consumidores tomaram um balde de água fria com a desaceleração econômica, e correram para adequar as contas. É possível, nos bons momentos, preparar-se para não sofrer tanto com as turbulências econômicas?
Angelo: O bom planejamento está na base de qualquer tipo de negócio. É preciso revisitar o planejamento da empresa quando surge uma situação nova no mercado: oportunidades podem ser perdidas se o planejamento não for reavaliado. Podemos dizer que se pode crescer na crise e aproveitar as oportunidades. Para não ser atingido por ela, tem que haver uma relação de alavancagem relativamente baixa, pela capacidade da empresa de acessar o mercado consumidor. O que estamos vendo é um aumento das taxas de juros, desde o início de 2015. As empresas que estavam muito alavancadas não conseguiram passar tranquilamente pela crise.
Antônio: Recorrer a um consultor quando se está com problema é como correr para um médico quando a doença está em estágio terminal. A consultoria é fundamental na prevenção da crise?
Angelo: Sim, a visão independente de um especialista pode ajudar na difícil fase da tomada de decisões em momentos de crise aguda. Fazendo uma analogia com a Medicina, a recuperação judicial pode ser comparada ao tratamento de uma empresa que está na UTI. E, às vezes, mesmo não estando em estágio de UTI, uma medida mais drástica se faz necessária. Se a recuperação judicial fosse adotada de forma preventiva, os resultados seriam muito mais favoráveis.
Antônio: Fala-se muito sobre governança. O senhor acha que as empresas brasileiras estão preparadas para adotar essas medidas?
Angelo: Governança é um caminho sem volta para que nossas empresas possam acessar os mercados nacional e internacional. Elas precisam ter regras claras de gestão e de transparência nas informações, bons controles e administrações pautadas pelas melhores práticas, para que tenham acesso ao capital a um custo razoável e competitivo. Se pautar sua administração somente pelos interesses dos acionistas, a empresa não vai decolar. Precisamos da governança para participar de forma competitiva no mercado.
Antônio: Quais são os principais aspectos da governança?
Angelo: Transparência, controle, prestação de contas e uma administração independente e profissional, pautada pelas melhores práticas na atividade operacional da companhia.
Antônio: Qual é a vantagem em aderir à governança e abrir as informações para o mercado?
Angelo: Acesso a capital a um custo competitivo, menor do que conseguiria se não tivesse transparência nas informações; conhecer verdadeiramente a própria empresa — com a governança aplicada à companhia, o empresário passa a compreender e a provar sua compreensão, respaldado pelos números e por relatórios confiáveis; contar com pessoas experientes do mercado, que podem contribuir na administração da empresa.
Antônio: A atual situação econômica brasileira é um exemplo do que pode ocorrer quando a governança não é bem implantada?
Angelo: O Brasil perdeu graus de investimento e classificações, justamente porque não tem sido transparente o suficiente em suas transações. O caso da Petrobrás foi marcante e deve ser visto com exemplo: uma das empresas que era considerada de boa governança e de alta transparência sofreu um grande rombo, caracteristica daquelas pautadas pela falta de governança, que deveria ter detectado os problemas internos com antecedência. A empresa é um caso emblemático até pelo volume que representa — ela chegou a ser a segunda empresa mais valiosa do planeta, e perdeu absurdamente seu valor de mercado. Se levarmos em conta as notícias, podemos dizer que a governança na Petrobrás seguramente não funcionou. A governança não existe se não houver interesse dos acionistas e dos administradores em analisar as informações que são passadas pelos instrumentos de governança. Se eles não forem fortes o suficiente para poderem mostrar que uma peça tão importante quanto o CEO não está funcionando e precisa ser mudada, a governança serve apenas para cumprir uma formalidade.
Antônio: Como as empresas, especificamente as sucroalcooleiras e as de prestação de serviços podem se preparar para enfrentar a crise?
Angelo: A profissionalização é muito importante. É fundamental preparar os funcionários para concorrerem em um mercado mais complexo, muito mais global do que era há 20 anos, para que esses sinais de mudança de precificação de commodities sejam percebidos com segurança. A capacidade de investimento da empresa tem que estar alicerçada no mercado que ela já conquistou. Além da profissionalização, destaco a reanálise da estrutura de governança já implantada; a implantação de controles e geração de informações confiáveis nas empresas que ainda não as possuem e a busca de soluções melhores para comercializar seus produtos de forma mais rentável. Em se tratando do sucroalcooleiro, é preciso descobrir formas de acessar o mercado com preços melhores, mas, o setor sinaliza, agora, uma recuperação importante tanto no preço do açúcar, quanto no preço do álcool, para os próximos dois ou três anos.
Antônio: A Serasa Experian registra sucessivos recordes no número de requisições de recuperação judicial em 2015. Essa é a saída para as empresas?
Angelo: Se medidas corretas forem tomadas, com planejamento bem elaborado e a participação e a concordância dos credores, a recuperação judicial é uma ferramenta muito importante para reerguer empresas, mas não é a única. Ela é utilizada quando o tempo de aplicar outras medidas passou. Se as empresas tiverem a governança bem apurada, for bem assessorada, há momentos de reestruturar a operação e o endividamento, independente de uma recuperação judicial. Mas, se há um desgaste e a perda de credibilidade, a recuperação judicial acaba sendo a única ferramenta, porque dá à empresa a oportunidade de sentar à mesa com seus credores, de igual para igual, e apresentar uma solução viável. Apesar de termos essa lei há apenas 10 anos, evoluímos muito. Hoje, a seriedade e o conhecimento do Judiciário sobre essa matéria imputam responsabilidades muito maiores do que tínhamos. Antes, os empresários usavam essa lei como um paliativo, como uma evolução da concordata e, na verdade, é uma ferramenta de recuperação e de manutenção de emprego.
Como a recuperação judicial dá ao empresário a oportunidade de repensar o seu negócio e estanca por, no mínimo, 180 dias toda e qualquer cobrança do passado, permite fazer uma proposta e submetê-la aos credores. A chance de desenhar um novo modelo viável para a companhia é muito grande. Não adianta pedir a recuperação judicial para protelar. Nesse momento, é muito importante consultar as pessoas especializadas não só em recuperação judicial. Às vezes, o empresário está tão envolvido no dia a dia da empresa que, ou fica deslumbrado com uma situação que não existe, ou fica pessimista e pensa que a situação não tem saída. Seja por meio da recuperação judicial ou da reestruturação completa da companhia, mostramos aos nossos clientes que sempre existe uma saída. O detalhe é saber quão amarga ela pode ser e quão dura ela tem que ser. Não se pode utilizar a recuperação judicial para fazer de conta que está buscando a solução. Se ela for pedida, não for cumprida e o plano da empresa não for viável, será decretada a falência. A recuperação judicial exige responsabilidade e requer criatividade para buscar soluções que atendam às mais diversas necessidades das empresas em dificuldade.
Antônio: Só grandes corporações podem acessar a Recuperação Judicial?
Angelo: Não, a recuperação judicial está acessível a todas as empresas, há, inclusive, uma previsão legal para a recuperação de micro e de pequenas empresas. Para elas, há um processo definido de parcelamento e carência de prazo, com juros estabelecidos. Elas não precisam, necessariamente, ir por esse caminho, mas ele é muito menos oneroso do que uma recuperação judicial normal, que atinge 100% das corporações, mas requer um administrador judicial. O processo é mais complexo e demorado, envolve advogado, consultoria, tornando o custo do processo maior.
Antônio: A recuperação judicial não é falência, mas pode deixar marcas profundas em uma empresa. Como o senhor analisa essa questão?
Angelo: A recuperação judicial traz uma referência negativa ou uma marca, e o empresário terá que conviver com ela, mas a atitude dele como empresário é que vai determinar como essa marca será enxergada: se utilizou um recurso legal para a verdadeira recuperação da empresa ou como um paliativo para protelar a queda. As marcas profundas que ela traz podem refletir um aprendizado ou uma marca derradeira de fim. A recuperação judicial dificilmente será uma etiqueta da qual o empresário se orgulhará no futuro, mas pode ser uma plaquinha que o relembre da forma como não deve agir se quiser voltar a crescer.
Antônio: O que mata mais: a crise ou as políticas tributária e fiscal do governo?
Angelo: As políticas tributária e fiscal. Há setores que estão em crise e outros que estão saindo dela. A política fiscal e tributária que temos é uma grande barragem ao nosso desenvolvimento, estanca as nossas possibilidades de crescer e de investir.
A máquina pública é ineficaz, inchada, e não conseguimos extrair dela o que precisaríamos. Os investimentos verdadeiros em educação, saúde e segurança tendem ao nada. Se tivéssemos investimentos adequados na estrutura de saúde, que atendesse às necessidades da população, a empresa não teria que completar com planos de saúde — implicaria um custo a menos, sem a redução da qualidade de atendimento. É uma ilusão pensar que o cidadão contribui para ter direito à saúde. O governo teria que ampliar os programas sociais, mas com consciência, com uma gestão adequada, preparando o povo para futuramente não depender mais de tais programas; teria que preparar as pessoas por meio da educação para a concorrência do mercado de trabalho. Se existem programas sociais, há um aumento do consumo; se há consumo, é preciso preparar as pessoas para atenderem o mercado. A cadeia produtiva é um círculo virtuoso no qual deveríamos investir. Infelizmente, isso não acontece.
Antônio: Qual é a saída para a crise econômica brasileira?
Angelo: Precisamos resgatar a confiança dos empresários e dos investidores na nossa economia. Para isso dependemos da estabilização política. Diante da fragilidade, sobretudo do Executivo, não há segurança. O ajuste fiscal é importante, mas ele precisa ser claro, não pode ser feito em várias doses. Hoje, o empresário não tem condições de tomar uma decisão assertiva, porque daqui a pouco entra um tributo novo. Medidas e soluções mágicas não existem e enganam por um período muito curto. A mesma lógica pode ser aplicada ao ajuste fiscal. Se continuarmos tendo ajuste fiscal em doses homeopáticas, no momento em que for concluído, não servirá mais, pois os empresários tem um planejamento em que todas as medidas deveriam estar com uma cadência estabelecida. No momento em que isso muda, diminui a arrecadação e quanto mais tempo levar para isso acontecer, menor ainda ela será. Caso não haja uma reviravolta muito importante no poder público, o cenário para 2016, ainda é de retração e a perspectiva é de muito trabalho.
Um termômetro do mercado
“O grande crescimento da dívida pública e o aumento da taxa de juros pode levar o país a grandes problemas. Um profissional como o Angelo Guerra, que atua no mercado como auditor e consultor, vivenciando o dia a dia das empresas, é quase um termômetro, consegue sentir e captar as dificuldades pelas quais o setor passa e o melhor, apontar soluções, seja pela reestruturação completa da companhia ou pela recuperação judicial.” Antônio Ribeiro, consultor de empresas